{"id":45026,"date":"2023-03-04T15:26:03","date_gmt":"2023-03-04T15:26:03","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/03\/04\/como-israel-se-transformou-em-uma-potencia-de-ciberespionagem\/"},"modified":"2023-03-04T15:26:03","modified_gmt":"2023-03-04T15:26:03","slug":"como-israel-se-transformou-em-uma-potencia-de-ciberespionagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/03\/04\/como-israel-se-transformou-em-uma-potencia-de-ciberespionagem\/","title":{"rendered":"Como Israel se transformou em uma pot\u00eancia de ciberespionagem"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/GwiaFRbjeiaQOTCD1HjbfP8CA0o=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2019\/K\/B\/xNWxFXQ0SRb9aNBkvdjQ\/2019-09-11t130406z-16679908-rc1e246f0200-rtrmadp-3-israel-palestinians-annexation.jpg\"><br \/>     Israel se tornou um expoente na produ\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a cibern\u00e9tica. Mas como explicar que este pa\u00eds de apenas 9 milh\u00f5es de habitantes tenha se tornado esta pot\u00eancia no setor em poucas d\u00e9cadas? Como Israel se transformou em uma pot\u00eancia de ciberespionagem<br \/>\nRonen Zvulun\/Arquivo\/Reuters<br \/>\nEntre 2011 e 2021, o n\u00famero de empresas de seguran\u00e7a cibern\u00e9tica ativas em Israel aumentou de 162 para 459. As exporta\u00e7\u00f5es israelenses neste setor atingiram US$ 11 bilh\u00f5es em 2021, segundo a Dire\u00e7\u00e3o Nacional Cibern\u00e9tica de Israel.<br \/>\nEstes n\u00fameros indicam a vitalidade de um setor em expans\u00e3o. Em poucos anos, Israel se estabeleceu como uma verdadeira &#8220;na\u00e7\u00e3o cibern\u00e9tica&#8221; no cen\u00e1rio internacional.<br \/>\nEmpresas como Check Point, Argus, Verint e NSO, para citar apenas algumas, promovem tecnologias israelenses de ponta, enquanto muitas startups despontam como &#8220;unic\u00f3rnios cibern\u00e9ticos&#8221;, jovens empresas que valem mais de um bilh\u00e3o de d\u00f3lares.<br \/>\nO crescimento impressionante pode ser explicado em parte pelo desenvolvimento precoce da ind\u00fastria de alta tecnologia no pa\u00eds. J\u00e1 nos anos 1960, a Silicon Wadi, o vale do Sil\u00edcio israelense, come\u00e7ou a hospedar empresas de TI. Isso instalou um ecossistema que cresceu gradualmente ao longo de novas ondas de inova\u00e7\u00e3o e sucesso econ\u00f4mico nas d\u00e9cadas de 1980, 1990, 2000 e 2010.<br \/>\nA ind\u00fastria da seguran\u00e7a cibern\u00e9tica \u00e9 hoje herdeira direta deste hist\u00f3rico. No entanto, especialistas garantem que a evolu\u00e7\u00e3o mete\u00f3rica do setor de alta tecnologia est\u00e1 intimamente relacionada \u00e0 situa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica do pa\u00eds.<br \/>\nEntenda o que \u00e9 o Pegasus: software de espionagem que teria sido usado para invadir smartphones de milhares de pessoas<br \/>\nChatGPT: Veja quais tarefas do dia a dia ele consegue fazer (talvez melhor do que voc\u00ea)<br \/>\nPensamento estrat\u00e9gico<br \/>\nFundado em um ambiente inst\u00e1vel e vivendo uma rela\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o com os estados vizinhos, Israel se adaptou a um estado de guerra quase permanente. Os sucessivos governos administraram seus projetos para o pa\u00eds &#8220;em uma l\u00f3gica de amea\u00e7a existencial real&#8221;, explica Ilan Scialom, pesquisador em geopol\u00edtica no laborat\u00f3rio G\u00e9ode, da Universidade Paris VIII.<br \/>\nPara garantir a sobreviv\u00eancia do Estado hebraico, os &#8220;pais fundadores&#8221; desenvolveram um conceito de seguran\u00e7a nacional em torno de v\u00e1rios eixos. O objetivo era apostar na &#8220;superioridade qualitativa&#8221; da seguran\u00e7a do pa\u00eds para contrabalancear a inferioridade num\u00e9rica da popula\u00e7\u00e3o do novo pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o aos estados da regi\u00e3o. Garantindo dessa maneira que o ex\u00e9rcito israelense &#8220;nunca fosse superado por ser menor em termos quantitativos&#8221;, explica o geopolit\u00f3logo.