{"id":9631,"date":"2022-10-14T07:10:45","date_gmt":"2022-10-14T07:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/14\/como-tornar-as-cidades-mais-seguras-para-mulheres-os-planos-do-urbanismo-feminista\/"},"modified":"2022-10-14T07:10:45","modified_gmt":"2022-10-14T07:10:45","slug":"como-tornar-as-cidades-mais-seguras-para-mulheres-os-planos-do-urbanismo-feminista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/14\/como-tornar-as-cidades-mais-seguras-para-mulheres-os-planos-do-urbanismo-feminista\/","title":{"rendered":"Como tornar as cidades mais seguras para mulheres: os planos do urbanismo feminista"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/WDJbrS2Bvexvn85VknO7I_RCrXA=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/B\/X\/RDebRoTKGhv1ufAWlaCw\/asd.jpg\"><br \/>   A constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os p\u00fablicos seguros para as mulheres est\u00e1 ganhando cada vez mais for\u00e7a no mundo. Como tornar as cidades mais seguras para mulheres: os planos do urbanismo feminista<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\nQual mulher nunca sentiu medo de caminhar para casa \u00e0 noite em uma rua mal iluminada ou evitou passar por um parque vazio?<br \/>\nO desenvolvimento de cidades seguras para elas est\u00e1 ganhando cada vez mais for\u00e7a depois de d\u00e9cadas de cidades sendo projetadas por e para homens.<br \/>\nComo resposta \u00e0s ideias centradas em um conceito antiquado de uso do espa\u00e7o, surgiu o urbanismo feminista, que busca inclus\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o das mulheres no cotidiano.<br \/>\nMas essa proposta vai al\u00e9m de apenas evitar a m\u00e1 ilumina\u00e7\u00e3o, aumentar a vigil\u00e2ncia ou fazer manuten\u00e7\u00e3o: busca investir em estruturas urbanas inclusivas para criar espa\u00e7os de conviv\u00eancia, gerando a chamada &#8220;seguran\u00e7a passiva&#8221;. Quanto mais pessoas transitam em um lugar, mais seguro ele se torna.<br \/>\n Urbanismo com perspectiva de g\u00eanero<br \/>\nA quest\u00e3o \u00e9 que todos devem se sentir \u00e0 vontade no espa\u00e7o urbano, em qualquer lugar e a qualquer hora. Essa meta \u00e9 o que os soci\u00f3logos chamam de &#8220;democratiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano&#8221;.<br \/>\nViena vem utilizando esse conceito h\u00e1 d\u00e9cadas, e agora cada vez mais cidades est\u00e3o se juntando a esse movimento.<br \/>\n&#8220;O que o planejamento urbano feminista busca \u00e9 a igualdade efetiva entre homens e mulheres. Trata-se de reduzir qualquer discrimina\u00e7\u00e3o que ainda exista na pr\u00e1tica&#8221;, diz \u00e0 BBC News Mundo a arquiteta espanhola Alexandra Delgado, do est\u00fadio de arquitetura urbana AD.<br \/>\n&#8220;Em \u00faltima an\u00e1lise, um urbanismo feminista \u00e9 um urbanismo que beneficia a todos n\u00f3s, porque nos d\u00e1 um espa\u00e7o p\u00fablico melhor, mais oportunidades iguais, melhor acesso a equipamentos, melhor transporte p\u00fablico&#8230; \u00e9 um urbanismo de oportunidade&#8221;, acrescenta.<br \/>\nOs prim\u00f3rdios remontam \u00e0 d\u00e9cada de 1960, quando feministas das \u00e1reas de arquitetura, urbanismo e geografia come\u00e7aram a demonstrar que o planejamento urbano n\u00e3o \u00e9 neutro e que \u00e9 preciso incluir as mulheres nele.<\/p>\n<p>GETTY IMAGES<br \/>\nEssa perspectiva oferece uma vis\u00e3o ampla das pessoas ao propor que mulheres e homens vivem e vivenciam o espa\u00e7o de maneiras distintas. Essa vis\u00e3o ganhou for\u00e7a devido ao aumento da popula\u00e7\u00e3o das cidades.<br \/>\nHoje, pouco mais da metade da popula\u00e7\u00e3o mundial vive em cidades, segundo dados da ONU. Al\u00e9m disso, at\u00e9 2050, esse n\u00famero dever\u00e1 aumentar para 68%. At\u00e9 2030, espera-se que o mundo tenha 43 megacidades com mais de 10 milh\u00f5es de pessoas, a maioria delas no Hemisf\u00e9rio Sul.<br \/>\n&#8216;Cidades seguras&#8217; da ONU<br \/>\n&#8220;Quando mulheres e garotas n\u00e3o conseguem andar em paz pelas ruas da cidade, fazer compras nos mercados, andar no transporte p\u00fablico ou simplesmente usar banheiros p\u00fablicos, isso tem um tremendo impacto em suas vidas. Tanto a amea\u00e7a quanto a experi\u00eancia de viol\u00eancia afetam seu acesso a atividades sociais, educa\u00e7\u00e3o, emprego e oportunidades de lideran\u00e7a&#8221;, afirma uma iniciativa internacional conhecida como Cidades Seguras e Espa\u00e7os P\u00fablicos Seguros, da ONU Mulheres.