{"id":5686,"date":"2022-09-29T08:15:47","date_gmt":"2022-09-29T08:15:47","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/09\/29\/kwichon-o-fenomeno-que-esta-esvaziando-as-grandes-cidades-da-coreia-do-sul\/"},"modified":"2022-09-29T08:15:47","modified_gmt":"2022-09-29T08:15:47","slug":"kwichon-o-fenomeno-que-esta-esvaziando-as-grandes-cidades-da-coreia-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/09\/29\/kwichon-o-fenomeno-que-esta-esvaziando-as-grandes-cidades-da-coreia-do-sul\/","title":{"rendered":"Kwichon: o fen\u00f4meno que est\u00e1 &#8216;esvaziando&#8217; as grandes cidades da Coreia do Sul"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/BYJve6itBwIa3Tmw1QnQyc8ibsY=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/T\/O\/3MXTJIRBSGOI1mIZsofA\/a46.jpg\"><br \/>   Impulsionados pela pandemia, fartos da vida urbana e auxiliados pelo governo, centenas de milhares de sul-coreanos se mudaram para o campo para come\u00e7ar uma nova vida. Kwichon: o fen\u00f4meno que est\u00e1 &#8216;esvaziando&#8217; as grandes cidades da Coreia do Sul<br \/>\nGetty Images<br \/>\nA capital sul-coreana, Seul, encarnou por d\u00e9cadas o esp\u00edrito de progresso e desenvolvimento do pa\u00eds.<br \/>\nA megal\u00f3pole \u00e9 uma das mais ricas capitais do mundo e o epicentro de ind\u00fastrias tecnol\u00f3gicas poderosas e inovadoras que conquistaram o mundo.<br \/>\nO magnetismo de Seul faz com que somente a sua \u00e1rea metropolitana abrigue quase 25 milh\u00f5es de habitantes &#8211; praticamente a metade da popula\u00e7\u00e3o da Coreia do Sul.<br \/>\nMas um n\u00famero crescente de sul-coreanos vem se dedicando a uma nova aventura: o kwichon.<br \/>\n &#8220;Kwichon significa literalmente &#8216;retorno ao rural'&#8221;, segundo explica Su Min Hwang, editora do Servi\u00e7o Coreano da BBC.<br \/>\nNos \u00faltimos anos, o governo da Coreia do Sul observou com preocupa\u00e7\u00e3o o despovoamento das zonas rurais, com as pessoas se mudando cada vez mais para a capital e sua \u00e1rea metropolitana. Por isso, diversas medidas foram tomadas para motivar as pessoas a voltar para o campo.<br \/>\nMas aparentemente o kwichon vive agora seu grande momento, com um n\u00famero recorde de jovens sul-coreanos migrando para a zona rural.<br \/>\nA pandemia como impulsionadora<br \/>\nEm 2021, a jornalista Julie Yoonnyung Lee, do Servi\u00e7o Coreano da BBC, visitou a pequena cidade de Suncheon, na prov\u00edncia de Jeolla do Sul.<br \/>\nL\u00e1, ela conheceu Yun Sihu, de 11 anos, e sua m\u00e3e Oh Sujung. Na porta de casa, havia uma grande planta\u00e7\u00e3o de batatas, milho, berinjelas, piment\u00f5es e alface. Mas Lee conta que a vida delas era muito diferente, pouco tempo atr\u00e1s.<br \/>\nSihu e sua fam\u00edlia moravam no nono andar de um edif\u00edcio de 19 pavimentos em uma zona de tr\u00e1fego intenso. Mesmo antes dos confinamentos causados pela pandemia de covid-19, Sihu e seu irm\u00e3o j\u00e1 haviam inventado uma forma de jogar baseball dentro do apartamento, devido \u00e0 falta de espa\u00e7o ao ar livre.<br \/>\nDesde que a fam\u00edlia se mudou para Suncheon, os arranha-c\u00e9us da cidade foi substitu\u00eddos por montanhas, o ru\u00eddo do tr\u00e1fego pelo cacarejar das galinhas e o apartamento min\u00fasculo da fam\u00edlia, por uma casa tradicional de madeira e teto curvado.<br \/>\n&#8220;Agora, coloco um p\u00e9 para fora de casa e todo o terreno \u00e9 um espa\u00e7o de jogos. Rego os piment\u00f5es, as berinjelas e as alfaces todos os dias&#8221;, conta Sihu.