{"id":69111,"date":"2025-10-25T01:38:28","date_gmt":"2025-10-25T01:38:28","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/?p=69111"},"modified":"2025-10-25T01:38:29","modified_gmt":"2025-10-25T01:38:29","slug":"professores-da-eja-revelam-os-desafios-e-encantos-de-ensinar-jovens-e-adultos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2025\/10\/25\/professores-da-eja-revelam-os-desafios-e-encantos-de-ensinar-jovens-e-adultos\/","title":{"rendered":"Professores da EJA revelam os desafios e encantos de ensinar jovens e adultos"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Foto: Jefferson Peixoto \/ Secom PMS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>\u00c0 noite, quando a cidade come\u00e7a a desacelerar, a Escola Municipal Senador Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, localizada na Avenida Vasco da Gama, no bairro do Acupe de Brotas, ganha uma nova vida. As salas, iluminadas, abrigam hist\u00f3rias que se cruzam, vozes que se erguem e sonhos que renascem. Ali, cerca de 60 estudantes da Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA) retomam a trajet\u00f3ria escolar interrompida em algum ponto do passado. S\u00e3o trabalhadores, donas de casa, jovens e idosos que, ap\u00f3s longas jornadas, voltam a sentar-se diante de um caderno em branco, s\u00edmbolo de um recome\u00e7o poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>A EJA, modalidade oferecida pela Prefeitura de Salvador por meio da Secretaria Municipal da Educa\u00e7\u00e3o (Smed), garante a conclus\u00e3o do ensino fundamental, da alfabetiza\u00e7\u00e3o ao 9\u00ba ano, para quem n\u00e3o p\u00f4de estudar na idade regular. Mais do que uma pol\u00edtica educacional, ela representa um projeto de dignidade e esperan\u00e7a, resgatando o direito \u00e0 aprendizagem e o sentimento de pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a diretora Ivone Carlos, o papel da EJA vai muito al\u00e9m do ensino formal. \u201cO trabalho com a EJA \u00e9 muito relevante para a gente, mas \u00e9 ainda mais relevante para os estudantes. S\u00e3o pessoas que, por algum motivo, n\u00e3o cursaram a escola no tempo certo. Muitos trabalham o dia inteiro e estudam \u00e0 noite. \u00c9 uma oportunidade de reconstruir caminhos\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela reconhece que manter os alunos motivados \u00e9 um dos maiores desafios. \u201cO aluno da EJA desiste com facilidade. \u00c0s vezes, ele se cansa, enfrenta problemas pessoais, e cabe \u00e0 escola mostrar que esse espa\u00e7o \u00e9 importante para a vida dele. Quando ele percebe que a escola \u00e9 um lugar de acolhimento, tudo muda\u201d, acrescentou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ACOLHIMENTO<\/strong>&nbsp;&#8211; A rotina dos estudantes \u00e9 exigente. O dia come\u00e7a cedo, entre o trabalho e as responsabilidades familiares, e termina \u00e0 noite, em meio a livros, colegas e professores. Mesmo cansados, chegam \u00e0 escola com vontade de aprender \u2014 e de serem ouvidos. \u201cTemos jovens de 16 anos e senhoras de at\u00e9 70. Nosso compromisso \u00e9 manter uma escola organizada, com recursos, que incentive e motive o aluno a permanecer. Essa sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento faz toda diferen\u00e7a\u201d, ressaltou Ivone.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela destaca que a escola precisa ir al\u00e9m da fun\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica: deve ser um espa\u00e7o de cuidado, escuta e empatia. \u201cS\u00e3o pessoas que trazem bagagens de vida muito diversas. O trato, o cuidado, o olhar atento, tudo isso conta. A escola precisa ser esse lugar de confian\u00e7a e de acolhimento, onde o aluno se sinta respeitado e valorizado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.trbn.com.br\/virtual\/images\/cache\/post_principal\/images\/posts\/6b\/03\/93be6465beb1f489c98782e05166.jpeg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Foto: Jefferson Peixoto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A professora L\u00edcia Tereza Cajazeira Maia conhece de perto os desafios e as recompensas de atuar nessa modalidade. H\u00e1 20 anos na EJA, ela aprendeu que educar adultos exige uma combina\u00e7\u00e3o de paci\u00eancia, sensibilidade e criatividade. \u201cQuando conheci a EJA, me apaixonei, porque \u00e9 totalmente diferente de ensinar crian\u00e7as. Aqui temos adolescentes, adultos e idosos, cada um com um ritmo e um objetivo pr\u00f3prio. Eu precisei aprender como encantar esse p\u00fablico, porque, se o professor n\u00e3o encantar, o aluno n\u00e3o fica\u201d, contou.