Agência Gov | Via Serpro
O Crédito do Trabalhador movimentou R$ 120 bilhões em menos de um ano, com 21,6 milhões de contratos ativos e 9,5 milhões de pessoas beneficiadas. Com potencial de alcançar 47 milhões de trabalhadores brasileiros, os números apresentados no Agile Trends Gov, em Brasília, evidenciam a escala de uma operação baseada na integração de dados e sistemas do Estado.
Integração entre instituições viabiliza política em escala nacional
Durante painel no evento, a diretora de Negócios Econômico-Fazendários do Serpro, Ariadne Fonseca, destacou que o Crédito do Trabalhador é um exemplo concreto de como políticas públicas digitais dependem menos de soluções isoladas e mais da capacidade de coordenação entre diferentes instituições.
“A parte fácil é a tecnologia. O difícil é o arranjo institucional entre ministérios, órgãos e empresas públicas. Estamos falando de conectar sistemas que evoluíram de forma independente, com arquiteturas distintas, regras de negócio próprias e níveis variados de maturidade tecnológica, garantindo ao mesmo tempo governança, segurança, desempenho e continuidade do serviço”, afirmou.
Segundo ela, o papel do Serpro esteve diretamente ligado à sua trajetória como operador de infraestruturas críticas do Estado. “O Serpro vem, ao longo de mais de seis décadas, consolidando uma atuação como agente estruturante do governo digital. Isso significa não apenas desenvolver sistemas, mas garantir que operem de forma integrada, com alta disponibilidade e capacidade de escalar para milhões de usuários simultaneamente”, explicou.
A executiva ressaltou que essa experiência foi determinante para viabilizar a política em tempo recorde. “Quando lidamos com arrecadação federal, com sistemas do Tesouro, com plataformas como o eSocial e, mais recentemente, com a própria Reforma Tributária do Consumo, estamos falando de volumes massivos e de processos que não podem falhar. Só nesse novo ambiente, são centenas de milhões de registros processados diariamente. Essa vivência nos permite estruturar soluções que suportem políticas públicas dessa magnitude”, pontuou.
Tecnologia invisível para o cidadão
Um dos principais desafios do projeto foi transformar uma arquitetura altamente complexa em uma experiência simples e acessível para o usuário final: o cidadão. “Nosso objetivo é que toda essa complexidade seja invisível. O trabalhador não precisa entender como funcionam sistemas como o eSocial, o FGTS Digital ou os sistemas da Receita. Ele precisa acessar o serviço, comparar ofertas e contratar o crédito com segurança e facilidade”, disse.
Ela acrescentou que essa integração envolve múltiplas camadas de sistemas e dados. “Estamos orquestrando plataformas como eSocial, FGTS Digital, Carteira de Trabalho Digital, DCTFWeb, entre outras, além de sistemas da Dataprev e da Caixa. Tudo isso precisa funcionar de forma sincronizada, com consistência das informações e com tempo de resposta adequado para o cidadão”, detalhou.
Para a diretora, essa capacidade é um dos pilares da transformação digital no Estado brasileiro. “Quando conseguimos fazer essa integração de forma segura e transparente, o cidadão passa a transitar entre serviços públicos de maneira natural. Isso é o que caracteriza um país que está, de fato, avançando na digitalização”, completou.
Desafio de operar em um país com 4 milhões de empresas
O diretor de Tecnologia da Informação do Ministério do Trabalho e Emprego, Heber Maia, ressaltou que o grande diferencial do Crédito do Trabalhador esteve na sua abrangência e na diversidade do público atendido. “Diferentemente de outros modelos de consignado, aqui não estamos lidando com uma única folha de pagamento centralizada. Estamos falando de cerca de 4 milhões de CNPJs, cada um com sua própria estrutura, sistemas e dinâmica de processamento”, afirmou.
Segundo ele, esse cenário ampliou significativamente a complexidade da operação. “O desafio é garantir que o desconto aconteça corretamente na origem e que o recurso seja repassado ao credor com segurança e previsibilidade. Isso exige uma infraestrutura robusta e altamente integrada”, explicou.
