{"id":45910,"date":"2023-03-07T12:25:45","date_gmt":"2023-03-07T12:25:45","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/03\/07\/10-anos-da-morte-de-chavez-o-que-resta-do-seu-legado-na-venezuela-de-maduro\/"},"modified":"2023-03-07T12:25:45","modified_gmt":"2023-03-07T12:25:45","slug":"10-anos-da-morte-de-chavez-o-que-resta-do-seu-legado-na-venezuela-de-maduro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/03\/07\/10-anos-da-morte-de-chavez-o-que-resta-do-seu-legado-na-venezuela-de-maduro\/","title":{"rendered":"10 anos da morte de Ch\u00e1vez: o que resta do seu legado na Venezuela de Maduro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/ohBXM8QknBUBtwjDxRhdFtgxBuo=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/S\/Y\/iwcaAqThaRA68n8cOcfA\/bbc-chavez.jpg\"><br \/>     Ainda adorado por parte da popula\u00e7\u00e3o venezuelana, outros o culpam por ser a origem da crise que abala o pa\u00eds h\u00e1 anos Nicol\u00e1s Maduro foi um seguidor fiel de Hugo Ch\u00e1vez desde o in\u00edcio. Com ele, foi constituinte, deputado, chanceler e vice-presidente.<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nPoucos momentos s\u00e3o lembrados com tanta exatid\u00e3o na Venezuela. 16h25 do dia 5 de mar\u00e7o de 2013 \u00e9 um deles.<br \/>\nO ent\u00e3o vice-presidente Nicol\u00e1s Maduro anunciou em cadeia nacional de televis\u00e3o que Hugo Ch\u00e1vez havia morrido naquele exato momento, ap\u00f3s dois anos lutando contra um c\u00e2ncer sobre o qual nenhuma informa\u00e7\u00e3o detalhada foi divulgada.<br \/>\nO medo e a incerteza se espalharam com a morte do homem que foi presidente por mais de 13 anos e que mudou o rumo do pa\u00eds.<br \/>\nCh\u00e1vez chegou ao poder em 1999 ap\u00f3s vencer as elei\u00e7\u00f5es com 56,5% dos votos. Foi um dos pol\u00edticos latino-americanos mais importantes do s\u00e9culo 21.<br \/>\nEle colocou a Venezuela no mapa mundial, mudou a forma de fazer pol\u00edtica e de como as pessoas participam dela. Incluiu aqueles que antes n\u00e3o tinham voz, dando-lhes assist\u00eancia social e fazendo-os se sentirem necess\u00e1rios.<br \/>\nMas tamb\u00e9m levou a um pa\u00eds altamente polarizado, confrontou o setor privado, fechou ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, foi descrito como autorit\u00e1rio por seus rivais e criou as bases de uma economia que entrou em colapso logo ap\u00f3s sua morte. Com isso, o pa\u00eds entrou em uma crise sem precedentes que ainda persiste.<br \/>\nEm seus longos discursos na televis\u00e3o, dep\u00f4s ministros, expropriou empresas, deu conselhos e entregou casas. Em sua \u00faltima apari\u00e7\u00e3o, em dezembro de 2012, ap\u00f3s anunciar que teria que passar por uma cirurgia devido \u00e0 recidiva do c\u00e2ncer, lan\u00e7ou aquele que tamb\u00e9m foi seu \u00faltimo testamento pol\u00edtico.<br \/>\nDisse que, se algo lhe acontecesse, a sua opini\u00e3o &#8220;firme, cheia, como a lua cheia&#8221; num cen\u00e1rio de novas elei\u00e7\u00f5es presidenciais era que Nicol\u00e1s Maduro fosse eleito presidente da rep\u00fablica.<br \/>\nMaduro foi um homem fiel a Ch\u00e1vez desde o in\u00edcio. Sob seu manto, foi constituinte, deputado, chanceler e, por fim, vice-presidente. &#8220;Ch\u00e1vez o preparou, ele o escolheu&#8221;, diz a historiadora Margarita L\u00f3pez Maya.