<br \/>\nAssim, era fundamental desenvolver intelig\u00eancia &#8220;para antecipar e prevenir qualquer surpresa&#8221; e capacidade de dissuas\u00e3o &#8220;para evitar qualquer conflito que ameace a exist\u00eancia de Israel&#8221;, continua Ilan Scialom.\u00a0Neste contexto, &#8220;a quest\u00e3o da pesquisa e desenvolvimento, da inova\u00e7\u00e3o, \u00e9 central no pensamento estrat\u00e9gico israelense&#8221;, resume o pesquisador.<br \/>\nAs universidades t\u00eam um lugar especial nesta estrat\u00e9gia. Israel se beneficia de uma malha din\u00e2mica de universidades, que antecede at\u00e9 mesmo a cria\u00e7\u00e3o do Estado. A Technion in Haifa, especializada em ci\u00eancia e tecnologia, foi fundada em 1912, a Universidade Hebraica de Jerusal\u00e9m foi inaugurada em 1925 e o Instituto Weizmann de Ci\u00eancias em 1934.<br \/>\nNeste ambiente, a ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o encontrou seu lugar muito cedo no seio desta comunidade acad\u00eamica, e o primeiro computador israelense, o Weizac, foi criado nos anos 1950.\u00a0\u00a0\u00a0<br \/>\nDesde ent\u00e3o, os institutos de pesquisas israelense continuaram a acompanhar o progresso tecnol\u00f3gico e rapidamente perceberam a import\u00e2ncia da seguran\u00e7a cibern\u00e9tica.<br \/>\nIsrael foi um dos primeiros pa\u00edses a oferecer cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em seguran\u00e7a cibern\u00e9tica e a criar um doutorado na \u00e1rea. A conscientiza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a cibern\u00e9tica come\u00e7a mesmo antes disso, com op\u00e7\u00f5es de especializa\u00e7\u00e3o no ensino m\u00e9dio.<br \/>\nEx\u00e9rcito como incubadora<br \/>\nO ator mais importante neste campo, no entanto, continua sendo o Ex\u00e9rcito israelense. &#8220;Israel compreendeu muito cedo o aumento do poder do cibern\u00e9tico e suas amea\u00e7as&#8221;, enfatiza Nicolas T\u00e9n\u00e8ze, doutor em ci\u00eancia pol\u00edtica e professor da Universidade de Toulouse.<br \/>\nUm corpo de elite dedicado \u00e0 intelig\u00eancia cibern\u00e9tica, a famosa unidade 8200, \u00e9 considerado um dos melhores servi\u00e7os de intelig\u00eancia do mundo, \u00e0s vezes comparado com a ag\u00eancia americana NSA. Ela identifica jovens talentos assim que terminam o ensino m\u00e9dio e lhes oferece a oportunidade de prolongar o servi\u00e7o militar por alguns anos em suas fileiras.<br \/>\nA Unidade 8200 \u00e9 &#8220;o centro da ciberdefesa israelense&#8221;, aponta Nicolas T\u00e9n\u00e8ze, autor de Israel e sua dissuas\u00e3o: A Hist\u00f3ria Pol\u00edtica de um Paradoxo (Harmattan, 2015), e \u00e9 ainda um &#8220;verdadeiro ber\u00e7\u00e1rio&#8221; para novos talentos. Ao final de seus servi\u00e7os, alguns ex-candidatos seguem um curso universit\u00e1rio financiado pela Ex\u00e9rcito e outros &#8220;s\u00e3o recrutados para empresas privadas ou lan\u00e7am suas pr\u00f3prias empresas&#8221;, diz o professor.<br \/>\n\u00c9 o caso, por exemplo, de Gil Shewd, fundador de Check Point, um peso pesado no setor, pioneiro do firewall de computadores no in\u00edcio dos anos 1990. De acordo com um estudo de 2018 citado pela Haaretz, 80% dos fundadores de empresas de ciberseguran\u00e7a passaram pelos servi\u00e7os de intelig\u00eancia do Tsahal, o ex\u00e9rcito israelense.<br \/>\n&#8220;Em Israel, n\u00e3o h\u00e1 uma fronteira entre militares e civis, os dois s\u00e3o perme\u00e1veis e se desenvolvem juntos, reunindo suas habilidades&#8221;, analisa Nicolas T\u00e9n\u00e8ze. O ex\u00e9rcito tornou-se assim um pipeline que direciona os jovens para a ind\u00fastria cibern\u00e9tica, onde eles podem usar suas habilidades adquiridas durante o servi\u00e7o (gerenciamento de crises, trabalho em equipe, casos pr\u00e1ticos&#8230;) e sua rede de antigos colegas.