{"id":6817,"date":"2022-10-04T07:14:53","date_gmt":"2022-10-04T07:14:53","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/04\/sao-francisco-de-assis-o-santo-que-inspira-o-atual-papa-e-que-se-tornou-simbolo-de-luta-ambiental\/"},"modified":"2022-10-04T07:14:53","modified_gmt":"2022-10-04T07:14:53","slug":"sao-francisco-de-assis-o-santo-que-inspira-o-atual-papa-e-que-se-tornou-simbolo-de-luta-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/04\/sao-francisco-de-assis-o-santo-que-inspira-o-atual-papa-e-que-se-tornou-simbolo-de-luta-ambiental\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Francisco de Assis, o santo que inspira o atual papa e que se tornou s\u00edmbolo de luta ambiental"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/wbANlwx1UedByCv_LIap6azF3p0=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/t\/G\/UfjfIAQauNdOaVOzsRwA\/acvb.jpg\"><br \/>   Alguns costumam comparar que houve &#8216;o Francisco de Assis e agora h\u00e1 o Francisco de Roma&#8217;, diz o te\u00f3logo Luiz Carlos Susin. Pintura do fim do s\u00e9culo 13 ilustra S\u00e3o Francisco pregando aos p\u00e1ssaros<br \/>\nDOM\u00cdNIO P\u00daBLICO<br \/>\nQuando, em 13 de mar\u00e7o de 2013, o cardeal argentino Jorge Bergoglio foi apresentado \u00e0 multid\u00e3o na Pra\u00e7a S\u00e3o Pedro como o papa eleito para suceder Bento 16, houve um momento de expectativa: que nome ele escolheria para ser a marca do seu pontificado?<br \/>\nPela tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, papas assumem uma nova identidade quando chegam ao poder. Mais do que uma mera formalidade, o nome abra\u00e7ado tamb\u00e9m procura, n\u00e3o raras vezes, trazem a mensagem que o l\u00edder cat\u00f3lico pretende imprimir \u00e0 sua \u00e9poca.<br \/>\nE Bergoglio se tornou Francisco. O primeiro papa da hist\u00f3ria da Igreja com este nome. Sem d\u00favida nenhuma, naquele instante, o argentino estava apresentando sua proposta ao mundo, numa esp\u00e9cie de plano de governo, antecipando o que viria a ser a t\u00f4nica do seu pontificado.<br \/>\nNum contexto hist\u00f3rico em que a trag\u00e9dia clim\u00e1tica e ambiental parece irrevers\u00edvel, papa Francisco \u00e9 uma voz l\u00facida acerca da necessidade de prote\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, do &#8220;cuidado com a casa comum&#8221;, como ele tanto clama. E num momento de crise da humanidade, ele insiste na import\u00e2ncia do acolhimento e no fundamental da caridade e da inclus\u00e3o dos mais pobres.<br \/>\nPapa Francisco ecoa, oito s\u00e9culo depois, os princ\u00edpios de um dos santos mais famosos da hist\u00f3ria do cristianismo: S\u00e3o Francisco de Assis, cuja data \u00e9 celebrada pelos cat\u00f3licos no dia 4 de outubro \u2014 de acordo com a tradi\u00e7\u00e3o, ele morreu na noite do dia 3 para o dia 4 de outubro de 1226.<br \/>\n&#8220;A rela\u00e7\u00e3o de papa Francisco com S\u00e3o Francisco de Assis \u00e9 muito grande. S\u00e3o Francisco \u00e9 a fonte de inspira\u00e7\u00e3o para o atual papado, pelo modo de conduzir a Igreja hoje. Francisco recupera uma Igreja mais pr\u00f3xima do evangelho, mais pr\u00f3xima de Jesus&#8221;, avalia frei Mario Tagliari, reitor do Santu\u00e1rio S\u00e3o Francisco, em S\u00e3o Paulo.<br \/>\n&#8220;S\u00e3o Francisco de Assis viveu em comunh\u00e3o com a Igreja, mas provocou uma grande mudan\u00e7a a partir da radicalidade de viver o Evangelho&#8221;, pontua ele. &#8220;Papa Francisco busca seu nome por causa de S\u00e3o Francisco de Assis.&#8221;<br \/>\nPintura de Giotto, feita no fim do s\u00e9culo 13, ilustra o momento em que S\u00e3o Francisco desfez-se de suas roupas para assumir a vida junto aos pobres<br \/>\nDom\u00ednio p\u00fablico<br \/>\nPor causa disso, hoje alguns costumam comparar que houve &#8220;o Francisco de Assis e agora h\u00e1 o Francisco de Roma&#8221;, como lembra o te\u00f3logo Luiz Carlos Susin, tamb\u00e9m frade franciscano, professor na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica no Rio Grande do Sul e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana.