
Os Reichsbürger não reconhecem a Alemanha pós-guerra. Nos últimos anos, vêm chamando a atenção com ataques violentos a autoridades. Adepto dos Reichsbürger exibe seu passaporte do “Império Alemão”: extremistas imprimem seus próprios documentos
Picture-Alliance/dpa/P. Seeger
Membros do movimento Reichsbürger, como os que foram presos na quarta-feira (7) numa série de operações policiais na Alemanha, negam a existência da Alemanha do pós-guerra e acreditam que o Estado atual não passa de uma construção administrativa ainda ocupada pelas potências ocidentais — EUA, Reino Unido e França. Para eles, as fronteiras de 1937 do Império Alemão ainda existem.
Estes são os autoproclamados “Reichsbürger”, que se traduz como “Cidadãos do Império Alemão”, que foi fundado em 1871 – e eles não são avessos à violência. O movimento Reichsbürger é composto por vários pequenos grupos e indivíduos, localizados principalmente nos estados de Brandemburgo, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Baviera.
Eles não aceitam a legalidade das autoridades governamentais da Alemanha. Eles se recusam a pagar impostos e declararam seus próprios pequenos “territórios nacionais”, que batizam com nomes como “Segundo Império Alemão”, “Estado Livre da Prússia” ou “Principado da Germânia”.
Os membros desses grupos imprimem seus próprios passaportes e carteiras de motorista. Eles até produzem camisetas e bandeiras para fins publicitários. Os integrantes do movimento Reichsbürger desconsideram o fato de que tal atividade é ilegal e não é reconhecida por nenhuma autoridade alemã. Em seus sites, eles anunciam com orgulho sua intenção de “continuar a luta contra a República Federal da Alemanha”.
Apenas malucos?
A agência de inteligência doméstica da Alemanha, o Departamento Federal de Proteção da Constituição (BfV, na sigla em alemão), estima que haja cerca de 21 mil membros dos Reichsbürger na Alemanha, com 5% deles classificados como extremistas de direita.
A maioria é do sexo masculino. Em média, eles têm mais de 50 anos e são adeptos de ideologias populistas de direita, antissemitas e nazistas e estão espalhados por todo o país. Um juiz de um tribunal distrital no estado de Saxônia-Anhalt os descreveu como “teóricos da conspiração” e “descontentes”.
O movimento passou por uma radicalização durante a pandemia de covid-19, quando ganhou força a reboque do movimento “Querdenker” e se recusou a aderir a quaisquer restrições impostas por autoridades que não reconhecem.
Apesar da rejeição que tem em relação ao sistema, o Reichsbürger inunda os tribunais alemães com enxurradas de moções e objeções apresentadas contra ordens judiciais e exigências de pagamento emitidas pelas autoridades locais. Independentemente do conteúdo, as autoridades são obrigadas a processar todas as solicitações formais devidamente protocoladas que recebem.
Prefeitos de várias localidades protestaram que, além de terem que lidar com tanto trabalho sem sentido, também foram atacados por membros dos Reichsbürger, verbalmente e até fisicamente. Os ativistas costumam filmar esses ataques e depois publicá-los online.
Atos extremos de violência
A afinidade do grupo por armas de fogo e pelo armazenar armas deixou as autoridades preocupadas. O último relatório do BfV sobre o movimento Reichsbürger disse que eles estão prontos e dispostos a cometer “graves atos de violência”.
A polícia encontrou grandes depósitos de armas e munições durante buscas realizadas – e os membros do Reichsbürger continuam a se armar.
Como uma parte significativa do grupo é formada por ex-soldados da Bundeswehr e do NVA (Exército Nacional do Povo, da Alemanha Oriental), incluindo homens com treinamento militar especial, o grupo é considerado particularmente perigoso.
Nos últimos anos, as autoridades alemãs revogaram as licenças de porte de armas para centenas de seguidores do movimento.
Vários adeptos do Reichsbürger estavam entre os manifestantes que tentaram invadir o prédio do Parlamento alemão em 2020
picture-alliance/dpa/F. Sommer
Nos últimos anos, os adeptos do Reichsbürger realizaram ataques a policiais durante batidas policiais – frequentemente argumentando que têm o direito de defender “sua propriedade”.
Em Höxter, no estado de Renânia do Norte-Vestfália, um grupo do “Estado Livre da Prússia” tentou formar sua própria milícia, importando armas de fora do país em 2014.
Em 2016, um policial foi baleado e morto por um membro do movimento Reichsbürger durante uma operação policial para apreender o arsenal do criminoso, contendo mais de 30 armas de fogo acumuladas ilegalmente.
Vários adeptos do Reichsbürger estavam entre os manifestantes contra as restrições da pandemia de covid-19 que em 2020 tentaram invadir o Reichstag, o prédio que abriga o Bundestag, o Parlamento alemão.
Em 2022, investigadores descobriram que um grupo planejava, entre outras coisas, invadir o Parlamento em Berlim, atacar o fornecimento de energia do país e depor o governo alemão para então assumir o poder. Havia até planos para que certos indivíduos assumissem cargos ministeriais importantes no momento da “tomada”.
De acordo com o Ministério Público alemão, havia planos para formar um governo de transição que negociaria a nova ordem estatal na Alemanha com as potências aliadas vitoriosas da Segunda Guerra Mundial – em primeiro lugar, com a Federação Russa.
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