{"id":45460,"date":"2023-03-05T13:27:14","date_gmt":"2023-03-05T13:27:14","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/03\/05\/como-vulcao-pode-provocar-caos-global-em-caso-de-erupcao\/"},"modified":"2023-03-05T13:27:14","modified_gmt":"2023-03-05T13:27:14","slug":"como-vulcao-pode-provocar-caos-global-em-caso-de-erupcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/03\/05\/como-vulcao-pode-provocar-caos-global-em-caso-de-erupcao\/","title":{"rendered":"Como vulc\u00e3o pode provocar caos global em caso de erup\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/34RFfxq_aqMRoKlI30tUPUpXbgw=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/0\/h\/PvvDWNQcmmUFwrOqhBVw\/19c483c0-b796-11ed-89f4-f3657d2bfa3b.png\"><br \/>     S\u00e3o apenas algumas centenas de quil\u00f4metros de extens\u00e3o, mas as consequ\u00eancias de um desastre natural perto do estreito de Malaca, entre a Mal\u00e1sia e a Indon\u00e9sia, podem afetar todo o mundo. As consequ\u00eancias de um desastre natural perto do estreito de Malaca podem afetar todo o mundo<br \/>\nAlamy<br \/>\nTodos os anos, cerca de 90 mil navios trafegam pela estreita passagem mar\u00edtima do estreito de Malaca, que liga o Oceano \u00cdndico ao Pac\u00edfico.<br \/>\nA carga transportada \u2013 gr\u00e3os, petr\u00f3leo bruto e todo tipo de commodity que voc\u00ea pode imaginar \u2013 representa cerca de 40% do com\u00e9rcio mundial. Acima desses navios, encontra-se uma das vias a\u00e9reas mais movimentadas do mundo e, abaixo deles, sobre o leito do oceano, h\u00e1 uma enorme rede de cabos submarinos de internet que mant\u00eam o mundo conectado.<br \/>\nJuntos, estes fatores tornam o estreito de Malaca uma das art\u00e9rias mais importantes para a economia global. Ele foi classificado como ponto de estrangulamento em relat\u00f3rios da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, da Administra\u00e7\u00e3o de Informa\u00e7\u00f5es de Energia dos Estados Unidos e do centro de estudos sobre assuntos externos Chatham House, com sede em Londres.<br \/>\nTodos eles afirmam: voc\u00ea tem um belo estreito ali. Seria uma pena se acontecesse algo com ele.<br \/>\nPesquisadores alertam que \u00e9 apenas quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que um desastre natural, como um terremoto ou erup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica, atinja a regi\u00e3o. E, quando isso acontecer, as consequ\u00eancias afetar\u00e3o todo o mundo.<br \/>\nTecnologia de rastreamento revela volume de tr\u00e1fego de navios no estreito de Malaca<br \/>\nAlamy<br \/>\nA interrup\u00e7\u00e3o das principais rotas comerciais \u00e9 um problema consistente, devido \u00e0 criminalidade ou a erros humanos. A pirataria \u00e9 um flagelo na regi\u00e3o h\u00e1 muito tempo, mas o estreito \u00e9 fiscalizado em coopera\u00e7\u00e3o pela Indon\u00e9sia, Mal\u00e1sia, Singapura e Tail\u00e2ndia, ficando geralmente sob controle.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 raro ocorrer colis\u00f5es de navios no local. Dez marinheiros americanos morreram quando o navio USS John McCain colidiu com um petroleiro de bandeira liberiana em 2017.<br \/>\nMas, com 2,7 km de largura m\u00ednima, o local n\u00e3o \u00e9 suficientemente estreito para ser bloqueado por um porta-cont\u00eaineres errante, como ocorreu no Canal de Suez em 2021, com o navio Ever Given, que tem 400 metros de largura.<br \/>\nAs maiores amea\u00e7as ao estreito de Malaca, que separa a pen\u00ednsula malaia da ilha indon\u00e9sia de Sumatra, est\u00e3o no mundo natural.