<br \/>\n&#8220;Tudo at\u00e9 hoje mostra que de fato veio de Francisco de Assis a inspira\u00e7\u00e3o [para a escolha do nome do atual papa]&#8221;, comenta Susin.<br \/>\nO te\u00f3logo admite que, &#8220;pessoalmente&#8221;, desde o in\u00edcio achou &#8220;muito desafiante e complicado&#8221; para um papa assumir tal identidade.<br \/>\n&#8220;Porque Francisco de Assis, pelo seu modelo e sua sensibilidade, pela crise que atravessou e pela desapropria\u00e7\u00e3o que viveu, aquela liberdade com que viveu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas e ao sistema do mundo, ele teve o que podemos chamar de sensibilidade antissist\u00eamica&#8221;, contextualiza.<br \/>\n&#8220;Aquela inoc\u00eancia em n\u00e3o se enquadrar em coisa nenhuma\u2026 E o papa governa uma institui\u00e7\u00e3o imensa com mais de 1 bilh\u00e3o de pessoas [cat\u00f3licas], com uma complica\u00e7\u00e3o enorme em termos jur\u00eddicos, institucionais\u2026 Parece um paradoxo, cria uma tens\u00e3o muito grande.&#8221;<br \/>\n&#8220;E esse papa tem vivido essa tens\u00e3o grande entre a prega\u00e7\u00e3o dele, bem franciscana, e o que ele tem de levar nas costas, um tamanh\u00e3o institucional que Francisco de Assis n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de carregar&#8221;, compara.<br \/>\nSusin recorda a homilia de inaugura\u00e7\u00e3o do atual pontificado para destacar tr\u00eas pontos de conex\u00e3o entre os dois Franciscos separados por 800 anos: a busca por uma Igreja mais simples, pobre e despojada; o di\u00e1logo ecum\u00eanico e o discurso pela paz; e o cuidado com a cria\u00e7\u00e3o, com o meio ambiente.<br \/>\n&#8220;Podemos dizer que o papa tem desenvolvido seu programa baseado nesses tr\u00eas pilares bastante franciscanos&#8221;, argumenta.<br \/>\nFrei Marcelo Toyansk Guimar\u00e3es, da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a, Paz e Integridade da Cria\u00e7\u00e3o dos Frades Capuchinhos e assessor da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil, comenta que o papa &#8220;trouxe para Roma e para o pr\u00f3prio espa\u00e7o do Vaticano diversas pr\u00e1ticas&#8221; de aux\u00edlio aos pobres \u2014 como lavanderia para moradores de rua e encontros com movimentos sociais. E isto dialoga profundamente com o carisma franciscano.<br \/>\nAl\u00e9m disso, Guimar\u00e3es enfatiza que a vis\u00e3o de S\u00e3o Francisco est\u00e1 presente de forma fundamental em duas enc\u00edclicas, a Laudato Si&#8217; e a Fratelli Tutti. &#8220;Temos um papa que, em todos os sentidos, est\u00e1 marcado pela espiritualidade franciscana&#8221;, diz.<br \/>\nBiografia<br \/>\nNascido em 1181 ou 1182 na cidade de Assis, atual It\u00e1lia, ele foi batizado como Giovanni di Pietro di Bernardone e era filho de uma fam\u00edlia relativamente bem-sucedida.<br \/>\nSeu pai, Pietro di Bernardone dei Moriconi, era um comerciante t\u00eaxtil que tinha bom tr\u00e1fego entre a burguesia estabelecida na \u00e9poca. Sua m\u00e3e, Pica Bourlemont, era uma mulher de ra\u00edzes francesas.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 consenso sobre o seu apelido Francisco. Provavelmente, era uma refer\u00eancia \u00e0 Fran\u00e7a. Para alguns bi\u00f3grafos, porque desde pequeno o menino tinha encantamento pelo idioma, pela m\u00fasica e pela cultura francesa.<br \/>\nPara outros, seria uma homenagem da fam\u00edlia aos parentes franceses da m\u00e3e. O que parece n\u00e3o haver d\u00favidas \u00e9 que se trata de um nome que foi assumido antes da vida religiosa \u2014 ou seja, desde a tenra juventude Giovanni j\u00e1 era chamado de Francesco, em portugu\u00eas Francisco, pelos seus amigos.<br \/>\nE teria sido uma juventude bastante agitada. Visto como exc\u00eantrico e indisciplinado, Francisco gostava de festas, bebida e n\u00e3o economizava o dinheiro do pai na hora de se divertir.