{"id":7656,"date":"2022-10-06T22:10:07","date_gmt":"2022-10-06T22:10:07","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/06\/nao-tive-forcas-para-enterrar-minha-filha-morta-pela-fome\/"},"modified":"2022-10-06T22:10:07","modified_gmt":"2022-10-06T22:10:07","slug":"nao-tive-forcas-para-enterrar-minha-filha-morta-pela-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/06\/nao-tive-forcas-para-enterrar-minha-filha-morta-pela-fome\/","title":{"rendered":"&#8216;N\u00e3o tive for\u00e7as para enterrar minha filha morta pela fome&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/OGU_l7X0Hy0WynSBcBk37Xi3XAg=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/j\/N\/udYmSBSlWUuKuLIqsTiw\/1.jpg\"><br \/>   Crian\u00e7as est\u00e3o morrendo em n\u00famero crescente em meio \u00e0 pior seca que atingiu a Som\u00e1lia em 40 anos. Dahir (\u00e0 esquerda com sua irm\u00e3 e m\u00e3e) recentemente perdeu seu irm\u00e3o para a fome<br \/>\nBBC\/Ed Habershon<br \/>\nUm n\u00famero cada vez maior de crian\u00e7as pequenas est\u00e1 morrendo na Som\u00e1lia em meio \u00e0 pior seca que atingiu o pa\u00eds em 40 anos. Funcion\u00e1rios do governo dizem que uma cat\u00e1strofe ainda pior pode atingir o pa\u00eds dentro de dias ou semanas, a menos que chegue mais ajuda.<br \/>\nAs l\u00e1grimas escorrem pelas bochechas cheias de fome de Dahir, de 11 anos.<br \/>\n&#8220;S\u00f3 quero sobreviver a isso&#8221;, diz ele, calmamente.<br \/>\nSentado ao lado do barraco da fam\u00edlia, na plan\u00edcie poeirenta fora da cidade de Baidoa, sua m\u00e3e cansada, Fatuma Omar, diz a ele para n\u00e3o chorar.<br \/>\n&#8220;Suas l\u00e1grimas n\u00e3o trar\u00e3o seu irm\u00e3o de volta. Tudo ficar\u00e1 bem&#8221;, diz ela.<br \/>\nO segundo filho de Fatuma, Salat, de 10 anos, morreu de fome h\u00e1 duas semanas, pouco depois que a fam\u00edlia chegou a Baidoa vindo de seu vilarejo, a tr\u00eas dias de caminhada.<br \/>\nSeu corpo est\u00e1 enterrado na terra rochosa a poucos metros de sua nova casa \u2014 o t\u00famulo j\u00e1 coberto de lixo e cada vez mais dif\u00edcil de detectar \u00e0 medida que os rec\u00e9m-chegados montam acampamento ao redor deles.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o posso chorar pelo meu filho. N\u00e3o h\u00e1 tempo. Preciso encontrar trabalho e comida para manter os outros vivos&#8221;, diz Fatuma, embalando sua filha mais nova, Bille, de nove meses, e virando-se para olhar para a filha Mariam, de seis anos, enquanto ela dava uma tossida \u00e1spera.<br \/>\nDo outro lado da estrada de terra que segue para o sudeste, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 costa e \u00e0 capital da Som\u00e1lia, Mogad\u00edscio, outras fam\u00edlias deslocadas contaram hist\u00f3rias mais sombrias de longas caminhadas por uma paisagem seca em busca de comida.<br \/>\n&#8216;Sem for\u00e7as para enterrar minha filha&#8217;<br \/>\nUma nova pesquisa mostrou que quase dois ter\u00e7os das crian\u00e7as e mulheres gr\u00e1vidas nos campos sofrem de desnutri\u00e7\u00e3o aguda, o que, juntamente com uma alta taxa de mortalidade, pode indicar que uma declara\u00e7\u00e3o localizada de fome j\u00e1 est\u00e1 atrasada.<br \/>\n&#8220;Vi minha filha [Farhir, de tr\u00eas anos] morrer antes de mim e n\u00e3o pude fazer nada&#8221;, diz Fatuma, que caminhou por pelo menos 15 dias com seus nove filhos de um vilarejo chamado Buulo Ciir para chegar a Baidoa.<br \/>\n&#8220;Eu a estava carregando h\u00e1 10 dias. Tivemos que deix\u00e1-la na beira da estrada. N\u00e3o t\u00ednhamos for\u00e7as para enterr\u00e1-la. Pod\u00edamos ouvir as hienas se aproximando&#8221;, acrescenta.