{"id":50585,"date":"2023-07-08T16:49:34","date_gmt":"2023-07-08T16:49:34","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/?p=50585"},"modified":"2023-07-08T16:49:34","modified_gmt":"2023-07-08T16:49:34","slug":"como-disputa-sobre-linguagem-neutra-virou-guerra-cultural-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/07\/08\/como-disputa-sobre-linguagem-neutra-virou-guerra-cultural-no-brasil\/","title":{"rendered":"Como disputa sobre linguagem neutra virou guerra cultural no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Proposta de altera\u00e7\u00e3o da l\u00edngua alimenta contra-ofensiva conservadora e reaviva embates sobre defini\u00e7\u00e3o de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando anunciou no Instagram no fim de junho que ainda estavam dispon\u00edveis &#8220;\u00faltimes entrades&#8221; para um show, o cantor Djavan sofreu duras cr\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Imaginando que o m\u00fasico havia alterado o final das palavras para neutralizar o g\u00eanero delas, muitos o ridicularizaram nas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mais f\u00e1cil aprender japon\u00eas em braile&#8221;, escreveu um comentarista, citando uma letra c\u00e9lebre do cantor alagoano.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns ent\u00e3o esclareceram que aquele show de Djavan seria em Barcelona &#8211; e que o post fora escrito na l\u00edngua local, o catal\u00e3o. &#8220;\u00daltimes entrades&#8221;, em catal\u00e3o, significa &#8220;\u00faltimas entradas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Era tarde demais. Djavan j\u00e1 havia sido arrastado para uma das grandes batalhas culturais do Brasil atual: a batalha em torno do que vem sendo descrito como &#8220;linguagem neutra&#8221;, ou &#8220;linguagem n\u00e3o bin\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A disputa em torno desse tema \u00e9 abordada num epis\u00f3dio de Brasil Partido, um podcast da BBC News Brasil, veiculado nesta sexta-feira (07\/07) no site da BBC e em plataformas de \u00e1udio como:<\/p>\n\n\n\n<p>Spotify<br>Apple Podcasts<br>Deezer<\/p>\n\n\n\n<p>Apresentado pelo rep\u00f3rter Jo\u00e3o Fellet, o podcast trata de diferentes conflitos sociais que t\u00eam sido vividos pela sociedade brasileira em campos como g\u00eanero, religi\u00e3o e cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00edngua como campo de batalha<br>H\u00e1 d\u00e9cadas, muitas mulheres denunciam o que consideram um vi\u00e9s masculino na linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento fez com que hoje muitos evitem termos masculinos para se referir a grupos de pessoas de g\u00eaneros distintos. Por exemplo: em vez de usar os termos &#8220;m\u00e9dicos&#8221; ou &#8220;professores&#8221; para se referir a coletivos de pessoas, essas pessoas optam pelas express\u00f5es &#8220;a classe m\u00e9dica&#8221; ou o &#8220;corpo docente&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a busca por uma linguagem mais neutra s\u00f3 se tornou realmente controversa quando foi associada a uma proposta de mudan\u00e7a mais radical &#8211; e que foi abra\u00e7ada principalmente por parte da esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia era abrir espa\u00e7o na l\u00edngua para pessoas que se declaram n\u00e3o bin\u00e1rias, pois n\u00e3o se identificam como homens nem como mulheres, podendo tamb\u00e9m se identificar com as duas categorias ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, seria preciso alterar o final das palavras pra neutralizar o g\u00eanero delas. Alguns propuseram que essa metamorfose se desse pela substitui\u00e7\u00e3o da letra \u201co\u201d no final das palavras pela letra \u201cx\u201d, e outros sugeriram o emprego da @.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros ainda defenderam o uso da letra \u201ce\u201d &#8211; que \u00e9 a f\u00f3rmula que tem prevalecido. Foi assim que surgiram termos como &#8220;todes&#8221; e &#8220;bem-vindes&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nem todos acharam as propostas bem-vindas.