<br \/>\nPor volta dos 23 anos, ele passou a ter uma s\u00e9rie de vis\u00f5es m\u00edsticas. Aos poucos, passou a se desinteressar pelos prazeres mundanos e convenceu-se que o melhor seria adquirir h\u00e1bitos mais frugais e pr\u00f3ximos dos pobres. Depois de um retiro em uma caverna, decidiu que n\u00e3o queria se casar \u2014 mas, sim, abra\u00e7ar a vida religiosa.<br \/>\nSonhos com mensagens avaliadas por ele como divinas passaram a ser recorrentes. E certa vez ele, ao ouvir os sinos que os leprosos eram obrigados a usar para alertar as pessoas do risco de cont\u00e1gio, em vez de afastar-se, aproximou-se.<br \/>\nA repulsa deu lugar ao cuidado: Francisco deu seu manto ao homem que sentia frio e sentiu um prazer inexplic\u00e1vel ao ver, em seus olhos, a gratid\u00e3o.<br \/>\nPara os seus bi\u00f3grafos, esse foi o ponto de virada em sua biografia, quando ele realmente decidiu dedicar-se aos pobres. Em seguida, Francisco pegou o estoque de tecidos do seu pai, vendeu a pre\u00e7os m\u00f3dicos no centro da cidade, e doou todo o dinheiro para a Igreja.<br \/>\nPietro revoltou-se e descobriu o filho escondido em um celeiro. Levou-o para casa e deixou-o preso, acorrentado, no por\u00e3o. Com a ajuda da m\u00e3e, Francisco conseguiu escapar. E foi procurar abrigo junto ao bispo.<br \/>\nO pai seguiu os passos, pretendendo tirar satisfa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 com o filho, mas tamb\u00e9m com o l\u00edder religioso da regi\u00e3o. Para a surpresa de todos, Francisco debateu com o pai, tirou todas as suas vestes e devolveu-as a ele.<br \/>\nRenunciou a qualquer direito que teria como heran\u00e7a e partiu, nu, para uma vida entre os pobres. O bispo teria aben\u00e7oado o jovem e admirado sua postura.<br \/>\nIsso teria ocorrido provavelmente em 1208. No ano seguinte, Francisco fundaria seu grupo religioso, a Ordem dos Frades Menores, com princ\u00edpios claros de servi\u00e7o aos pobres, humildade e uma profunda liga\u00e7\u00e3o com a natureza.<br \/>\nEssa postura de Francisco, com boas doses de rebeldia nas condutas para conseguir realizar seus ideais humanit\u00e1rios, faz com que muitos vejam seu papel como o de um verdadeiro reformador dos valores da Igreja Cat\u00f3lica.<br \/>\n&#8220;Em minha vis\u00e3o, ele foi um homem estupendo que, mesmo antes de [Martinho] Lutero [(1483-1546), que rompeu com a Igreja e fundou o protestantismo] questionou a Igreja. Alguns pesquisadores dizem que ele foi um reformador sem sair da Igreja, pois questionava a riqueza e via a pobreza como algo significativo&#8221;, afirma o estudioso de hagiologias Thiago Maerki, pesquisador da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo  associado da Hagiography Society, dos Estados Unidos.<br \/>\n&#8220;Francisco tinha uma postura humilde, era o santo da alegria e fazia tudo pela paz. Pensava nos outros, tinha empatia, se preocupava com aqueles que forem&#8221;, comenta.<br \/>\nE sua atualidade tamb\u00e9m reside nesse fato. &#8220;A preocupa\u00e7\u00e3o com os que sofrem \u00e9 uma pauta contempor\u00e2nea. Ele falava isso na Idade M\u00e9dia, criticando a mis\u00e9ria, o poder o status do clero que n\u00e3o ligava para os que necessitavam. Foi um santo extremamente complexo&#8221;, analisa Maerki.<br \/>\n&#8220;Suas ideias v\u00e3o ao encontro daquilo que geralmente se prega no mundo contempor\u00e2neo, cada vez mais capitalista, material e do &#8216;eu sem pensar no outro&#8217;.&#8221;<br \/>\nPara o pesquisador, a figura de Francisco de Assis se tornou &#8220;extremamente simb\u00f3lica&#8221; justamente porque em uma &#8220;\u00e9poca em que muitos defendiam a riqueza, inclusive a hierarquia eclesi\u00e1stica&#8221;, ele acabaria, em sua ordem, decretando que os frades tinham de habitar casas mais simples, ter uma vida mais simples. &#8220;O h\u00e1bito franciscano era a roupa das pessoas pobres da \u00e9poca&#8221;, exemplifica.