{"id":44534,"date":"2023-02-26T10:10:45","date_gmt":"2023-02-26T10:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/02\/26\/a-cidade-na-fronteira-mexicana-que-esqueceu-que-fazia-parte-dos-eua\/"},"modified":"2023-02-26T10:10:45","modified_gmt":"2023-02-26T10:10:45","slug":"a-cidade-na-fronteira-mexicana-que-esqueceu-que-fazia-parte-dos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/02\/26\/a-cidade-na-fronteira-mexicana-que-esqueceu-que-fazia-parte-dos-eua\/","title":{"rendered":"A cidade na fronteira mexicana que &#8216;esqueceu&#8217; que fazia parte dos EUA"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/Z9DjyRdFM7iM_1zzhpzlsMBcn1Y=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/t\/4\/Gu30ryQzmDThTB520f8Q\/imagem1.jpg\"><br \/>     Em um passado distante, a hoje desabitada R\u00edo Rico j\u00e1 foi uma esp\u00e9cie de pequena Las Vegas mas foi &#8220;expulsa&#8221; dos EUA ap\u00f3s a interfer\u00eancia ilegal no curso de um rio.  R\u00edo Rico tem hoje menos de 170 habitantes, segundo censo de 2020<br \/>\nBBC<\/p>\n<p>A cidade mexicana de R\u00edo Rico, um munic\u00edpio de fronteira localizado no Estado de Tamaulipas, tem uma rica hist\u00f3ria.<br \/>\nJ\u00e1 foi uma esp\u00e9cie de pequena Las Vegas e, a certa altura, fez parte dos Estados Unidos.<br \/>\nMas muita gente ali esqueceu disso. Por qu\u00ea?<br \/>\nAs fronteiras entre regi\u00f5es e pa\u00edses mudam com frequ\u00eancia, seja de forma violenta, devido \u00e0 guerra, seja pacificamente, quando uma por\u00e7\u00e3o de terra \u00e9 negociada entre duas partes.<br \/>\nMas o caso de R\u00edo Rico n\u00e3o se encaixa em nenhum dos dois. Foi uma empresa (e uma interfer\u00eancia ilegal no curso de um rio) que reescreveu a hist\u00f3ria da fronteira entre M\u00e9xico e Estados Unidos.<br \/>\nO rio Grande, para quem est\u00e1 ao sul, ou rio Bravo, para quem est\u00e1 ao norte, marca geograficamente o limite entre os dois pa\u00edses desde 1848.<br \/>\nPor muito tempo seu curso foi alterado reiteradas vezes, gerando disputas territoriais entre mexicanos e americanos que culminaram no Tratado de 1884, que reconhecia como v\u00e1lidos para fins de redesenho das fronteiras apenas os desvios decorrentes de eventos naturais.<br \/>\nNo in\u00edcio dos anos 1900, uma empresa chamada American Rio Grande Land and Irrigation Company mantinha do lado americano uma esta\u00e7\u00e3o de bombeamento que extraia \u00e1gua do rio para fornecer irriga\u00e7\u00e3o a agricultores locais.<br \/>\nEm 1906, sua administra\u00e7\u00e3o resolveu, sem autoriza\u00e7\u00e3o, estreitar um dos meandros do rio. Cavou ent\u00e3o um canal que acabou isolando 419 hectares de terra que pertenciam aos EUA e que passaram, com a manobra, para o lado sul do rio, um total 1,67 km\u00b2 de territ\u00f3rio batizado de &#8220;Banco Horc\u00f3n&#8221;.<br \/>\nR\u00edo Rico, cidade esquecida na fronteira entre M\u00e9xico e EUA<br \/>\nBBC<br \/>\nR\u00edo Rico, na fronteira entre M\u00e9xico e EUA<br \/>\nBBC<br \/>\n&#8220;H\u00e1 consequ\u00eancias quando se tenta controlar a natureza&#8221;, diz Joe Vidales, do McAllen Heritage Center, um museu localizado no Estado americano do Texas.<br \/>\nEmbora o terreno ainda fizesse legalmente parte dos Estados Unidos, sua localiza\u00e7\u00e3o, agora ao sul do rio, o colocava sob a jurisdi\u00e7\u00e3o das autoridades mexicanas.