<br \/>\nDez anos ap\u00f3s a morte de Ch\u00e1vez, Maduro continua \u00e0 frente de um pa\u00eds que ainda sofre com uma crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica, que viu 7 milh\u00f5es de cidad\u00e3os deixarem seu territ\u00f3rio e cujo governo \u00e9 investigado pelo Tribunal Penal Internacional por supostos crimes de lesa humanidade.<br \/>\nA BBC Mundo, servi\u00e7o em espanhol da BBC, analisa o que resta do legado de Ch\u00e1vez.<br \/>\nSocial: as miss\u00f5es e o pre\u00e7o do barril de petr\u00f3leo A Venezuela conheceu Ch\u00e1vez em 4 de fevereiro de 1992. Naquela ocasi\u00e3o, ap\u00f3s lan\u00e7ar uma fracassada tentativa de golpe de Estado, pela primeira vez, a m\u00eddia deu ao militar microfones, luzes e c\u00e2meras e ele falou ao pa\u00eds.<br \/>\nSeis anos depois, mais da metade dos venezuelanos votaram nele, fartos da pol\u00edtica tradicional, da corrup\u00e7\u00e3o, da exclus\u00e3o social e da crise financeira, econ\u00f4mica e social que se arrastava sobre o pa\u00eds desde os anos 1980. Os eleitores o viam &#8220;como um deles&#8221;.<br \/>\nA outra metade da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o esqueceu da tentativa de golpe e olhava para ele com desconfian\u00e7a.<br \/>\nAssim, de 1999, ano em que foi eleito, at\u00e9 2003, foram anos conturbados.<br \/>\nEm abril de 2002, alguns setores militares e empresariais lan\u00e7aram um golpe que o manteve fora do poder por 48 horas, seguido de uma greve no setor petrol\u00edfero, principal motor econ\u00f4mico do pa\u00eds.<br \/>\nCom a popularidade em jogo e a possibilidade de um referendo revogat\u00f3rio que o tiraria do poder pelas urnas, em 2003 Ch\u00e1vez aprovou a primeira \u201cmiss\u00e3o\u201d: Barrio Adentro, um programa social para levar aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u00e0 sa\u00fade aos bairros gra\u00e7as a um conv\u00eanio com Cuba que implicava a troca de barris de petr\u00f3leo venezuelano por m\u00e9dicos da ilha.<br \/>\nA partir da\u00ed, e com a ajuda do alto pre\u00e7o do petr\u00f3leo, fez das miss\u00f5es \u2013 um conjunto de programas sociais \u2013 sua marca de governo. Entre 2003 e 2012, com picos no per\u00edodo eleitoral, lan\u00e7ou um total de 31 miss\u00f5es, em \u00e1reas como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, alfabetiza\u00e7\u00e3o e habita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMuitas consistiam em b\u00f4nus, ajuda financeira direta. Em outros casos, cuidado ou treinamento.<br \/>\n&#8220;Ch\u00e1vez me deu&#8230;&#8221; ou &#8220;Gra\u00e7as a Ch\u00e1vez eu tenho&#8230;&#8221; foram algumas das frases que mais ouvi nos bairros populares de Caracas, onde morei por mais de dez anos. Era raro algu\u00e9m n\u00e3o ter se beneficiado de alguma miss\u00e3o.<br \/>\nPara os cr\u00edticos, as miss\u00f5es eram um instrumento populista de controle social e compra de opini\u00f5es e votos que desencadeava gastos sem controle ou controladoria e que n\u00e3o solucionava os problemas estruturais do pa\u00eds.<br \/>\nO aumento incomum do pre\u00e7o mundial do barril de petr\u00f3leo em uma economia dependente ajudou a empurr\u00e1-los para frente. E a pressionar Ch\u00e1vez politicamente.<br \/>\n&#8220;A economia melhorou e come\u00e7amos a inventar mais miss\u00f5es. E come\u00e7amos a subir nas pesquisas, e as pesquisas n\u00e3o falham. N\u00e3o h\u00e1 m\u00e1gica aqui, \u00e9 pol\u00edtica&#8221;, disse Ch\u00e1vez.