{"id":69172,"date":"2025-10-26T11:23:00","date_gmt":"2025-10-26T11:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/?p=69172"},"modified":"2025-10-26T11:23:01","modified_gmt":"2025-10-26T11:23:01","slug":"testes-nucleares-deixaram-impactos-em-leitos-de-rios-no-interior-de-sp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2025\/10\/26\/testes-nucleares-deixaram-impactos-em-leitos-de-rios-no-interior-de-sp\/","title":{"rendered":"Testes nucleares deixaram impactos em leitos de rios no interior de SP"},"content":{"rendered":"\n<p>Foto:  Prefeitura de Eldorado\/Divulga\u00e7\u00e3o \/ Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisa de mestrado na \u00e1rea de Geografia F\u00edsica, na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), buscou&nbsp;resqu\u00edcios de radioatividade em ambientes pouco alterados pela a\u00e7\u00e3o humana no interior paulista. L\u00e1 encontrou ind\u00edcios de testes nucleares realizados no come\u00e7o dos anos 1960, investigando a presen\u00e7a de materiais radioativos relacionados aos testes, e concluiu que essa presen\u00e7a pode ser usada como um marcador seguro da a\u00e7\u00e3o humana em n\u00edvel global.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1664086&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1664086&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esses ind\u00edcios s\u00e3o considerados pela comunidade cient\u00edfica como um marcador seguro do que hoje \u00e9 chamado Antropoceno, per\u00edodo em que o maior fator de altera\u00e7\u00e3o dos ambientes \u00e9 justamente a a\u00e7\u00e3o humana, seja ao construir, explorar ou simplesmente espalhar materiais ao redor do planeta<\/strong>. A radia\u00e7\u00e3o, como produto de reatores e armas, \u00e9 uma dessas marcas, pode ser medida dezenas e mesmo centenas de anos ap\u00f3s se espalhar&nbsp;e servir de refer\u00eancia para contar a hist\u00f3ria da Terra e do impacto de nossa esp\u00e9cie nela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Entre os anos de 1953 e 1962, os Estados Unidos, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o Reino Unido e a Fran\u00e7a realizaram a maior parte dos cerca de 2 mil&nbsp;testes nucleares feitos at\u00e9 hoje<\/strong>. Em 1962, ano com maior quantidade, foram mais de 120 testes, e em 1958 foram mais de 100. As bombas, na \u00e9poca artefatos do tipo termonuclear (em que uma bomba at\u00f4mica dispara uma bomba de fiss\u00e3o), chegaram a ser mais de 3&nbsp;mil vezes mais poderosas que a bomba de Hiroshima, caso da Tsar Bomb, artefato que os sovi\u00e9ticos testaram em 1961.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda explos\u00e3o at\u00f4mica gera ondas de choque e de calor, mas h\u00e1&nbsp;outro impacto: elas espalham material radioativo, o chamado Fallout, ou chuva radioativa. Na explos\u00e3o, o n\u00facleo da bomba se espalha, essas part\u00edculas v\u00e3o caindo aos poucos e se depositam. A maior parte dessa queda \u00e9 perto dos locais de teste, com concentra\u00e7\u00f5es que aumentam as taxas de adoecimento das popula\u00e7\u00f5es, mas fatores como o vento podem fazer com que elas viajem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os testes, na \u00e9poca, foram concentrados no Hemisf\u00e9rio Norte, em \u00e1reas como o \u00c1rtico, os desertos dos Estados Unidos e ilhas do Oceano Pac\u00edfico, e a maior parte da deposi\u00e7\u00e3o ocorreu por l\u00e1. Parte dessa queda, por\u00e9m, chegou ao Brasil, e foram medidas tanto no litoral da Regi\u00e3o Sudeste, por grupos distintos de geof\u00edsicos durante a d\u00e9cada passada, quanto pelo trabalho de mestrado de Breno Rodrigues, realizado entre as cidades de Eldorado e Sete Barras, no interior paulista.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esse material n\u00e3o tem concentra\u00e7\u00e3o suficiente para representar risco \u00e0 sa\u00fade, mas conta uma hist\u00f3ria interessante. Com os testes de 1962, o ano com maior queda de part\u00edculas radioativas foi 1963. Ap\u00f3s esse ano, a press\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica com a divulga\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es afetadas pelos testes e o medo crescente de uma guerra nuclear, especialmente ap\u00f3s a Crise dos M\u00edsseis de Cuba, em outubro de 1962, levaram a um acordo entre as tr\u00eas principais na\u00e7\u00f5es com arsenais at\u00f4micos. O Tratado de Proibi\u00e7\u00e3o Parcial de Testes (PTBT, na sigla em ingl\u00eas) foi firmado entre os Estados Unidos, o Reino Unido e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em agosto de 1963.