<\/p>\n\n\n\n<p>Projetos de lei contra a linguagem neutra<br>O site da C\u00e2mara dos Deputados lista 25 projetos de lei em tramita\u00e7\u00e3o que s\u00e3o contr\u00e1rios ao uso da linguagem neutra em escolas e\/ou concursos p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros projetos surgiram em 2020. Desde ent\u00e3o, o interesse dos deputados pelo tema vem crescendo. S\u00f3 nos seis primeiros meses de 2023 foram apresentados dez projetos relacionados ao assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria das propostas \u00e9 de deputados aliados de Jair Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO conceito de &#8216;linguagem neutra&#8217; \u00e9 fruto da ideologia de g\u00eanero, a qual ensina que o sexo biol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 o suficiente para definir a sexualidade humana. Sendo que meninos podem ser meninas e meninas podem ser meninos&#8221;, diz a justificativa de um projeto de lei contra a linguagem neutra da deputada federal Dani Cunha, do Uni\u00e3o Brasil do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A deputada diz ainda que, se a linguagem neutra for ensinada nas escolas, &#8220;estaria se dizendo para os jovens que o g\u00eanero \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o social e que esse jovem pode escolher o que ele quer ser \u00e0 merc\u00ea das pr\u00f3prias vontades&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Sexo X g\u00eanero<br>Os argumentos para o projeto de lei mostram como o debate sobre a linguagem neutra se relaciona com outra batalha cultural em curso: o embate entre g\u00eanero e sexo como o que determina oficialmente se algu\u00e9m \u00e9 um homem ou uma mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 1960, com o surgimento da segunda onda do feminismo, alguns grupos come\u00e7am a questionar as no\u00e7\u00f5es tradicionais de g\u00eanero e sexo.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo os adeptos dessas ideias, o g\u00eanero \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social e deve ter primazia sobre a biologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para esse grupo, g\u00eanero \u00e9 algo relacionado a um senso pessoal de identidade: pode ter a ver com as roupas que a pessoa gosta de vestir, com os trejeitos que usa para se expressar ou outros c\u00f3digos sociais que s\u00e3o normalmente associados a um g\u00eanero ou outro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma vis\u00e3o que gera discuss\u00f5es acaloradas entre as pr\u00f3prias feministas e que se choca com a no\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de que o g\u00eanero \u00e9 determinado pelo sexo biol\u00f3gico e pela composi\u00e7\u00e3o dos cromossomos de cada um.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8216;Crises de identidade cromoss\u00f4mica<br>&#8216;Numa audi\u00eancia em 2021 que debateu outro projeto de lei contra a linguagem neutra em materiais did\u00e1ticos em escolas, proposto pela deputada Chris Tonietto (PL-RJ), o embate entre g\u00eanero e sexo tamb\u00e9m foi evocado.<\/p>\n\n\n\n<p>Presente na audi\u00eancia, o escritor Sidney Luiz Silveira da Costa disse que o projeto de lei em discuss\u00e3o buscava impedir pessoas de &#8220;torcer a l\u00edngua para faz\u00ea-la dizer o que ela n\u00e3o diz naturalmente porque A, B ou C t\u00eam crises de identidade cromoss\u00f4mica&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m aqui est\u00e1 defendendo a imposi\u00e7\u00e3o de nada, e sim apenas que a natureza siga seu curso, a natureza da l\u00edngua&#8221;, prosseguiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Sidney Silveira \u00e9 um dos mais ativos integrantes do movimento contr\u00e1rio \u00e0 linguagem neutra. Nos \u00faltimos dois anos, ele foi convidado a falar sobre o tema nas C\u00e2maras Municipais de Belo Horizonte e de Niter\u00f3i, na Assembleia Legislativa do Rio e na C\u00e2mara dos Deputados em Bras\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele j\u00e1 foi descrito como um \u201cintelectual cat\u00f3lico\u201d por Olavo de Carvalho, um dos gurus da direita brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>E, assim como Olavo, Silveira \u00e9 monarquista, come\u00e7ou a carreira escrevendo para jornais e d\u00e1 cursos sobre filosofia mesmo