{"id":4385,"date":"2022-09-24T08:14:29","date_gmt":"2022-09-24T08:14:29","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/09\/24\/como-milhares-de-livros-foram-salvos-de-fogueiras-nas-ditaduras-no-chile-e-na-argentina\/"},"modified":"2022-09-24T08:14:29","modified_gmt":"2022-09-24T08:14:29","slug":"como-milhares-de-livros-foram-salvos-de-fogueiras-nas-ditaduras-no-chile-e-na-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/09\/24\/como-milhares-de-livros-foram-salvos-de-fogueiras-nas-ditaduras-no-chile-e-na-argentina\/","title":{"rendered":"Como milhares de livros foram salvos de fogueiras nas ditaduras no Chile e na Argentina"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/eSUR-hHNaO9LCk0lePZt-R3mBPg=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/F\/k\/qKLxsgQpOFKOBuUgvHBw\/bbc-livros-01.jpg\"><br \/>   Durante as ditaduras do Chile e da Argentina houve uma forte persegui\u00e7\u00e3o a certos t\u00edtulos considerados perigosos. Muitos desses livros foram escondidos, camuflados e at\u00e9 devorados para evitar que ca\u00edssem nas m\u00e3os dos censores No Chile e na Argentina foram realizadas queimas p\u00fablicas de livros considerados &#8216;perigosos&#8217;<br \/>\nGetty Images\/Via BBC<br \/>\nUma fam\u00edlia que escondeu milhares de livros dentro das paredes de uma casa, um homem que comeu 30 p\u00e1ginas para salvar seus companheiros e livreiros lutando para recuperar livros perdidos.<br \/>\nQuando, em 11 de setembro de 1973, Augusto Pinochet dep\u00f4s o governo do socialista Salvador Allende no Chile com um golpe, al\u00e9m do horror que foi cometido contra os militantes e suas fam\u00edlias, iniciou-se tamb\u00e9m uma persegui\u00e7\u00e3o aos livros, sob o argumento de que eles ajudaram na doutrina\u00e7\u00e3o comunista.<br \/>\nEssa mesma pr\u00e1tica foi replicada na Argentina, quando o governo militar foi estabelecido em mar\u00e7o de 1976. Milhares de t\u00edtulos foram banidos.<br \/>\nNas d\u00e9cadas posteriores, imagens de homens uniformizados destruindo e queimando livros se multiplicaram.<br \/>\nEsta reportagem mostra o outro lado: conta tr\u00eas hist\u00f3rias de como livros foram salvos da fogueira e da destrui\u00e7\u00e3o durante esses anos sombrios.<br \/>\nLEIA TAMB\u00c9M<br \/>\nProtestos pelo 48\u00ba anivers\u00e1rio do golpe de Pinochet no Chile t\u00eam confronto entre manifestantes e pol\u00edcia<br \/>\nArgentina prende ex-militares por crimes durante a ditadura<br \/>\nDuas odes elementares foi o presente que Pablo Neruda deu a Salom\u00f3n Gerchunoff<br \/>\nBBC<br \/>\n 1. A biblioteca de cimento<br \/>\n&#8220;Onde est\u00e3o as odes que Neruda me deu?&#8221;, perguntou o advogado argentino Salom\u00f3n Gerchunoff.<br \/>\nE sempre, antes que algu\u00e9m pudesse lhe responder, ele mesmo suspirava e dizia: &#8220;Devem estar na casa daquele homem&#8221;.<br \/>\nA casa a que ele se referia era dele h\u00e1 mais de 20 anos. Era uma constru\u00e7\u00e3o t\u00e9rrea, localizada no bairro Parque V\u00e9lez Sarsfield da capital C\u00f3rdoba, a segunda maior cidade da Argentina.<br \/>\nL\u00e1 viveu com sua esposa, Eva Maltz, e seus cinco filhos at\u00e9 o golpe de 1976.<br \/>\n&#8220;Meu pai era um militante reconhecido do Partido Comunista em C\u00f3rdoba e colaborador permanente do movimento sindical na cidade, ent\u00e3o ele tinha uma biblioteca que era coerente com esse pensamento&#8221;, explica Luis Gerchunoff, um dos cinco filhos de Salom\u00f3n.<br \/>\nE esse pensamento come\u00e7ou a ser banido. Perseguido.