<br \/>\nDentre os muitos mapas preocupantes da atividade na regi\u00e3o, o mais not\u00e1vel \u00e9 o que re\u00fane os vulc\u00f5es ativos e terremotos recentes do planeta. A costa de Sumatra e a parte mais ao sul da ilha de Java, seguindo o curso da fossa de Sunda, formam uma faixa de atividade s\u00edsmica com diversos vulc\u00f5es.<br \/>\nEm Java, dois vulc\u00f5es \u2013 os montes Semeru e Merapi \u2013 entraram recentemente em erup\u00e7\u00e3o. No estreito de Sunda, que separa Java de Sumatra, fica Cracatoa e, a leste, est\u00e1 o monte Tambora. Sua erup\u00e7\u00e3o em 1815 causou queda na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola at\u00e9 na Europa e no leste dos Estados Unidos.<br \/>\nA erup\u00e7\u00e3o do monte Tambora teve magnitude VEI7 no \u00cdndice de Explosividade Vulc\u00e2nica (VEI, na sigla em ingl\u00eas), uma escala logar\u00edtmica que vai at\u00e9 VEI8.<br \/>\nUm evento como o de 1815 pode ocorrer uma ou duas vezes a cada mil\u00eanio. Mas n\u00e3o \u00e9 preciso ter uma erup\u00e7\u00e3o com magnitude t\u00e3o alta para causar problemas s\u00e9rios em um ponto de estrangulamento global, especialmente se acontecer em um dos vulc\u00f5es mais pr\u00f3ximos ao estreito de Malaca.<br \/>\nEm 2018, pesquisadores do Centro de Estudos de Risco da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, imaginaram os efeitos de cen\u00e1rios que inclu\u00edram uma erup\u00e7\u00e3o VEI6 do monte Marapi, em Sumatra. Eles sugeriram que a erup\u00e7\u00e3o pode produzir nuvens de cinza e piroclasto fino \u2013 fragmentos de rocha ejetados no ar \u2013 que ir\u00e3o flutuar atrav\u00e9s do estreito de Malaca, em dire\u00e7\u00e3o a Singapura e \u00e0 Mal\u00e1sia.<br \/>\nOs danos resultantes \u00e0 infraestrutura local e \u00e0s cadeias de fornecimento (a avia\u00e7\u00e3o, particularmente, seria muito prejudicada) seriam combinados com uma queda global da temperatura de 1\u00b0C, gerando uma queda estimada de US$ 2,51 trilh\u00f5es (cerca de R$ 13 trilh\u00f5es) do PIB global por um per\u00edodo de cinco anos.<br \/>\nEste n\u00famero \u00e9 muito maior que os US$ 5 bilh\u00f5es (R$ 26 bilh\u00f5es) de preju\u00edzo estimado \u00e0 economia global, devido \u00e0 erup\u00e7\u00e3o VEI4 do vulc\u00e3o Eyjafjallaj\u00f6kull, na Isl\u00e2ndia, em 2010.<br \/>\nA \u00faltima erup\u00e7\u00e3o VEI4 do monte Marapi tamb\u00e9m ocorreu em 2010. Uma erup\u00e7\u00e3o VEI6 no Marapi \u00e9 menos prov\u00e1vel \u2013 seu per\u00edodo de retorno, que \u00e9 o tempo m\u00e9dio estimado entre cada erup\u00e7\u00e3o, \u00e9 de 750 anos.<br \/>\nMas os riscos s\u00e3o muito altos e merecem considerar seriamente esta possibilidade, segundo a vulcan\u00f3loga Lara Mani, do Centro de Estudo de Riscos Existenciais da Universidade de Cambridge. E o Marapi \u00e9 apenas um dos diversos vulc\u00f5es ativos na regi\u00e3o.<br \/>\nMani afirma que erup\u00e7\u00f5es VEI4, VEI5 e VEI6 &#8220;ainda podem realmente prejudicar o estreito. E o caso \u00e9 que, quando um vulc\u00e3o come\u00e7a, ele n\u00e3o diz quando ir\u00e1 parar&#8221;.<br \/>\nUma forte erup\u00e7\u00e3o no monte Semeru, na Indon\u00e9sia, pode ser um problema global<br \/>\nAlamy<br \/>\nVamos imaginar que um desses vulc\u00f5es ativos \u2013 como o monte Semeru na ilha de Java, na Indon\u00e9sia \u2013 produza uma erup\u00e7\u00e3o VEI5 ou VEI6.<br \/>\nO magma irromperia da cratera. Cinzas seriam lan\u00e7adas para o c\u00e9u. Tremores sacudiram cidades da regi\u00e3o.<br \/>\nSe o vento estiver na dire\u00e7\u00e3o sudoeste, todo o tr\u00e1fego a\u00e9reo do estreito de Malaca seria suspenso. A cinza cairia sobre o pr\u00f3prio estreito. Peda\u00e7os de pedra-pomes acumulariam-se sobre a superf\u00edcie do mar.