<br \/>\nHabiba Mohamud diz que seu vilarejo natal est\u00e1 irreconhec\u00edvel<br \/>\nBBC\/Ed Habershon<br \/>\n&#8220;N\u00e3o trouxe nada comigo. N\u00e3o sobrou nada em casa. O gado est\u00e1 morto. Os campos est\u00e3o secos&#8221;, diz Habiba Mohamud, de 50 anos, segurando um peda\u00e7o de barbante na m\u00e3o e lamentando que nunca mais voltar\u00e1 para sua aldeia.<br \/>\nUma sucess\u00e3o de secas, turbinadas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, agora amea\u00e7a acabar com um modo de vida pastoral que perdura h\u00e1 s\u00e9culos em todo o Chifre da \u00c1frica.<br \/>\nComo outros rec\u00e9m-chegados, Habiba estava ocupada erguendo um barraco para sua fam\u00edlia com galhos e peda\u00e7os de papel\u00e3o e pl\u00e1stico, esperando termin\u00e1-lo antes do frio da noite. S\u00f3 depois disso ela poderia procurar comida e ajuda m\u00e9dica para alguns de seus cinco filhos.<br \/>\nNa enfermaria do principal hospital da cidade, o dr. Abdullahi Yussuf se move entre as camas, verificando seus pacientes min\u00fasculos e magros. Crian\u00e7as entre dois meses e tr\u00eas anos de idade s\u00e3o maioria.<br \/>\nTodos est\u00e3o gravemente desnutridos. Alguns tiveram pneumonia e muitos tamb\u00e9m estavam lutando contra um novo surto de sarampo.<br \/>\nPoucas crian\u00e7as t\u00eam for\u00e7as para chorar. V\u00e1rios t\u00eam a pele muito danificada, rompida pelo incha\u00e7o que \u00e0s vezes acompanha os casos mais extremos de fome.<br \/>\n&#8220;Muitos morrem antes mesmo de chegar ao hospital&#8221;, diz Abdullahi, observando sua equipe lutando para conectar um tubo intravenoso ao bra\u00e7o de uma crian\u00e7a de dois anos que gemia.<br \/>\n&#8216;\u00c9 assustador, as pessoas est\u00e3o morrendo&#8217;<br \/>\nEmbora autoridades somalis e organiza\u00e7\u00f5es internacionais estejam alertando h\u00e1 meses sobre uma fome iminente nesta regi\u00e3o do sudoeste, Abdullahi disse que seu hospital j\u00e1 est\u00e1 com falta de itens b\u00e1sicos, incluindo suplementos nutricionais para crian\u00e7as.<br \/>\n&#8220;\u00c0s vezes n\u00e3o temos suprimentos. \u00c9 assustador, na verdade, porque as pessoas est\u00e3o morrendo e n\u00e3o podemos ajud\u00e1-las. Nosso governo local n\u00e3o est\u00e1 lidando bem com isso. N\u00e3o est\u00e1 planejando como aliviar a seca ou lidar com a chegada de fam\u00edlias deslocadas&#8221;, diz ele, com vis\u00edvel frustra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUm ministro do governo local admitiu que houve falhas.<br \/>\n&#8220;Precisamos ser mais r\u00e1pidos do que somos e precisamos ser precisos&#8230; e mais eficazes&#8221;, diz Nasir Arush, Ministro de Assuntos Humanit\u00e1rios do estado do Sudoeste, em uma curta visita a um dos campos ao redor de Baidoa. Mas mais apoio internacional, insiste ele, era fundamental.<br \/>\n&#8220;Se n\u00e3o recebermos a ajuda de que precisamos, centenas de milhares de pessoas morrer\u00e3o. As coisas que estamos fazendo agora precis\u00e1vamos fazer tr\u00eas meses atr\u00e1s. Na verdade, estamos atrasados. A menos que algo aconte\u00e7a [r\u00e1pido] acho que algo catastr\u00f3fico vai acontecer nesta \u00e1rea&#8221;, diz ele.<br \/>\nO processo de declara\u00e7\u00e3o formal de fome pode ser complicado, dependendo de dados dif\u00edceis de definir e, muitas vezes, de considera\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<br \/>\nA embaixadora do Reino Unido na Som\u00e1lia, Kate Foster, descreve essa declara\u00e7\u00e3o como &#8220;essencialmente, um processo t\u00e9cnico&#8221;. Ela destaca que durante a seca de 2011 &#8220;metade das 260 mil mortes ocorreu antes que a fome fosse declarada&#8221;.