<br \/>\nAo lado de Luis est\u00e3o Nora, Ana e Beatriz, as outras irm\u00e3s. S\u00f3 falta Robert. \u00c9 24 de mar\u00e7o, Dia Nacional da Mem\u00f3ria pela Verdade e Justi\u00e7a na Argentina. Quarenta e seis anos se passaram desde o golpe militar e em uma escola pr\u00f3xima eles exibem um document\u00e1rio com a hist\u00f3ria da fam\u00edlia.<br \/>\n\u00c9 a primeira vez em muitos anos que os irm\u00e3os est\u00e3o na mesma cidade ao mesmo tempo e ativam a cole\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias a quatro vozes.<br \/>\nA primeira: quando seus pais decidiram esconder os livros dentro de uma das paredes da casa.<br \/>\n&#8220;Foi logo ap\u00f3s o golpe&#8221;, diz Luis.<br \/>\n&#8220;Nos anos anteriores, meu pai havia distribu\u00eddo seus livros mais incriminadores entre v\u00e1rios amigos para evitar as batidas que j\u00e1 aconteciam regularmente. Mas quando ocorreu o golpe, ele percebeu a gravidade do que estava acontecendo e disse &#8216;basta, vou juntar meus livros para evitar problemas para eles&#8217;.&#8221;<br \/>\nMeses antes daquele mar\u00e7o de 1976, Salom\u00f3n e Eva decidiram reformar a casa, ent\u00e3o aproveitaram os restos de materiais de constru\u00e7\u00e3o para esconder a maioria dos livros dentro das paredes da parte superior do quarto principal.<br \/>\n&#8220;N\u00f3s sete vivemos aquele momento. Lembro-me do sentimento de medo que nos acompanhou. Colocamos todos os tipos de livros, literatura pol\u00edtica, sobre Marx, Engels, mas tamb\u00e9m C\u00e9sar Vallejo, O Pequeno Pr\u00edncipe, o livro de hist\u00f3rias infantis &#8216;Um elefante ocupa muito espa\u00e7o&#8217;, de Elsa Bornemann, que tamb\u00e9m foi proibido pela ditadura&#8221;, lembra Ana Gerchunoff.<br \/>\nUm dos exemplares mais premiados da cole\u00e7\u00e3o de Salom\u00f3n foi um livreto de quatro p\u00e1ginas com duas odes de Pablo Neruda: \u00e0 Pantera Negra e \u00e0 Borboleta. No verso, um aut\u00f3grafo na inconfund\u00edvel tinta verde usada pelo ganhador do Pr\u00eamio Nobel chileno e a dedicat\u00f3ria: &#8220;Para Gerchunoff. Do seu amigo Pablo&#8221;.<br \/>\n&#8220;Em 1956, Neruda decidiu passar alguns dias em Villa del Totoral, que \u00e9 uma cidade vizinha. E ele queria organizar um recital, mas est\u00e1vamos na ditadura de Aramburu, e ele n\u00e3o recebeu o palco principal da cidade, que era o teatro San Mart\u00edn. Ent\u00e3o meu pai, junto com outras pessoas, moveu c\u00e9us e terra para que o poeta pudesse se apresentar em outro espa\u00e7o&#8221;, diz Luis.<br \/>\nPara recompensar os esfor\u00e7os dos envolvidos, Neruda encomendou 500 exemplares de um livreto com as duas odes de uma gr\u00e1fica local.<br \/>\n&#8220;E ele dedicou um especialmente ao meu pai&#8221;, observa Ana. &#8220;Embora n\u00e3o nos lembremos de coloc\u00e1-lo na parede, meu pai tinha certeza de que estava l\u00e1.&#8221;<br \/>\nEva, que era arquiteta, ficou encarregada de cimentar a parede e terminar tudo para n\u00e3o deixar ind\u00edcios de que havia um buraco aberto naquela superf\u00edcie.<br \/>\nMenos de um ano depois, em maio de 1977, os militares levaram Salom\u00f3n.<br \/>\n&#8220;Eles o mandaram para La Perla, que mais tarde se tornaria um centro de tortura clandestino. Ele passou cinco anos l\u00e1.&#8221;<br \/>\nOs quatro irm\u00e3os se lembram com precis\u00e3o milim\u00e9trica do dia em que tiveram que sair daquela casa. &#8220;Por ficar sozinha, minha m\u00e3e n\u00e3o conseguia se sustentar e foi obrigada a vender a casa com preju\u00edzo&#8221;, conta Ana.