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Home»Economia»Arminio Fraga diz que se governo Lula não tiver sucesso a ‘democracia estará ameaçada outra vez’
Economia

Arminio Fraga diz que se governo Lula não tiver sucesso a ‘democracia estará ameaçada outra vez’

uesleiiclone8By uesleiiclone8novembro 18, 2022Nenhum comentário9 Mins Read
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Em entrevista ao Estúdio i, da GloboNews, o ex-presidente do Banco Central comentou a carta de economistas ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva pedindo responsabilidade fiscal no novo governo. O ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga disse nesta sexta-feira (18) que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa ter sucesso para que a democracia não seja “ameaçada outra vez”.
O economista concedeu entrevista ao vivo ao Estúdio i, da GloboNews, e comentou a carta enviada por Edmar Bacha, Pedro Malan e por ele ao presidente eleito, pedindo responsabilidade fiscal ao planejar as finanças do país. (leia a carta abaixo)
“Dá a impressão de que temos uma eleição daqui a seis meses. A eleição é daqui a quatro anos, isso é muito complicado. (…) Nossa preocupação ali [ao declarar o voto] era com a democracia. (…) E se essa administração não tiver sucesso, a democracia vai ficar ameaçada outra vez”, diz Fraga.
“Tem muita coisa em jogo! O momento exige sangue frio e bom-senso. No momento, isso sumiu”, afirma
Arminio Fraga diz que se governo Lula não tiver sucesso a democracia estará ameaçada
O economista faz menção às negociações da PEC da Transição, que prevê quase R$ 200 bilhões fora do teto de gastos para financiar a ampliação do Auxílio Brasil para R$ 600 e outras promessas de governo.
Fraga, Malan e Bacha, conhecidos pelo trabalho na formatação do Plano Real, dizem que a amplitude de gasto e a perspectiva de endividamento severo do país trazem consequências aos mais pobres pela expectativa de subida de juros e inflação com a economia desorganizada.
“Eu estou perdendo o sono com isso. Como economista, estou vendo as coisas muito mal-paradas. Se isso acontecer vai ser um prato cheio para propostas salvacionistas, populistas e antidemocráticas também”, diz o economista.
“Começa a se questionar tudo, o clima entre os poderes vai muito além do que seriam os pesos e contrapesos. Acho que estamos passando longe do ponto que seria desejável. (…) Essa largada, antes da posse, aponta nessa direção, o que me assusta”, prossegue.
“As coisas têm que dar certo e a democracia precisa se fortalecer. É um cenário concreto”, afirma.
Armínio Fraga diz que o Brasil está entrando em círculo vicioso de endividamento
Responsabilidade fiscal
Arminio Fraga voltou a ressaltar pontos presentes na carta dos economistas. A principal delas é a necessidade de que o governo se dedique a criar oportunidades e reduzir as desigualdades sociais, mas que criar essas condições passa por manter a sustentabilidade das contas do país.
“O Brasil precisa reduzir a desigualdade, criar oportunidade. Nada melhor que investir em educação, saúde e segurança, mas dentro de um contexto organizado para não ter ‘perda de energia’, gastar onde não deve. Tem que pensar mais estrategicamente”, diz Arminio.
O economista diz que “tinha a esperança” de a condução econômica do futuro governo Lula fosse “mais parecido com o Lula 1”. O primeiro mandato do petista é apontado por economistas liberais como adequado do ponto de vista de gastos públicos, em contraste com o segundo mandato.
“Não mudaria meu voto, mas, como vocês me dão a chance de estar aqui, penso que é meu dever aproveitar a oportunidade de explicitar minhas preocupações, que creio que são bem fundamentadas, para evitar um enorme problema”, afirma o economista.
“Até agora, o que vemos é um sentimento forte que [Lula] tem, uma missão de vida — pura e bonita —, mas, por enquanto, carente de uma estratégia que entregue resultados”, diz.
Economista diz que situação fiscal do Brasil não é sustentável
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Carta a Lula
O trio de economistas publicou na quinta-feira (17) uma carta aberta a Lula, em que criticam as declarações recentes do presidente eleito sobre responsabilidade fiscal e suas críticas à atuação do mercado financeiro. O texto foi publicado pelo jornal “Folha de S. Paulo”.
Todos declararam voto em Lula nas eleições e dizem que compartilha das “preocupações sociais e civilizatórias” do petista. Mas os economistas ressaltam que as maneiras para cobrir o colchão social do país devem ser observadas para não criarem “problemas maiores” ao povo brasileiro.
Arminio disse à GloboNews que a questão é a tentativa reiterada do país de combater as agruras por meio da expansão de gastos. Segundo ele, são três décadas de crescimento de gasto público, enquanto o centro do problema está na priorização.
“É bom que nossos governantes lembrem que o mercado é uma espécie de espelho. (…) ele tem um pouco isso, é mais racional do que parece. No dia a dia, é uma bagunça. Mas quando se olha com um pouco de horizonte, é por aí que tem que ir”, diz.
“Chega um ponto que isso pressiona a taxa de juros, pressiona inflação. Já conhecemos esse filme e o resultado é trágico. Quem sai sofrendo são os pobres”, afirma o economista.
