{"id":9978,"date":"2022-10-15T09:21:12","date_gmt":"2022-10-15T09:21:12","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/15\/paciencia-e-carinho-segredos-de-educadora-para-garantir-alfabetizacao-de-adultos\/"},"modified":"2022-10-15T09:21:12","modified_gmt":"2022-10-15T09:21:12","slug":"paciencia-e-carinho-segredos-de-educadora-para-garantir-alfabetizacao-de-adultos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/15\/paciencia-e-carinho-segredos-de-educadora-para-garantir-alfabetizacao-de-adultos\/","title":{"rendered":"Paci\u00eancia e carinho: segredos de educadora para garantir alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/PWLIJUrJ2oC1WsL1h6bfv3BKYXY=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/K\/O\/V5P9lBTTewCoVrd6Tk9g\/foto1.jpg\"><br \/>   No Dia dos Professores, a educadora Ducarmo Galv\u00e3o explica como encontrou a voca\u00e7\u00e3o e como ajuda pessoas de todas as idades, da juventude aos octogen\u00e1rios, a aprender a ler, escrever e lutar por seus direitos. Ducarmo Galv\u00e3o, de 59 anos, \u00e9 educadora do Movimento de Alfabetiza\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos da Unas, associa\u00e7\u00e3o de moradores de Heli\u00f3polis e regi\u00e3o, na cidade de S\u00e3o Paulo<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\nQuando Ducarmo Galv\u00e3o era crian\u00e7a em Ipueiras, no interior do Cear\u00e1 das d\u00e9cadas de 1960 e 1970, a escola local s\u00f3 oferecia aulas de ensino fundamental. \u201cEstudei at\u00e9 onde deu pra estudar l\u00e1\u201d, disse ela, que aos 20 e poucos anos migrou para S\u00e3o Paulo, criou ra\u00edzes e fam\u00edlia na regi\u00e3o sudeste da capital e hoje \u00e9 uma das educadoras respons\u00e1veis pelas 17 turmas do Movimento de Alfabetiza\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (Mova) mantidas pela Uni\u00e3o de N\u00facleos, Associa\u00e7\u00f5es dos Moradores de Heli\u00f3polis e Regi\u00e3o (Unas).<br \/>\nH\u00e1 sete anos, um dos primeiros alunos quando Ducarmo assumiu o cargo, um homem de 38 anos, avisou que decidiu aprender a ler e a escrever para poder tirar a carteira de motorista.<br \/>\nH\u00e1 alguns dias, ele bateu na porta da casa dela.<br \/>\n\u201cEle chegou, me deu um abra\u00e7o e me mostrou um papel. Eu olhei o papel, era a habilita\u00e7\u00e3o dele, que tinha conseguido tirar. At\u00e9 falando com voc\u00ea eu me emociono. \u00c9 muito gratificante.\u201d<br \/>\nPode parecer uma curva de aprendizado lenta, mas Ducarmo explica que o tempo da educa\u00e7\u00e3o para os adultos \u00e9 diferente do das crian\u00e7as.<br \/>\nA come\u00e7ar pelo fato de que a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a maior prioridade na rotina dos adultos, que precisam trabalhar e sustentar a fam\u00edlia. Por isso as aulas do Mova s\u00f3 s\u00e3o oferecidas no per\u00edodo noturno, para poder se encaixar na rotina dos estudantes.<br \/>\n\u201cTrabalhar com o adulto \u00e9 uma coisa lenta. Tem que ter calma, tem que ter tudo isso para que ele aprenda\u201d, explica ela, que ressalta ainda a heterogeneidade das turmas. \u201cTem uns que j\u00e1 v\u00e3o para o alfabeto. Tem outros que j\u00e1 escrevem um pouco, j\u00e1 sabem o nome, alguma coisinha. E tem os que n\u00e3o conhecem nada.\u201d<br \/>\nPor isso, ela diz que, mais do que tudo, o Mova exige paci\u00eancia.<br \/>\n\u201cTem que ter paci\u00eancia, tem que ter carinho e tem que esperar. \u00c9 uma sementinha que a gente est\u00e1 plantando.\u201d<br \/>\nOs frutos, segundo ela, s\u00e3o duradouros. O aluno que conseguiu tirar a carta de motorista, por exemplo, diz que vai seguir estudando. &#8220;Ele era do interior de Pernambuco. Bebia muito. Depois das aulas, ele parou de beber. Falou que quando chegava do trabalho ia beber. Agora, em vez de ir pro bar, ele vai para a sala de aula.