{"id":45600,"date":"2023-03-06T06:31:24","date_gmt":"2023-03-06T06:31:24","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/03\/06\/por-que-voce-me-torturou-a-luta-de-empregada-domestica-por-justica-na-malasia\/"},"modified":"2023-03-06T06:31:24","modified_gmt":"2023-03-06T06:31:24","slug":"por-que-voce-me-torturou-a-luta-de-empregada-domestica-por-justica-na-malasia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/03\/06\/por-que-voce-me-torturou-a-luta-de-empregada-domestica-por-justica-na-malasia\/","title":{"rendered":"&#8216;Por que voc\u00ea me torturou?&#8217;: a luta de empregada dom\u00e9stica por justi\u00e7a\u00a0na Mal\u00e1sia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/1RAcYa52txogo2XyVdG_QHfZHyA=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/X\/H\/NZFm6ITfmwe9y78CmjLA\/a.jpg\"><br \/>     Meriance ainda est\u00e1 buscando compensa\u00e7\u00f5es nove anos ap\u00f3s ter sido v\u00edtima de abusos e c\u00e1rcere privado por ex-patroa. Em entrevista \u00e0 BBC, Meriance Kabu chora ao relatar os abusos que sofreu como empregada dom\u00e9stica em Kuala Lumpur, na Mal\u00e1sia<br \/>\nBBC \/ DWIKI MARTA<br \/>\n&#8220;Ajude-me, estou sendo torturada pela minha patroa&#8221;, escreveu Meriance Kabu num peda\u00e7o de papel. &#8220;Estou coberta de sangue todos os dias, me ajude!&#8221;<br \/>\nEla ent\u00e3o dobrou rapidamente o bilhete e o lan\u00e7ou para fora dos port\u00f5es de ferro trancados do apartamento nos sub\u00farbios de Kuala Lumpur, capital da Mal\u00e1sia, onde vivia e trabalhava como empregada dom\u00e9stica.<br \/>\nUma mulher que passava pegou o peda\u00e7o de papel. Ap\u00f3s l\u00ea-lo, ela imediatamente o levou a um policial aposentado que morava no mesmo condom\u00ednio.<br \/>\n&#8220;Se ela tivesse ficado l\u00e1, certamente teria morrido&#8221;, disse ele mais tarde.<br \/>\nNaquele mesmo dia, 20 de dezembro de 2014, a pol\u00edcia malaia bateu na porta do apartamento onde Meriance morava. Ela n\u00e3o sa\u00eda dali h\u00e1 oito meses.<br \/>\n&#8220;Senti como se estivesse caindo&#8221;, diz ela, lembrando o momento em que viu os policiais. &#8220;Eles disseram: &#8216;n\u00e3o tenha medo, estamos aqui&#8217;. Naquele momento me senti forte novamente. Senti como se pudesse respirar novamente. Os policiais me chamaram mais para perto e contei a verdade.&#8221;<br \/>\nEsta reportagem cont\u00e9m detalhes que alguns leitores podem achar angustiantes.<br \/>\nNove anos depois, Meriance ainda luta por justi\u00e7a. Seu caso, que est\u00e1 longe de ser \u00fanico, revela o qu\u00e3o vulner\u00e1veis s\u00e3o os trabalhadores migrantes indocumentados e com que frequ\u00eancia a Justi\u00e7a ignora at\u00e9 mesmo aqueles que sobrevivem para contar sua hist\u00f3ria.<br \/>\nEm 2015, a pol\u00edcia acusou a patroa de Meriance, Ong Su Ping Serene, de les\u00e3o corporal grave, tentativa de homic\u00eddio, tr\u00e1fico humano e viola\u00e7\u00f5es de imigra\u00e7\u00e3o. Ela se declarou inocente dos crimes.<br \/>\nMeriance testemunhou no tribunal antes de finalmente voltar para o conforto de seu lar. Dois anos depois, ela recebeu not\u00edcias da embaixada indon\u00e9sia de que os promotores haviam arquivado o caso alegando falta de provas.<br \/>\nMarido de Meriance diz que n\u00e3o a reconheceu quando ela foi resgatada<br \/>\nBBC \/ DWIKI MARTA<br \/>\n&#8220;A patroa de Meriance est\u00e1 livre, onde est\u00e1 a Justi\u00e7a?&#8221;, pergunta o embaixador indon\u00e9sio na Mal\u00e1sia, Hermono (muitos indon\u00e9sios t\u00eam um \u00fanico nome) que conheceu Meriance em outubro.<br \/>\nA embaixada contratou assessoria jur\u00eddica para ela e est\u00e1 fazendo lobby para que o caso seja retomado.<br \/>\n&#8220;Qual foi o motivo da demora? Cinco anos n\u00e3o \u00e9 tempo suficiente? Se n\u00e3o continuarmos fazendo press\u00e3o, [o caso] ser\u00e1 esquecido, principalmente porque Meriance j\u00e1 voltou para casa.