<br \/>\nDesde 2011, esta Iniciativa Global fornece apoio a governos, organiza\u00e7\u00f5es de direitos das mulheres, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais (ONGs), setor privado e outros parceiros com o objetivo de criar espa\u00e7os p\u00fablicos seguros com e para mulheres e meninas em ambientes urbanos e rurais.<br \/>\n&#8220;Trata-se de ter um espa\u00e7o p\u00fablico bem iluminado, cuidado, com \u00e1reas verdes, com equipamentos. S\u00e3o essas coisas que d\u00e3o seguran\u00e7a di\u00e1ria&#8221;, explica Delgado sobre o programa da ONU que promove, entre outras coisas, o investimento na seguran\u00e7a dos espa\u00e7os p\u00fablicos.<br \/>\nExperi\u00eancia na Espanha<br \/>\nNa Espanha, uma lei para a igualdade entre homens e mulheres inclui um ponto espec\u00edfico sobre planejamento urbano.<br \/>\nNa pr\u00e1tica, isso significa que qualquer projeto de desenvolvimento urbano precisa necessariamente incluir um relat\u00f3rio de impacto de g\u00eanero no qual seja sempre explicitado a seguran\u00e7a dos pedestres e a seguran\u00e7a dos espa\u00e7os diurnos e noturnos.<br \/>\nIsso se traduz em maior ilumina\u00e7\u00e3o das ruas, aus\u00eancia de \u00e1reas escuras e manejo da vegeta\u00e7\u00e3o dos parques.<br \/>\nPa\u00edses como a Espanha enxergam a necessidade de renovar seu desenho urbano para tornar os espa\u00e7os p\u00fablicos inclusivos, seguros e adequados \u00e0s necessidades de mulheres e homens<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\n&#8220;Isso \u00e9 t\u00e3o importante que alguns planos urban\u00edsticos foram cancelados por n\u00e3o ter [relat\u00f3rio de impacto de g\u00eanero]&#8221;, diz a arquiteta espanhola. &#8220;Se n\u00e3o houver boa ilumina\u00e7\u00e3o, por exemplo, os projetos n\u00e3o passam nas avalia\u00e7\u00f5es do relat\u00f3rio de impacto de g\u00eanero.&#8221;<br \/>\n&#8220;Normalmente [o relat\u00f3rio] se traduz em uma melhoria do espa\u00e7o p\u00fablico, sua ilumina\u00e7\u00e3o e acesso ao transporte. Existem algumas quest\u00f5es, especialmente no espa\u00e7o p\u00fablico, em que o plano precisa explicar por que n\u00e3o causa desigualdade nas mulheres, devido ao seu design. \u00c9 um urbanismo que n\u00e3o prejudica ningu\u00e9m, mas que beneficia a todos n\u00f3s&#8221;, diz.<br \/>\nNa opini\u00e3o da arquiteta espanhola, embora n\u00e3o tenha passado tempo suficiente para se dizer que esse urbanismo melhorou a seguran\u00e7a das mulheres nas cidades, ele &#8220;pelo menos tornou vis\u00edveis alguns problemas nos quais voc\u00ea nem pensava antes&#8221;.<br \/>\n&#8220;S\u00f3 o fato de questionar: voc\u00ea est\u00e1 pensando em seguran\u00e7a nos espa\u00e7os p\u00fablicos? Est\u00e1 pensando em seguran\u00e7a \u00e0 noite? \u00c9 algo positivo. Nesse sentido, est\u00e1 indo na dire\u00e7\u00e3o certa&#8221;, diz ela.<br \/>\nViena: uma cidade para mulheres<br \/>\nNo in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, Viena desenvolveu o maior projeto habitacional da Europa at\u00e9 hoje constru\u00eddo por e para mulheres.<br \/>\n&#8220;A facilita\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas e familiares, a promo\u00e7\u00e3o do bairro e um ambiente em que moradores possam caminhar com seguran\u00e7a foram os objetivos centrais do projeto modelo Frauen-Werk-Stadt I&#8221;, disseram \u00e0 BBC News Mundo arquitetos do Escrit\u00f3rio de Planejamento de Viena.<br \/>\nO projeto de 357 moradias liderado pela arquiteta Franziska Ullmann tamb\u00e9m teve o objetivo de promover a participa\u00e7\u00e3o de mulheres no desenvolvimento urbano e principalmente no projeto de expans\u00e3o urbana.<br \/>\nConclu\u00eddo em 1997, este projeto tornou-se refer\u00eancia para os est\u00fadios de arquitetura de todo o mundo.<br \/>\n&#8220;\u00c9 muito interessante como refer\u00eancia por causa de quest\u00f5es pr\u00e1ticas como, por exemplo, como existem liga\u00e7\u00f5es visuais interior-exterior, entre o apartamento, a escada, o p\u00e1tio, o jardim, as pra\u00e7as, as ruas. Isso \u00e9 vigil\u00e2ncia passiva&#8221;, diz Delgado.