<br \/>\n&#8220;Ele era uma pessoa antissistema, uma pessoa desconcertante. Estava sempre ao lado dos pobres, mas conseguia dialogar e trazer essa vida para o seio da Igreja&#8221;, analisa Guimar\u00e3es. &#8220;Ele fez um processo radical de fraternidade com os mais pobres, mudando seu status de vida para ser pobres e isso \u00e9 sempre significativo.&#8221;<br \/>\nNarrativas<br \/>\nPesquisar sobre a vida e a obra de S\u00e3o Francisco \u00e9 mergulhar em uma seara de m\u00faltiplas facetas. Por um lado, muitos de seus contempor\u00e2neos escreveram sobre ele, com as primeiras hagiografias tendo sido feitas pouco tempo ap\u00f3s sua morte, em 1226. Contudo, os primeiros franciscanos tamb\u00e9m se viram em meio a uma guerra de narrativas.<br \/>\n&#8220;A vida de Francisco est\u00e1 envolta em pol\u00eamicas e isso perpassa toda sua trajet\u00f3ria&#8221;, diz Maerki, que dedica toda sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica, da gradua\u00e7\u00e3o ao p\u00f3s-doutorado, ao estudo de textos sobre S\u00e3o Francisco.<br \/>\nEle conta que o primeiro relato sobre a vida do santo foi escrito pelo frade Tom\u00e1s de Celano, que viveu aproximadamente entre 1200 e 1265. &#8220;Sua obra se torna uma esp\u00e9cie de legenda oficial da vida de Francisco, mas outras v\u00e3o surgindo, escritas por outros companheiros de Francisco, inclusive por frades que eram muito pr\u00f3ximos a ele e conheciam muito bem a vida dele. S\u00e3o v\u00e1rias hagiografias e escritos que come\u00e7am a apresentar vers\u00f5es e outras facetas do santo. O que a gente conhece hoje \u00e9 fruto de uma tradi\u00e7\u00e3o, uma constru\u00e7\u00e3o de &#8216;muitos Franciscos'&#8221;, avalia ele.<br \/>\nMaerki recorda que havia grupos internos dentro da ordem franciscana que &#8220;disputavam uma certa narrativa&#8221;. E, por isso, em 1260, o religioso Jo\u00e3o Boaventura \u2014 depois canonizado como S\u00e3o Boaventura \u2014 foi incumbido de &#8220;escrever uma nova vida [de S\u00e3o Francisco] para apaziguar os an\u00f4nimos&#8221; e chegar \u00e0 &#8220;biografia oficial&#8221;. Ent\u00e3o houve um decreto que passou a desconsiderar todas as narrativas anteriores \u2014 e, acredita-se, muitos textos tenham sido destru\u00eddos.<br \/>\n&#8220;Acabaram sobrevivendo os que estavam guardados em bibliotecas de outras ordens religiosas, por exemplo, ou que ca\u00edram em m\u00e3os de particulares que n\u00e3o seguiram o decreto franciscano&#8221;, comenta Maerki.<br \/>\nSegundo o pesquisador, a vers\u00e3o oficializada foi a que predominou at\u00e9 o s\u00e9culo 17, quando estudiosos passaram a resgatar outros relatos antigos sobre Francisco a fim de compor o mosaico de sua vida. No momento, o pr\u00f3prio Maerki est\u00e1 trabalhando em uma biografia de S\u00e3o Francisco escrita originalmente em portugu\u00eas, do s\u00e9culo 16 \u2014 em breve, uma edi\u00e7\u00e3o da mesma preparada pelo pesquisador brasileiro deve ser lan\u00e7ada em livro. Trata-se da obra &#8216;Cr\u00f4nicas da Ordem dos Frades Menores&#8217;, escrita pelo franciscano Marcos de Lisboa (1511-1591) em 1557.<br \/>\n&#8220;Ele comenta, em uma esp\u00e9cie de pref\u00e1cio, que andou por praticamente toda a Europa em busca de textos acerca de Francisco de Assis e, com base neles, escreveu&#8221;, conta. &#8220;De certa forma, ele antecipou um car\u00e1ter cient\u00edfico de constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, n\u00e3o queria construir a hist\u00f3ria baseada em achismos ou naquilo que ouvia falar, n\u00e3o queria depender da tradi\u00e7\u00e3o oral.&#8221;<br \/>\nNatureza<br \/>\nSe hoje S\u00e3o Francisco \u00e9 visto como o santo mais ligado ao meio ambiente, \u00e9 preciso lembrar que essa no\u00e7\u00e3o n\u00e3o encontra eco nos discursos de seu tempo. &#8220;Muitas vezes ele \u00e9 tomado como uma esp\u00e9cie de \u00edcone para a causa ambiental mas isso \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o muito recente&#8221;, argumenta Maerki.