{"id":42887,"date":"2023-02-18T20:13:19","date_gmt":"2023-02-18T20:13:19","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/02\/18\/o-ideal-do-parto-perfeito-que-pode-ser-prejudicial-as-mulheres\/"},"modified":"2023-02-18T20:13:19","modified_gmt":"2023-02-18T20:13:19","slug":"o-ideal-do-parto-perfeito-que-pode-ser-prejudicial-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/02\/18\/o-ideal-do-parto-perfeito-que-pode-ser-prejudicial-as-mulheres\/","title":{"rendered":"O ideal do &#8216;parto perfeito&#8217; que pode ser prejudicial \u00e0s mulheres"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/dafFgRcvArSfo7-EIBAt8YS15ik=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/V\/U\/X9FfXhR3ONQT7p8n1Tug\/image-4-.png\"><br \/>     Muitas mulheres lutam para ter uma &#8216;linda&#8217; experi\u00eancia de parto sem interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Isso funciona para algumas mulheres, mas \u00e9 um desejo que pode ser prejudicial se os planos n\u00e3o se realizarem. M\u00e3e carrega beb\u00ea<br \/>\nBBC<br \/>\nAten\u00e7\u00e3o: esta reportagem inclui detalhes de partos traum\u00e1ticos que podem ser sens\u00edveis para alguns leitores.<br \/>\nQuando Emma Carr ficou gr\u00e1vida em 2021, ela teve uma vis\u00e3o do seu parto ideal. Basicamente, ela queria sentir-se empoderada, ser ouvida e estar no controle.<br \/>\nMas, como ocorre com muitas mulheres, a vis\u00e3o de Carr ia muito al\u00e9m. Especificamente, ela esperava ter um \u201cparto natural\u201d \u2013 geralmente descrito como o parto normal com o m\u00ednimo poss\u00edvel de interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas e de produtos farmac\u00eauticos para aliviar as dores.<br \/>\nEla seguiu dois caminhos. Um deles foi a popular abordagem da \u201chipnose no parto\u201d. O hypnobirthing, como \u00e9 chamado em ingl\u00eas, ensina pr\u00e1ticas de relaxamento e respira\u00e7\u00e3o para ajudar a reduzir as dores e fazer com que a m\u00e3e permane\u00e7a consciente durante o parto.<br \/>\nE, seguindo as recomenda\u00e7\u00f5es dos seus instrutores, Carr assistiu a v\u00eddeos de partos saud\u00e1veis, felizes e sem traumas, para mant\u00ea-la otimista.<br \/>\n\u201cVoc\u00ea assiste a todos esses v\u00eddeos de beb\u00eas nascendo e \u00e9 t\u00e3o bonito\u201d, afirma Carr, que tem 36 anos de idade e mora em Londres. \u201cEles nascem com muita facilidade, as mulheres os abra\u00e7am e voc\u00ea diz \u2018isso \u00e9 o que vai acontecer comigo.\u201d<br \/>\nLEIA TAMB\u00c9M:<br \/>\nEspecialista fala sobre os partos natural e normal<br \/>\nComo parto natural ou ces\u00e1rea pode alterar rea\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as \u00e0s vacinas, segundo estudo<br \/>\nParto raro de trig\u00eameos com 2 placentas e 3 bolsas mobiliza 16 profissionais em hospital de SC<br \/>\nMas, quando a bolsa de Carr se rompeu, o fluido continha mec\u00f4nio \u2013 as fezes do feto, que podem ser perigosas tanto para a m\u00e3e, quanto para a crian\u00e7a.<br \/>\nEla correu para o hospital e os m\u00e9dicos disseram que ela precisava retirar o beb\u00ea imediatamente. E, duas horas depois, ela estava deitada sob as luzes brilhantes da sala de cirurgia.<br \/>\nLonge do seu ideal \u2013 o parto normal livre de interven\u00e7\u00f5es \u2013, seu beb\u00ea nasceu de cesariana. E o pior, segundo Carr, foi como ela se sentiu despreparada para este desfecho, de t\u00e3o concentrada que estava \u2013 depois de todo o incentivo recebido nos cursos que ela fez \u2013 na cria\u00e7\u00e3o de uma mentalidade positiva.<br \/>\n\u201cSe eu n\u00e3o tivesse na minha cabe\u00e7a como \u2018deveria\u2019 ter acontecido, n\u00e3o teria sentido que foi um fracasso\u201d, ela conta. \u201cEu s\u00f3 gostaria que [meus instrutores] fossem um pouco mais abertos sobre como acontecem esses partos. Que nem sempre funciona, s\u00f3 porque voc\u00ea fez hipnose no parto.\u201d<br \/>\nCarr conta que, durante a gravidez, suas amigas tentaram avis\u00e1-la que ela poderia n\u00e3o ter o parto que esperava. Mas ela as ignorou, pensando que provavelmente elas n\u00e3o fizeram o mesmo treinamento que ela.