<br \/>\nA American Rio Grande Land and Irrigation Company violou v\u00e1rios tratados e foi multada, mas o status do territ\u00f3rio foi deixado em um limbo legal.<br \/>\nPequena Las Vegas<br \/>\nA popula\u00e7\u00e3o se adaptou rapidamente \u00e0 nova realidade, especialmente depois que, em 1920, a Lei Seca foi introduzida nos Estados Unidos.<br \/>\n&#8220;Se voc\u00ea estivesse no sul do Texas e quisesse tomar uma cerveja ou uma margarita, n\u00e3o poderia faz\u00ea-lo daquele lado do rio, mas poderia remar, nadar, \u00e0s vezes at\u00e9 caminhar e conseguiria tomar um drinque.&#8221;<br \/>\nJogada para o lado mexicano depois do desvio artificial (e ilegal) do rio, a cidade de R\u00edo Rico ficou feliz em abastecer seus vizinhos do norte com o que ent\u00e3o era proibido no pa\u00eds.<br \/>\nO Tivoli Caf\u00e9 tinha grande sal\u00e3o de dan\u00e7a<br \/>\nBBC<br \/>\n&#8220;Em 1928 teve in\u00edcio a constru\u00e7\u00e3o de uma ponte para cruzar para R\u00edo Rico&#8221;, relata Vidales.<br \/>\nOs jornais locais noticiaram n\u00e3o apenas a grande inaugura\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m tudo o mais que o lugar tinha a oferecer.<br \/>\n&#8220;Havia cassinos, jogos de azar, brigas de galo, bord\u00e9is. A boate Tivoli tinha uma pista de dan\u00e7a do tamanho de uma quadra de basquete. 250 dos c\u00e3es mais r\u00e1pidos compareceram \u00e0 corrida inaugural do Rio Rico Kennel Club.&#8221;<br \/>\n&#8220;A Lei Seca fez florescer a economia de R\u00edo Rico. E o nome que ecoava por ali naquela \u00e9poca era o de Al Capone&#8221;, acrescenta.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o h\u00e1 registro oficial de que ele esteve l\u00e1. Mas sup\u00f5e-se que seus capangas estivessem encarregados de injetar dinheiro na cidade para transform\u00e1-la em uma \u00e1rea tur\u00edstica.&#8221;<br \/>\nAlma Bernal, natural do vilarejo, lembra que &#8220;havia um hotel e um teatro onde meus av\u00f3s podiam ver Pedro Infante e Sara Garc\u00eda, artistas muito importantes da hist\u00f3ria mexicana&#8221;.<br \/>\n&#8220;Muita gente viajou para o R\u00edo Rico s\u00f3 para ver esses artistas.&#8221;<br \/>\nR\u00edo Rico, no M\u00e9xico<br \/>\nBBC<br \/>\nO esquecimento<br \/>\nOs bons ventos mudaram de dire\u00e7\u00e3o depois de 1933, quando a proibi\u00e7\u00e3o ao consumo de bebida alco\u00f3lica nos EUA foi revogada.<br \/>\nR\u00edo Rico voltou a ser uma pacata cidade de fronteira, lembra Mike England, que trabalha para a England Cattle Company e cresceu do lado americano do rio.<br \/>\nPara ele, a fronteira nunca foi algo que separasse as pessoas.<br \/>\n&#8220;Crescer ali no rio foi o para\u00edso: eu ia pescar e ca\u00e7ar todo dia com crian\u00e7as que viviam do outro lado do rio, que vinham para nossa casa como se fossem da fam\u00edlia.&#8221;<br \/>\n&#8220;Tamb\u00e9m nadava no rio, ia para o sul e convivia com suas respectivas fam\u00edlias.&#8221;<br \/>\n&#8220;\u00c9 um pouco estranho. Eles falam sobre ilegais deste lado&#8230; Acho que eu era ilegal daquele lado tamb\u00e9m, mas ningu\u00e9m se importava.&#8221;<br \/>\nDesde ent\u00e3o, e por v\u00e1rias d\u00e9cadas, a popula\u00e7\u00e3o de R\u00edo Rico acabou esquecendo que era, na verdade, cidad\u00e3 dos Estados Unidos.