&#8221;<br \/>\nEstudantes da turma do Mova mantida pela Unas no Centro de Educa\u00e7\u00e3o Popular Dona Ant\u00f4nia<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\nEduca\u00e7\u00e3o em movimento<br \/>\nGarantir \u00e0s v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de adultos que tiveram seu direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o negado quando tinham idade escolar \u00e9 um dos objetivos por tr\u00e1s do Mova, uma pol\u00edtica p\u00fablica realizada por meio de parcerias entre o poder p\u00fabico e associa\u00e7\u00f5es como a Unas.<br \/>\nAs secretarias repassam ajuda de custo e as entidades providenciam o espa\u00e7o, o material did\u00e1tico e os educadores para atuarem em turmas de pelo menos 20 estudantes.<br \/>\nMas Ducarmo afirma que o aprendizado n\u00e3o acontece apenas na sala de aula e destaca que o curr\u00edculo n\u00e3o se at\u00e9m ao &#8220;beab\u00e1&#8221;.<br \/>\n\u201cO Mova \u00e9 um movimento. Voc\u00ea n\u00e3o aprende s\u00f3 em sala de aula, aprende fora dela, aprende a lutar pelos seus direitos. \u00c9 uma troca, aprendo com eles, e eles aprendem comigo. \u00c9 como diz Paulo Freire: n\u00e3o \u00e9 quem sabe mais, existem saberes diferentes. Eu amo muito o que eu fa\u00e7o, muito.\u201d<br \/>\n&#8216;Mova \u00e9 amor&#8217;, resumo Ducarmo Galv\u00e3o, educadora de alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos em Heli\u00f3polis<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\nNeste m\u00eas, as aulas inclu\u00edram rodas de conversa sobre Outubro Rosa e a import\u00e2ncia dos exames para o diagn\u00f3stico precoce do c\u00e2ncer de mama. Em novembro, ser\u00e1 a vez de trabalhar a Consci\u00eancia Negra.<br \/>\n\u201cA gente \u00e9 um pouco psic\u00f3loga dos alunos. \u00c0s vezes voc\u00ea planeja uma atividade e, no decorrer dos acontecimentos, a gente muda a atividade e vai para o que est\u00e1 acontecendo no momento\u201d, explica.<br \/>\nNo dia a dia, as aulas tamb\u00e9m s\u00e3o voltadas para auxiliar os alunos a navegarem pela sociedade. Um exemplo \u00e9 literal: ensin\u00e1-los a usar os \u00f4nibus e o Metr\u00f4. \u201cOutro dia uma aluna falou: \u2018Fui pegar um \u00f4nibus e soube ler o nome do \u00f4nibus: Vila Mariana\u2019\u201d, lembra Ducarmo, que tem exemplos intermin\u00e1veis dos resultados das aulas.<br \/>\n\u201cUm dia uma aluna, que \u00e9 uma das mais velhas, a dona das Dores, falou assim: \u2018Eu fui no m\u00e9dico ontem, quando cheguei l\u00e1 tinham reformado todas as salas. Eu n\u00e3o sabia mais onde era a sala do meu m\u00e9dico. N\u00e3o \u00e9 que eu soube ler onde era a sala do m\u00e9dico?\u2019 \u00c9 t\u00e3o gratificante que voc\u00ea n\u00e3o tem ideia.\u201d<br \/>\nA pandemia fez com que o ensino presencial, ainda mais importante para os adultos, que t\u00eam menos contato com a tecnologia, fosse interrompido durante todo o ano de 2020. Mas isso n\u00e3o impediu que Ducarmo continuasse com as atividades, que precisaram ser adaptadas de acordo com o acesso \u00e0 internet de cada estudante.<br \/>\n&#8220;Tenho idades variadas, uma aluna com mais de 80, uma com 79, outra com 65, e assim vai. Tenho alunos de 40. Tenho mais ou menos dez idosos&#8221;, diz ela, que contou com a ajuda dos filhos e at\u00e9 netos dos alunos mais velhos para garantir que eles conseguissem fazer as atividades durante a quarentena.