<br \/>\nDepois que se mudaram para o campo, Sihu e seu irm\u00e3o passaram a jogar baseball ao ar livre, em condi\u00e7\u00f5es adequadas<br \/>\nBBC<br \/>\nCom mais da metade da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds vivendo na regi\u00e3o metropolitana de Seul, muitas pessoas recearam que a covid-19 pudesse se alastrar rapidamente pelos blocos de apartamentos densamente ocupados da capital.<br \/>\nAssim que o v\u00edrus chegou, as escolas foram fechadas. Para Sihu, o isolamento foi forte demais. Sua sa\u00fade mental ficou debilitada ao ficar presa com o aprendizado online, sem poder encontrar seus amigos.<br \/>\nV\u00ea-la assim, para sua m\u00e3e, era devastador. Ela ent\u00e3o aproveitou a oportunidade para colocar em a\u00e7\u00e3o uma ideia com que ela sonhava h\u00e1 anos: deixar a cidade em busca de uma vida nova no campo. E outras centenas de milhares de sul-coreanos est\u00e3o fazendo o mesmo.<br \/>\nRecorde nos n\u00fameros<br \/>\nVoltar para o campo e para a agricultura \u00e9 uma tend\u00eancia que vem ganhando for\u00e7a nos \u00faltimos anos, devido ao golpe da pandemia e \u00e0 necessidade de buscar estilos de vida alternativos.<br \/>\nUma pesquisa realizada em 2021 pelo Escrit\u00f3rio Nacional de Estat\u00edsticas e pelo Minist\u00e9rio da Agricultura, Alimentos e Quest\u00f5es Rurais da Coreia do Sul indicou que 515.434 pessoas abandonaram Seul naquele ano e mudaram-se para vilarejos de agricultores ou pescadores &#8211; 4,2% a mais que no ano anterior.<br \/>\nEspecificamente com rela\u00e7\u00e3o aos jovens, 235.904 pessoas com menos de 30 anos de idade retornaram para a zona rural. Elas representam 45,8% do total e este \u00e9 o maior n\u00famero j\u00e1 registrado no pa\u00eds.<br \/>\n&#8220;Recentemente, muitos jovens de Seul encerraram suas carreiras e, descontentes com seu trabalho e suas perspectivas, decidiram mudar-se para tentar a sorte no campo. E parece que muitos est\u00e3o gostando&#8221;, explica Ram\u00f3n Pacheco Pardo, professor de rela\u00e7\u00f5es internacionais e especialista em assuntos coreanos e do leste asi\u00e1tico do King&#8217;s College de Londres.<br \/>\nO descontentamento com o trabalho se une a outros motivos de reclama\u00e7\u00f5es em outras grandes cidades do mundo, como os altos pre\u00e7os da moradia, o estresse urbano e a forte competitividade.<br \/>\nA Coreia do Sul tem uma das taxas de suic\u00eddio mais altas do mundo. Estat\u00edsticas do governo indicam que esta \u00e9 a maior causa de mortalidade entre jovens e adolescentes.<br \/>\nPsic\u00f3logos atribuem esses n\u00edveis de depress\u00e3o e suic\u00eddio \u00e0 intensa press\u00e3o imposta aos jovens para que eles tenham sucesso acad\u00eamico. Mas cada vez mais jovens consideram esse sucesso inalcan\u00e7\u00e1vel, pois o excesso de estudos e o ritmo da cidade consomem suas energias, sem oferecer a recompensa esperada.<br \/>\nVolta ao passado<br \/>\nNa segunda metade do s\u00e9culo 20, a Coreia do Sul passou por d\u00e9cadas de progresso e crescimento econ\u00f4mico acelerado.<br \/>\nPor muitos anos, antes da divis\u00e3o entre Coreia do Norte e do Sul na d\u00e9cada de 1940 e da Guerra da Coreia entre 1950 e 1953, a grande maioria dos coreanos dedicava-se \u00e0 agricultura.<br \/>\nMas, a partir dos anos 1960, come\u00e7ou uma migra\u00e7\u00e3o maci\u00e7a do campo para a cidade &#8211; em grande parte, para fugir da pobreza. Essa explos\u00e3o urbana foi um dos grandes fatores para o crescimento econ\u00f4mico e a cria\u00e7\u00e3o de riqueza e oportunidades.