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desde ent\u00e3o, grupos de geof\u00edsicos t\u00eam investigado a presen\u00e7a de tr\u00eas marcadores principais, o Carbono 14, os radiois\u00f3topos de Plut\u00f4nio e o C\u00e9sio-137<\/strong>. Eles s\u00e3o pesquisados&nbsp;principalmente em ambientes com pouca ou nenhuma presen\u00e7a humana, pois isso afasta outras hip\u00f3teses de contamina\u00e7\u00e3o, como descarte ou contamina\u00e7\u00e3o por materiais radioativos ligados \u00e0&nbsp;gera\u00e7\u00e3o de energia ou uso para fins industriais ou de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso de manguezais, geleiras, montanhas ou ilhas, normalmente. Para esse grupo da USP, esse \u201cponto de controle\u201d est\u00e1 no Rio Ribeira, na regi\u00e3o sul do estado de S\u00e3o Paulo, pr\u00f3ximo ao Paran\u00e1. A regi\u00e3o, que conta com quilombos, \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o permanentes e um conjunto impressionante de cavernas naturais, t\u00eam ocupa\u00e7\u00e3o urbana e agr\u00edcola pouco intensa, o que exclui outras fontes de contamina\u00e7\u00e3o radioativa. Al\u00e9m disso \u00e9 bem conhecida pelas equipes da Geof\u00edsica da USP, que a acompanham h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cQuer\u00edamos estudar a ocorr\u00eancia de marcadores do Antropoceno em um sistema natural com alto grau de preserva\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es humanas. N\u00e3o escolhemos represas ou trechos de rio da capital por esse motivo, pois ter\u00edamos uma gama significativa de interven\u00e7\u00f5es e mudan\u00e7as derivadas da urbaniza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua por compostos org\u00e2nicos e\/ou industriais que poderiam complexar os resultados.&nbsp;Como quer\u00edamos compreender a intera\u00e7\u00e3o do marcador com sistema fluvial em condi\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas das naturais sem interven\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, o Ribeira foi nossa melhor escolha\u201d, disse&nbsp;Rodrigues \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>O grupo, coordenado pela professora Cleide Rodrigues, tem bom conhecimento da din\u00e2mica de rios com bastante curvas, como o Ribeira, chamados rios me\u00e2ndricos<\/strong>. A din\u00e2mica desses corpos d\u2019\u00e1gua determina como os tra\u00e7os de C\u00e9sio podem (ou n\u00e3o) ser acumulados e preservados no interior do sistema fluvial, facilitando a an\u00e1lise do impacto de fen\u00f4menos globais, como a chuva radioativa de 1963. Os testes franceses e chineses continuaram nos anos 1960 e 1970, mas em quantidades bem menores.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cNo nosso caso, nos auxiliou a entender como o Rio Ribeira de Iguape, em seu conjunto din\u00e2mico, interagiu com os produtos dessas precipita\u00e7\u00f5es radioativas\u201d, explicou Breno. A escolha do C\u00e9sio, inclusive, se deu pois ele n\u00e3o tem fontes n\u00e3o humanas.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Trabalhando numa \u00e1rea espec\u00edfica do conhecimento, a geomorfologia fluvial, o grupo procurou n\u00e3o apenas a presen\u00e7a do marcador, mas sua distribui\u00e7\u00e3o espacial e o impacto que a din\u00e2mica do rio tem nesse material. O C\u00e9sio-137 \u00e9 um dos principais resultados de uma explos\u00e3o por fiss\u00e3o nuclear, como resultado da divis\u00e3o de um \u00e1tomo de ur\u00e2nio, material bem mais pesado. Ele tem&nbsp;meia-vida, ou seja, o tempo em que metade dele deixa de ser radioativo e se transforma em elementos&nbsp;mais est\u00e1veis, no caso o B\u00e1rio, de 30 anos. Esse processo se chama decaimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dessa forma, menos de um quarto do C\u00e9sio-137 emitido nos testes do come\u00e7o dos anos 1960 est\u00e1 na natureza, mas ainda pode ser detectado e \u00e9 radioativo, sem riscos para a sa\u00fade humana.<\/strong> \u201cA determina\u00e7\u00e3o da atividade do radionucl\u00eddeo (o C\u00e9sio-137), isto \u00e9, a quantidade de decaimentos, ajuda&nbsp;tamb\u00e9m a indicar a idade e, neste caso, determinar qual a origem e cronologia espec\u00edfica que o radionucl\u00eddeo foi depositado na \u00e1rea\u201d, explicou o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cN\u00f3s confirmamos e refor\u00e7amos a ocorr\u00eancia residual de C\u00e9sio-137 nos sedimentos do Rio Ribeira, compat\u00edvel com o<em>&nbsp;fallout<\/em> atmosf\u00e9rico da Guerra Fria, por\u00e9m conclu\u00edmos que a distribui\u00e7\u00e3o do C\u00e9sio entre os pontos de amostragem \u00e9 descont\u00ednua em fun\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica fluvial e dos processos associados aos solos nas plan\u00edcies. Isso nos mostrou que estes marcadores potencialmente s\u00e3o continuamente retrabalhados pelos processos naturais e podem assumir diferentes posi\u00e7\u00f5es na plan\u00edcie fluvial, a depender da sua ocorr\u00eancia\u201d, concluiu Rodrigues.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A<a href=\"https:\/\/www.editorarealize.com.br\/editora\/anais\/sinageo\/2025\/TRABALHO_COMPLETO_EV217_ID1051_TB659_26072025003326.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> pesquisa tem continuidade<\/a>, pois Breno \u00e9 agora doutorando na Geografia. Sua disserta\u00e7\u00e3o deve ser disponibilizada ainda neste&nbsp;semestre, mas outros trabalhos seus, como a participa\u00e7\u00e3o em congresso, ajudam a entender os detalhes t\u00e9cnicos do estudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Prefeitura de Eldorado\/Divulga\u00e7\u00e3o \/ Ag\u00eancia Brasil Pesquisa de mestrado na \u00e1rea de Geografia F\u00edsica, na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), buscou&nbsp;resqu\u00edcios de radioatividade em ambientes pouco alterados pela a\u00e7\u00e3o humana no interior paulista. 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