{"id":43003,"date":"2023-02-19T13:11:58","date_gmt":"2023-02-19T13:11:58","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/02\/19\/varanasi-um-passeio-na-cidade-sagrada-da-morte-na-india\/"},"modified":"2023-02-19T13:11:58","modified_gmt":"2023-02-19T13:11:58","slug":"varanasi-um-passeio-na-cidade-sagrada-da-morte-na-india","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/02\/19\/varanasi-um-passeio-na-cidade-sagrada-da-morte-na-india\/","title":{"rendered":"Varanasi: um passeio na cidade sagrada da morte na \u00cdndia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/LfGORCyiKjgS1A24gu__Kk4USPU=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/7\/r\/e809kUQpKFkSreL4Ia8A\/1.jpeg\"><br \/>     H\u00e1 s\u00e9culos, peregrinos hindus v\u00eam a Varanasi para morrer, acreditando que isso trar\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. Mas ao caminhar sem rumo, o escritor Pico Iyer percebe que esta cidade da morte na verdade \u00e9 uma cidade da alegria. Crema\u00e7\u00f5es em Varanasi acontecem 24 horas por dia<br \/>\nGETTY IMAGES\/via BBC<br \/>\nH\u00e1 s\u00e9culos, peregrinos hindus v\u00eam a Varanasi para morrer, acreditando que isso trar\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. Mas ao caminhar sem rumo, o escritor Pico Iyer percebe que esta cidade da morte na verdade \u00e9 uma cidade da alegria.<br \/>\nLeia abaixo o seu relato.<br \/>\nHavia fogueiras, seis, sete delas, erguendo-se em meio \u00e0 n\u00e9voa do inverno. Grupos de homens, len\u00e7os enrolados na cabe\u00e7a, olhos brilhando na meia-luz, estavam reunidos, descal\u00e7os, ao redor das chamas, aproximando-se. Uma figura quase nua com dreadlocks emaranhados e empoeirados at\u00e9 a cintura cutucava uma cabe\u00e7a carbonizada com uma vara de bambu. Ouviam-se c\u00e2nticos ao longe, sinos sacudindo, batuques furiosos, e na escurid\u00e3o infernal do crep\u00fasculo do Ano-Novo, n\u00e3o consegui distinguir quase nada al\u00e9m de labaredas alaranjadas, ao longe, \u00e0 beira do rio.<br \/>\nQuanto disso eu estava imaginando? Quanto era efeito de um \u201cfasc\u00ednio do estrangeiro\u201d, ou resultado de jet lag e deslocamento? Pessoas vieram em minha dire\u00e7\u00e3o saindo da n\u00e9voa, cobertas de cinzas da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, portando o tridente de tr\u00eas pontas do deus patrono da cidade sagrada, Shiva, o destruidor.<br \/>\nAo passar pelos pequenos becos atr\u00e1s das chamas, cheguei a um labirinto de ruas estreitas, nas quais uma vela j\u00e1 gasta ardia na escurid\u00e3o de uma caverna com ch\u00e3o de terra. Um menino estava sentado no ch\u00e3o, atr\u00e1s de uma balan\u00e7a.<br \/>\nAs vacas avan\u00e7avam incessantemente pela alameda entupida e salpicada de esterco. De vez em quando, outro grupo de cantores passava, carregando um corpo morto sob uma mortalha dourada em uma maca de bambu, em dire\u00e7\u00e3o ao rio. Apertei-me contra a parede e senti um sussurro da mortalidade.<br \/>\nVaranasi \u00e9 considerada o centro espiritual da \u00cdndia<br \/>\nGETTY IMAGES\/via BBC<br \/>\nEu tateei meu caminho atrav\u00e9s da escurid\u00e3o total, no labirinto de passagens estreitas, e outro cad\u00e1ver apareceu, duas mulheres em seus melhores saris de seda, caminhando descal\u00e7as pela lama macia em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e1guas sagradas. Segui minha intui\u00e7\u00e3o pelas ruas escuras, passando por pequenas velas tremeluzindo em santu\u00e1rios e aberturas onde homens sussurravam s\u00edlabas sagradas.<br \/>\nEnt\u00e3o, virando uma esquina, cheguei a um cruzamento e tr\u00eas homens pararam diante de mim, armas vis\u00edveis em suas costas.<br \/>\nEra estranho pensar que, apenas 72 horas antes, eu estivera do outro lado do mundo, comemorando um tranquilo ano novo sob o sol. Agora havia cabras com marcas vermelhas em suas testas trotando por a\u00ed, brasas queimando e lamparinas flutuando pelo rio na n\u00e9voa. Ao longo das paredes havia rostos pintados de laranja, deuses macacos risonhos, falos sagrados agigantados.