sem ter forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica na \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p>O escritor \u00e9 formado em Comunica\u00e7\u00e3o e trabalhou v\u00e1rios anos como jornalista, mas hoje se define em sua p\u00e1gina no Instagram como um \u201cestudioso da escol\u00e1stica\u201d, uma corrente filos\u00f3fica da Idade M\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Contatado pelo podcast Brasil Partido com um pedido de entrevista, ele n\u00e3o respondeu at\u00e9 a veicula\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Preserva\u00e7\u00e3o da norma culta<br>Outra pessoa engajada no movimento contra a linguagem neutra \u00e9 T\u00e2nia Manzur, professora de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade de Bras\u00edlia. Ela tamb\u00e9m j\u00e1 participou de audi\u00eancias sobre o tema no Congresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Manzur explica ao podcast Brasil Partido por que se envolveu com o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Porque a l\u00edngua portuguesa \u00e9 um patrim\u00f4nio e eu vejo como uma necessidade de ser preservada das modas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela faz uma cr\u00edtica bastante citada por opositores da linguagem neutra: a de que ela criaria dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o para muitas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se a gente parte do pressuposto de que a linguagem neutra estaria incluindo as pessoas do grupo LGBTQIA+, eles, pela contagem mais recente, perfariam algo em torno de 3% da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Mas o que essa linguagem neutra faria com os surdos que fazem leitura labial? Excluiria, e os surdos correspondem a mais ou menos cinco 5% da popula\u00e7\u00e3o brasileira&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 frequente a queixa de que a linguagem neutra prejudicaria n\u00e3o s\u00f3 surdos que fazem leitura labial, mas tamb\u00e9m cegos que usam aplicativos de leitura e disl\u00e9xicos, que s\u00e3o pessoas com dificuldade pra ler.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento pr\u00f3-linguagem neutra reconheceu a pertin\u00eancia dessas cr\u00edticas no caso de cegos e disl\u00e9xicos. Por isso, muitos ativistas hoje defendem que se use a letra \u201ce\u201d pra neutralizar o g\u00eanero das palavras, e n\u00e3o a letra \u201cx\u201d nem a @, que podem criar dificuldades na leitura.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso dos surdos, a coisa \u00e9 mais complexa.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 nas redes sociais v\u00e1rios surdos que expressam opini\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 linguagem neutra. Algumas dessas pessoas argumentam que a linguagem neutra realmente criaria problemas para os surdos oralizados &#8211; que s\u00e3o aqueles que leem l\u00e1bios e fazem oraliza\u00e7\u00e3o pra se comunicar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 diverg\u00eancias. Leo Viturinno, que \u00e9 surdo, gay e professor de Libras, a L\u00edngua Brasileira de Sinais, diz ao podcast que surdos oralizados podem se adaptar perfeitamente \u00e0 linguagem neutra, e que opositores dessa causa podem estar usando os surdos em seu ativismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pra ele, esses cr\u00edticos deveriam expor suas opini\u00f5es sem mencionar pessoas com defici\u00eancia, porque n\u00e3o falam em nome delas.<\/p>\n\n\n\n<p>Bom dia a &#8216;todes&#8217;<br>Se hoje predominam no Congresso propostas contr\u00e1rias \u00e0 linguagem neutra, em partes do Executivo e do Judici\u00e1rio parece existir uma abertura maior \u00e0 causa.<\/p>\n\n\n\n<p>No governo federal, alguns minist\u00e9rios t\u00eam usado o termo &#8220;todes&#8221; na abertura de discursos e eventos oficiais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Boa tarde a todas, todos e &#8216;todes'&#8221;, afirmou o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Institucionais, Alexandre Padilha, na cerim\u00f4nia em que assumiu o posto, em janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O termo &#8220;todes&#8221; tamb\u00e9m j\u00e1 foi citado em eventos dos minist\u00e9rios da Fazenda, Igualdade Racial e Direitos Humanos, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>E, no Judici\u00e1rio, uma decis\u00e3o recente do Supremo Tribunal Federal p\u00f4s um freio \u00e0s iniciativas legislativas contr\u00e1rias \u00e0 linguagem neutra.