<br \/>\n&#8220;Tivemos que levar nossas coisas em len\u00e7\u00f3is porque n\u00e3o t\u00ednhamos dinheiro para a mudan\u00e7a. Meu pai foi sequestrado. Foi muito doloroso&#8221;, conta Beatriz, a irm\u00e3 mais velha.<br \/>\nNos anos seguintes, Eva e os cinco irm\u00e3os viveram como puderam em lugares diferentes. Em 1982, Salom\u00f3n foi solto e, com o fim do regime militar, a primeira coisa que fez foi pedir permiss\u00e3o ao novo dono da casa para derrubar o muro e tirar seus livros.<br \/>\n&#8220;O cara se recusou a deix\u00e1-lo entrar&#8221;, diz Ana. &#8220;A\u00ed meu pai, frustrado, deu uma ordem para todos n\u00f3s: &#8216;Vamos esquecer os livros. Aqui encerramos essa hist\u00f3ria.'&#8221;<br \/>\n&#8220;Mas muitas vezes ele se lembrava de suas odes de Neruda e n\u00e3o podia deixar de se referir \u00e0 casa &#8216;daquele homem'&#8221;, lembra Luis.<br \/>\nEva morreu em 1994 e Salom\u00f3n em 2002. Nora e Beatriz se mudaram para Israel e Ana, Luis e Roberto formaram fam\u00edlia e se estabeleceram em diferentes lugares em C\u00f3rdoba. Eles nunca voltaram para a casa.<br \/>\nEm 2008, enquanto Ana visitava um escrit\u00f3rio no centro da cidade como parte de seu trabalho no Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, ela foi abordada por uma mulher que pediu para falar em particular.<br \/>\n&#8220;Ele me perguntou se eu era Ana Gerchunoff, a da casa dos livros perdidos. Fiquei sem palavras e pensei &#8216;Claro, os livros do papai!&#8217;.&#8221;<br \/>\nA mulher, que era inquilina da casa h\u00e1 alguns anos, contou-lhe que se espalhou pelo bairro um boato de que havia livros dentro das paredes. &#8220;Ela me disse que era como um fantasma e que era muito dif\u00edcil para ela morar em uma casa onde ela sabia que havia uma biblioteca embutida na parede.&#8221;<br \/>\nEle disse a ela que eles iriam abri-lo. A not\u00edcia pegou os irm\u00e3os de surpresa. Beatriz e Nora de Jerusal\u00e9m disseram enfaticamente que queriam estar presentes quando as paredes fossem derrubadas.<br \/>\nMas a urg\u00eancia venceu: a mulher disse-lhes que tinham de pegar os livros o mais r\u00e1pido poss\u00edvel antes que o dono descobrisse, pois ele era o mesmo que havia negado a entrada de Salom\u00f3n.<br \/>\n&#8220;De um dia para o outro t\u00ednhamos que ir com um pedreiro e quebrar tudo. Nora e Beatriz n\u00e3o tiveram tempo de chegar&#8221;, observa Luis.<br \/>\nFoi um procedimento simples: o pedreiro bateu duas vezes com o cinzel e abriu um buraco na parede de tijolos secos. E eles viram a maravilha atrav\u00e9s do buraco. Os livros estavam intactos, leg\u00edveis, como se tivessem sido colocados l\u00e1 no dia anterior e n\u00e3o 30 anos antes.<br \/>\n&#8220;Mam\u00e3e tinha feito um bom trabalho&#8221;, diz Ana.<br \/>\n&#8220;Ficamos atordoados, n\u00e3o s\u00f3 pelo estado dos livros, mas por todo o peso emocional que eles tinham, porque os livros fazem parte de seus donos. Eles preservaram parte do cheiro que a casa tinha quando mor\u00e1vamos l\u00e1, ent\u00e3o, mais do que pensar nos livros, come\u00e7amos a lembrar de tudo que vivemos naqueles anos&#8221;, conta Luis.<br \/>\nEm meio a uma nuvem de nostalgia, um dos filhos da inquilina pegou a obra de Neruda e o olhou com especial interesse.<br \/>\n&#8220;E o que \u00e9 isso?&#8221;, ele perguntou.<br \/>\n&#8220;Era o caderno. Estava exatamente como eu me lembrava, ent\u00e3o peguei dele e disse &#8216;Nada. Pap\u00e9is velhos&#8217;&#8230; e guardei&#8221;, continua Luis.