<br \/>\nPopula\u00e7\u00e3o local est\u00e1 migrando de suas aldeias para Baidoa em busca de recursos e assist\u00eancia m\u00e9dica<br \/>\nBBC\/Ed Habershon<br \/>\nO enviado presidencial que lidera o esfor\u00e7o internacional da Som\u00e1lia para garantir mais financiamento agradeceu ao governo dos EUA, em particular, pelo novo financiamento recente, dizendo que &#8220;nos deu esperan\u00e7a&#8221;.<br \/>\nMas Abdirahman Abdishakur alerta que, sem mais ajuda, uma crise localizada em uma parte da Som\u00e1lia pode rapidamente sair do controle.<br \/>\n&#8220;N\u00f3s est\u00e1vamos dando o alarme&#8230; mas a resposta da comunidade internacional n\u00e3o foi adequada&#8221;, diz Abdishakur.<br \/>\n&#8220;A fome \u00e9 prevista. Acontece [j\u00e1] em alguns lugares, alguns bols\u00f5es, na Som\u00e1lia, mas ainda podemos evitar uma cat\u00e1strofe&#8221;, acrescenta ele, falando por telefone durante uma escala em Toronto, Canad\u00e1.<br \/>\nMulheres fugindo, homens ficando para tr\u00e1s<br \/>\nEmbora as estimativas variem, a popula\u00e7\u00e3o de Baidoa praticamente quadruplicou nos \u00faltimos meses, para cerca de 800 mil pessoas.<br \/>\nE qualquer visitante notar\u00e1 rapidamente um fato marcante: quase todos os rec\u00e9m-chegados adultos s\u00e3o mulheres.<br \/>\nA Som\u00e1lia est\u00e1 em guerra. O conflito perdurou, sob diferentes formas, desde que o governo central entrou em colapso h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, e continua afetando quase todas as partes do pa\u00eds, separando homens de suas fam\u00edlias para lutar por uma s\u00e9rie de grupos armados.<br \/>\nComo a maioria dos que chega a Baidoa, Hadija Abukar escapou recentemente do territ\u00f3rio controlado pelo grupo militante isl\u00e2mico al-Shabab.<br \/>\n&#8220;Mesmo agora estou recebendo liga\u00e7\u00f5es no meu telefone do restante da minha fam\u00edlia. H\u00e1 conflitos l\u00e1 \u2014 entre o governo e a Al-Shabab. Meus parentes fugiram e est\u00e3o se escondendo na floresta&#8221;, diz ela, sentada ao lado de seu filho doente em um pequeno hospital em Baidoa.<br \/>\nOutras mulheres falam de maridos e filhos mais velhos impedidos de deixar \u00e1reas controladas pelos militantes e de anos de extors\u00e3o pelo grupo.<br \/>\nA pr\u00f3pria Baidoa n\u00e3o est\u00e1 totalmente cercada pela al-Shabab, mas continua sendo um local de ref\u00fagio prec\u00e1rio. Organiza\u00e7\u00f5es de ajuda internacional e jornalistas estrangeiros necessitam de muita seguran\u00e7a para se locomover, e qualquer viagem al\u00e9m dos limites da cidade \u00e9 considerada extremamente arriscada.<br \/>\n&#8220;Estamos olhando para as popula\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sitiadas. \u00c0s vezes nos sentimos sem esperan\u00e7a&#8221;, diz Charles Nzuki, respons\u00e1vel pela Unicef, o bra\u00e7o da ONU para a inf\u00e2ncia, no centro e sul da Som\u00e1lia.<br \/>\nMohamed, de 30 meses, acaba de chegar a Baidoa e est\u00e1 em estado cr\u00edtico, assim como sua m\u00e3e<br \/>\nBBC\/Ed Habershon<br \/>\nSegundo algumas estimativas, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o afetada pela atual seca permanece em \u00e1reas controladas pela al-Shabab. As regras r\u00edgidas do governo dos EUA que impedem qualquer envio de assist\u00eancia a \u00e1reas controladas por grupos terroristas designados complicam os esfor\u00e7os para alcan\u00e7ar muitas comunidades desesperadas.