<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro, a corte considerou inconstitucional uma lei contra a linguagem neutra aprovada pela Assembleia Legislativa de Rond\u00f4nia. A lei proibia as escolas de citar a linguagem neutra na grade curricular e em materiais did\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, n\u00e3o era apenas uma quest\u00e3o de evitar que professores dissessem \u201cbom dia a &#8216;todes&#8217;\u201d, mas de impedir que o tema fosse mencionado aos alunos.<\/p>\n\n\n\n<p>O relator da a\u00e7\u00e3o, ministro Edson Fachin, decidiu que a lei era inconstitucional porque legislar sobre normas gerais de ensino \u00e9 uma atribui\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o, e n\u00e3o de Estados.<\/p>\n\n\n\n<p>Fachin tamb\u00e9m disse que proibir a linguagem neutra violaria a liberdade de express\u00e3o nas escolas e atentaria contra o direito \u00e0 igualdade sem discrimina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O ministro tamb\u00e9m disse que \u201co direito \u00e0 igualdade sem discrimina\u00e7\u00f5es abrange a identidade e a express\u00e3o de g\u00eanero\u201d, e que cabe ao Estado reconhecer a identidade de g\u00eanero manifestada por cada pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Divis\u00f5es entre linguistas<br>Engana-se quem pensa que, entre os linguistas, h\u00e1 uma posi\u00e7\u00e3o un\u00e2nime sobre a linguagem neutra.<\/p>\n\n\n\n<p>Se parte da categoria rejeita a causa, h\u00e1 tamb\u00e9m quem simpatize com ela na academia.<\/p>\n\n\n\n<p>Cecilia Farias, que faz doutorado em Lingu\u00edstica na USP, pertence ao segundo grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisadora s\u00eanior do Museu da L\u00edngua Portuguesa, ela diz acreditar que o tema mobilize tantas paix\u00f5es por &#8220;mexer com as certezas das pessoas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela se refere principalmente a pessoas &#8220;que t\u00eam uma vis\u00e3o que separa o mundo por g\u00eanero, e uma vis\u00e3o biol\u00f3gica de g\u00eanero muito forte tamb\u00e9m, que atribui o papel masculino e o papel feminino como se fosse algo inerente \u00e0quela constitui\u00e7\u00e3o f\u00edsica, sem pensar no quanto isso \u00e9 social, na verdade&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Na hora que voc\u00ea questiona essas certezas, essas estruturas que as pessoas tomam h\u00e1 s\u00e9culos como fundantes do mundo\u2026 N\u00e3o custa nada falar um pronome tal, uma palavra com &#8216;e&#8217; no final. N\u00e3o vai cair minha l\u00edngua, mas desestabiliza uma vis\u00e3o de mundo&#8221;, opina.<\/p>\n\n\n\n<p>Farias rejeita o argumento de que a linguagem neutra seria uma amea\u00e7a ao idioma.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Uma l\u00edngua que n\u00e3o muda \u00e9 uma l\u00edngua que j\u00e1 est\u00e1 morta. Qualquer l\u00edngua que continuar sendo falada, ela vai continuar mudando.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, uma defesa de preserva\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, de manter o nosso legado, \u00e9 balela. \u00c9 uma justificativa para n\u00e3o querer que o mundo mude, de certa forma.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Qual a posi\u00e7\u00e3o do MEC?<br>A BBC procurou o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o para saber a posi\u00e7\u00e3o da pasta sobre o ensino da linguagem neutra e se existe algum levantamento que me\u00e7a o quanto &#8211; e como &#8211; o tema tem sido abordado em escolas brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p>O diretor de Pol\u00edticas e Diretrizes da Educa\u00e7\u00e3o Integral B\u00e1sica do MEC, Alexsandro do Nascimento Santos, afirmou ao podcast Brasil Partido que o minist\u00e9rio n\u00e3o tem nenhum levantamento medindo o uso da linguagem neutra nas escolas.