<br \/>\nFunda\u00e7\u00e3o Neruda passa por crise e pede ajuda ao governo chileno<br \/>\nOs tr\u00eas irm\u00e3os pensaram que s\u00f3 iriam encontrar fragmentos do que tinham deixado e, como naquela vez em que sa\u00edram de casa, h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, tiveram que levar os livros em folhas.<br \/>\nNora, a mais nova, permanece em sil\u00eancio. Ele apenas observa, em sil\u00eancio, enquanto seus irm\u00e3os contam a hist\u00f3ria, mas no final ele explode. Ela coloca a cabe\u00e7a no ombro de Beatriz para que seus olhos n\u00e3o sejam vistos.<br \/>\n&#8220;O fato de terem tirado os livros foi libertador para mim. Minha inf\u00e2ncia ficou dentro daquelas paredes, com aqueles livros que a ditadura nos obrigou a guardar e que sequestraram meu pai&#8221;, conclui.<br \/>\n&#8220;Eu senti como se estivesse reencontrando aquela menina de 9 anos que morreu um pouco quando tivemos que sair daquela casa sem livros para levar.&#8221;<br \/>\nOs livros depois de serem removidos da parede<br \/>\nLuis Gerchonoff\/Via BBC<br \/>\n2. &#8216;Eu comi 30 p\u00e1ginas&#8217;<br \/>\nQuando abriu os olhos, Luis Costa viu tr\u00eas soldados da Marinha chilena apontando seus fuzis G-3 para seu rosto.<br \/>\n&#8220;Eles me pegaram&#8221;, foi a primeira coisa que ele pensou.<br \/>\nAtr\u00e1s da fileira de fuzileiros entrou o comandante, que inspecionou seu rosto e, depois de descartar que era a pessoa que procuravam &#8211; um homem albino e muito mais velho -, disse-lhe: &#8220;Continue descansando, agora o que nos interessa s\u00e3o seus livros&#8221;.<br \/>\nSeis meses antes, Pinochet havia derrubado o governo de Salvador Allende e, por sua milit\u00e2ncia no Movimento de Esquerda Revolucion\u00e1ria (MIR), Costa vivia na clandestinidade.<br \/>\nQuase 50 anos depois, em sua casa em Quilpu\u00e9, munic\u00edpio a 10 quil\u00f4metros de Valpara\u00edso, a segunda maior cidade do Chile, Costa aponta para uma r\u00fastica cadeira de madeira com o encosto em \u00e2ngulo reto.<br \/>\n&#8220;O batista Van Schouwen, el Baucha (um dos comandantes hist\u00f3ricos do MIR), sentou-se naquela cadeira quando realizamos reuni\u00f5es em minha casa. Ele disse que o ajudava com suas dores nas costas.&#8221;<br \/>\nFoi precisamente El Baucha quem lhe deu as primeiras instru\u00e7\u00f5es uma vez consumado o golpe de Pinochet: esconda-se, sobreviva e, se n\u00e3o for poss\u00edvel salv\u00e1-los, desfa\u00e7a-se das bibliotecas de seus companheiros o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<br \/>\n&#8220;Durante os anos da Unidade Popular de Salvador Allende houve um apogeu do livro. E muitos de n\u00f3s aproveitamos isso para adquirir textos de literatura pol\u00edtica para nos educarmos&#8221;, diz.<br \/>\n&#8220;No entanto, o golpe de Pinochet foi t\u00e3o certeiro que em menos de um dia o MIR j\u00e1 estava desmantelado, ent\u00e3o a miss\u00e3o principal e quase a \u00fanica que pudemos realizar foi esconder ou, infelizmente, destruir as bibliotecas de nossos camaradas para evitar que pudesse incrimin\u00e1-los. Ter um livro considerado perigoso era o suficiente para ser preso&#8221;, explica.<br \/>\nDestruir as c\u00f3pias tornou-se uma quest\u00e3o de vida ou morte e, embora tenha sido um ato triste, pelo menos impediu que ca\u00edssem nas m\u00e3os dos militares.<br \/>\nEra uma tarefa de tentativa e erro: eles come\u00e7avam por submergir os livros nas banheiras ou nas pias das casas para que as p\u00e1ginas amolecessem e depois pudessem jog\u00e1-los no vaso sanit\u00e1rio.