{"id":9824,"date":"2022-10-14T19:16:03","date_gmt":"2022-10-14T19:16:03","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/14\/silencio-na-carceragem\/"},"modified":"2022-10-14T19:16:03","modified_gmt":"2022-10-14T19:16:03","slug":"silencio-na-carceragem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/14\/silencio-na-carceragem\/","title":{"rendered":"Sil\u00eancio na Carceragem"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">A carceragem era \u00famida, suja, escura, pegajosa. Exalava o cheiro horroroso de gente confinada. E ali era apenas a antessala, as celas ficavam l\u00e1 para dentro. At\u00e9 lembrava o ambiente de uma reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica: a escrivaninha do carcereiro, antigos fich\u00e1rios que acumulavam papel in\u00fatil, arm\u00e1rios inteiri\u00e7os que abrigavam uma infinidade de produtos de furto. Os pertences dos desgra\u00e7ados capturados pelas pol\u00edcias tamb\u00e9m eram jogados ali.<\/p>\n<p align=\"justify\">As celas, imundas, ficavam ao fundo. O acesso era por uma porta estreita, refor\u00e7ada com grade de ferro. De l\u00e1 vinham vozes, impreca\u00e7\u00f5es, uma ou outra frase indecifr\u00e1vel. \u00c0s vezes, uma presa cantava, feliz, para estupefa\u00e7\u00e3o daqueles que entravam ali. Acostumados, os policiais riam e explicavam:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 \u00c9 doida.<\/p>\n<p align=\"justify\">Rep\u00f3rteres transitavam naquele ambiente. Apuravam as ocorr\u00eancias mais recentes e garimpavam, ansiosos, entrevistas para programas de r\u00e1dio, sites noticiosos ou p\u00e1ginas dos jornais. \u00c0s vezes, surgiam casos pitorescos. Noutras, as declara\u00e7\u00f5es iam preencher espa\u00e7o, entreter leitores \u00e1vidos pelos detalhes de qualquer mis\u00e9ria.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cBitinha\u201d era conte\u00fado para rodap\u00e9: crime contra o patrim\u00f4nio, conforme o jarg\u00e3o policial. Havia pouco apelo: a foto, com <span><span><span><span lang=\"pt-BR\">a camiseta do sistema penal<\/span><\/span><\/span><\/span><span>, c<\/span>omo era praxe e, talvez, o produto do roubo, que justificava o flagrante.<\/p>\n<p align=\"justify\">Duas fotos, mais o texto da ocorr\u00eancia, espichado com qualquer declara\u00e7\u00e3o: umas trinta linhas ap\u00f3s a editora\u00e7\u00e3o. Aquilo ajudava, ocupava parte da p\u00e1gina e tinham que fazer uma p\u00e1gina de jornal todo dia. Aguardavam, comentando o notici\u00e1rio, ouvindo as piadas grosseiras dos <i>\u2018meganhas\u2019<\/i>.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 \u00c9 esse a\u00ed. Encosta l\u00e1 \u2013 ordenou o carcereiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cBitinha\u201d chegou, algemado. Depois o agente se afastou, ficou l\u00e1 perto da escrivaninha, onde um dos carcereiros surrava uma velha m\u00e1quina datilogr\u00e1fica: os computadores ainda n\u00e3o haviam chegado \u00e0quela saleta l\u00fagubre.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cBitinha\u201d n\u00e3o falou.<\/p>\n<p align=\"justify\">Pediram que gravasse para a r\u00e1dio, mas ele se recusou. Indagaram seu nome, ele recomendou que consultassem a ocorr\u00eancia. Solicitaram detalhes do crime, mas ele negou o crime. Indagaram o porqu\u00ea da pris\u00e3o e ele sugeriu, mais uma vez, que conversassem com a pol\u00edcia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Permaneceu inflex\u00edvel: m\u00fasculos r\u00edgidos, tra\u00e7o duro no l\u00e1bio, olho fixo nos rep\u00f3rteres. Nova investida, mas sem nenhum efeito: n\u00e3o falava. Pisava firme, impaciente com aquele interrogat\u00f3rio in\u00fatil. J\u00e1 a dois passos dali, tamb\u00e9m impaciente, o policial encerrou a encena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 E a\u00ed, \u201cBitinha\u201d? Vamos conversar\u2026?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cBitinha\u201d aquiesceu, sol\u00edcito. Aquilo despertou muda indigna\u00e7\u00e3o nos rep\u00f3rteres: atarefados, penavam para arrancar m\u00edseras frases que ilustrassem uma reportagem, que rendessem uma mat\u00e9ria redonda para o leitor an\u00f4nimo. Com um simples aceno, o policial arrancava uma concord\u00e2ncia imediata, submissa, cordata.<\/p>\n<p align=\"justify\">Empunhavam canetas, celulares, rascunhos, gravadores. O policial ostentava uma pistola na cintura, encoberta pela camisa. E bem ali ao lado, numa min\u00fascula sala lateral, ficava o pau-de-arara que ajudava a convencer os recalcitrantes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por um momento \u2013 um breve momento \u2013 o rep\u00f3rter de bloco na m\u00e3o desejou aquele poder de convencimento. Pelo menos encheria a desgra\u00e7ada p\u00e1gina policial daquele pasquim de fundo de prov\u00edncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas saiu, j\u00e1 pensando nas redund\u00e2ncias que iam ajudar a espichar a ocorr\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>*Este texto \u00e9 obra de fic\u00e7\u00e3o.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A carceragem era \u00famida, suja, escura, pegajosa. Exalava o cheiro horroroso de gente confinada. E ali era apenas a antessala, as celas ficavam l\u00e1 para dentro. At\u00e9 lembrava o ambiente de uma reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica: a escrivaninha do carcereiro, antigos fich\u00e1rios que acumulavam papel in\u00fatil, arm\u00e1rios inteiri\u00e7os que abrigavam uma infinidade de produtos de furto. 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