<br \/>\nMaduro continuou com as miss\u00f5es. Mas, como indica Luis Vicente Le\u00f3n, presidente da consultoria Datan\u00e1lisis, entre os dois &#8220;n\u00e3o h\u00e1 compara\u00e7\u00e3o, nem na execu\u00e7\u00e3o, nem no uso da comunica\u00e7\u00e3o&#8221;<br \/>\nA disponibilidade de recursos tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a mesma. E isso fica evidente na transforma\u00e7\u00e3o das miss\u00f5es e em como elas chegam \u00e0s pessoas.<br \/>\nPor exemplo, a Miss\u00e3o de Alimentos, criada em 2003 para dar &#8220;seguran\u00e7a alimentar&#8221; \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, foi uma das mais importantes e sofreu uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica.<br \/>\nEssa miss\u00e3o distribu\u00eda alimentos e itens b\u00e1sicas a pre\u00e7os regulados pelo governo por meio de uma rede de supermercados, mercados e armaz\u00e9ns em todo o pa\u00eds. O acesso era como em qualquer outro neg\u00f3cio: voc\u00ea entrava, escolhia, pagava e ia para casa.<br \/>\nMas, depois da festa da fartura do momento de alta dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, veio a ressaca e a hora de pagar a conta com a queda do pre\u00e7o do barril.<br \/>\nA partir de 2014, a economia entrou em recess\u00e3o, a escassez de divisas agravou-se, o setor privado declinou, come\u00e7aram os desabastecimentos nos mercados, a estocagem de alimentos e a especula\u00e7\u00e3o. Esse foi o lado econ\u00f4mico.<br \/>\nO lado mais duro, o social, foi ver como as pessoas emagreciam drasticamente, trocavam farinha por leite em p\u00f3. Longas filas para conseguir alimentos b\u00e1sicos se formavam em uma nova modalidade de racionamento onde se comprava por n\u00famero do RG, com a premissa de &#8220;s\u00f3 dois por pessoa&#8221;. Pessoas peregrinavam por dias em busca de medicamentos.<br \/>\nNesse contexto, a Miss\u00e3o Alimentar derivou em 2016 na popularmente chamada \u201ccaixa CLAP\u201d (Comit\u00eas de Abastecimento e Produ\u00e7\u00e3o Local), um combo de alimentos b\u00e1sicos, entregues quinzenalmente aos domic\u00edlios previamente cadastrados.<br \/>\nEmbora tenha sido uma ajuda aos setores mais pobres, n\u00e3o \u00e9 isento de cr\u00edticas: distribui\u00e7\u00e3o irregular ou \u00e0s vezes inexistente, uso para chantagem e controle pol\u00edtico, den\u00fancias de alimentos de m\u00e1 qualidade e casos de corrup\u00e7\u00e3o em grande escala se acumulam.<br \/>\n&#8220;\u00c9 uma transfer\u00eancia direta, muito \u00fatil do ponto de vista da popularidade e do controle social. Cria-se o medo de perd\u00ea-la. Quem distribui sabe como voc\u00ea se comporta, se vai a protestos ou manifesta\u00e7\u00f5es. Cria depend\u00eancia&#8221;, diz Lu\u00eds Vicente Le\u00f3n.<br \/>\nAinda hoje, 40% dos domic\u00edlios recebem a caixa Clap, segundo o \u00faltimo relat\u00f3rio do Centro de Estudos Agroalimentares. Uma ajuda essencial em um pa\u00eds onde a vida est\u00e1 cada vez mais cara e o poder de compra est\u00e1 diminuindo.<br \/>\nEconomia: do &#8216;morte ao d\u00f3lar&#8217; \u00e0 dolariza\u00e7\u00e3o de fato &#8220;Exproprie-se!&#8221;<br \/>\nCh\u00e1vez repetiu a m\u00e1xima at\u00e9 enjoar. Cumpriu o prometido e combinou isso com um forte discurso contra os empres\u00e1rios, principalmente depois do golpe que o afastou temporariamente do poder em 2002.<br \/>\nEle e Maduro acusaram os empres\u00e1rios de estocar alimentos, escond\u00ea-los e &#8220;fazer uma guerra econ\u00f4mica contra o povo&#8221; com especula\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os.