<br \/>\n&#8220;Mas os canos entupiam facilmente&#8221;, diz Costa. &#8220;Ent\u00e3o tivemos que ir queim\u00e1-los.&#8221;<br \/>\n&#8220;Primeiro n\u00f3s tentamos no forno e nos fog\u00f5es da cozinha, mas levamos muito tempo para queimar cada livro.&#8221;<br \/>\nEventualmente, eles concordaram com o \u00faltimo recurso: fazer fogueiras \u00e0 noite &#8220;para evitar que as pessoas sentissem a fuma\u00e7a e nos denunciassem&#8221;.<br \/>\nNo entanto, ele n\u00e3o queimou tudo. Apesar do perigo que representava, havia exemplares que conseguiu salvar.<br \/>\nCosta para sua hist\u00f3ria e percorre seu escrit\u00f3rio, um espa\u00e7o repleto de objetos e recorda\u00e7\u00f5es de seus anos de militante, que distribuiu entre familiares e amigos quando teve que se exilar, depois de passar um tempo nos centros de deten\u00e7\u00e3o de Villa Grimaldi e Tr\u00eas Alamos. E que logo recuperou. .<br \/>\nEle sobe as escadas que levam ao segundo andar, ao seu quarto. L\u00e1 ele agora tem sua biblioteca, da qual tira um livro coberto com uma folha preta.<br \/>\n&#8220;Havia livros que eram muito pessoais ou muito \u00fateis, que a gente arriscava preservar. Este, por exemplo&#8221;, diz ao abrir e revelar o t\u00edtulo &#8220;Manual do Guerrilha Urbano&#8221;, do brasileiro Carlos Marighella. &#8220;Foi muito \u00fatil para as tarefas clandestinas que est\u00e1vamos realizando naqueles dias.&#8221;<br \/>\nMas ele tamb\u00e9m foi for\u00e7ado a recorrer a t\u00e1ticas extremas para salvar sua vida e a de seus companheiros.<br \/>\nNa manh\u00e3 em que acordou com os canos dos fuzis apontados para ele, Costa passava pela casa de uma fam\u00edlia que morava em Villa Alemana, munic\u00edpio a cerca de 30 quil\u00f4metros de Valpara\u00edso.<br \/>\nA fam\u00edlia, que n\u00e3o tinha rela\u00e7\u00e3o com ele, fazia parte da rede de pessoas que apoiavam os militantes da esquerda.<br \/>\nUma cama improvisada havia sido arrumada para ele no \u00fanico quarto dispon\u00edvel: uma pequena biblioteca no primeiro andar. L\u00e1 estava ele dormindo quando o pelot\u00e3o de fuzileiros o surpreendeu.<br \/>\nCosta obedeceu ao comandante e se deitou, ainda tremendo. Mas no meio de sua vig\u00edlia, os militares o incomodaram novamente.<br \/>\n&#8220;Jovem, voc\u00ea pode me explicar sobre o que \u00e9 este livro?&#8221;, ele perguntou, entregando-lhe um volume com um t\u00edtulo atraente, &#8220;Cibern\u00e9tica e a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial&#8221;.<br \/>\nCosta levantou-se e explicou brevemente, com o que lembrava do tempo na Universidade de Santa Mar\u00eda, que se tratava do estudo dos sistemas que controlam as m\u00e1quinas. O homem uniformizado fez um gesto nebuloso e colocou o volume de lado com a ordem de confiscar.<br \/>\n&#8220;Interessante. Mas h\u00e1 a quest\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o e isso \u00e9 perigoso&#8221;, disse.<br \/>\nDeitando-se novamente, Costa percebeu que na mesa de cabeceira, tamb\u00e9m improvisada, havia um livreto de 30 folhas de papel de arroz para enrolar cigarros onde estava descrita a situa\u00e7\u00e3o da Secretaria-Geral do MIR, que lhe chegara naquela mesma tarde.<br \/>\nAgarrou o documento durante um descuido dos soldados, rasgou-o furtivamente, colocou-o na boca e come\u00e7ou a mastig\u00e1-lo sorrateiramente.