<br \/>\n&#8220;Obviamente que essa quest\u00e3o ambiental n\u00e3o era uma preocupa\u00e7\u00e3o, uma demanda do mundo medieval&#8221;, salienta. &#8220;O que temos nas primeiras legendas sobre S\u00e3o Francisco \u00e9 justamente esse respeito que ele tinha para com a natureza. Ele chamava toda a natureza de irm\u00e3, a lua era irm\u00e3, o sol era irm\u00e3o, os p\u00e1ssaros eram irm\u00e3os, a Terra uma grande m\u00e3e. Esse respeito, mais tarde, foi interpretado com um vi\u00e9s ecol\u00f3gico.&#8221;<br \/>\n&#8220;Mas essa n\u00e3o foi obviamente uma preocupa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Francisco nem dos primeiros franciscanos&#8221;, ressalta.<br \/>\nSusin atenta para o fato de que essa liga\u00e7\u00e3o com a natureza est\u00e1 presente na iconografia. &#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil a gente ver uma representa\u00e7\u00e3o dele sem um passarinho, sem um animal junto&#8221;, comenta. &#8220;A interpreta\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica do s\u00e9culo 19 fez isso de forma a colocar o sentimento no centro da espiritualidade, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 racionalidade mais cient\u00edfica.&#8221;<br \/>\n&#8220;Um dos bi\u00f3grafos dele diz que ele tirava at\u00e9 a minhoca que estivesse passando no meio de um caminho para que, quando viesse uma cavalaria, ela n\u00e3o fosse pisoteada&#8221;, diz Tagliari. &#8220;Ele pregou aos peixes, aos p\u00e1ssaros. Por isso tornou-se protetor da natureza e padroeiro da ecologia. Mas n\u00e3o de uma ecologia unicamente utilitarista. A rela\u00e7\u00e3o de Francisco com a natureza \u00e9 fraterna, no sentido de que n\u00f3s, os animais e as plantas fomos feitos por Deus e somos, portanto, irm\u00e3os.&#8221;<br \/>\nEm carta apost\u00f3lica publicada em novembro de 1999, o papa Jo\u00e3o Paulo 2\u00ba. (1920-2005) proclamou S\u00e3o Francisco como &#8220;o celestre padroeiro dos cultores da ecologia&#8221;.<br \/>\n&#8220;S\u00e3o Francisco faz um movimento muito forte de integra\u00e7\u00e3o. Ele abre a ideia de sermos irm\u00e3os de toda a cria\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Guimar\u00e3es. &#8220;Um caminho intenso de ser fraterno. Por isso ele \u00e9 o santo das rela\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis e integradas, convidando-nos a um reajuste nas diversas rela\u00e7\u00f5es com a sociedade, buscando uma vida com o pr\u00f3ximo, com Deus e com toda a cria\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nLiteratura<br \/>\nFrancisco de Assis deixou escritos de punho pr\u00f3prio. Sua obra mais conhecida \u00e9 o famoso &#8216;C\u00e2ntico das Criaturas&#8217;, tamb\u00e9m chamado de &#8216;C\u00e2ntico do Irm\u00e3o Sol&#8217;. O texto foi composto originalmente no dialeto da regi\u00e3o da \u00dambria e \u00e9 apontado como um dos primeiros registros escritos no idioma italiano.<br \/>\n&#8220;Francisco \u00e9 considerado por muito te\u00f3ricos como o primeiro poeta italiano e isso n\u00e3o \u00e9 pouca coisa&#8221;, lembra Maerki. &#8220;Foi um dos primeiros a escrever poesia no vern\u00e1culo italiano, no dialeto umbro. Torna-se muito importante para a literatura italiana.&#8221;<br \/>\nEsse reconhecimento n\u00e3o \u00e9 algo apenas dos dias atuais. Considerado o maior poeta da l\u00edngua italiana, Dante Alighieri (1265-1321) dedicou a S\u00e3o Francisco todo o c\u00e2ntico 11 reservada ao para\u00edso de sua obra-prima, A Divina Com\u00e9dia.<br \/>\nEste texto foi publicado originalmente em www.bbc.com\/portuguese\/geral-63126004<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns costumam comparar que houve &#8216;o Francisco de Assis e agora h\u00e1 o Francisco de Roma&#8217;, diz o te\u00f3logo Luiz Carlos Susin. 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