<br \/>\nExemplo emblem\u00e1tico foram os ataques ao magnata Lorenzo Mendoza, rosto p\u00fablico das Empresas Polar, respons\u00e1vel por grande parte da produ\u00e7\u00e3o de alimentos do pa\u00eds e sobre os quais pairava de vez em quando o temor de expropria\u00e7\u00e3o.<br \/>\nIsso se traduziu principalmente em duas medidas econ\u00f4micas. A primeira, o controle de divisas, algo criado na d\u00e9cada de 1980, mas que Ch\u00e1vez retoma &#8220;para ficar&#8221;. A segunda foi o controle de pre\u00e7os para conter a infla\u00e7\u00e3o e fazer a &#8220;transi\u00e7\u00e3o para o socialismo&#8221;.<br \/>\n\u201cO modelo econ\u00f4mico anterior [a 2003] n\u00e3o estimulava o investimento estrangeiro e promovia a sa\u00edda de capitais, o que levava a um controle, em princ\u00edpio administr\u00e1vel, quando havia pre\u00e7os altos do petr\u00f3leo\u201d, diz Tamara Herrera, economista e diretora da consultoria S\u00edntesis Financiera.<br \/>\nA combina\u00e7\u00e3o de expropria\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as e controles trouxe o debacle do setor privado, com cada vez menos incentivos.<br \/>\nPouco resta dessas medidas tomadas para &#8220;derrotar os v\u00edcios do capitalismo&#8221;, como disse Ch\u00e1vez, pelo menos na pr\u00e1tica.<br \/>\n&#8220;O controle cambial tornou-se insustent\u00e1vel e foi desmantelado em 2018&#8221;, diz Herrera.<br \/>\nNos \u00faltimos anos, Maduro tamb\u00e9m mudou sua rela\u00e7\u00e3o com os empres\u00e1rios, suspendeu o controle de pre\u00e7os e, hoje, o &#8220;d\u00f3lar criminoso&#8221;, como o presidente o descreveu, circula livremente em uma economia na pr\u00e1tica dolarizada.<br \/>\n\u00c0 ruptura do tecido econ\u00f4mico nacional juntaram-se as san\u00e7\u00f5es impostas pelos Estados Unidos a partir de 2017 que pro\u00edbem a Venezuela de emitir d\u00edvida ou fazer neg\u00f3cios com a PDVSA, a petroleira estatal.<br \/>\nWashington considera que Maduro n\u00e3o \u00e9 um presidente leg\u00edtimo porque, nas elei\u00e7\u00f5es de 2018, grande parte da oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o participou por falta de garantias eleitorais.<br \/>\nLuis Vicente Le\u00f3n, da Datan\u00e1lisis, explica que, por n\u00e3o ter musculatura econ\u00f4mica nem capacidade de produzir ou comprar bens para abastecer o mercado nacional, isso obrigou o governo Maduro a buscar alternativas de abastecimento no setor privado e ajustar a pol\u00edtica econ\u00f4mica.<br \/>\nSe em 2015 n\u00e3o encontrei farinha, leite e a\u00e7\u00facar, lembro-me de como em junho de 2019 vi, pela primeira vez em anos, os tr\u00eas alimentos na mesma prateleira. Claro, a pre\u00e7os incomuns e mais caros do que em outros pa\u00edses sem crise.<br \/>\nTamb\u00e9m me surpreendi \u00e0 \u00e9poca com a naturalidade com que as pessoas come\u00e7aram a manusear o d\u00f3lar na rua e para qualquer transa\u00e7\u00e3o enquanto, em 2010, quando cheguei ao pa\u00eds, o d\u00f3lar era negociado com temor no mercado negro.<br \/>\nIsso n\u00e3o significa, no entanto, mais bonan\u00e7a.<br \/>\nCh\u00e1vez conseguiu reduzir a pobreza em mais da metade, segundo dados da Cepal (Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe, \u00f3rg\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas), e reduzir a desigualdade.<br \/>\nMas essa tend\u00eancia se inverteu, segundo dados da Pesquisa de Condi\u00e7\u00f5es de Vida (Encovi), e a Venezuela \u00e9 atualmente o pa\u00eds mais desigual da Am\u00e9rica Latina.