<\/p>\n\n\n\n<p>Disse tamb\u00e9m que todas as diretrizes sobre o ensino da l\u00edngua portuguesa nas escolas brasileiras foram estabelecidas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que teve suas \u00faltimas vers\u00f5es aprovadas em 2017 e 2018, no governo Michel Temer.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Santos, a BNCC orienta que os curr\u00edculos da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica precisam discutir com os estudantes as diferentes formas de uso da l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O fen\u00f4meno social da linguagem neutra \u00e9 mais um desses fen\u00f4menos que se manifestam nos usos da l\u00edngua&#8221;, diz o diretor do MEC.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Esses fen\u00f4menos precisam ser estudados na escola como objetos de conhecimento de uma ci\u00eancia, que \u00e9 a lingu\u00edstica (\u2026) O que n\u00e3o significa dizer que haver\u00e1 qualquer tipo de orienta\u00e7\u00e3o sobre se este ou aquele fen\u00f4meno lingu\u00edstico \u00e9 mais correto ou menos correto&#8221;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora considere que os professores de portugu\u00eas devam discutir a linguagem neutra com os alunos, o diretor do MEC defende que o ensino da l\u00edngua nas escolas priorize a norma culta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Porque talvez, para muitos estudantes, esse ser\u00e1 o \u00fanico lugar em que ele ter\u00e1 acesso a esse registro de varia\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica&#8221;, justificou.<\/p>\n\n\n\n<p>Movimento queer<br>Em v\u00e1rios pa\u00edses, o ativismo pr\u00f3-linguagem neutra tem sido encabe\u00e7ado pelo movimento queer.<\/p>\n\n\n\n<p>Queer \u00e9 um termo que abarca v\u00e1rias identidades sexuais e de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo: um homem que sente atra\u00e7\u00e3o por homens e mulheres mas s\u00f3 desenvolve relacionamentos com outros homens pode escolher se definir como queer por sentir que os termos gay ou bissexual n\u00e3o se aplicam fielmente a ele. Mas h\u00e1 v\u00e1rios outros motivos que podem levar algu\u00e9m a se identificar como queer.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos nesse movimento acreditam que o g\u00eanero de algu\u00e9m \u00e9 constru\u00eddo no dia a dia pela maneira como nos comportamos, vestimos, gesticulamos e, principalmente, pela linguagem que n\u00f3s usamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por esse racioc\u00ednio, quando chamamos uma pessoa de homem ou mulher, n\u00f3s estar\u00edamos ajudando a torn\u00e1-la um homem ou uma mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso que a linguagem \u00e9 um ponto t\u00e3o importante pro movimento queer: o movimento defende ajustes na l\u00edngua para que pessoas que n\u00e3o se veem nem como homens nem como mulheres n\u00e3o sejam for\u00e7adas a adotar uma dessas identidades.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8216;Provoca\u00e7\u00e3o do sistema lingu\u00edstico&#8217;<br>Esse \u00e9 um tema que mobiliza Pri Bertucci desde o in\u00edcio da d\u00e9cada passada. Naquela \u00e9poca, Bertucci &#8211; que \u00e9 uma pessoa n\u00e3o bin\u00e1ria e se define como pertencente ao &#8220;g\u00eanero queer&#8221; &#8211; tentava adaptar para o portugu\u00eas brasileiro propostas que o movimento queer dos Estados Unidos vinha fazendo para a l\u00edngua inglesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Bertucci ent\u00e3o elaborou com a psic\u00f3loga Andrea Zanella o que chamaram de \u201cManifesto pela inclus\u00e3o do g\u00eanero n\u00e3o bin\u00e1rio na l\u00edngua portuguesa\u201d, publicado em 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>O manifesto tinha duas propostas principais: a inven\u00e7\u00e3o do pronome &#8220;ile&#8221; para quem n\u00e3o se sentisse representado pelos pronomes \u201cele\u201d e \u201cela\u201d, e a substitui\u00e7\u00e3o da letra \u201co\u201d no final das palavras pela letra \u201ce\u201d como alternativa ao masculino gen\u00e9rico.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Meu desejo era provocar esse sistema lingu\u00edstico e fazer uma marca\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica da exist\u00eancia de pessoas n\u00e3o bin\u00e1rias&#8221;, diz Bertucci ao podcast Brasil Partido.