{"id":4387,"date":"2022-09-24T08:14:28","date_gmt":"2022-09-24T08:14:28","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/09\/24\/por-que-nenhum-pais-da-america-latina-tem-armas-nucleares-e-o-papel-do-brasil-nisso\/"},"modified":"2022-09-24T08:14:28","modified_gmt":"2022-09-24T08:14:28","slug":"por-que-nenhum-pais-da-america-latina-tem-armas-nucleares-e-o-papel-do-brasil-nisso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/09\/24\/por-que-nenhum-pais-da-america-latina-tem-armas-nucleares-e-o-papel-do-brasil-nisso\/","title":{"rendered":"Por que nenhum pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina tem armas nucleares \u2013 e o papel do Brasil nisso"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/6EYRRMsR9ECPUjioJShdcrT7fBs=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/h\/t\/H4mDWPTgGjZVYs38IT5g\/bbc-nuclear-brasil-01.jpg\"><br \/>   Sob ditaduras militares, Brasil e Argentina resistiram a acordo que proibiu o desenvolvimento de armas nucleares na Am\u00e9rica Latina e Caribe. As bombas de Hiroshima e Nagasaki deram in\u00edcio \u00e0 era do terror nuclear<br \/>\nGetty Images\/Via BBC<br \/>\nDurante a segunda metade do s\u00e9culo 20, a humanidade viveu com medo de um poss\u00edvel holocausto nuclear. Era uma esp\u00e9cie de pesadelo apocal\u00edptico.<br \/>\n\u00c0 possibilidade de um confronto com armas at\u00f4micas entre as duas superpot\u00eancias rivais, Estados Unidos e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, logo se somou a preocupa\u00e7\u00e3o com a chamada prolifera\u00e7\u00e3o nuclear: a possiblidade de que outros pa\u00edses e \u2014 ainda mais preocupante \u2014 organiza\u00e7\u00f5es terroristas pudessem obter o controle da bomba.<br \/>\nLEIA TAMB\u00c9M<br \/>\nArmas nucleares &#8216;t\u00e1ticas&#8217; e o arsenal da R\u00fassia: que potencial de destrui\u00e7\u00e3o Putin tem em suas m\u00e3os?<br \/>\n Para tentar conter essa possibilidade, o governo do presidente americano Dwight Einsenhower lan\u00e7ou em 1953 a iniciativa &#8220;\u00c1tomos para a Paz&#8221;, que prometia facilitar o acesso a usos pac\u00edficos da energia nuclear para pa\u00edses que renunciassem a se equipar com a bomba.<br \/>\nEm 1957, foi criada a Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica (AIEA), que faz parte do sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas; e pouco mais de uma d\u00e9cada depois, em 1968, foi estabelecido o Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o Nuclear para fazer frente a esse perigo.<br \/>\nPutin convoca 300 mil reservistas e amea\u00e7a Ocidente com guerra nuclear<br \/>\nEssas iniciativas, no entanto, n\u00e3o foram capazes de impedir que em praticamente todas as regi\u00f5es do mundo exista pelo menos um pa\u00eds que tenha desenvolvido armas nucleares.<br \/>\nAos Estados Unidos e \u00e0 R\u00fassia (herdeira do arsenal sovi\u00e9tico) somaram-se pa\u00edses da Europa (Reino Unido e Fran\u00e7a); da \u00c1sia (China, Coreia do Norte, \u00cdndia e Paquist\u00e3o); do Oriente M\u00e9dio (Israel, que n\u00e3o admite formalmente ter a bomba) e da \u00c1frica (\u00c1frica do Sul, \u00fanico pa\u00eds que desenvolveu a bomba e depois voluntariamente se desfez dela).<br \/>\nAssim, Estados de praticamente todas as partes do mundo t\u00eam ou tiveram armas nucleares com uma not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o: a Am\u00e9rica Latina, onde n\u00e3o apenas n\u00e3o h\u00e1 pot\u00eancias nucleares, como foi a primeira regi\u00e3o densamente povoada do mundo a se declarar uma zona livre de armas nucleares.<br \/>\nComo isso aconteceu? As raz\u00f5es s\u00e3o v\u00e1rias, mas as primeiras raz\u00f5es s\u00e3o encontradas h\u00e1 seis d\u00e9cadas.