Heber também destacou o impacto social da política. “Estamos falando de trabalhadores domésticos, rurais, empregados de pequenas empresas, pessoas que historicamente tiveram mais dificuldade de acesso ao crédito. Essa política amplia oportunidades e melhora a qualidade de vida dessas pessoas”, avaliou.
Uso de dados estruturados amplia acesso e permite queda nos juros
O presidente da Dataprev, Rodrigo Assumpção, destacou que a construção de uma base de dados estruturada foi fundamental para dar escala e sustentabilidade à política. “O eSocial é a espinha dorsal desse processo. Ele permite reunir informações sobre vínculos, remuneração e histórico do trabalhador, formando uma base consistente que pode ser utilizada na análise de risco pelas instituições financeiras”, afirmou.
Ele explicou que, a partir desses dados, foi possível criar novas condições para o mercado de crédito. “Os bancos passaram a ter mais elementos para precificar o risco, entender a rotatividade do trabalhador, as características dos setores econômicos e, com isso, oferecer crédito com taxas mais adequadas à realidade de cada perfil”, acrescentou.
Segundo Assumpção, o ganho de escala foi decisivo para ampliar o acesso. “Antes, o consignado no setor privado estava restrito a grandes empresas. Agora, conseguimos alcançar trabalhadores de pequenas e médias empresas, ampliando o alcance da política”, afirmou.
Cooperação entre instituições sustenta operação em larga escala
A diretora de Fundos de Governo da Caixa, Danielle dos Reis, destacou que a operação do Crédito do Trabalhador exigiu integração com uma estrutura já complexa e de grande escala. “A Caixa já opera milhões de transações relacionadas ao FGTS, com dezenas de sistemas e uma base ampla de trabalhadores. Integrar essa operação a uma nova política exigiu garantir compatibilidade entre sistemas, segurança dos dados e capacidade de processamento”, afirmou.
Ela explicou que a instituição atua como agregadora dos fluxos financeiros. “Recebemos os valores, gerimos esses recursos e realizamos o repasse para mais de uma centena de instituições financeiras. Esse fluxo precisa ser contínuo e confiável. Se falha, o crédito não chega ao trabalhador”, disse.
Para Danielle, o principal diferencial do projeto foi a atuação conjunta entre as instituições. “Esse não é um projeto de uma única entidade. Ele só foi possível porque Serpro, Dataprev e Caixa atuaram de forma coordenada, compartilhando conhecimento, infraestrutura e propósito”, observou.
Iniciativa aponta novo modelo de políticas públicas digitais
Ariadne destacou que o Crédito do Trabalhador também representou uma mudança na forma como o Estado utiliza seus dados e suas plataformas. “Estamos avançando para um modelo em que os dados públicos, devidamente protegidos e governados, podem ser utilizados para estruturar serviços que geram valor para a sociedade e para o mercado, sem abrir mão da soberania, da segurança e do respeito à LGPD”, afirmou.
Ela ressaltou que esse movimento também contribui para a sustentabilidade das próprias soluções. “À medida que conseguimos estruturar serviços a partir desses dados, também criamos condições de reinvestir em novas soluções, ampliar capacidades e acelerar a transformação digital do Estado”, acrescentou.
Orquestração institucional como principal aprendizado
Ao fim do painel, a Diretora do Serpro reforçou que o maior legado do projeto esteve na capacidade de articulação entre instituições. “Em ecossistemas dessa dimensão, a tecnologia é um meio. O diferencial está na capacidade de orquestrar atores, alinhar interesses, estabelecer governança e manter a operação funcionando de forma contínua e confiável”, afirmou.
Ela concluiu destacando o impacto direto para a população. “Quando conseguimos integrar dados confiáveis, construir arquiteturas interoperáveis e garantir uma jornada simples para o cidadão, entregamos políticas públicas mais eficazes. E isso se traduz, na prática, em melhoria da vida das pessoas”, finalizou.