<br \/>\nMas as organiza\u00e7\u00f5es internacionais e as autoridades somalis est\u00e3o trabalhando com parceiros locais menores para aumentar o acesso e agora planejam lan\u00e7amentos a\u00e9reos em alguns territ\u00f3rios contestados.<br \/>\nAinda assim, um trabalhador humanit\u00e1rio, falando em sigilo, reconhece ser quase imposs\u00edvel garantir que nenhum alimento ou dinheiro chegasse ao al-Shabab.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o sejamos ing\u00eanuos, [al-Shabab] tributa tudo, at\u00e9 doa\u00e7\u00f5es em dinheiro&#8221;, diz.<br \/>\nAo longo dos anos, o grupo militante estabeleceu uma reputa\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas de viol\u00eancia e intimida\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de fazer justi\u00e7a em um pa\u00eds mergulhado em corrup\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm pelo menos quatro vilarejos pr\u00f3ximos a Baidoa, o al-Shabab administra uma rede de tribunais da Sharia (lei religiosa isl\u00e2mica) que s\u00e3o usados rotineiramente pelos moradores da cidade e, supostamente, por pessoas em Mogad\u00edscio e al\u00e9m, para resolver disputas comerciais e de terra.<br \/>\nMais a nordeste, uma revolta repentina contra a al-Shabab fez com que comunidades locais e mil\u00edcias de cl\u00e3s \u2014 agora fortemente apoiadas pelo governo central \u2014 expulsassem o grupo de dezenas de cidades e vilarejos nas \u00faltimas semanas.<br \/>\nOs sucessos militares provocaram uma onda de otimismo, mas n\u00e3o est\u00e1 claro se isso ajudar\u00e1 na luta contra a fome ou simplesmente distrair\u00e1 o governo somali.<br \/>\n&#8220;Pode, ou pode n\u00e3o [ajudar]. Acho que pode criar mais deslocamento [civil]. Ou o governo pode liberar mais \u00e1reas e as pessoas podem ter mais acesso [\u00e0 ajuda] por todos os lados&#8221;, diz o ministro local Nasir Arush.<br \/>\nNa pr\u00f3pria Baidoa \u2014 uma cidade movimentada de ruas estreitas e de paralelep\u00edpedos marcadas por d\u00e9cadas de conflito e neglig\u00eancia \u2014 os pre\u00e7os de bens b\u00e1sicos, como arroz, dobraram no m\u00eas passado. Muitos moradores culparam a seca, mas outros veem outras raz\u00f5es para isso.<br \/>\n&#8220;Farinha, a\u00e7\u00facar, \u00f3leo \u2014 todos aumentaram na mesma propor\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes temos que pular refei\u00e7\u00f5es. Ouvi falar da guerra entre a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia. As pessoas dizem que essa \u00e9 a raiz desses problemas&#8221;, disse Shukri Moalim Ali, de 38 anos, caminhando at\u00e9 seu po\u00e7o seco e horta est\u00e9ril.<br \/>\nEmbora a luta para evitar uma fome cada vez mais profunda seja o foco imediato nesta regi\u00e3o, o novo governo da Som\u00e1lia tamb\u00e9m est\u00e1 olhando para o futuro.<br \/>\n&#8220;\u00c9 uma tarefa desafiadora, responder \u00e0 seca, lutar contra o al-Shabab e fazer campanha para acessar o financiamento da justi\u00e7a clim\u00e1tica [internacional]&#8221;, diz Abdirahman Abdishakur.<br \/>\n&#8220;Temos uma popula\u00e7\u00e3o jovem, uma enorme di\u00e1spora e habilidades empreendedoras vibrantes. Isso nos d\u00e1 esperan\u00e7a. \u00c9 desafiador, mas n\u00e3o temos alternativa.&#8221;<br \/>\nEste texto foi publicado em www.bbc.com\/portuguese\/internacional-63159484<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Crian\u00e7as est\u00e3o morrendo em n\u00famero crescente em meio \u00e0 pior seca que atingiu a Som\u00e1lia em 40 anos. 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