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Home»Mundo»Em que os atuais protestos no Irã diferem das ondas anteriores de insatisfação popular?
Mundo

Em que os atuais protestos no Irã diferem das ondas anteriores de insatisfação popular?

uesleiiclone8By uesleiiclone8setembro 28, 2022Nenhum comentário4 Mins Read
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Manifestações gigantescas desencadeadas por morte de jovem desviam o foco sobre a rígida conduta do vestuário feminino para o fim do regime que rege o país desde 1979. Mulheres curdas sírias protestam contra a morte da curda iraniana Mahsa Amini, detida pela polícia da moralidade de Teerã
AP
Protestos contra a teocracia iraniana ocorrem esporadicamente em ondas, que têm em comum a brutal repressão do regime como resposta. Há 11 dias, o país se agita pela morte de uma jovem – Masha Amini, de 22 anos –, sob custódia da chamada “polícia moralista”, que a prendeu alegando que o seu véu estava folgado e deixava à mostra um pouco do cabelo.
A fúria feminina contra a lei que obriga as mulheres a usarem hijab e roupas folgadas se manifestou na queima de véus e cortes de cabelo. Mas o foco dos protestos já se desviou das regras rígidas do vestuário para um confronto desafiador ao regime comandado por aiatolás, que governa a nação desde 1979. Mistura também queixas sobre o alto custo de vida e a falta de liberdade individual.
Os protestos pedem a derrubada do regime e se multiplicam num momento delicado. Rumores dão conta de que o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país desde 1989, enfrenta sérios problemas de saúde e já estaria manejando a escolha de seu sucessor.
Eleito presidente no ano passado, o ultraconservador Ebrahim Raisi é um dos cotados. Ele ascendeu ao poder porque os demais candidatos ao pleito foram desqualificados por imposição do sistema clerical que rege o país.
Linha dura, Raisi é apontado como outro fator de insatisfação, ao reverter algumas reformas concedidas nas últimas duas décadas e encorajar a atuação da polícia da moralidade, visando, sobretudo, ao código do vestuário e às mulheres que se recusassem a usar o hijab.
A prisão de Amini, seguida da morte, deflagrou uma reação em cadeia de revolta e solidariedade, espalhando-se rapidamente por 80 cidades. De acordo com a ONG Iran Human Rights, há pelo menos 76 mortos e 1.200 presos.
Versão persa de ‘Bella Ciao’ viraliza e se torna símbolo da luta das mulheres no Irã
Como era a vida das mulheres no Irã antes da Revolução Islâmica
Iraniana que morreu por ‘usar véu errado’ recebeu golpe na cabeça dos policiais, afirma primo
As imagens de agora são mais agressivas e provocadoras e revelam que os manifestantes não se identificam com os ditames que consolidaram a Revolução Islâmica. “Os jovens iranianos não querem mais esse sistema. Eles querem um novo governo”, assegurou a escritora e cineasta Marjane Satrapi, autora de “Persépolis”, à jornalista Christiane Amanpour.
Britânica de origem iraniana, a veterana âncora da CNN tinha entrevista marcada com o presidente Raisi durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York, na semana passada. Como ela se recusou a usar o véu, por exigência dele, o evento foi cancelado.
Ondas anteriores de insatisfação deixaram lições aos manifestantes. Num movimento que ficou conhecido como Revolução Verde, em 2009 os iranianos foram às ruas para protestar contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad. As denúncias de fraudes prejudicaram o principal adversário, o reformista Mir Houssein Moussavi, que acabou preso.
Mulher corta o cabelo em público como forma de protesto no Irã.
Yasin AKGUL / AFP
A diferença é que as manifestações estavam concentradas nas grandes cidades e evitavam conclamar abertamente o fim do regime, como ocorre agora. Uma mulher tornou-se símbolo dos protestos e sua imagem viralizou pela então incipiente mídia social no país – a da manifestante Neda Agha Soltan, morta a tiros.
Dez anos depois, a frustração popular foi desencadeada pela revogação dos subsídios do gás, causando um súbito aumento de 50% no preço dos combustíveis. A Anistia Internacional contabilizou 321 mortos, mas admitiu que o número poderia ser cinco vezes maior.
Desta vez, os protestos abraçaram pequenas cidades e vilas, com outro poderoso aliado: o alcance das redes sociais. Pelo menos 48 milhões de iranianos já tinham smartphones.
O regime contra-atacou rapidamente com o apagão na internet, repetindo a tática a cada manifestação de revolta contra a teocracia. As imagens que agora saem do país mostram que o grau de raiva popular escalou, com as mulheres na vanguarda dos protestos, tornando ainda mais fantasioso a retórica proferida pelas autoridades: a de que o Ocidente é sempre o culpado.

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