<br \/>\nUm grande terremoto relativamente pr\u00f3ximo seria uma amea\u00e7a de escala similar. Ele poderia causar um tsunami sobre o estreito, como o tsunami de 26 de dezembro de 2004. E tamb\u00e9m geraria correntes de turbidez \u2013 nuvens de sedimentos agitados movendo-se em alta velocidade \u2013 que atingiriam o leito oce\u00e2nico.<br \/>\n&#8220;\u00c9 tipicamente o que faz romper os cabos&#8221;, explica Mani. &#8220;Na erup\u00e7\u00e3o de Tonga [a erup\u00e7\u00e3o VEI5 do vulc\u00e3o Hunga Tonga-Hunga, em janeiro de 2022], foram as correntes de turbidez que romperam os cabos, causando um blackout regional da internet. As correntes de turbidez tamb\u00e9m enterram esses cabos, dificultando ainda mais a sua recupera\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nO lado positivo \u00e9 que esses desastres naturais causariam menos transtornos \u00e0 navega\u00e7\u00e3o global do que o Ever Given em Suez, segundo Tristan Smith, do University College de Londres.<br \/>\nSmith \u00e9 especialista em navega\u00e7\u00e3o do instituto de energia da universidade. Ele afirma que as m\u00e1quinas dos navios devem conseguir lidar com as cinzas e que o tsunami \u00e9 mais perigoso para as pessoas em terra, onde a onda se quebra e \u00e9 maior do que no mar.<br \/>\nImagina-se tamb\u00e9m que, no caso de erup\u00e7\u00e3o, seja declarada uma zona de exclus\u00e3o, for\u00e7ando os navios a seguir outro caminho. O redirecionamento dos navios teria efeitos sobre o com\u00e9rcio global, segundo Smith, mas o sistema deve acabar conseguindo lidar com a situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Se voc\u00ea tiver um navio que atrase tr\u00eas dias porque precisa seguir pelo caminho mais longo em volta da Indon\u00e9sia, tudo o que aquele navio precisa fazer \u00e9 aumentar a velocidade em um ou dois n\u00f3s para compensar o atraso&#8221;, explica ele.<br \/>\nE haveria ainda a quest\u00e3o dos avi\u00f5es em terra. A erup\u00e7\u00e3o do Eyjafjallaj\u00f6kull gerou a proibi\u00e7\u00e3o de uso do espa\u00e7o a\u00e9reo por seis dias, trazendo problemas para milh\u00f5es de pessoas. E ainda pior seria o corte dos cabos submarinos, que causaria um pandem\u00f4nio econ\u00f4mico.<br \/>\n&#8220;Trilh\u00f5es de d\u00f3lares s\u00e3o movimentados por esses cabos todos os dias&#8221;, segundo Mani, &#8220;o que basicamente sustenta nossos mercados financeiros. Nossos cabos submarinos s\u00e3o vulner\u00e1veis e t\u00eam ocorrido acidentes ao longo dos anos.&#8221;<br \/>\nMani destaca o rompimento de diversos cabos submarinos de internet por um terremoto perto de Taiwan em 2006, que deixou um \u00fanico cabo conectando Hong Kong ao resto do mundo.<br \/>\n&#8220;Levou 45 dias para reparar os outros cabos e foi muita sorte que um deles conseguiu sobreviver&#8221;, relembra Mani. &#8220;Imagine 45 dias sem nada para Hong Kong e a regi\u00e3o pr\u00f3xima.&#8221;<br \/>\nTeria sido catastr\u00f3fico, explica ela, n\u00e3o s\u00f3 para Hong Kong, mas para o resto do mundo. Como Singapura, Hong Kong \u00e9 um centro financeiro e um apag\u00e3o local traria um caos econ\u00f4mico mundial.<br \/>\n&#8220;N\u00f3s simplesmente n\u00e3o temos redund\u00e2ncia&#8221;, afirma Mani, sobre os cabos: se algo der errado, n\u00e3o existem substitutos para atender \u00e0 demanda. &#8220;E os nossos sat\u00e9lites, no seu estado atual, podem transportar apenas cerca de 3% das comunica\u00e7\u00f5es globais.