<br \/>\nOcorre que , hoje em dia, muitos jovens enfrentam uma s\u00e9rie de obst\u00e1culos para aproveitar essas oportunidades, em compara\u00e7\u00e3o com as gera\u00e7\u00f5es passadas. Neste contexto, n\u00e3o \u00e9 de se estranhar que fam\u00edlias com adolescentes, como Sihu, e outros jovens profissionais abandonem seu trabalho e experimentem a vida rural, retornando ao ambiente tradicional de muitos coreanos no passado.<br \/>\nImpulso para a vida rural<br \/>\nDiversos governos sul-coreanos tentaram buscar uma forma de solucionar o desequil\u00edbrio populacional e econ\u00f4mico entre a regi\u00e3o metropolitana de Seul e a zona rural.<br \/>\nPor d\u00e9cadas, a escassez de investimentos em setores como a agricultura e a pesca deixou o campo sul-coreano em decl\u00ednio econ\u00f4mico.<br \/>\n&#8220;A zona rural estava ficando despovoada porque os jovens e, sobretudo, as mulheres se mudaram para a cidade em busca de oportunidades&#8221;, segundo Pacheco.<br \/>\nAliado a isso, a Coreia do Sul possui uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo, o que \u00e9 um duro golpe para o ambiente rural.<br \/>\nO \u00eaxodo rural foi se agravando at\u00e9 o ponto de amea\u00e7ar a seguran\u00e7a alimentar. Os agricultores eram idosos, em sua maioria, e muitos come\u00e7aram a se aposentar ou morrer sem que houvesse jovens para substitu\u00ed-los. Por isso, as autoridades oferecem facilidades para os cidad\u00e3os que querem mudar-se para o campo.<br \/>\n&#8220;O governo incentiva treinamentos e programas educativos sobre a vida no campo. Existem programas para aprender a colher e alguns governos locais oferecem ajuda econ\u00f4mica e acesso \u00e0 moradia&#8221;, afirma Pacheco Pardo.<br \/>\nApoios indiretos, como maior investimento em infraestrutura, tamb\u00e9m v\u00eam impulsionando o bom momento do kwichon.<br \/>\n&#8220;Em um pa\u00eds pequeno, a possibilidade de transporte barato gra\u00e7as \u00e0 nova infraestrutura ajuda mais pessoas a realizar essa mudan\u00e7a de vida&#8221;, afirma o professor.<br \/>\nEfeitos sobre a nova gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nO aumento do kwichon \u00e9 um fen\u00f4meno relativamente recente. Por isso, parece que ainda \u00e9 cedo para avaliar seus efeitos e os resultados da ajuda do governo.<br \/>\nMas alguns avan\u00e7os j\u00e1 come\u00e7am a surgir. Antes da pandemia, por exemplo, muitas escolas rurais estavam a ponto de fechar. E, durante a visita a Suncheon em 2021, a BBC entrevistou a professora da escola de Sihu, Shin Youngmi.<br \/>\nEla havia lecionado anteriormente na regi\u00e3o metropolitana de Seul. Depois da sua experi\u00eancia no campo, Shin acredita que as escolas rurais podem oferecer uma oportunidade real aos coreanos para enfrentar os altos n\u00edveis de estresse e depress\u00e3o dos jovens.<br \/>\nPara ajudar as escolas rurais, as autoridades chegaram a oferecer subs\u00eddios \u00e0s fam\u00edlias dispostas a mudar-se de Seul. Naquele ano, a escola de Sihu recebeu sete novos alunos e a professora Shin afirma que toda a comunidade se beneficiou com seus novos moradores.<br \/>\nResta saber se as jovens gera\u00e7\u00f5es de migrantes rurais decidir\u00e3o permanecer em meio \u00e0 natureza ou se ser\u00e3o atra\u00eddas de volta \u00e0 agita\u00e7\u00e3o da cidade grande.<br \/>\n* Com reportagem adicional de Julie Yoonnyung Lee, do Servi\u00e7o Coreano da BBC.<br \/>\nEste texto foi publicado em www.bbc.com\/portuguese\/geral-63033739<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Impulsionados pela pandemia, fartos da vida urbana e auxiliados pelo governo, centenas de milhares de sul-coreanos se mudaram para o campo para come\u00e7ar uma nova vida. 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