<br \/>\n&#8220;Primeiro tentei umedecer com saliva, mas foi muito dif\u00edcil, porque eram 30 folhas&#8221;, conta. &#8220;Foi dif\u00edcil para mim porque tamb\u00e9m n\u00e3o queria fazer barulho.&#8221;<br \/>\nCosta lembra que tudo isso aconteceu com os militares ali ao lado. Ele tentando fazer o documento desaparecer e eles procurando livros pela sala. &#8220;N\u00e3o me lembro quanto tempo levei, mas finalmente consegui engolir tudo.&#8221;<br \/>\n&#8220;N\u00e3o doeu o est\u00f4mago nem nada, mas o que tive foi uma sensa\u00e7\u00e3o estranha na boca, tipo de tinta seca, que sempre defino como minha primeira experi\u00eancia com literatura gastron\u00f4mica&#8221;, conclui com uma cota de humor e ironia.<br \/>\nA fam\u00edlia Gerchunoff durante uma temporada de f\u00e9rias<br \/>\nArquivo pessoal\/Via BBC<br \/>\n3. &#8216;Biblioclastia fundamentalista&#8217;<br \/>\nMarjorie Mardones deixa seus dedos navegarem por uma prateleira de livros usados \u200b\u200bcomo uma crian\u00e7a em uma loja de brinquedos.<br \/>\nEla \u00e9 bibliotec\u00e1ria do Centro Quilpu\u00e9 e professora da Universidad de Playa Ancha e nos \u00faltimos anos se prop\u00f4s a descobrir o que aconteceu com milhares de livros que foram censurados e destru\u00eddos nesta regi\u00e3o chilena durante o regime de Pinochet.<br \/>\nPor isso, caminha com o entusiasmo de salvadora pela livraria: mais do que not\u00edcias, procura sobreviventes. Qualquer pista serve: um t\u00edtulo politicamente inclinado publicado em d\u00e9cadas anteriores, o selo de um editor perseguido. Capa enganosa. Uma capa forrada para esconder o t\u00edtulo original.<br \/>\n&#8220;Minha ideia \u00e9 buscar esses livros, que foram retirados de suas bibliotecas por serem considerados perigosos, e devolver para uma estante, para uma biblioteca, que \u00e9 o lugar deles&#8221;<br \/>\nNa bolsa, Mardones carrega um dos achados que fez nos \u00faltimos anos, uma c\u00f3pia que revela uma das manobras usadas para salvar os livros do apocalipse: a camuflagem.<br \/>\nO livro est\u00e1 envolto em uma capa azul clara, onde est\u00e1 impresso &#8220;A poesia de Nicanor Parra: anexos de estudos filol\u00f3gicos n\u00ba 4&#8221;.<br \/>\nMas quando ela abriu, outro t\u00edtulo: &#8220;Trotsky, o grande organizador de derrotas&#8221;, que ela suspeita ter sido publicado por uma editora sovi\u00e9tica que, aproveitando o auge do livro no Chile, come\u00e7ou a publicar t\u00edtulos em espanhol, mesmo embora seus escrit\u00f3rios ficassem em uma rua de Moscou.<br \/>\n&#8220;Era um m\u00e9todo muito tradicional, tiravam a capa com muita delicadeza para n\u00e3o danificar a lombada e depois colavam a capa nova, que tamb\u00e9m havia sido retirada da mesma forma de um livro menos perigoso. Foi feito com livros muito espec\u00edficos ou que eram importantes para seu dono, porque era um processo muito demorado e n\u00e3o podia ser aplicado a todos os livros.&#8221;<br \/>\nSua pesquisa foi exibida em uma exposi\u00e7\u00e3o em 2017 na Universidade de Playa Ancha sobre livros perseguidos em Valpara\u00edso, na qual exibiram n\u00e3o apenas os livros, mas tamb\u00e9m as hist\u00f3rias de como sobreviveram.<br \/>\n&#8220;Mostramos que o que vimos no Chile foi uma destrui\u00e7\u00e3o fundamentalista do livro. \u00c0 medida que as pessoas eram perseguidas, as ideias eram perseguidas&#8221;, acrescenta.<br \/>\n&#8220;E foi um aviso do que estava por vir. Como disse o poeta alem\u00e3o Heinrich Heine, &#8216;onde os livros s\u00e3o queimados, as pessoas tamb\u00e9m s\u00e3o queimadas&#8217;.