&#8221;<br \/>\nN\u00e3o se sabe por que t\u00e3o poucos casos de abuso resultam em processos na Mal\u00e1sia, mas os ativistas apontam para uma cultura que v\u00ea as trabalhadoras dom\u00e9sticas, a maioria das quais s\u00e3o indon\u00e9sias, como cidad\u00e3s de segunda classe que n\u00e3o merecem o mesmo n\u00edvel de prote\u00e7\u00e3o que os malaios.<br \/>\nO Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da Mal\u00e1sia disse \u00e0 BBC que &#8220;garantiria que a Justi\u00e7a seja feita de acordo com a lei&#8221;.<br \/>\nEm 2018, um tribunal indon\u00e9sio prendeu dois homens acusados de traficar Meriance. O juiz concluiu que ela foi enviada para trabalhar na Mal\u00e1sia &#8220;como empregada dom\u00e9stica de Ong Su Ping Serene, que a torturou, causando ferimentos graves&#8221; que a levaram ao hospital.<br \/>\nA prova\u00e7\u00e3o de Meriance foi descrita em detalhes impactantes no veredicto, segundo o qual sua patroa a espancava implacavelmente, muitas vezes a torturando com ferro quente, pin\u00e7as, martelo, bast\u00e3o e alicate. Chegou, inclusive, a quebrar seu nariz certa vez.<br \/>\nOito anos depois, seu corpo ainda carrega as marcas dessa tortura. H\u00e1 uma cicatriz profunda em seu l\u00e1bio superior, faltam-lhe quatro dentes e uma de suas orelhas est\u00e1 deformada.<br \/>\nO marido de Meriance, Karvius, conta que n\u00e3o conseguiu reconhec\u00ea-la depois que ela foi resgatada: &#8220;Fiquei t\u00e3o chocado quando me mostraram fotos de Meri no hospital&#8221;.<br \/>\nNo ano passado, a Mal\u00e1sia e a Indon\u00e9sia assinaram um acordo para melhorar as condi\u00e7\u00f5es dos trabalhadores dom\u00e9sticos indon\u00e9sios no pa\u00eds. A Indon\u00e9sia agora est\u00e1 fazendo lobby para que o caso contra a patroa de Meriance seja retomado.<br \/>\nTrabalhadores indocumentados como ela s\u00e3o especialmente vulner\u00e1veis porque seus passaportes s\u00e3o confiscados, e eles vivem com o empregador em um pa\u00eds estrangeiro. Dessa forma, t\u00eam poucas op\u00e7\u00f5es para procurar ajuda.<br \/>\n&#8220;Todo mundo precisa assumir mais responsabilidades&#8221;, diz a deputada malaia Hannah Yeoh, que quer acabar com o que ela descreve como uma &#8220;cultura de sil\u00eancio&#8221; no pa\u00eds em torno do abuso de trabalhadores dom\u00e9sticos.<br \/>\nO Minist\u00e9rio do Trabalho da Mal\u00e1sia diz que h\u00e1 mais de 63 mil empregadas dom\u00e9sticas indon\u00e9sias no pa\u00eds, mas esse n\u00famero n\u00e3o inclui as que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o irregular. N\u00e3o h\u00e1 estimativas oficiais sobre o total de trabalhadores indocumentados. A embaixada da Indon\u00e9sia diz ter recebido relatos de quase 500 casos de abuso nos \u00faltimos cinco anos.<br \/>\nEsse n\u00famero \u00e9 apenas a &#8220;ponta do iceberg&#8221;, diz o embaixador Hermono, porque muitos casos, especialmente os que envolvem trabalhadores indocumentados, ainda n\u00e3o s\u00e3o denunciados.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o sei quando isso vai acabar. O que sabemos \u00e9 que h\u00e1 cada vez mais v\u00edtimas \u2014 de tortura, falta de pagamento de sal\u00e1rios e outros crimes.&#8221;<br \/>\nA embaixada n\u00e3o sabe dizer quantos casos de abuso resultaram em processos. Mas houve alguns veredictos de grande import\u00e2ncia. Em 2008, uma malaia foi condenada a 18 anos de pris\u00e3o por torturar sua empregada indon\u00e9sia. Seis anos depois, um casal foi condenado \u00e0 morte pelo assassinato de sua empregada dom\u00e9stica indon\u00e9sia.<br \/>\n&#8216;Vou lutar at\u00e9 morrer&#8217;<br \/>\n&#8220;Vou lutar por justi\u00e7a at\u00e9 morrer&#8221;, diz Meriance. &#8220;S\u00f3 quero poder perguntar \u00e0 minha ex-patroa, &#8216;por que voc\u00ea me torturou?'&#8221;<br \/>\nMeriance com o marido e os tr\u00eas filhos<br \/>\nBBC \/ DWIKI MARTA<br \/>\nMeriance tinha 32 anos quando decidiu buscar trabalho no exterior para que &#8220;as crian\u00e7as n\u00e3o chorassem mais por comida&#8221;.