<br \/>\nEmbora tenha havido alguma abertura econ\u00f4mica e crescimento, o dano \u00e0 economia \u00e9 grande e, segundo Tamara Herrera, da S\u00edntesis Financiera, se n\u00e3o forem feitas mudan\u00e7as profundas, ela continuar\u00e1 em risco.<br \/>\nComo resultado da crise econ\u00f4mica e social, mais de 7,1 milh\u00f5es de venezuelanos deixaram o pa\u00eds, segundo dados da ONU.<br \/>\nPol\u00edtica: da participa\u00e7\u00e3o popular \u00e0 diplomacia dos petrod\u00f3lares &#8220;[De Ch\u00e1vez] O mais importante e que vai perdurar \u00e9 a tentativa de empoderar uma parte importante da popula\u00e7\u00e3o, que os mais oprimidos tenham consci\u00eancia de seu potencial pol\u00edtico&#8221;, diz Carlos Malamud, catedr\u00e1tico de hist\u00f3ria da Am\u00e9rica e principal pesquisador do centro de pesquisa espanhol Real Instituto Elcano.<br \/>\nDe origem humilde, Ch\u00e1vez contrastou com os pol\u00edticos anteriores. E explorou essa diferen\u00e7a. Ele se conectou com a popula\u00e7\u00e3o que nunca se viu refletida em seus governantes e os incentivou a participar da pol\u00edtica do pa\u00eds, da qual antes eram exclu\u00eddos.<br \/>\nCampanhas massivas para tirar documentos ou abrir conta banc\u00e1ria para quem nunca teve uns ou outra, ou a participa\u00e7\u00e3o em unidades de base onde apresentavam seus pedidos ao governo foram alguns exemplos. E isso se traduziu em apoios e votos, algo que Maduro tentou manter ao longo dos anos gra\u00e7as ao alto n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o mantido pelo n\u00facleo duro do chavismo.<br \/>\n&#8220;\u00c9 uma participa\u00e7\u00e3o muito pobre, mais fict\u00edcia do que real, mas o discurso subjacente \u00e9 a aten\u00e7\u00e3o social. E, na pol\u00edtica agora na Venezuela, mesmo a oposi\u00e7\u00e3o, para ter sucesso, precisa se conectar com essa base da popula\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma Le\u00f3n.<br \/>\nNos bastidores, todos concordam que Ch\u00e1vez colocou a Venezuela no mapa.<br \/>\nSeu car\u00e1ter personalista e carism\u00e1tico, o interesse em criar alian\u00e7as na regi\u00e3o como um muro de conten\u00e7\u00e3o para o &#8220;imp\u00e9rio ianque&#8221;, &#8220;realizando o sonho de Sim\u00f3n Bol\u00edvar&#8221; de unir a Am\u00e9rica Latina, junto com as d\u00e1divas do petr\u00f3leo, combinaram-se a favor disso.<br \/>\nSeu impulso foi fundamental para criar a Alba (Alian\u00e7a Bolivariana para os Povos da Am\u00e9rica) em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Alca (\u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas), bem como a Unasul (Uni\u00e3o de Na\u00e7\u00f5es Sul-Americanas) e a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos).<br \/>\nEssa pol\u00edtica de rela\u00e7\u00f5es internacionais foi chamada de &#8220;diplomacia do petrod\u00f3lar&#8221;.<br \/>\n&#8220;Ele se tornou um l\u00edder hemisf\u00e9rico e regional. Era o primeiro a socorrer a regi\u00e3o [do Caribe] se havia alguma cat\u00e1strofe e ele dava dinheiro&#8221;, observa a historiadora Margarita L\u00f3pez Maya.<br \/>\n&#8220;Essa lideran\u00e7a foi poss\u00edvel devido \u00e0 associa\u00e7\u00e3o com Fidel Castro e \u00e0 enorme disponibilidade de recursos. Sem a PetroCaribe [alian\u00e7a petrol\u00edfera dos pa\u00edses do Caribe com a Venezuela] e outras inst\u00e2ncias de coopera\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito dif\u00edcil pensar que ele teria desempenhado esse papel&#8221;, afirma Malamud.