&#8221;<br \/>\nMardones cita o ensaio &#8220;Deseja, possui, enlouquece&#8221;, no qual o renomado semi\u00f3logo italiano Umberto Eco, falecido em 2016, aponta tr\u00eas formas de biblioclastia ou destrui\u00e7\u00e3o de livros: biblioclastia fundamentalista, descuido ou interesse pr\u00f3prio.<br \/>\n&#8220;Eco aponta claramente: &#8216;O biblioclasta fundamentalista n\u00e3o odeia os livros como objeto, teme pelo conte\u00fado e n\u00e3o quer que os outros os leiam. Al\u00e9m de criminoso, \u00e9 um louco, pelo fanatismo que o motiva. A hist\u00f3ria registra poucos casos extraordin\u00e1rios de biblioclastia, como o inc\u00eandio na biblioteca de Alexandria ou as fogueiras nazistas'&#8221;, l\u00ea Mardones, que acrescenta: &#8220;E as ditaduras no Cone Sul&#8221;.<br \/>\n&#8220;Depois dessa destrui\u00e7\u00e3o, desse apag\u00e3o cultural como muitos chamam, o que a ditadura fez foi criar uma cultura de consumo r\u00e1pido, onde o livro n\u00e3o tem mais lugar&#8221;, observa.<br \/>\nPara ilustrar o que acaba de relatar, ele pronuncia um nome que parece um animal mitol\u00f3gico: &#8220;Editora Quimant\u00fa&#8221;.<br \/>\nA cerca de 90 quil\u00f4metros dali, Ram\u00f3n Castillo tira um livro de sua cole\u00e7\u00e3o: \u00e9 um pequeno exemplar cuja capa mostra um homem carregando um busto de Napole\u00e3o. \u00c9 &#8220;Sherlock Holmes e o mist\u00e9rio dos seis bustos&#8221;, mas ele se concentra no logotipo da editora que o publicou: um c\u00edrculo com representa\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas em torno de um &#8220;q&#8221; min\u00fasculo.<br \/>\n&#8220;Este \u00e9 um livro da editora nacional Quimant\u00fa, da cole\u00e7\u00e3o de livros de bolso&#8221;, diz entusiasmado.<br \/>\nAl\u00e9m de acad\u00eamico da Faculdade de Letras da Universidade Diego Portales, Castillo tamb\u00e9m seguiu a voca\u00e7\u00e3o de salvador de Mardones: \u00e0 sua frente, na mesa da sala de sua casa no bairro Bellavista de Santiago, repousa uma montanha de livros. A maioria deles com o selo do Quimant\u00fa.<br \/>\nAp\u00f3s a chegada de Salvador Allende ao poder, em 1970, dentre muitas medidas implementadas, houve uma que visava popularizar o livro. Para isso, foi adquirida uma editora estatal, controlada pelos trabalhadores, que produziria 11 milh\u00f5es de livros em tr\u00eas anos.<br \/>\nN\u00e3o foi apenas literatura universal como o livro de Sherlock: nos \u00faltimos anos, Castillo conseguiu recuperar exemplares com t\u00edtulos mais combativos, como &#8220;O que \u00e9 o materialismo hist\u00f3rico&#8221;, assinado por Marta Hernecker, e uma compila\u00e7\u00e3o da revista &#8220;Cabro Chico&#8221;, dedicado \u00e0s crian\u00e7as.<br \/>\n&#8220;Tinha um alcance enorme. Um dos funcion\u00e1rios da Quimant\u00fa nos contou uma hist\u00f3ria que mostra isso: depois de uma doa\u00e7\u00e3o para v\u00e1rios centros educacionais que ficavam fora da capital, um professor ligou para agradecer o gesto, mas sobretudo para pedir humildemente que tamb\u00e9m mandassem estantes, porque era a primeira vez que tinham livros na escola.&#8221;<br \/>\nAp\u00f3s o golpe, Pinochet e os soldados que o acompanhavam fizeram uma persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica a t\u00edtulos que consideravam perigosos (na verdade, foram feitas transmiss\u00f5es televisivas com a queima de livros e convocadas coletivas de imprensa para anunci\u00e1-los), mas, sobretudo, dos livros da Quimant\u00fa.