&#8221;<br \/>\nA Westports Malaysia, perto do estreito de Malaca, \u00e9 um dos portos mais movimentados do mundo<br \/>\nGetty Images<br \/>\nMedidas de preven\u00e7\u00e3o<br \/>\nO que podemos fazer para tornar o estreito menos vulner\u00e1vel?<br \/>\nN\u00e3o temos como parar terremotos. A Comiss\u00e3o Oceanogr\u00e1fica Intergovernamental e a Unesco elaboraram sistemas de aviso precoce para eventos como tsunamis e existe um servi\u00e7o em opera\u00e7\u00e3o (o Sistema Mundial de Avisos \u00e0 Navega\u00e7\u00e3o) que alerta o transporte mar\u00edtimo sobre desastres geol\u00f3gicos ou meteorol\u00f3gicos. A guarda costeira japonesa \u00e9 o coordenador oficial da regi\u00e3o que inclui o estreito de Malaca.<br \/>\nCom rela\u00e7\u00e3o aos vulc\u00f5es, talvez um dia seja poss\u00edvel evitar as erup\u00e7\u00f5es manipulando o magma embaixo dos vulc\u00f5es, mas estamos a muitos anos de ver esta possibilidade como realista.<br \/>\nNo momento, precisamos melhorar n\u00e3o s\u00f3 o monitoramento dos vulc\u00f5es \u2013 um aviso de erup\u00e7\u00e3o com at\u00e9 algumas horas de anteced\u00eancia faz uma grande diferen\u00e7a \u2013 mas tamb\u00e9m na sua identifica\u00e7\u00e3o. Mani alerta que a Indon\u00e9sia tem &#8220;mais vulc\u00f5es do que se pode imaginar e, para muitos deles, n\u00f3s [vulcan\u00f3logos] nunca olhamos direito.&#8221;<br \/>\nAl\u00e9m disso, a melhor prepara\u00e7\u00e3o \u00e9 a diversifica\u00e7\u00e3o. Mais sat\u00e9lites com internet ajudariam. Os pa\u00edses da regi\u00e3o tamb\u00e9m ampliariam sua resili\u00eancia lan\u00e7ando novos cabos submarinos que sigam caminho diferente dos atuais.<br \/>\nA China parece estar adotando esta pr\u00e1tica com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 navega\u00e7\u00e3o. H\u00e1 anos, ela vem tentando construir um canal atrav\u00e9s do sul da Tail\u00e2ndia, eliminando a necessidade de seguir pelo estreito de Malaca.<br \/>\nO canal da Tail\u00e2ndia, como \u00e9 chamado, reduziria os custos de combust\u00edvel, fornecendo um atalho para o transporte de petr\u00f3leo bruto, mas tamb\u00e9m acrescentaria resili\u00eancia significativa ao transporte mar\u00edtimo chin\u00eas.<br \/>\nEmbora se acredite que o Comit\u00ea Central do Partido Comunista Chin\u00eas considere essa resili\u00eancia em termos geopol\u00edticos, ela tamb\u00e9m pode ser \u00fatil como ap\u00f3lice de seguro para o transporte mar\u00edtimo global.<br \/>\nEncontrar formas de reduzir a depend\u00eancia de pontos de estrangulamento como o estreito de Malaca \u00e9 &#8220;certamente algo que est\u00e1 na mente de muitos governos na \u00c1sia&#8221;, segundo o diretor do programa da \u00c1sia e Oceania da Chatham House, Ben Bland.<br \/>\nOs organismos governamentais respons\u00e1veis da Indon\u00e9sia, Mal\u00e1sia e Singapura n\u00e3o responderam aos pedidos de coment\u00e1rios da BBC, mas podemos considerar que algum planejamento de conting\u00eancia j\u00e1 esteja sendo desenvolvido. E qualquer pessoa beneficiada pelo estreito de Malaca \u2013 e voc\u00ea est\u00e1 neste grupo, se estiver lendo esta reportagem \u2013 deve esperar que esses planos nunca precisem ser colocados em pr\u00e1tica.<br \/>\n&#8211; Texto originalmente publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cglrpng00ylo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o apenas algumas centenas de quil\u00f4metros de extens\u00e3o, mas as consequ\u00eancias de um desastre natural perto do estreito de Malaca, entre a Mal\u00e1sia e a Indon\u00e9sia, podem afetar todo o mundo. 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