Ex-ministro dos governos Lula e Dilma, e agora membro da equipe de transição, diz que Bolsonaro tentou ‘dar um novo golpe’ ao indicar ex-presidente do BC para o posto. Eleição está marcada para o próximo dia 20. Mantega confirma que pediu adiamento de eleição da presidência do BID
O ex-ministro Guido Mantega confirmou nesta sexta-feira (11) em entrevista à GloboNews que entrou em contato com autoridades econômicas de países das Américas para pedir o adiamento da eleição do novo presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Segundo Mantega – que foi ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff –, a intenção foi contestar a indicação, pelo governo Jair Bolsonaro, do economista e ex-presidente do Banco Central Ilan Goldfajn para a presidência da instituição.
“Nós sabemos que o BID vem de uma crise forte justamente porque o seu presidente foi nomeado pelo [ex] presidente [Donald] Trump e não tinha a representatividade adequada entre os países membros do BID, que são da América Latina e da América Central. Por sinal, o presidente Bolsonaro apoiou esse presidente [Mauricio] Carone, que está sendo mandado embora de, lá porque cometeu várias irregularidades e não representava bem a América Latina, que é o principal participante do BID”, disse Mantega.
Mantega foi anunciado nesta quinta (10) como um dos membros da equipe de transição de governo na área de planejamento, orçamento e gestão. A presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), afirmou em entrevista no fim da manhã desta sexta que acharia “de bom tom” o adiamento da eleição.
O ex-ministro afirmou que iniciou articulações para buscar um candidato de “união” entre os países latino-americanos.
“Recebi alguns telefonemas de antigos colegas, ministros, pessoas da área econômica da América Latina se queixando que não estavam satisfeitos com o encaminhamento dessa eleição para a presidência. Então, resolvi entrar em contato, mandei, sim, um email para a Janet Yellen, secretária do Tesouro americano. E andei conversando com vários ministros da Economia de vários países latino-americanos, no sentido de buscar um candidato de união para esses países”, prosseguiu.
Segundo Mantega, o governo Jair Bolsonaro “tentou dar mais um golpe” ao enviar a candidatura de Ilan Goldfajn ao BID às vésperas da eleição presidencial. Com isso, mesmo derrotado nas urnas, Bolsonaro teria a chance de emplacar um nome de seu interesse na instituição financeira.
“Não estou dizendo que [Ilan] seja um mau candidato, mas o Bolsonaro tentou dar mais um golpe, criar um fato consumado e fazer um presidente do BID de forma equivocada. Não foram negociar com a Argentina, o Peru, a Colômbia, o Uruguai, eles lançaram um candidato simplesmente”, afirmou o ex-ministro.
A eleição no BID está marcada para 20 de novembro. O presidente é eleito por um período de cinco anos, podendo ser reeleito apenas uma vez. O BID é uma das principais fontes de financiamento de longo prazo para o desenvolvimento econômico, social e institucional de países da América Latina e do Caribe.
O presidente anterior do BID, o norte-americano Mauricio Claver-Carone, não concluiu o mandato e foi demitido após um escândalo sexual, acusado de favorecer uma funcionária com quem se relacionava. Veja detalhes no vídeo abaixo:
Escândalo sexual no BID: Presidente é demitido, suspeito de favorecer funcionária
Ilan não tem apoio, diz Mantega
Questionado pela GloboNews, Mantega negou a hipótese de o governo eleito apoiar o nome de Ilan Goldfajn para o BID em uma tentativa de garantir uma presidência brasileira inédita no banco. Segundo o ex-ministro, Ilan “não tem o apoio de ninguém”.
“Ele não tem apoio de ninguém. Essa é a questão. Você lançar um candidato, sem você negociar com os outros países, esse candidato vai falar sozinho porque a essa altura já foram lançados mais cinco candidatos. Então você veja: se houvesse uma unanimidade em relação a ele, os outros países não lançariam”, afirmou.
O ex-ministro disse que conversou com o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sobre o assunto – e que, de fato, seria importante ter um brasileiro na presidência do BID. Mantega discordou, no entanto, de que a melhor forma de atingir esse objetivo seria apoiar a candidatura já colocada.
“Se houvesse uma prorrogação, aí, você poderia conversar com os outros e poderia ser um candidato brasileiro, ou poderia ser um argentino, poderia ser um colombiano. O importante é como você nomeia esse candidato, os compromissos que ele vai assumir, a composição da diretoria, porque tão importante quanto presidente são os vice-presidentes. Então, você veja, o Bolsonaro não conseguiu um funcionário, um vice-presidente no BID. Ele apoiou o Trump e colocaram esse americano lá, e não conseguiu eleger um candidato. Então, você veja, não vamos repetir esse comportamento equivocado”, disse.
Orçamento 2023 é uma ‘catástrofe’, diz
Na entrevista à GloboNews, Mantega também criticou a política econômica do governo Bolsonaro e disse que o Orçamento de 2023 – elaborado pela equipe de Guedes, mas a ser executado pelo governo Lula – é uma “catástrofe”.
Segundo o economista, o governo atual só conseguirá fazer superávit fiscal (ou seja, arrecadar mais do que gastar) em 2023 porque cortou gastos essenciais na área social.
“O governo Bolsonaro deixou um orçamento para o próximo ano que é uma catástrofe, é impossível governar com o orçamento que ele deixou. Ele deixou falta de medicamentos na Farmácia Popular, falta de merenda escolar, falta de investimento. O investimento é o que move a economia, é o dinamizador, sobretudo em infraestrutura”, disse.
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Guido Mantega pede adiamento de eleição de presidente do BID e contesta indicação de Ilan Goldfajn por Bolsonaro
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