<br \/>\nA crise dos m\u00edsseis em 1962 levou o mundo \u00e0 beira da Terceira Guerra Mundial<br \/>\nGetty Images\/Via BBC<br \/>\nO impacto da crise dos m\u00edsseis<br \/>\n&#8220;A hist\u00f3ria de por que a Am\u00e9rica Latina n\u00e3o tem armas nucleares remonta \u00e0 crise dos m\u00edsseis em outubro de 1962, quando a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica posicionou m\u00edsseis em Cuba, dando origem a uma crise entre os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica&#8221;, explica Luis Rodr\u00edguez, pesquisador de p\u00f3s-doutorado do Centro de Seguran\u00e7a e Coopera\u00e7\u00e3o Internacional da Universidade de Stanford, na Calif\u00f3rnia (EUA).<br \/>\n&#8220;Como resultado, v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina decidiram come\u00e7ar a formar uma resposta multilateral para evitar que outra crise de m\u00edsseis aconte\u00e7a na regi\u00e3o. Essa foi a primeira vez que pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina viram riscos nucleares t\u00e3o pr\u00f3ximos de casa&#8221;, acrescenta o especialista sobre o epis\u00f3dio considerado o ponto mais pr\u00f3ximo que a humanidade esteve de uma Terceira Guerra Mundial.<br \/>\n Rodr\u00edguez explica que, desde o final da d\u00e9cada de 1950, surge a preocupa\u00e7\u00e3o de impedir que outro pa\u00eds fizesse aquilo que os Estados Unidos fizeram em Hiroshima e Nagasaki. Na Europa, a Irlanda foi um dos pa\u00edses que promoveram essa ideia e, na Am\u00e9rica Latina, foi a Costa Rica. No entanto, at\u00e9 ent\u00e3o, esse risco era visto como algo distante.<br \/>\nRyan Musto, da Faculdade de William e Mary (Virg\u00ednia, EUA), concorda que a ideia de banir a bomba existia na Am\u00e9rica Latina desde antes de 1962, mas avalia que ent\u00e3o tudo mudou.<br \/>\n&#8220;A Crise dos M\u00edsseis de Cuba foi um catalisador, e o Brasil ent\u00e3o prop\u00f5e tornar a Am\u00e9rica Latina uma zona livre de armas nucleares como uma poss\u00edvel solu\u00e7\u00e3o para essa crise, porque poderia facilitar a retirada de m\u00edsseis de Cuba, ao mesmo tempo em que permitia livrar a cara tanto dos Estados Unidos, como da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica &#8220;, diz Musto \u00e0 BBC News Mundo, servi\u00e7o em espanhol da BBC.<br \/>\nEssa iniciativa n\u00e3o prosperou e a crise dos m\u00edsseis foi resolvida atrav\u00e9s do di\u00e1logo direto entre Washington e Moscou. Mas muitos pa\u00edses latino-americanos continuaram a ver a cria\u00e7\u00e3o de uma zona livre de armas nucleares como uma forma de evitar que uma crise semelhante voltasse a acontecer no futuro.<br \/>\nAssim, a regi\u00e3o iniciou um processo de negocia\u00e7\u00f5es que culminou em fevereiro de 1967 com a cria\u00e7\u00e3o do Tratado de Tlatelolco (bairro da Cidade do M\u00e9xico onde foi celebrado o acordo) que pro\u00edbe o desenvolvimento, aquisi\u00e7\u00e3o, teste e instala\u00e7\u00e3o de armas nucleares na Am\u00e9rica Latina e Caribe.<br \/>\nEste tratado entrou em vigor em 1969, mas com ele os riscos de prolifera\u00e7\u00e3o nuclear na regi\u00e3o n\u00e3o chegaram ao fim, pois havia dois Estados-chave na regi\u00e3o relutantes em aceit\u00e1-lo plenamente.<br \/>\nBrasil tem duas usinas nucleares em atividade<br \/>\nGetty Images\/Via BBC<br \/>\nA resist\u00eancia de Brasil e Argentina<br \/>\nEmbora o Brasil tenha sido um dos proponentes iniciais da cria\u00e7\u00e3o de uma zona latino-americana livre de armas nucleares, logo mudou sua posi\u00e7\u00e3o sobre o assunto, cedendo esse posto de lideran\u00e7a ao M\u00e9xico.