Foto: Divulgação
Por Marcos Vitório
Elas aparecem nas redes sociais como promessa de uma transformação rápida. Vídeos mostram resultados em poucos meses, corpos antes e depois e discursos que associam uma injeção à solução para o excesso de peso. Mas, quando o assunto envolve crianças e adolescentes, a discussão ganha uma dimensão ainda mais delicada.
O uso das chamadas “canetas emagrecedoras” entre pessoas que ainda estão em fase de crescimento levou a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) a fazer um alerta. Para a entidade, esses medicamentos não podem ser tratados como produtos de uso estético ou como uma solução rápida para perder alguns quilos.
A preocupação cresce em meio à popularização dos medicamentos nas redes sociais e à circulação de produtos de origem duvidosa. Segundo a SBP, a banalização do uso pode expor crianças e adolescentes a riscos que vão desde náuseas, vômitos e desidratação até perda de massa muscular, prejuízos ao crescimento e possíveis transtornos alimentares.
Alerta
A médica Adriane Cardoso, integrante do Departamento de Endocrinologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, explica que o alerta surgiu justamente diante da forma como esses medicamentos passaram a ser apresentados ao público. “Esses medicamentos estão sendo muito divulgados nas mídias, nas redes sociais e até em grupos de pacientes, de adolescentes e de familiares, às vezes com promessa de perda de peso rápida e fácil, sem indicação formal. Muitas vezes, o uso é apresentado para fins estéticos ou momentâneos”, afirma.
A especialista também chama atenção para outro problema: a oferta crescente de produtos sem segurança comprovada. “Existe uma oferta cada vez maior de produtos de procedência duvidosa, manipulados de forma irregular ou não permitidos pela Anvisa”, alerta.
A própria Sociedade Brasileira de Pediatria defende que a expressão “caneta emagrecedora”, embora popular, seja substituída por uma definição mais precisa: medicamentos para o tratamento da obesidade. Para a entidade, reduzir esses produtos à ideia de emagrecimento pode reforçar a falsa impressão de que se trata apenas de uma solução rápida para modificar a aparência.
Não é para qualquer criança
Apesar do alerta, a SBP ressalta que os medicamentos têm importância no tratamento de pacientes específicos. O problema, segundo a entidade, não está necessariamente no medicamento, mas no uso sem indicação, sem acompanhamento e fora dos critérios estabelecidos. No Brasil, até agosto de 2026, três medicamentos desse grupo tinham aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para situações específicas na faixa etária pediátrica.
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A liraglutida pode ser utilizada no tratamento do diabetes tipo 2 em crianças a partir dos 10 anos. Para obesidade, a indicação é para adolescentes com 12 anos ou mais e peso superior a 60 quilos. A semaglutida é autorizada para o tratamento da obesidade em adolescentes a partir dos 12 anos, também com peso superior a 60 quilos. Já a tirzepatida, segundo a nota técnica da SBP, tem indicação pediátrica para o tratamento do diabetes tipo 2 a partir dos 10 anos, mas ainda não possui aprovação para o tratamento da obesidade em adolescentes.
Para Adriane Cardoso, esses critérios mostram que não existe uma fórmula única. “A indicação precisa ser individualizada. São medicamentos para o tratamento da obesidade ou do diabetes tipo 2 em situações específicas. Não significa que qualquer adolescente que queira emagrecer possa usar”, explica.
A médica reforça que o diagnóstico, por si só, também não significa prescrição automática. Antes de indicar o medicamento, o profissional deve avaliar o quadro clínico, o crescimento, o desenvolvimento, outras doenças associadas e as condições de acompanhamento do paciente.
Risco
Um dos principais pontos de preocupação da pediatria está justamente em uma característica que, para muitos adultos, é apresentada como benefício: a redução do apetite. Em crianças e adolescentes, comer menos sem acompanhamento adequado pode significar deixar de consumir nutrientes importantes em uma fase decisiva para o desenvolvimento do organismo.
“Na criança e no adolescente, a gente precisa ter um cuidado muito grande com relação ao crescimento e ao desenvolvimento puberal. Uma criança que está comendo menos, ou está comendo de maneira incorreta, mesmo em menor quantidade, pode desenvolver uma desnutrição escondida e deficiência de vitaminas”, explica Adriane. Segundo ela, as consequências podem ultrapassar a balança. “Isso pode prejudicar até o estirão da puberdade. Então, é preciso ter todo o cuidado”, afirma.
Efeitos
Os efeitos adversos mais comuns desses medicamentos são gastrointestinais. Entre eles estão náuseas, vômitos, diarreia, refluxo e constipação. Quando o uso ocorre sem acompanhamento médico, esses problemas podem se tornar mais graves. “A gente pode ter diarreia, desidratação, vômitos, náuseas e perda de massa muscular. Sem acompanhamento, esses eventos adversos podem ter maior gravidade”, afirma Adriane Cardoso.
Entre as complicações potencialmente graves, a especialista destaca o risco de pancreatite aguda. “É um efeito mais grave que pode acontecer com essas medicações. Por isso, o acompanhamento médico é fundamental”, diz. A nota da Sociedade Brasileira de Pediatria também cita pancreatite, hipoglicemia e problemas na vesícula entre os eventos adversos que exigem atenção médica.
Para a médica, essa lógica pode afetar diretamente a relação do adolescente com a comida e com o próprio corpo. “A adolescência é uma época de risco para a instalação de transtornos alimentares. O uso estético desses medicamentos pode distorcer ainda mais a relação do adolescente com a comida e com o seu corpo e servir como um gatilho para o desenvolvimento desses transtornos”, alerta.
A nota técnica da SBP cita riscos de transtornos como anorexia e bulimia, além de ansiedade e sofrimento relacionados à imagem corporal. Por isso, a orientação aos profissionais é investigar por que o adolescente deseja emagrecer, quanto pretende perder, quem recomendou o medicamento e quais expectativas estão associadas ao tratamento.
Um problema que começa na banalização
O alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria surge em um momento em que vídeos sobre medicamentos para emagrecimento se multiplicam nas redes sociais. O assunto deixou os consultórios e passou a fazer parte das conversas cotidianas, muitas vezes sem a informação necessária sobre riscos, contraindicações e limites. Para a entidade, essa popularização exige cautela.A SBP é clara ao afirmar que esses medicamentos não devem ser utilizados por adolescentes com peso adequado apenas para alcançar um determinado padrão de beleza, nem para compensar excessos alimentares ou sedentarismo.
A recomendação também é evitar medicamentos comprados pela internet, produtos clandestinos, manipulados irregularmente ou importados sem registro sanitário. A prescrição deve ser feita por médico, com acompanhamento regular do paciente. No fim das contas, a mensagem da pediatria é simples, mas urgente: uma criança ou adolescente não pode ser tratado como um adulto em miniatura.
O organismo ainda está crescendo. Os ossos ainda estão se desenvolvendo. A puberdade ainda está acontecendo. A relação com a comida e com o próprio corpo ainda está sendo construída.
E é justamente por isso que, antes de uma promessa de emagrecimento rápido, existe uma pergunta que precisa vir primeiro: essa criança realmente precisa desse medicamento?
Para Adriane Cardoso, a resposta jamais deve vir de um vídeo na internet, de uma tendência nas redes sociais ou do desejo de alcançar um padrão de beleza. “Esses medicamentos precisam ser usados com indicação correta e acompanhamento médico. O problema não é o medicamento em si. O grande problema é a banalização do uso”, conclui.