<br \/>\nIsso at\u00e9 1967, quando um professor de geografia chamado James Hill descobriu o que havia acontecido.<br \/>\nO caso dos &#8216;americanos perdidos&#8217; repercutiu na imprensa americana<br \/>\nBBC<br \/>\n&#8216;Nasci em R\u00edo Rico!&#8217;<br \/>\nHill &#8220;fez uma extensa pesquisa sobre esta \u00e1rea e criou mapas bem documentados que indicavam as propriedades localizadas nesses 419 acres (170 hectares) onde fora feito o corte do rio&#8221;, conta Vidales.<br \/>\nEntre os que se interessavam pela pesquisa estava o advogado Laurier McDonald. Um de seus clientes, um homem chamado Homero Cantu, estava na \u00e9poca no meio de um processo de deporta\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos.<br \/>\nMcDonald conseguiu provar que, como seu cliente havia nascido em R\u00edo Rico, era cidad\u00e3o americano.<br \/>\n&#8220;\u00c9 a 14\u00aa emenda da Constitui\u00e7\u00e3o: se voc\u00ea nasceu no territ\u00f3rio dos Estados Unidos, voc\u00ea \u00e9 um cidad\u00e3o&#8221;, diz Vidales.<br \/>\n&#8220;Isso causou muita confus\u00e3o. Pessoas de todo o M\u00e9xico, da Europa e at\u00e9 da China vieram dizer: &#8216;Nasci em R\u00edo Rico&#8217;.&#8221;<br \/>\nCom tanta gente buscando cidadania americana alegando ter nascido na pequena cidade, os advogados tiveram que avaliar caso a caso as reivindica\u00e7\u00f5es.<br \/>\n&#8220;Tivemos clientes cuja situa\u00e7\u00e3o dependia do quarto em que nasceram, porque a pr\u00f3pria casa ficava na fronteira internacional&#8221;, lembra Robert Crane, advogado de imigra\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;\u00c9 preciso lembrar que ningu\u00e9m que morava l\u00e1 sabia disso, ent\u00e3o os lotes acabavam sendo divididos para a constru\u00e7\u00e3o de novas casas.&#8221;<br \/>\nDocumento de identidade que reconhece cidadania americana de pessoa nascida em R\u00edo Rico<br \/>\nBBC<br \/>\nNo final, os Estados Unidos cederam oficialmente Banco Horc\u00f3n ao M\u00e9xico e aceitaram os pedidos de reconhecimento de cidadania de cerca de 250 pessoas.<br \/>\nA maioria delas emigrou para os Estados Unidos, deixando R\u00edo Rico uma sombra do que um dia havia sido.<br \/>\n&#8220;Pode ser dif\u00edcil acreditar que esta j\u00e1 foi uma cidade muito ativa&#8221;, diz Bernal.<br \/>\nR\u00edo Rico \u00e9 um lugar bastante tranquilo hoje. Conta cerca de 170 habitantes, segundo o censo de 2020.<br \/>\nAs poucas fam\u00edlias que restam s\u00e3o de agricultores, e os visitantes que chegam est\u00e3o a caminho da fronteira, uma das mais fortemente vigiadas do mundo.<br \/>\n&#8220;Aquele rio n\u00e3o separa as pessoas&#8221;, diz England. &#8220;Apesar de tudo somos irm\u00e3os, ainda somos todas pessoas.&#8221;<br \/>\n*Este artigo \u00e9 baseado no v\u00eddeo da BBC Reel &#8220;A cidade de fronteira que &#8216;esqueceu&#8217; que fazia parte dos EUA&#8221;. Para ver o conte\u00fado original, em ingl\u00eas, clique aqui.<br \/>\n&#8211; Este texto foi originalmente publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cpve2r75dg6o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um passado distante, a hoje desabitada R\u00edo Rico j\u00e1 foi uma esp\u00e9cie de pequena Las Vegas mas foi &#8220;expulsa&#8221; dos EUA ap\u00f3s a interfer\u00eancia ilegal no curso de um rio. 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