<br \/>\nO esfor\u00e7o mexicano foi recompensado com o fato de o tratado levar o nome de Tlatelolco, sede do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores daquele pa\u00eds, e com o Pr\u00eamio Nobel da Paz concedido ao diplomata mexicano Alfonso Garc\u00eda Robles em 1982.<br \/>\n&#8220;Depois do golpe no Brasil em 1964, as elites militares do pa\u00eds decidiram investir menos no projeto de desmilitariza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina&#8221;, diz Rodr\u00edguez.<br \/>\nOutro pa\u00eds da regi\u00e3o, relevante do ponto de vista da tecnologia nuclear, que se recusou a aceitar totalmente o Tratado de Tlatelolco foi a Argentina.<br \/>\n&#8220;Depois de 1962, o M\u00e9xico se torna a face vis\u00edvel dessa iniciativa. O Brasil se distancia dela. H\u00e1 cientistas que questionavam internamente: &#8216;Queremos mesmo abrir m\u00e3o do nosso direito de ter armas nucleares em troca de nada? O que acontecer\u00e1 se um dia precisarmos delas?'&#8221;, diz Musto.<br \/>\nO especialista afirma que ambos os pa\u00edses apoiaram formalmente o Tratado de Tlatelolco porque &#8220;pegaria mal&#8221; n\u00e3o apoiar, e participaram da elabora\u00e7\u00e3o do acordo tentando influenciar para que fosse permitido o que ent\u00e3o era conhecido como &#8220;explos\u00f5es nucleares pac\u00edficas&#8221;.<br \/>\nRodr\u00edguez explica que, naquela \u00e9poca, acreditava-se que a energia nuclear poderia ser um instrumento para acelerar o desenvolvimento dos pa\u00edses latino-americanos e que essas &#8220;explos\u00f5es pac\u00edficas&#8221; poderiam ser usadas, por exemplo, para abrir minas, canais de navega\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 mesmo para obras de hidrel\u00e9tricas.<br \/>\n&#8220;Foi isso que levou pa\u00edses como Brasil e Argentina a desenvolver certos programas nucleares de tecnologia de uso duplo, que poderiam servir \u200b\u200bpara fins civis ou militares, o que gerou certas tens\u00f5es, principalmente com organiza\u00e7\u00f5es internacionais&#8221;, diz Rodr\u00edguez.<br \/>\nRodr\u00edguez e Musto afirmam que n\u00e3o foi comprovado que os governos da Argentina e do Brasil tivessem planos de desenvolver armas nucleares, embora haja ind\u00edcios de que houve pessoas dentro dos governos dos dois pa\u00edses partid\u00e1rias dessa possibilidade.<br \/>\n&#8220;O que Brasil e Argentina fizeram foi criar um programa nuclear fora das regulamenta\u00e7\u00f5es da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica, por isso s\u00e3o chamados de programas secretos do Brasil e Argentina&#8221;, diz Rodr\u00edguez.<br \/>\n&#8220;H\u00e1 historiadores como Carlos Pati, um italiano que trabalha no Brasil, que n\u00e3o constataram que as motiva\u00e7\u00f5es foram puramente militares ou que foram para criar armas nucleares. O que se v\u00ea \u00e9 que houve uma divis\u00e3o nos dois pa\u00edses entre fac\u00e7\u00f5es das elites que queriam armas nucleares e fac\u00e7\u00f5es que decidiram n\u00e3o t\u00ea-las&#8221;, acrescenta.<br \/>\nMusto indica que ambos os pa\u00edses estavam muito preocupados com as limita\u00e7\u00f5es que os acordos internacionais poderiam impor \u00e0s suas op\u00e7\u00f5es de desenvolvimento nuclear.<br \/>\n&#8220;Ambos os pa\u00edses queriam desenvolver um ciclo completo e independente de produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel nuclear. N\u00e3o queriam que sua soberania nuclear fosse afetada&#8221;, diz.<br \/>\nApesar de tudo, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, ambos os pa\u00edses renunciaram ao direito \u00e0s explos\u00f5es nucleares pac\u00edficas, se integraram totalmente ao Tratado de Tlatelolco e, posteriormente, fizeram o mesmo com o Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o Nuclear.