<br \/>\nO bairro para mulheres tamb\u00e9m possui um t\u00e9rreo aberto e as garagens possuem estrutura aberta com ilumina\u00e7\u00e3o natural, abaixo dos apartamentos, com acesso direto pelas escadas, para aumentar a seguran\u00e7a.<br \/>\n&#8216;Caminhos seguros&#8217; do M\u00e9xico<br \/>\nNa Am\u00e9rica Latina, a viol\u00eancia contra mulheres e meninas marca o cotidiano de muitas cidades. Segundo dados da ONU, no M\u00e9xico sete em cada dez mulheres enfrentaram algum tipo de viol\u00eancia em 2020.<br \/>\nDe acordo com um censo de 2017 na \u00c1rea Metropolitana do Vale do M\u00e9xico, 61,4% das viagens feitas a p\u00e9 na Cidade do M\u00e9xico s\u00e3o realizadas por mulheres.<br \/>\nMas, em 2018, a Pesquisa Nacional de Vitimiza\u00e7\u00e3o e Percep\u00e7\u00e3o da Seguran\u00e7a P\u00fablica (ENVIPE) revelou que apenas 14,3% das mulheres maiores de 18 anos disseram que se sentem seguras na rua. E 17 mil mulheres em cada 100 mil habitantes foram v\u00edtimas de roubo ou assalto na rua ou no transporte p\u00fablico.<br \/>\nEntre as medidas implementadas para combater isso em lugares como a Cidade do M\u00e9xico, destaca-se o programa Caminhos Seguros, criado em 2019 para melhorar as \u00e1reas com maior incid\u00eancia de crimes contra as mulheres, incentivar o uso do espa\u00e7o p\u00fablico e prevenir crimes.<br \/>\nA a\u00e7\u00e3o promoveu aumento da ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica com tecnologia LED, limpeza e reabilita\u00e7\u00e3o de \u00e1reas verdes, instala\u00e7\u00e3o de totens com c\u00e2maras de vigil\u00e2ncia e bot\u00f5es de emerg\u00eancia.<br \/>\n&#8220;O programa prop\u00f5e um desenho universal com uma perspectiva feminista para criar rotas seguras usando elementos que aliviam a viol\u00eancia e s\u00e3o integrados a uma imagem urbana que aumenta a percep\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a&#8221;, disse o Minist\u00e9rio de Obras e Servi\u00e7os da Cidade do M\u00e9xico, respons\u00e1vel pelo programa.<br \/>\nDe 2019 at\u00e9 hoje, foram criados 510 km de caminhos seguros. At\u00e9 o final de 2022, a meta \u00e9 chegar a 710 km. Atualmente existem mais de 65 mil c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia e 11 mil bot\u00f5es de alerta.<br \/>\nSegundo as autoridades mexicanas, os crimes contra as mulheres em espa\u00e7os p\u00fablicos diminu\u00edram 28,8% nesses locais desde 2019.<br \/>\n&#8216;S\u00e3o medidas superficiais&#8217;<br \/>\nNo entanto, embora especialistas indique que este \u00e9 o caminho certo, ainda h\u00e1 muito a ser feito no combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher nas cidades.<br \/>\n&#8220;O conceito de arquitetura de g\u00eanero no M\u00e9xico e todos os conceitos relacionados s\u00e3o superficiais, s\u00e3o apenas maquiagem. Sem d\u00favida eles funcionam, a maquiagem sempre funciona, mas s\u00f3 tapa buracos, n\u00e3o resolve o problema&#8221;, disse \u00e0 BBC News Mundo arquiteta mexicana Tatiana Bilbao.<br \/>\n&#8220;Essas medidas s\u00e3o superficiais por v\u00e1rios motivos. O primeiro \u00e9 porque realmente n\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica de defesa dos direitos das mulheres em profundidade. A vida das mulheres n\u00e3o \u00e9 protegida no M\u00e9xico&#8221;, critica.<br \/>\n &#8220;Por mais que se tenha pensado em ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica, espa\u00e7os livres e outras medidas, isso n\u00e3o \u00e9 suficiente. Mulheres s\u00e3o mortas na rua em plena luz do dia.&#8221;<br \/>\nNo entanto, Bilbao reconhece que todo esfor\u00e7o ajuda. Para ela, existem estrat\u00e9gias de planejamento urbano que funcionam melhor, como a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os onde o trabalho de cuidado \u00e9 socializado.<br \/>\n&#8220;Os becos existem, mas se voc\u00ea come\u00e7ar do zero tem que pensar em como fazer espa\u00e7os que possam ser muito mais seguros socialmente, porque eles t\u00eam gente, porque s\u00e3o abertos&#8230; do que colocar luz em um beco escuro. Se houver becos escuros, algo deve ser feito contra eles, sem d\u00favida. Acho que tudo avan\u00e7a em paralelo.&#8221;<br \/>\nEste texto foi publicado em www.bbc.com\/portuguese\/geral-63245544<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os p\u00fablicos seguros para as mulheres est\u00e1 ganhando cada vez mais for\u00e7a no mundo. 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