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Home»Mundo»De Bolívar e Chávez ao ‘Super Bigode’: o culto aos líderes na Venezuela
Mundo

De Bolívar e Chávez ao ‘Super Bigode’: o culto aos líderes na Venezuela

uesleiiclone8By uesleiiclone8março 4, 2023Nenhum comentário5 Mins Read
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Dez anos depois da morte de presidente Hugo Chávez, seu sucessor continua usando estratégia de propaganda e culto à personalidade para inflar sua popularidade. pessoas passam por um mural que retrata o personagem ‘Super Bigode’, inspirado no presidente venezuelano Nicolás Maduro, em Caracas, em 25 de fevereiro de 2023.
MIGUEL ZAMBRANO / AFP
Um clássico da salsa com o título sugestivo de “Indestructible!” encerra os episódios do desenho animado “Super Bigode e sua mão de aço”, em homenagem a Nicolás Maduro. Assim como Clark Kent, o presidente da Venezuela se transforma em um super-herói para enfrentar os inimigos do país.
Nada é por acaso. As iniciais “SB” estampam o uniforme do Super Bigode, que também podem remeter às do libertador Simón Bolívar. De roupa vermelha, capa e calção azul, assim como o Super Homem, o herói usa um capacete de operário com a bandeira nacional, enquanto uma de suas mãos e o antebraço são feitos de aço.
Dez anos depois da morte do carismático presidente populista Hugo Chávez (1999-2013), em 5 de março de 2013, Maduro, ungido por seu antecessor, segue a estratégia de propaganda e culto à personalidade para inflar sua popularidade.
O Super Bigode de fato foi encarnado pela própria Presidência da Venezuela em 2021, segundo uma fonte próxima ao processo criativo. A ideia era transformar o presidente em um herói que luta “na guerra contra o imperialismo” e os problemas do país.
O vilão da história é um louro mascarado na Casa Branca. O Super Bigode luta contra uma toupeira mecânica que deixa o país sem energia elétrica ou contra um monstro que impede a chegada de vacinas contra a covid-19. Integram o elenco de inimigos um Frankenstein criado pela CIA e extraterrestres infiltrados, todos com a cumplicidade de rostos conhecidos da oposição, caricaturizados com escárnio.
O personagem estampa bonés, camisetas e murais na praça de Caracas, em Valencia e outras cidades. É vendido como boneco pelo equivalente a R$ 78, quase três vezes o valor do salário mínimo. E, durante o carnaval, adultos e crianças vestiram fantasias do personagem.
“Isto não é um culto à personalidade, é amor à pátria”, disse Balbina Perez, de 65 anos, vestindo uma camiseta do Super Bigode. “É um líder, guerreando conosco e nós o apoiamos.”
‘Não é improvisado’
O próprio Maduro se refere a si próprio como Super Bigode e à sua esposa, Cilia Flores, como Super Cilita, supostamente em tom de brincadeira, mas o historiador Elías Pino Iturrieta, professor universitário e especialista em culto à personalidade, avalia que isto não é improviso.
“Deve ser muito bem pensado e respaldado”, explicou à AFP.
Autor de “El Divino Bolívar”, Pino sustenta que o personagem já conta com o aval do partido do governo e dos militares, principais sustentações de Maduro. Uma réplica inflável esteve presente no desfile das forças armadas por ocasião do Dia da Independência, em 5 de julho, do qual o presidente não participou.
“Chávez nunca teria se apresentado como Super Bigode como se fosse o Chapolin Colorado. Estes elementos não estão vinculados a Chávez”, explicou o analista político Luis Vicente León.
Brinquedos de super-heróis conhecidos como “Super Bigode” e “Cilita”, inspirados no presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores, respectivamente, são retratados em uma casa no bairro de Catia, em Caracas, em 26 de dezembro de 2022.
PEDRO MATTEY / AFP
Pino considera que se trata de “buscar um ímã, algo que chame a atenção, que distraia, que diga que não se está vivendo no inferno”.
“É um número de circo, genial como marketing, mas lamentável como desprezo ao povo”, disse.
Embora o país tenha dado sinais de recuperação em 2022, a Venezuela mergulhou nove anos antes em uma profunda crise econômica, que provocou uma contração de 80% do PIB e uma hiperinflação que diluiu o poder aquisitivo e levou 7 dos 30 milhões de habitantes do país a imigrarem em busca de melhores condições de vida.
O governo costuma culpar os Estados Unidos pela situação.
‘O lugar central’
A política venezuelana é “totalmente personalista”, opina Daniel Varnagy, doutor em Ciência Política.
“O venezuelano precisa de um nome transformado em um símbolo”, afirmou.
E o principal símbolo, quase religioso, é Simón Bolívar. O culto à personalidade na Venezuela remonta ao nascimento da República, com uma apologia excessiva ao Libertador.
Presidentes como José Antonio Páez (1830-35, 1860-63), Antonio Guzmán Blanco (1870-77, 1870-84), Eleazar López Contreras (1935-1941) e Marcos Pérez Jiménez (1952-58) usaram a figura de Bolívar com fins políticos.
Um homem empurra um carrinho de cachorro-quente em frente a um mural que retrata o falecido presidente da Venezuela Hugo Chávez (centro) ao lado do atual presidente Nicolas Maduro (direita) em Caracas, em 2 de março de 2023.
MIGUEL ZAMBRANO / AFP
Chávez, inclusive, adicionou o termo “bolivariana” à denominação da República venezuelana, integrando-o a tudo o que traz o nome do libertador: praças centrais, aeroporto, escolas e, mais recentemente, um novo estádio de beisebol com capacidade para 40 mil espectadores. “Como se Bolívar jogasse beisebol”, afirmou Pino.
Após a sua morte, em 5 de março de 2013, Chávez se tornou uma referência “praticamente mágica e religiosa”, afirma Varnagy. Mas com o passar do tempo, “está começando a deslocar sua magnitude e importância”.
Não é que Chávez vá desaparecer, “não pode”, disse Pino.
“Mas o lugar central é ocupado por Maduro. Cada vez menos Chávez e mais Maduro. Mais Super Bigode.”

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