<br \/>\nEssas decis\u00f5es foram acompanhadas pelo abandono, tanto pela Argentina, quanto pelo Brasil, de seus programas de desenvolvimento de m\u00edsseis bal\u00edsticos. Projetos que, combinados com seus programas de desenvolvimento nuclear fora do Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o, geraram preocupa\u00e7\u00e3o na comunidade internacional.<br \/>\nRivalidades, custos e institui\u00e7\u00f5es internacionais<br \/>\nAl\u00e9m do impacto da crise dos m\u00edsseis, h\u00e1 outros fatores que contribu\u00edram para que nenhum pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina \u2014 e especialmente Brasil e Argentina, que estavam em melhor posi\u00e7\u00e3o para isso \u2014 se equipasse com a bomba.<br \/>\nRyan Musto aponta, por exemplo, para o fato de a regi\u00e3o n\u00e3o ter o tipo de rivalidades intensas e conflitos que ocorrem em outras partes do mundo.<br \/>\n&#8220;Sim, Brasil e Argentina s\u00e3o rivais, mas isso nunca chegou a um ponto forte o suficiente para levar a uma corrida armamentista. Em geral, a Am\u00e9rica Latina parece ser uma regi\u00e3o relativamente est\u00e1vel quando se trata de conflitos interestatais&#8221;, destaca o especialista.<br \/>\nOutro elemento que contribuiu no caso do Brasil e da Argentina foi que ambos os pa\u00edses fizeram a transi\u00e7\u00e3o de ditaduras militares para a democracia em meados da d\u00e9cada de 1980.<br \/>\nO alto custo de um programa at\u00f4mico tamb\u00e9m pode ter desempenhado um papel importante em dissuadir a prolifera\u00e7\u00e3o nuclear na regi\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Desenvolver um programa nuclear \u00e9 muito caro. Precisa de muita infraestrutura, especialistas e conhecimento&#8221;, diz Rodr\u00edguez, da Universidade de Stanford.<br \/>\nEsse alto custo, al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 medido apenas pela quantidade de dinheiro que o programa de armas nucleares exige. Tamb\u00e9m s\u00e3o altos os custos diplom\u00e1ticos e de prest\u00edgio derivados de ir contra a corrente do consenso internacional contra a prolifera\u00e7\u00e3o de armas e tamb\u00e9m das oportunidades perdidas relacionadas ao uso pac\u00edfico da energia nuclear.<br \/>\nUm exemplo claro disso, segundo Musto, ocorreu em 1975, quando o Brasil assinou com a Alemanha Ocidental o maior acordo da hist\u00f3ria em termos de transfer\u00eancia de tecnologia nuclear para um pa\u00eds do sul global.<br \/>\n&#8220;O acordo deveria ajudar o Brasil a construir oito reatores nucleares. Bem, os Estados Unidos pressionaram a Alemanha Ocidental porque o Brasil n\u00e3o era membro do Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o Nuclear e havia suspeitas sobre seu programa at\u00f4mico \u2014 e talvez tamb\u00e9m devido a alguns interesses comerciais dos EUA. No fim, o acordo n\u00e3o se concretizou&#8221;, afirma.<br \/>\n&#8220;Ent\u00e3o, esses tipos de aspira\u00e7\u00f5es desapareceram porque Brasil e Argentina n\u00e3o participaram plenamente do sistema de padr\u00f5es nucleares previsto no regime do Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o&#8221;, acrescenta.<br \/>\nAssim, chegou-se a um ponto em que, para ambos os pa\u00edses, havia mais benef\u00edcios e oportunidades se estivessem totalmente integrados \u00e0s institui\u00e7\u00f5es internacionais que regulam o uso pac\u00edfico da energia at\u00f4mica, do que tentando preservar sua liberdade de a\u00e7\u00e3o fora delas.<br \/>\nVeja os v\u00eddeos mais assistidos do g1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sob ditaduras militares, Brasil e Argentina resistiram a acordo que proibiu o desenvolvimento de armas nucleares na Am\u00e9rica Latina e Caribe. 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