O primeiro cigarro pode parecer inofensivo, mas é aí que reside o perigo: alguém oferece, o curioso aceita uma tragada e dali se abre a porta para uma das dependências mais difíceis de abandonar. Hoje, Dia Nacional de Combate ao Fumo, as entidades de saúde no Brasil reforçam que cerca de 8 milhões morrem todos os anos por complicações do hábito de fumar, o equivalente a uma morte a cada oito segundos. No país, a média é alarmante: 443 óbitos diários. O câncer de pulmão, causado em grande parte pelo tabagismo, consome R$ 9 bilhões dos cofres públicos anualmente.
Especialistas alertam que, pela primeira vez desde 2007, o Brasil registrou aumento no número de fumantes. O pneumologista Guilhardo Fontes Ribeiro, diretor da Associação Bahiana de Medicina, destacou que a incidência de tabagismo passou de 9,3% para 11,6% no país, inclusive na Bahia. Ele atribui o crescimento ao preço relativamente baixo do cigarro tradicional e ao surgimento do cigarro eletrônico, que cria dependência rápida e afeta principalmente adolescentes. “A facilidade de acesso a esses produtos, vendidos clandestinamente em bancas e online, e reforçou a necessidade de campanhas educativas e fiscalização mais eficaz”, disse.
Na Bahia, o estado registra o índice pequeno de fumantes do país, com 9,7% da população adulta declarando fumar regularmente, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/2019). Em Salvador, a trajetória de queda é ainda mais expressiva: em 2006, 11,2% dos soteropolitanos fumavam; em 2023, o número caiu para 4,5%, segundo a Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel). Isso representa uma redução de mais de 60% em 17 anos, resultado de políticas locais como a Lei Antifumo de 2009, que proibiu o consumo em ambientes coletivos. Nos primeiros oito anos de vigência da lei, a Secretaria Municipal da Saúde contabilizou mais de 143 mil pessoas que abandonaram o cigarro em Salvador.
Cigarro eletrônico
Se, por um lado, o Brasil reduziu drasticamente o número de fumantes tradicionais, cresce a preocupação com cigarros eletrônicos e dispositivos de tabaco aquecido. Entre jovens de 18 a 24 anos, o consumo desses produtos já supera o do cigarro convencional.
Levantamento do INCA mostra que 65% dos usuários de eletrônicos nunca haviam fumado antes — uma nova porta de entrada para a dependência de nicotina. A OMS alerta que esses dispositivos não são inofensivos: além da nicotina em doses elevadas, contêm substâncias tóxicas que podem provocar inflamações pulmonares, doenças cardiovasculares e até câncer.
O pneumologista Dr. Thierre Teixeira afirma que fumar VAPE ou cigarro eletrônico equivale a “atirar no próprio pulmão”, ressaltando a gravidade dos danos respiratórios. A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) reforça que o uso de cigarros eletrônicos pode causar doenças respiratórias graves, como asma e bronquite crônica, além de risco de dependência à nicotina, substância presente nos líquidos dos vapes.
Estudos recentes indicam alterações significativas na composição da saliva de jovens usuários de vapes, aumentando o risco de doenças bucais, segundo pesquisadores da Unesp. O pneumologista Paulo Corrêa, da Universidade Federal de Ouro Preto e coordenador da Comissão Científica de Tabagismo da SBPT, alerta que o termo “vapor” é enganoso: o aquecimento do líquido produz aerossol com substâncias tóxicas, como formaldeído e acroleína, que prejudicam o sistema respiratório.