<br \/>\n\u201cAs pessoas que voc\u00ea normalmente ouve, voc\u00ea deixa de escut\u00e1-las, porque voc\u00ea tem essas outras pessoas na sua cabe\u00e7a dizendo que o seu parto deve ser natural e m\u00e1gico, que o seu corpo foi projetado perfeitamente para isso\u201d, afirma ela. \u201cMas n\u00e3o acho que o meu tenha sido.\u201d<br \/>\nMuitas mulheres realmente se beneficiam desta abordagem sobre o parto. Algumas chegam a vivenciar o cen\u00e1rio ideal que elas esperavam. Com as t\u00e9cnicas corretas \u2013 como respira\u00e7\u00e3o, afirma\u00e7\u00f5es ou massagens \u2013, algumas pessoas defendem que o parto pode ser agrad\u00e1vel e at\u00e9 org\u00e1smico.<br \/>\nMas outras mulheres, como Carr, ficam em estado de choque e n\u00e3o s\u00f3 devido ao parto traum\u00e1tico. Elas se sentem como se tivessem se fixado naquela vis\u00e3o, sem se prepararem para as muitas raz\u00f5es que podem impedir aquilo de acontecer. E, por isso, sua experi\u00eancia foi ainda pior.<br \/>\nO in\u00edcio do movimento<br \/>\nEm grande parte da hist\u00f3ria humana, as mulheres morriam no parto com frequ\u00eancia \u2013 at\u00e9 uma a cada 100 partos nos s\u00e9culos 17 e 18. At\u00e9 que avan\u00e7os cient\u00edficos, incluindo os antibi\u00f3ticos, fizeram despencar a mortalidade materna.<br \/>\n\u00c0 medida que a comunidade m\u00e9dica expandia sua aten\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da seguran\u00e7a, t\u00e9cnicas de redu\u00e7\u00e3o das dores com narc\u00f3ticos, como a epidural, tornaram-se comuns em muitos pa\u00edses. Ainda hoje, a mortalidade materna \u00e9 mais alta em pa\u00edses onde pode n\u00e3o haver assist\u00eancia m\u00e9dica adequada para cuidar das mesmas complica\u00e7\u00f5es que s\u00e3o tratadas mais facilmente em outras partes do mundo.<br \/>\nDepois de terem se preparado para experi\u00eancias de parto \u2018ideal\u2019, algumas mulheres se sentem fracassadas se acabarem tendo interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, como a cesariana<br \/>\nBBC<br \/>\nMuitas pessoas, ao darem \u00e0 luz, preferem o controle moderno das dores como a op\u00e7\u00e3o mais adequada para elas, o que tamb\u00e9m \u00e9 recomendado por muitos m\u00e9dicos. Mas outras mulheres e profissionais de sa\u00fade acreditam que o processo de parto avan\u00e7ou demais nesta dire\u00e7\u00e3o. Eles afirmam que a depend\u00eancia excessiva das interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas pode ser desnecess\u00e1ria, perigosa e at\u00e9 desumanizadora.<br \/>\nNos anos 1960, por exemplo, mulheres de pa\u00edses ricos muitas vezes davam \u00e0 luz sedadas com anestesia geral. Elas podem n\u00e3o ter sentido dores, mas tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiam ficar conscientes para tomar as decis\u00f5es moment\u00e2neas relativas \u00e0 sua assist\u00eancia.<br \/>\nHoje em dia, muitas mulheres lutam pelo que, muitas vezes, \u00e9 considerado o \u201cparto positivo\u201d \u2013 e at\u00e9 o idealizam.<br \/>\nExpress\u00e3o cunhada pela ativista brit\u00e2nica e fundadora do Movimento do Parto Positivo, Milli Hill, \u201cparto positivo\u201d n\u00e3o se destinava originalmente a descrever nenhum tipo espec\u00edfico de trabalho de parto. O significado da express\u00e3o se expandiu.<br \/>\n\u201cO parto positivo n\u00e3o precisa ser \u2018natural\u2019, nem \u2018livre de medica\u00e7\u00e3o\u2019 \u2013 ele simplesmente precisa ser informado do ponto de vista da positividade e n\u00e3o do medo\u201d, segundo o website do movimento. Ou seja, \u201cvoc\u00ea pode ter seu beb\u00ea com positividade no hospital ou em casa, com ou sem interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica\u201d.<br \/>\nO website destaca que o parto positivo, na verdade, \u00e9 um a experi\u00eancia na qual a mulher sente que tem \u201cliberdade de escolha, acesso a informa\u00e7\u00f5es precisas e que ela est\u00e1 no controle, poderosa e respeitada\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m um parto que ela \u201cir\u00e1 apreciar e dele se lembrar\u00e1 mais tarde com carinho e orgulho\u201d.<br \/>\nAinda assim, muitas mulheres que fazem os cursos de parto positivo afirmam que sentem uma tend\u00eancia subjacente a idealizar especificamente os partos \u201cnaturais\u201d.