<br \/>\nA vida era dura em seu vilarejo no Timor Ocidental, onde n\u00e3o havia eletricidade nem \u00e1gua corrente limpa. E o sal\u00e1rio do marido como oper\u00e1rio n\u00e3o era suficiente para sustentar a fam\u00edlia de seis pessoas.<br \/>\nEla aceitou a oferta de trabalho na Mal\u00e1sia e sonhava em construir uma casa para sua fam\u00edlia.<br \/>\nQuando Meriance chegou a Kuala Lumpur em abril de 2014, o recrutador pegou seu passaporte e o entregou \u00e0 sua patroa. Recrutadores na Indon\u00e9sia j\u00e1 haviam confiscado o celular dela.<br \/>\nMas ela tinha esperan\u00e7a de uma vida melhor. Sua fun\u00e7\u00e3o era &#8220;cuidar da vov\u00f3&#8221;, m\u00e3e de sua patroa Serene, que na \u00e9poca tinha 93 anos.<br \/>\nTr\u00eas semanas ap\u00f3s come\u00e7ar a trabalhar, diz ela, os espancamentos come\u00e7aram.<br \/>\nUma noite, Serene queria cozinhar peixe, mas n\u00e3o conseguiu encontr\u00e1-lo na geladeira porque Meriance o colocou no freezer por engano. De repente, diz que foi atingida pelo peixe congelado. Sua cabe\u00e7a come\u00e7ou a sangrar.<br \/>\nDepois disso, era espancada todos os dias, conta ela.<br \/>\nMeriance diz que nunca foi autorizada a sair do apartamento. O port\u00e3o de ferro do im\u00f3vel estava sempre trancado, e ela n\u00e3o tinha a chave. Quatro dos vizinhos que moravam no mesmo quarteir\u00e3o n\u00e3o sabiam de sua exist\u00eancia at\u00e9 o dia em que a pol\u00edcia chegou.<br \/>\n&#8220;Eu s\u00f3 a vi na noite em que ela foi resgatada&#8221;, disse um deles.<br \/>\nMeriance diz que a tortura e os espancamentos s\u00f3 paravam quando sua patroa se cansava. Ela ent\u00e3o ordenava que Meriance limpasse seu pr\u00f3prio sangue que havia espirrado no ch\u00e3o e nas paredes.<br \/>\nHouve momentos, diz ela, em que cogitou tirar a pr\u00f3pria vida, mas pensar em seus quatro filhos a fez seguir adiante.<br \/>\nMeriance diz que pensar em seus quatro filhos a fez seguir adiante<br \/>\nBBC \/ DWIKI MARTA<br \/>\n&#8220;Tamb\u00e9m pensei em revidar&#8221;, disse ela. &#8220;Mas se eu lutasse, teria morrido.&#8221;<br \/>\nEnt\u00e3o, um dia \u2014 no final de 2014 \u2014 ela se olhou no espelho e sentiu algo mudar: &#8220;N\u00e3o aguentava mais. Estava com raiva, n\u00e3o da minha patroa. Mas de mim mesma. Tinha que ousar sair daquela situa\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nFoi quando ela escreveu a carta que a libertaria.<br \/>\nA BBC fez v\u00e1rias tentativas de entrar em contato com sua patroa, Ong Su Ping Serene, para responder \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es, mas ela se recusou a dar entrevista.<br \/>\nMeriance diz que luta por justi\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 por ela, mas em nome de todos os outros trabalhadores dom\u00e9sticos que sofrem abusos.<br \/>\nO embaixador Hermono est\u00e1 lidando com outro caso de uma empregada dom\u00e9stica que, segundo ele, foi torturada &#8220;em condi\u00e7\u00f5es subhumanas&#8221; e passou fome. Ela pesava apenas 30 kg quando foi resgatada. Sua patroa est\u00e1 sendo julgada.<br \/>\nMas h\u00e1 quem, como Adelina Sau, de 20 anos, n\u00e3o tenha sido resgatada a tempo. Ela morreu ap\u00f3s ser submetida \u00e0 fome e torturada por sua patroa.<br \/>\nA patroa foi acusada de assassinato, mas em 2019 a promotoria retirou as acusa\u00e7\u00f5es. Um recurso para reabrir o caso foi rejeitado pela Justi\u00e7a no ano passado.<br \/>\nAdelina era do mesmo distrito de Meriance em Timor Ocidental.<br \/>\nMeriance diz que conheceu a m\u00e3e de Adelina em seu vilarejo e disse a ela: &#8220;Mesmo que sua filha esteja morta, sua voz est\u00e1 em mim.&#8221;<br \/>\nTexto originalmente publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/c3gzy22n04po<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meriance ainda est\u00e1 buscando compensa\u00e7\u00f5es nove anos ap\u00f3s ter sido v\u00edtima de abusos e c\u00e1rcere privado por ex-patroa. 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