<br \/>\nLojas por todos os lados vendiam pasta de s\u00e2ndalo e \u00f3leo de manteiga clarificada para ungir os corpos dos mortos, e pequenas urnas de barro para as cinzas.<br \/>\nA cidade da morte j\u00e1 foi conhecida como Kash&#8221;, ou Cidade da Luz. O escritor ingl\u00eas Richard Lannoy, que quase perdeu sua alma para Varanasi, chamou-a de Cidade das Trevas e dos Sonhos. Em um livro longo e muitas vezes alucinat\u00f3rio, ele citou o superintendente-chefe da pol\u00edcia do que antes era chamado de Benares, descrevendo &#8220;o rapto de mulheres dos templos, a prostitui\u00e7\u00e3o em nome de Deus, a preval\u00eancia do roubo na cena dos peregrinos, os costumes canibais dos Aghoris, as orgias b\u00eabadas de t\u00e2ntricos falsos&#8221;.<br \/>\nNo entanto, o que mais me surpreendeu quando comecei a andar por suas ruas foi que a cidade da morte era, sem d\u00favida, uma cidade de alegria. As pessoas que passavam apressadas por mim em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s piras ardentes, levando cad\u00e1veres em dire\u00e7\u00e3o ao rio sagrado, erguiam suas vozes em louvor e em um grande e avassalador grito de agradecimento.<br \/>\n\u00c0 noite, s\u00f3 se veem as lamparinas atrav\u00e9s da n\u00e9voa<br \/>\nGETTY IMAGES\/via BBC<br \/>\nA \u00cdndia urbana \u00e9 uma imers\u00e3o em intensidade  em todos os lugares &#8211; uma esp\u00e9cie de terapia de choque &#8211; mas a cidade sagrada habita uma categoria pr\u00f3pria. O tr\u00e1fego convergia em cada cent\u00edmetro da estrada de todas as dire\u00e7\u00f5es, mas, fiel ao seu desprezo m\u00edstico pela raz\u00e3o, o lugar n\u00e3o possu\u00eda sem\u00e1foros. Aqui e ali, um policial idoso com uma m\u00e1scara cobrindo a boca estendia um bra\u00e7o esperan\u00e7oso, enquanto carros, vacas, bicicletas, caminh\u00f5es passavam por ele imprudentemente. Cachorros dormiam no meio de uma rua movimentada \u2013 a Quinta Avenida de Varanasi, imaginei \u2013 e homens estavam estendidos (dormindo, eu esperava) ao longo da lateral e na cal\u00e7ada. Uma multid\u00e3o havia se reunido no meio da rua em torno de um homem que dan\u00e7ava, girando espadas.<br \/>\nEu sabia que as \u00e1guas sagradas deveriam ser minha primeira parada, ent\u00e3o deixei minhas malas em um hotel e peguei um carro para ir em dire\u00e7\u00e3o aos ghats (escadas que d\u00e3o acesso ao rio Ganges). No decorrer do passeio de 20 minutos, passamos por duas jubilosas prociss\u00f5es de cad\u00e1veres, dois desfiles de crian\u00e7as.<br \/>\n&#8220;Este \u00e9 um momento muito desfavor\u00e1vel&#8221;, um jovem local virou-se do banco do motorista para me avisar (atr\u00e1s dele eu podia ver apenas uma massa de corpos e ve\u00edculos furiosos, mas sem avan\u00e7ar, buzinando). &#8220;Chama-se Kharmas. Todo mundo fica escondido nessa \u00e9poca; ningu\u00e9m fala sobre casamentos, coisas assim. Todo mundo fica em sil\u00eancio. \u00c9 como uma maldi\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada sobre a cidade.&#8221;<br \/>\nSe isso era Varanasi em sua forma mais silenciosa, pensei, quase incapaz de ouvi-lo quando um trem tamb\u00e9m passou trovejando em uma ponte de tijolos acima de n\u00f3s, n\u00e3o poderia imagin\u00e1-la em um de seus frequentes dias de festival. &#8220;A maldi\u00e7\u00e3o termina em 14 de janeiro&#8221;, meu novo amigo me disse. &#8220;Ent\u00e3o n\u00f3s comemoramos.&#8221; Isso n\u00e3o era motivo de comemora\u00e7\u00e3o para algu\u00e9m que deveria, como eu, partir em 13 de janeiro.<br \/>\nDescemos em uma igreja crist\u00e3 e nos juntamos ao amontoado de corpos sendo levados em dire\u00e7\u00e3o ao rio sagrado. As placas ao longo da estrada falavam de &#8220;o mais antigo centro de aulas de \u00e1baco&#8221; e &#8220;gloriosas damas costureiras&#8221;, me fazendo pensar se a gl\u00f3ria estava com as damas ou com a costura. &#8220;Escola Brit\u00e2nica para L\u00ednguas agora \u00e9 Trounce Education&#8221;, li em outra placa &#8211; um resumo engra\u00e7ado do fim do Imp\u00e9rio.