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro passo, segundo L\u00edcia, \u00e9 entender quem \u00e9 o aluno e o que o motiva a estar ali. \u201cTem gente que quer aprender a ler a B\u00edblia, outro quer entender as legendas de um filme, outro quer reconhecer as letras nas placas da rua. Cada um tem um motivo para estar aqui. Eu sempre pergunto no in\u00edcio do ano o que cada um deseja aprender. O ensino parte desse desejo, dessa necessidade\u201d, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00edcia adota uma metodologia baseada em temas do cotidiano, aproximando o conte\u00fado escolar da realidade do aluno. \u201cUso jornal f\u00edsico toda semana. Eles precisam entender o mundo, saber o que \u00e9 fake e o que \u00e9 verdade. Tamb\u00e9m trabalhamos o letramento digital, para que aprendam a pesquisar, digitar, identificar sites confi\u00e1veis. Eles se sentem valorizados quando percebem que conseguem usar o computador, ler uma manchete ou entender uma not\u00edcia. Isso \u00e9 libertador\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DESAFIOS<\/strong>&nbsp;&#8211; A professora reconhece que nem tudo \u00e9 simples. As dificuldades v\u00e3o muito al\u00e9m do ensino. \u201cMuitos alunos t\u00eam problemas de sa\u00fade e n\u00e3o conseguem atendimento adequado. Outros enfrentam situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia ou moram em \u00e1reas de risco. Isso interfere diretamente no aprendizado. H\u00e1 noites em que a gente precisa encerrar mais cedo, porque o aluno n\u00e3o pode chegar tarde em casa. A viol\u00eancia, infelizmente, \u00e9 uma realidade que afeta a perman\u00eancia deles na escola\u201d, lamentou.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor Jos\u00e9 Messias Silva, com mais de duas d\u00e9cadas de sala de aula \u2014 sendo dez anos dedicados \u00e0 EJA \u2014, confirma essa realidade. \u201cA viol\u00eancia \u00e9 uma grande preocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o que ela chegue \u00e0 escola, mas muitos alunos precisam sair mais cedo por medo. Eles dizem: \u2018Meu bairro est\u00e1 perigoso, n\u00e3o posso chegar depois das 21h\u2019. As aulas v\u00e3o at\u00e9 21h50, mas, por seguran\u00e7a, muitas vezes liberamos antes. \u00c9 um desafio que d\u00f3i, porque sabemos que cada minuto de aula faz diferen\u00e7a para quem lutou tanto para estar aqui\u201d, relatou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>TRANSFORMA\u00c7\u00c3O<\/strong>&nbsp;&#8211; Apesar das dificuldades, Messias v\u00ea na EJA um espa\u00e7o de transforma\u00e7\u00e3o social e pessoal. \u201cO que me motiva \u00e9 justamente isso: poder contribuir com essa repara\u00e7\u00e3o. S\u00e3o pessoas que n\u00e3o conseguiram estudar na idade certa e agora est\u00e3o tendo uma nova chance. Trabalhar com a EJA \u00e9 trabalhar com hist\u00f3rias de supera\u00e7\u00e3o\u201d, refletiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Professor de Artes, ele transforma a experi\u00eancia de vida dos alunos em mat\u00e9ria-prima para o aprendizado. \u201cNa EJA, conseguimos aproveitar a bagagem de cada um. Essa troca \u00e9 muito rica. Eu aprendo com eles todos os dias\u201d, contou. Para ele, cada conquista \u00e9 uma vit\u00f3ria coletiva. \u201cVer um aluno que mal sabia escrever o pr\u00f3prio nome conseguir redigir um bilhete ou uma carta \u00e9 emocionante. Lembro de uma aluna de 74 anos que perdeu a irm\u00e3 e, mesmo assim, foi \u00e0 escola porque dizia que ali se sentia acolhida. Isso mostra o quanto esse espa\u00e7o \u00e9 essencial. Eles encontram aqui n\u00e3o apenas aprendizado, mas companhia, escuta e afeto.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A diretora Ivone refor\u00e7a que a escola e os professores trabalham juntos para evitar a evas\u00e3o escolar, um dos maiores desafios da modalidade. \u201cA gente liga, faz busca ativa, tenta entender o motivo da aus\u00eancia. \u00c0s vezes \u00e9 cansa\u00e7o, medo, doen\u00e7a ou at\u00e9 falta de dinheiro para o transporte. Cada caso \u00e9 um caso. Mas sempre tentamos trazer o aluno de volta, mostrar que desistir n\u00e3o \u00e9 o caminho\u201d, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o corpo docente investe em a\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas e culturais para manter o interesse dos estudantes. Projetos interdisciplinares, oficinas e visitas externas fazem parte da rotina. \u201cLevamos os alunos ao teatro, a museus, a eventos culturais. Eles ficam encantados, porque muitos nunca tiveram a chance de vivenciar isso. Quando voltam, trazem novas perguntas, novas curiosidades. \u00c9 lindo ver o brilho nos olhos deles\u201d, contou o professor Messias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>APRENDIZADO<\/strong>&nbsp;&#8211; Os educadores concordam que ensinar na EJA \u00e9 uma experi\u00eancia transformadora n\u00e3o s\u00f3 para os alunos, mas tamb\u00e9m para quem ensina. \u201cFica evidente que o trabalho com a EJA exige muito mais do que planejamento e did\u00e1tica. \u00c9 um exerc\u00edcio di\u00e1rio de sensibilidade. O professor precisa olhar para o aluno como algu\u00e9m que n\u00e3o apenas quer aprender, mas que tamb\u00e9m busca se reconhecer como sujeito de direitos, de voz e de possibilidades\u201d, destacou Messias.<\/p>\n\n\n\n<p>A cada noite de aula, o que se v\u00ea nas salas da EJA \u00e9 um retrato da persist\u00eancia e da esperan\u00e7a. Alunos e professores compartilham o mesmo objetivo: reconstruir trajet\u00f3rias e provar que nunca \u00e9 tarde para aprender. Como resume a diretora Ivone, \u201ca EJA \u00e9 uma segunda chance, e talvez a mais bonita de todas, porque \u00e9 constru\u00edda com esfor\u00e7o, coragem e f\u00e9 no poder da educa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Jefferson Peixoto \/ Secom PMS \u00c0 noite, quando a cidade come\u00e7a a desacelerar, a Escola Municipal Senador Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, localizada na Avenida Vasco da Gama, no bairro do Acupe de Brotas, ganha uma nova vida. 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