Armínio Fraga fala sobre carta a Lula: solução para tudo não pode ser aumento de gastos
Veja a íntegra da carta
Caro presidente eleito Lula,
Assistimos a sua fala nesta quinta (17) cedo na COP27, no Egito. Acredite que compartilhamos de suas preocupações sociais e civilizatórias, a sua razão de viver. Não dá para conviver com tanta pobreza, desigualdade e fome aqui no Brasil.
O desafio é tomar providências que não criem problemas maiores do que os que queremos resolver.
A alta do dólar e a queda da Bolsa não são produto da ação de um grupo de especuladores mal-intencionados. A responsabilidade fiscal não é um obstáculo ao nobre anseio de responsabilidade social, para já ou o quanto antes.
O teto de gastos não tira dinheiro da educação, da saúde, da cultura, para pagar juros a banqueiros gananciosos. Não é uma conspiração para desmontar a área social.
Vejamos por quê.
Uma economia depende de crédito para funcionar. O maior tomador de crédito na maioria dos países é o governo. No Brasil o governo paga taxas de juros altíssimas. Por quê? Porque não é percebido como um bom devedor. Seja pela via de um eventual calote direto, seja através da inflação, como ocorreu recentemente.
O mesmo receio que afeta as taxas de juros afeta também o dólar. Imagino que seja motivo de grande frustração ver isso tudo. Será que o seu histórico de disciplina fiscal basta? A verdade é que os discursos e nomeações recentes e a PEC (proposta de emenda à Constituição) ora em discussão sugerem que não basta. Desculpe-nos a franqueza. Como o senhor sabe, apoiamos a sua eleição e torcemos por um Brasil melhor e mais justo.
É preciso que se entenda que os juros, o dólar e a Bolsa são o produto das ações de todos na economia, dentro e fora do Brasil, sobretudo do próprio governo. Muita gente séria e trabalhadora, presidente.
É preciso que não nos esqueçamos que dólar alto significa certo arrocho salarial, causado pela inflação que vem a reboque. Sabemos disso há décadas. Os sindicatos sabem.
E também não custa lembrar que a Bolsa é hoje uma fonte relevante de capital para investimento real, canal esse que anda entupido.
São todos sintomas da perda de confiança na moeda nacional, cuja manifestação mais extrema é a escalada da inflação. Quando o governo perde o seu crédito, a economia se arrebenta. Quando isso acontece, quem perde mais? Os pobres!
O setor financeiro recebe juros, sim, mas presta serviços e repassa boa parte dos juros para o resto da economia, que lá deposita seus recursos.
O teto, hoje a caminho de passar de furado a buraco aberto, foi uma tentativa de forçar uma organização de prioridades. Por que isso? Porque não dá para fazer tudo ao mesmo tempo sem pressionar os preços e os juros. O mundo aí fora está repleto de exemplos disso.
Então por que falta dinheiro para áreas de crucial impacto social? Porque, implícita ou explicitamente, não se dá prioridade a elas. Essa é a realidade, que precisa ser encarada com transparência e coragem.
O crédito público no Brasil está evaporando. Hora de tomar providências, sob pena de o povo outra vez tomar na cabeça.
Respeitosamente,
Arminio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan
Discurso na COP 27
‘A gente tem que começar a pensar em responsabilidade social’, diz Lula
Além da crítica ao mercado, o presidente eleito afirmou nesta quinta-feira que não adianta falar em responsabilidade fiscal sem antes pensar na responsabilidade social.
A declaração de Lula acontece em meio à articulação do governo eleito com o Congresso Nacional para aprovar uma proposta que, entre outros pontos, autoriza as despesas do Auxílio Brasil a ficarem fora do teto de gastos. A equipe de transição argumenta que a medida é necessária para manter o benefício em R$ 600 mensais e conceder mais R$ 150 por criança de até 6 anos.
“Eu fui fazer um discurso para os deputados e eu fazia o discurso que eu dizia na campanha, sabe? Que não adianta falar em responsabilidade fiscal, a gente tem que começar a pensar em responsabilidade social”, disse o presidente eleito nesta quinta.
Lula se referiu a um discurso feito a políticos aliados em Brasília, no último dia 10, em que questionou: “Por que as pessoas são levadas a sofrerem por conta de garantir a tal da estabilidade fiscal nesse país?”.
Essa declaração gerou reação negativa entre analistas do mercado financeiro. Questionado sobre a repercussão, Lula declarou que “o mercado fica nervoso à toa”.
>>> Veja abaixo a íntegra do discurso de Lula desta quinta-feira:
Na COP 27, Lula defende governança global para cumprimento das decisões e compromissos relacionados ao clima
Governo não será ‘gastador’
Na quarta-feira (16), o vice-presidente eleito Geraldo Alckmin afirmou que o governo Lula não será “gastador”, mas que é preciso garantir a rede de proteção social das famílias mais pobres.
Durante toda a campanha deste ano, Lula questionou por que o governo adota meta fiscal e não cria, por exemplo, meta de crescimento econômico nem meta de desenvolvimento social.
O presidente eleito tem dito que a prioridade do futuro governo será combater a fome no país — no Brasil, mais de 30 milhões de pessoas não têm o que comer.
“Quando você coloca uma coisa chamada teto de gastos, tudo que acontece é você tirar dinheiro da saúde, tirar dinheiro da educação, tirar dinheiro da ciência e tecnologia, tirar dinheiro da cultura”, disse o presidente nesta quinta.
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