<br \/>\nUma ferramenta de influ\u00eancia<br \/>\nO Estado percebeu o potencial deste ecossistema e investiu pesado no setor para torn\u00e1-lo uma for\u00e7a motriz de sua economia. Subs\u00eddios p\u00fablicos, cria\u00e7\u00e3o de incubadoras e projetos ambiciosos, participa\u00e7\u00e3o no capital de start-ups, cria\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os oficiais de apoio e assessoria. O envolvimento do governo no setor cibern\u00e9tico assume muitas formas, bem ciente de que \u00e9 um campo promissor para o emprego, mas que tamb\u00e9m \u00e9 uma formid\u00e1vel ferramenta de influ\u00eancia.<br \/>\nDe fato, a &#8216;expertise&#8217; israelense \u00e9 procurada por muitos estados, incluindo certas monarquias do Golfo que procuram diversificar sua economia e investir em altas tecnologias.<br \/>\n\u00c9 o caso, por exemplo, dos Emirados \u00c1rabes Unidos ou do Bahrein, com os quais Israel assinou os acordos de Abra\u00e3o em 2020, incluindo a colabora\u00e7\u00e3o em seguran\u00e7a cibern\u00e9tica.<br \/>\n&#8220;Antes, era complicado aparecer como empresas hebraicas em certos pa\u00edses [\u00e1rabes]. Mas desde os acordos, h\u00e1 uma din\u00e2mica que se abriu e permite que os israelenses apare\u00e7am com seus rostos descobertos&#8221;, explica Ilan Scialom, pesquisador em geopol\u00edtica no laborat\u00f3rio Geode.<br \/>\n&#8220;O setor ciber est\u00e1 de certa forma ajudando a legitimar o Estado de Israel com pa\u00edses onde, at\u00e9 agora, n\u00e3o havia uma rela\u00e7\u00e3o &#8216;oficial&#8217;.<br \/>\nContudo, a maneira como a tecnologia israelense \u00e9 \u00e0s vezes utilizada pelos clientes que a adquirem &#8211; certos pa\u00edses em particular &#8211; \u00e9 controversa. O software espi\u00e3o Pegasus, desenvolvido pela NSO, permitiu que alguns estados monitorassem opositores, ativistas e jornalistas.<br \/>\nA Cellebrite, uma empresa especializada na explora\u00e7\u00e3o de dados telef\u00f4nicos, \u00e9 acusada de ter vendido tecnologia utilizada por regimes autorit\u00e1rios para fins de repress\u00e3o. E o &#8220;Team Jorge&#8221;, revelado na investiga\u00e7\u00e3o dos Storykillers, gaba-se de influenciado em cerca de 30 elei\u00e7\u00f5es em todo o mundo gra\u00e7as a seu know-how e ferramentas de alto desempenho.<br \/>\nEstes casos tamb\u00e9m revelam as consequ\u00eancias perturbadoras que esta proximidade estreita entre o setor militar e o setor privado pode ter. &#8220;Parece complicado que em quest\u00f5es de seguran\u00e7a nacional que envolvem outros pa\u00edses, n\u00e3o havia conhecimento [por parte dos servi\u00e7os de intelig\u00eancia de Israel] deste tipo de opera\u00e7\u00e3o ou de neg\u00f3cio&#8221;, analisa o pesquisador\u00a0Ilan Scialom.<br \/>\nEm uma investiga\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica Rest of the World\u00a0publicada em 2021, o advogado de direitos humanos Eitay Mack mostra preocupa\u00e7\u00e3o: &#8220;com a tecnologia israelense, os regimes autorit\u00e1rios n\u00e3o precisam mais atirar nos manifestantes, eles impedem as mobiliza\u00e7\u00f5es antes que elas aconte\u00e7am&#8221;.<br \/>\nO ativista est\u00e1 documentando a venda de armas e ferramentas de vigil\u00e2ncia cibern\u00e9tica e tem feito campanha para a lei israelense regular estritamente este mercado. Uma luta que ainda \u00e9 marginal no pa\u00eds, j\u00e1 que a seguran\u00e7a e a ciberseguran\u00e7a continuam sendo prioridade absoluta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Israel se tornou um expoente na produ\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a cibern\u00e9tica. Mas como explicar que este pa\u00eds de apenas 9 milh\u00f5es de habitantes tenha se tornado esta pot\u00eancia no setor em poucas d\u00e9cadas? 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