<br \/>\nDepois que as escolas foram reabertas, as aulas do Mova tamb\u00e9m foram retomadas<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\nNova voca\u00e7\u00e3o ap\u00f3s os 50 anos<br \/>\nSer educadora n\u00e3o estava em seus planos na juventude, j\u00e1 que ela mesma faz parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira que n\u00e3o teve acesso adequado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e at\u00e9 hoje n\u00e3o fez o ensino m\u00e9dio.<br \/>\n\u201cPara fazer o ensino m\u00e9dio voc\u00ea tinha que ir pra cidade, e meus pais n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de pagar pra gente morar na cidade\u201d, lembra a cearense radicada na capital, a quinta de seis filhos.<br \/>\nA falta de diploma limitou suas op\u00e7\u00f5es de emprego, mas h\u00e1 cerca de 15 anos ela passou a integrar o quadro de funcion\u00e1rios da Unas. Come\u00e7ou cuidando da limpeza do CCA, o Centro para a Crian\u00e7a e o Adolescente da associa\u00e7\u00e3o, que atende estudantes no contraturno escolar. \u201cTrabalhei quatro anos e meio na limpeza e na cozinha\u201d, diz ela, emendando que \u201ca Unas vai dando oportunidade pras pessoas\u201d. Foi em uma dessas oportunidades que ela passou a auxiliar no funcionamento das m\u00e1quinas de lavar de uma lavanderia comunit\u00e1ria que a Uni\u00e3o mant\u00e9m com apoio de uma empresa.<br \/>\nQuando o projeto foi encerrado, o espa\u00e7o da lavanderia, na Avenida Juntas Provis\u00f3rias, no Ipiranga, acabou sendo transformado, h\u00e1 sete anos, no Centro de Educa\u00e7\u00e3o Popular Dona Ant\u00f4nia.<br \/>\nE Ducarmo recebeu a proposta de atuar como educadora de uma sala do Mova.<br \/>\n\u201cAceitei porque foi uma proposta muito boa. A Unas valoriza muito a educa\u00e7\u00e3o, o Mova vem pra dar direito \u00e0s pessoas que n\u00e3o tiveram oportunidade de estudar.\u201d<br \/>\nSegundo a educadora, ensinar adultos exige paci\u00eancia e carinho: &#8216;Trabalhar com o adulto \u00e9 uma coisa lenta. Tem que ter calma, tem que ter tudo isso pra que ele aprenda.&#8217;<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\nFilha pedagoga<br \/>\nHoje ela diz que n\u00e3o se v\u00ea fazendo outra coisa. At\u00e9 mant\u00e9m uma vendinha de sorvetes, para ajudar a complementar a renda, mas diz que vende t\u00e3o pouco que nem sequer a considera como ganha-p\u00e3o. E o que recebe como educadora do Mova tamb\u00e9m \u00e9 pouco, menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo.<br \/>\nSegundo ela, seu trabalho n\u00e3o paga todas as contas, e ela depende tamb\u00e9m da renda do marido, que \u00e9 caminhoneiro aut\u00f4nomo.<br \/>\nA filha Aline, por\u00e9m, se tornou a primeira da fam\u00edlia a conseguir diplomas dos ensinos m\u00e9dio e superior.<br \/>\nMesmo sabendo que a \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o traz pouco retorno financeiro, e ainda menos reconhecimento, Ducarmo diz que se alegrou quando a filha anunciou que quer fazer faculdade de pedagogia. \u201cEu fiquei feliz, incentivei. No dia da formatura dela, eu chorei. No meio da plateia, eu gritava bem alto: \u2018Aline, eu te amo, conseguimos!\u2019 Porque foi dif\u00edcil, na \u00e9poca ela n\u00e3o teve bolsa n\u00e3o, trabalhou para pagar a faculdade dela.\u201d<br \/>\nAtualmente, enquanto a m\u00e3e ensina os adultos, a filha \u00e9 professora em uma creche municipal.<br \/>\n\u201cEsses professores guerreiros, essas educadoras guerreiras merecem todos os nossos aplausos no Dia dos Professores. Pela garra que cada um tem. Pena que n\u00e3o \u00e9 reconhecido como todos merecem\u201d, ressalta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Dia dos Professores, a educadora Ducarmo Galv\u00e3o explica como encontrou a voca\u00e7\u00e3o e como ajuda pessoas de todas as idades, da juventude aos octogen\u00e1rios, a aprender a ler, escrever e lutar por seus direitos. 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