<br \/>\nEm Varanasi, meio milh\u00e3o de pessoas s\u00e3o espremidas na escurid\u00e3o de um quil\u00f4metro quadrado de vielas conhecidas como Cidade Velha. O resultado \u00e9 que alguns visitantes estrangeiros mais ou menos desistem, enquanto outros se perguntam se algu\u00e9m colocou uma subst\u00e2ncia alucin\u00f3gena em sua bebida.<br \/>\nProciss\u00f5es com cad\u00e1veres enchem as ruas da cidade em dire\u00e7\u00e3o ao rio<br \/>\nGETTY IMAGES\/via BBC<br \/>\n&#8220;Tudo est\u00e1 sempre mudando aqui&#8221;, anunciou meu guia quando chegamos \u00e0 margem do rio, onde homens santos estavam sentados sob guarda-s\u00f3is coloridos no ch\u00e3o, cantando e passando pasta e cinzas na testa. &#8220;Cores diferentes. Esp\u00edrito diferente. Energia diferente. Voc\u00ea tem que estar em alerta m\u00e1ximo quando vem \u00e0 minha cidade.&#8221;<br \/>\nIsso eu j\u00e1 tinha percebido.<br \/>\nCome\u00e7amos a caminhar ao longo do rio, desviando de lixo e excrementos por todos os lados, e passamos por um homem quase nu, olhando para n\u00f3s, protegido por uma pequena fogueira dentro de uma cabana.<br \/>\n&#8220;Ele est\u00e1 meditando?&#8221;, perguntei.<br \/>\n&#8220;Tudo para ele s\u00e3o cinzas&#8221;, foi a resposta. &#8220;Esses sadhus gostam muito de viver com a crema\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o usam roupas como n\u00f3s. Eles n\u00e3o fazem nada como as pessoas que vivem no mundo material. Eles querem viver em um mundo de cinzas.\u201d<br \/>\nSadhus, homens santos, vagam pelas ruas de Varanasi<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\nUm pouco mais abaixo, quase esbarramos em um homem de t\u00fanica e turbante azul brilhante que falava o que pareciam ser piadas, como se estivesse batendo papo na barbearia de bairro (apesar de que, aqui em Varanasi, a barbearia de bairro &#8211; como o cemit\u00e9rio, a igreja e o zool\u00f3gico- ficava na rua, aberta a todos).<br \/>\n&#8220;Mestre de yoga risonho&#8221;, explicou meu guia, e ele pr\u00f3prio caiu na gargalhada, como se fosse abruptamente impelido por uma ilumina\u00e7\u00e3o repentina.<br \/>\nUma vaca enorme e inchada passou flutuando lentamente. Subimos cambaleantes em um pequeno barco que balan\u00e7ava, enquanto, na praia, um punhado de belos rapazes em elaboradas pantalonas douradas seguravam lamparinas a \u00f3leo com cinco chamas e come\u00e7avam a praticar a purifica\u00e7\u00e3o pelo fogo que eles realizariam ritualmente naquela noite. Outras embarca\u00e7\u00f5es levavam peregrinos para a outra margem escura, um banco de areia comprido e vazio, pelo que pude perceber. Fogueiras ardiam ao norte e ao sul, e o ar estava carregado com o cheiro de cravos-amarelos e fogueiras de carv\u00e3o.<br \/>\n&#8220;S\u00f3 nesta cidade, senhor, o senhor v\u00ea crema\u00e7\u00e3o 24 horas&#8221;, afirmou o barqueiro, como se falasse de uma loja de conveni\u00eancia. Em outras cidades, os cremat\u00f3rios s\u00e3o tradicionalmente colocados fora dos port\u00f5es da cidade, ao sul. Aqui, eles queimam no centro de toda a vida.<br \/>\nVoltei ao meu hotel para absorver tudo. &#8220;Tudo est\u00e1 em fluxo&#8221;, meu jovem Virg\u00edlio (o guia de Dante no livro A Divina Com\u00e9dia) me disse enquanto caminh\u00e1vamos ao longo do rio. &#8220;Tudo \u00e9 uma sucess\u00e3o constante de porvires. Nada permanece o mesmo.&#8221;<br \/>\nEste texto foi originalmente publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cxexp1mgzldo<br \/>\n*Pico Iyer \u00e9 autor de diversos livros sobre viagens. Este relato foi adaptado de seu livro mais recente, The Half Known Life (a vida meio conhecida, em tradu\u00e7\u00e3o livre), ainda sem edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 s\u00e9culos, peregrinos hindus v\u00eam a Varanasi para morrer, acreditando que isso trar\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. Mas ao caminhar sem rumo, o escritor Pico Iyer percebe que esta cidade da morte na verdade \u00e9 uma cidade da alegria. 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