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Home»Saúde»Smartwatch falha em 60% dos casos de pressão alta
Saúde

Smartwatch falha em 60% dos casos de pressão alta

PatriciaBy Patriciafevereiro 22, 2026Updated:fevereiro 22, 2026Nenhum comentário5 Mins Read
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Foto: Freepik


A possibilidade de receber no pulso um alerta sobre pressão alta pode parecer um avanço definitivo na prevenção cardiovascular. Mas um novo estudo indica que a tecnologia ainda está longe de substituir o aparelho tradicional de braço —e pode deixar escapar mais da metade dos casos de hipertensão não diagnosticados.

A análise, publicada no Journal of the American Medical Association (JAMA), avaliou o impacto populacional da nova função de notificação de hipertensão do Apple Watch, liberada em setembro de 2025 pela agência reguladora dos Estados Unidos (FDA). O recurso utiliza sensores ópticos para estimar padrões de fluxo sanguíneo e emitir alertas quando os dados sugerem pressão elevada. Ele não faz diagnóstico —apenas sinaliza risco.

Os pesquisadores estimaram que o dispositivo teria sensibilidade de cerca de 41% —ou seja, detectaria pouco mais de 4 em cada 10 pessoas que realmente têm hipertensão não diagnosticada. Em contrapartida, a especificidade foi estimada em 92%, indicando que a maioria dos alertas positivos tende a corresponder a casos reais.

Pode ajudar, mas não pode ser método isolado

Para o cirurgião cardiovascular Ricardo Katayose, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, os dados mostram que a tecnologia é promissora, mas insuficiente como estratégia única de rastreamento.

“O estudo mostra que o dispositivo pode ajudar a detectar quase metade dos pacientes que não sabem que são hipertensos. Porém, a alta porcentagem de pacientes que não foram detectados torna a metodologia insuficiente para detectar hipertensão na população em geral”, afirma.

Segundo ele, o problema central está nos falsos negativos —estimados em 59%.

“Não é aceitável. Metade das pessoas hipertensas perderiam a oportunidade de realizar controle adequado. Considero inapropriado utilizar como método isolado de triagem”, diz.

O risco da falsa segurança

A hipertensão é conhecida como “doença silenciosa” porque, na maioria das vezes, não provoca sintomas até causar complicações graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência renal.

No estudo, os pesquisadores mostraram que o significado do alerta —ou da ausência dele— varia conforme a idade.

Entre jovens com menos de 30 anos, receber um alerta eleva a probabilidade de hipertensão de 14% para 47%. Já entre pessoas com 60 anos ou mais, o alerta aumenta o risco estimado de 45% para 81%. Porém, mesmo sem notificação, o risco nos idosos ainda permanece elevado, em 34%.

Para Katayose, esse dado exige cautela.

“Em idosos, a sensibilidade cai para cerca de 34%, o que pode gerar a sensação de que está tudo bem. A orientação é manter as medidas pelos métodos tradicionais, com aparelho de manguito, e nunca suspender medicação com base apenas no smartwatch”, afirma.

O cardiologista intervencionista Valerio Fuks, membro da Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista e diretor geral do Hospital Municipal do Coração São José, em Duque de Caxias (RJ), reforça que a hipertensão no idoso tem características próprias.

“Os pacientes mais idosos frequentemente têm hipertensão sistólica isolada, por enrijecimento das artérias. Pode haver avaliação falsa pelo smartwatch. O paciente idoso deve ter acompanhamento mais rigoroso e não ficar dependente apenas dessa tecnologia”, explica.

E entre os jovens?

Se por um lado o relógio deixa escapar muitos casos, por outro pode revelar situações que passariam despercebidas, especialmente em adultos jovens.

Embora a hipertensão seja mais comum com o envelhecimento, ela também pode surgir antes dos 40 anos, inclusive por causas secundárias, como distúrbios hormonais, doenças renais ou uso de determinados medicamentos. Nessa faixa etária, um alerta no smartwatch não fecha diagnóstico, mas funciona como um sinal de que algo precisa ser investigado.

Isso porque a hipertensão não é definida por um pico isolado, e sim por médias repetidas ao longo do dia. Diante de uma notificação, a conduta adequada é confirmar os valores com métodos validados —como a Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA), exame em que o paciente permanece 24 horas com o manguito aferindo automaticamente, ou com monitorização residencial.

Especialistas ressaltam que jovens também podem ter hipertensão secundária e que um alerta pode ser a porta de entrada para um diagnóstico precoce. Nesse contexto, um eventual aumento na procura por consultas não é necessariamente negativo: pode significar mais gente sendo avaliada antes de desenvolver complicações.

Pode reduzir desigualdades?

O estudo também identificou diferenças importantes entre grupos raciais, refletindo desigualdades já conhecidas na saúde cardiovascular.

Na prática, a incorporação de wearables ao rastreamento pode ter dois efeitos opostos: ampliar o acesso ao diagnóstico ou reforçar desigualdades, dependendo de quem consegue adquirir o dispositivo.

Cardiologistas avaliam que, se houver redução de custo e ampliação de acesso ao longo do tempo —como ocorreu com smartphones—, a tecnologia tende a contribuir para maior detecção de casos. Em países continentais como o Brasil, onde há regiões com acesso limitado a serviços médicos, qualquer ferramenta que estimule a busca por avaliação formal pode ter impacto.

Ainda assim, o alcance depende de políticas públicas e de acesso real à tecnologia.

O que fazer ao receber um alerta?

O consenso é que o alerta deve ser levado a sério, mas não interpretado como diagnóstico definitivo.

A orientação é iniciar investigação com medição adequada no consultório, repetir aferições em casa com aparelho validado e, se necessário, solicitar exames complementares, como MAPA. Dependendo do perfil do paciente, podem ser indicados exames laboratoriais e avaliação de causas secundárias.

Por outro lado, a ausência de alerta não deve ser interpretada como sinal de que está tudo bem —especialmente em idosos ou pessoas com fatores de risco.

Diretrizes podem mudar?

Atualmente, as recomendações médicas exigem confirmação com aparelhos de manguito validados. A tecnologia vestível ainda não está incorporada às diretrizes como método diagnóstico.

A tendência, porém, é de evolução. Com aperfeiçoamento dos sensores e novos estudos de validação, é possível que esse tipo de ferramenta venha a ser contemplado no futuro como estratégia complementar de rastreamento.

Até lá, o smartwatch pode funcionar como aliado, desde que não substitua o básico: medir a pressão corretamente e procurar avaliação médica.

Fonte: G1

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