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O desafio \u00e9 como \u00e9 que a gente tira as pessoas da zona de conforto sem perder os interlocutores nessa conversa&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a estrat\u00e9gia tem funcionado? Um simples \u201ctodes\u201d pode gerar uma enxurrada de cr\u00edticas nas redes sociais, e muita gente argumenta que a pauta n\u00e3o seria priorit\u00e1ria num pa\u00eds com tantas mazelas sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, pol\u00edticos populares na direita t\u00eam usado o tema para mobilizar seus apoiadores.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso do deputado federal mais votado \u00faltima elei\u00e7\u00e3o para o Congresso &#8211; o bolsonarista Nikolas Ferreira (PL-MG) -, autor de um dos v\u00e1rios projetos contra a linguagem neutra apresentados em casas legislativas em anos recentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Contra &#8216;leituras bin\u00e1rias do mundo<\/p>\n\n\n\n<p>&#8216;Ser\u00e1 que o ativismo pr\u00f3-linguagem neutra n\u00e3o poderia estar fortalecendo o campo pol\u00edtico contr\u00e1rio \u00e0 causa?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu acho que n\u00e3o fortalece&#8221;, diz Pri Bertucci. &#8220;Isso \u00e9 uma pauta da humanidade, n\u00e3o \u00e9 uma pauta da direita ou da esquerda.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Bertucci afirma que, quando come\u00e7ou a tratar do tema, 12 anos atr\u00e1s, &#8220;n\u00e3o tinha quase ningu\u00e9m querendo me ouvir&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Esse n\u00edvel de cr\u00edtica que a gente v\u00ea hoje, l\u00e1 atr\u00e1s era muito maior.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Bertucci, seu movimento tem tido sucesso e busca os seguintes objetivos:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Em primeiro lugar, reconhecimento, inclus\u00e3o. Eu quero fazer parte da sociedade, eu quero poder circular, pegar um voo, ir ao m\u00e9dico e ser &#8216;reconhecide&#8217; por quem eu sou&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o hav\u00edamos, enquanto sociedade, parado para pensar que essas pessoas existem, porque a coloniza\u00e7\u00e3o apagou as identidades n\u00e3o bin\u00e1rias dessa conversa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando cita a coloniza\u00e7\u00e3o, Bertucci exp\u00f5e outra bandeira cara a uma parte do movimento queer. Para essas pessoas, a luta pra transformar a linguagem \u00e9 parte de uma batalha bem maior: uma batalha contra leituras do mundo que o movimento considera bin\u00e1rias, e contra conceitos e conven\u00e7\u00f5es culturais que, segundo eles, se espalharam pelo planeta com o colonialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Minha proposta \u00e9 que sair da binaridade n\u00e3o s\u00f3 da quest\u00e3o lingu\u00edstica e de g\u00eanero vai abrir um novo portal de consci\u00eancia para que a gente possa perceber o que est\u00e1 para al\u00e9m dessa polariza\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Bertucci afirma que, hoje, boa parte da sociedade est\u00e1 presa a polariza\u00e7\u00f5es do tipo &#8220;preto ou branco, homem ou mulher, direita ou esquerda&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas existem outras camadas aqui, entre uma coisa e outra, que precisam ser examinadas. E, se a gente n\u00e3o parar e entender onde a gente est\u00e1 dentro desses processos, vai ficar muito dif\u00edcil a gente criar uma sociedade um pouco mais sustent\u00e1vel, inclusiva e evolu\u00edda&#8221;, defende.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: g1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Proposta de altera\u00e7\u00e3o da l\u00edngua alimenta contra-ofensiva conservadora e reaviva embates sobre defini\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. Quando anunciou no Instagram no fim de junho que ainda estavam dispon\u00edveis &#8220;\u00faltimes entrades&#8221; para um show, o cantor Djavan sofreu duras cr\u00edticas. 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