<br \/>\nEm poucos meses o nome foi mudado (Editorial Gabriela Mistral) e a maioria dos livros foi destru\u00edda.<br \/>\nMas ele insiste em ecoar um \u00fanico objetivo: &#8220;Muitas pessoas tiveram a coragem de preservar algo que acreditavam ser algo mais do que um livro, que destru\u00ed-lo era como destruir a si mesmos. Eu s\u00f3 quero que os livros tenham uma prateleira para que n\u00e3o nos esque\u00e7amos do que aconteceu&#8221;.<br \/>\nEm meados de 2008 os livros, que estavam em perfeito estado, foram recuperados<br \/>\nLuis Gerchenoff\/Via BBC<br \/>\nA persegui\u00e7\u00e3o aos livros durante os regimes militares na Argentina e no Chile<br \/>\nNo caso do Chile, ap\u00f3s o golpe de 11 de setembro de 1973, iniciou-se uma destrui\u00e7\u00e3o de livros considerados &#8220;subversivos&#8221; em bibliotecas p\u00fablicas, universidades, algumas casas e livrarias.<br \/>\nIsso levou a um processo de autocensura, com muitos civis destruindo ou escondendo v\u00e1rias c\u00f3pias de suas bibliotecas pessoais para evitar serem enquadrados pelos militares.<br \/>\nA fase seguinte do regime foi a da censura pr\u00e9via. Embora j\u00e1 realizasse opera\u00e7\u00f5es de censura, foi em 1976 que o governo militar criou a Dire\u00e7\u00e3o Nacional de Comunica\u00e7\u00f5es, a Dinaco. Todo o conte\u00fado cultural produzido no pa\u00eds tinha que passar por esse escrit\u00f3rio para aprova\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNa Argentina, o processo \u00e9 diferente. Quando ocorre o golpe de estado de mar\u00e7o de 1976, o controle \u00e9 imediatamente estabelecido sobre a produ\u00e7\u00e3o de livros.<br \/>\nForam proibidos mais de 125 t\u00edtulos contr\u00e1rios aos &#8220;valores nacionais&#8221; que o processo de reorganiza\u00e7\u00e3o da junta c\u00edvico-militar pretendia promover.<br \/>\nHouve queima de livros. A mais significativa ocorreu em 26 de junho de 1980 no distrito de Sarandi, na prov\u00edncia de Buenos Aires, quando foram queimados quase um milh\u00e3o e meio de livros.<br \/>\nHouve uma persegui\u00e7\u00e3o especial aos livros infantis. Por exemplo, o livro de contos &#8220;Torre de cubos&#8221;, da escritora Laura Devetach, foi proibido por um decreto que apontava que seu conte\u00fado de &#8220;fantasia ilimitada&#8221; poderia ser prejudicial \u00e0s crian\u00e7as.<br \/>\nVeja os v\u00eddeos mais assistidos do g1<br \/>\nEste texto foi publicado em http:\/\/bbc.co.uk\/portuguese\/internacional-63003122<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante as ditaduras do Chile e da Argentina houve uma forte persegui\u00e7\u00e3o a certos t\u00edtulos considerados perigosos. Muitos desses livros foram escondidos, camuflados e at\u00e9 devorados para evitar que ca\u00edssem nas m\u00e3os dos censores No Chile e na Argentina foram realizadas queimas p\u00fablicas de livros considerados &#8216;perigosos&#8217; Getty Images\/Via BBC Uma fam\u00edlia que escondeu milhares<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4386,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":{"0":"post-4385","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4385","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4385"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4385\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4386"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4385"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4385"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4385"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}