<br \/>\nO panorama, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. Se Ch\u00e1vez viajou quil\u00f4metros e fez alian\u00e7as no mundo, com o governo Maduro perdeu-se boa parte disso.<br \/>\nO isolamento internacional de Maduro ocorreu n\u00e3o s\u00f3 pela queda do poder aquisitivo, mudan\u00e7as de sinal pol\u00edtico na regi\u00e3o ou pela compara\u00e7\u00e3o com Ch\u00e1vez.<br \/>\nCom o aparecimento de Juan Guaid\u00f3 em 2019, que se proclamou presidente interino da Venezuela ap\u00f3s argumentar que o governo era ileg\u00edtimo depois das elei\u00e7\u00f5es de 2018 por n\u00e3o ter cumprido preceitos democr\u00e1ticos, Maduro perdeu o reconhecimento de mais de 60 pa\u00edses.<br \/>\nEle mant\u00e9m ainda antigas alian\u00e7as, como China, R\u00fassia, Bielorr\u00fassia ou Turquia e recuperou outras, como a Col\u00f4mbia, com a mudan\u00e7a de sinal pol\u00edtico no pa\u00eds vizinho, ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o do esquerdista Gustavo Petro.<br \/>\nMas, na opini\u00e3o de Malamud, do Real Instituto Elcano, a Venezuela se tornou &#8220;um problema para muitos pa\u00edses latino-americanos devido \u00e0s viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, e pol\u00edticos e at\u00e9 governantes de esquerda, como Gabriel Boric [Chile], a condenam abertamente&#8221;.<br \/>\nAtualmente, o governo Maduro enfrenta uma investiga\u00e7\u00e3o no Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade.<br \/>\nEmbora recentemente tenha recuperado espa\u00e7o no cen\u00e1rio internacional com a chegada de Petro ao poder na Col\u00f4mbia e o retorno de Lula no Brasil, e com alguma distens\u00e3o em Washington, o presidente mal sai de seu pa\u00eds e se concentra em vencer as elei\u00e7\u00f5es de 2024, nas quais o mundo vai olhar para a Venezuela novamente.<br \/>\nNeste fim de semana houve homenagens do governo a Ch\u00e1vez pelos dez anos de sua morte.<br \/>\nApesar de ainda ser muito querido e adorado por parte da popula\u00e7\u00e3o, outros o culpam por ser a origem da crise que abala o pa\u00eds h\u00e1 anos.<br \/>\nEnquanto isso, nas paredes de Caracas, os cartazes com o rosto do comandante est\u00e3o desbotando. Os anos se passaram, o pa\u00eds mudou e seu legado tamb\u00e9m.<br \/>\nMas, segundo Margarita L\u00f3pez Maya, &#8220;o maior legado de Ch\u00e1vez \u00e9 o governo de Nicol\u00e1s Maduro&#8221;.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/c512nkx6d8yo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda adorado por parte da popula\u00e7\u00e3o venezuelana, outros o culpam por ser a origem da crise que abala o pa\u00eds h\u00e1 anos Nicol\u00e1s Maduro foi um seguidor fiel de Hugo Ch\u00e1vez desde o in\u00edcio. Com ele, foi constituinte, deputado, chanceler e vice-presidente. Getty Images via BBC Poucos momentos s\u00e3o lembrados com tanta exatid\u00e3o na Venezuela.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":45911,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":{"0":"post-45910","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45910","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45910"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45910\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45911"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}