<br \/>\nPara alguns instrutores, uma parte importante da \u00eanfase sobre como o parto pode ser \u201cpositivo\u201d \u00e9 acompanhada de palestras sobre como o corpo da mulher \u00e9 \u201cprojetado\u201d para dar \u00e0 luz \u2013 e as entrelinhas podem dizer que as interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas impedem este processo, em vez de assisti-lo.<br \/>\nUm fundamento importante de muitas dessas abordagens, por exemplo, \u00e9 que o medo e a ansiedade aumentam a produ\u00e7\u00e3o de horm\u00f4nios como a adrenalina, que pode retardar o parto e piorar as contra\u00e7\u00f5es.<br \/>\nCom t\u00e9cnicas que incluem fazer com que o local do parto pare\u00e7a acolhedor e confort\u00e1vel; apoio de um parceiro (ou equipe) de parto; uso de t\u00e9cnicas de respira\u00e7\u00e3o ou medita\u00e7\u00e3o; e, acima de tudo, entrar em trabalho de parto sentindo-se relaxada e confiante, a ideia \u00e9 que voc\u00ea pode incentivar a produ\u00e7\u00e3o de oxitocina, que acelera o trabalho de parto e reduz as dores.<br \/>\nA populariza\u00e7\u00e3o do parto \u201cnatural\u201d tem um longo hist\u00f3rico, que se inicia pelo menos nos anos 1930 \u2013 curiosamente, mais ou menos na mesma \u00e9poca em que foi fundado o primeiro col\u00e9gio de ginecologistas e obstetras.<br \/>\nPara muitas mulheres, abordagens como estas nunca tiveram muita import\u00e2ncia. Se voc\u00ea quiser dar \u00e0 luz com o m\u00ednimo de dores poss\u00edvel, por que simplesmente n\u00e3o usar todas as modernas interven\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e medica\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis?<br \/>\nMas, para outras, esta imagem do parto \u201cnatural\u201d ideal prevaleceu, amplificada por uma ind\u00fastria crescente de educa\u00e7\u00e3o para o parto. Nas redes sociais, s\u00e3o frequentes as belas hist\u00f3rias de partos relaxados na \u00e1gua, com m\u00fasica de cura e velas por toda parte.<br \/>\nExistem muitos benef\u00edcios desses movimentos de parto, incluindo a inten\u00e7\u00e3o de devolver a tomada de decis\u00f5es para as pessoas que ir\u00e3o dar \u00e0 luz. Mas, com os ideais culturais de \u201cpositivo\u201d e \u201cnatural\u201d ficando cada vez mais comuns, existe um lado negativo para algumas mulheres.<br \/>\nNenhuma aula ou t\u00e9cnica de relaxamento pode superar a realidade de que cada parto tem suas circunst\u00e2ncias diferentes; que existem imensas disparidades raciais e \u00e9tnicas na qualidade da assist\u00eancia; que a assist\u00eancia \u00e0 maternidade, de forma geral, pode estar abaixo dos padr\u00f5es; e que as mulheres, \u00e0s vezes, sentem-se pressionadas para aceitar as interven\u00e7\u00f5es. Mesmo os objetivos mais simples de se sentir empoderada ou ter mem\u00f3rias agrad\u00e1veis do trabalho de parto podem parecer fora do alcance.<br \/>\n\u00c9 preciso tamb\u00e9m observar que o tempo e o investimento financeiro necess\u00e1rios para alguns desses cursos fazem com que eles sejam inacess\u00edveis para muitas pessoas. Eles podem custar menos de US$ 50 (cerca de R$ 255) ou at\u00e9 mais de US$ 1 mil (cerca de R$ 5,1 mil) para orienta\u00e7\u00f5es particulares e normalmente exigem v\u00e1rias horas de instru\u00e7\u00e3o, no m\u00ednimo.<br \/>\nOs proponentes desta abordagem afirmam que os profissionais m\u00e9dicos precisam se prontificar a resolver esses problemas, sem que as m\u00e3es precisem reduzir suas expectativas.<br \/>\nMas, enquanto isso n\u00e3o acontece, para as mulheres que t\u00eam partos que n\u00e3o saem conforme o esperado, ter em mente uma vis\u00e3o do parto altamente espec\u00edfica \u2013 e, muitas vezes, idealizada \u2013 pode impor press\u00e3o desnecess\u00e1ria sobre o que, afinal, \u00e9 uma experi\u00eancia imprevis\u00edvel. E, no pior dos casos, elas podem sentir que elas ou at\u00e9 que seus beb\u00eas fracassaram.<br \/>\nO ideal, mas n\u00e3o a norma<br \/>\nO parto \u201cnatural\u201d, no qual tudo se desenvolve perfeitamente e sem necessidade de interven\u00e7\u00e3o, permanece longe de ser a norma geral.<br \/>\nEm 2020, por exemplo, dados do Centro de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as dos Estados Unidos demonstraram que cerca de um ter\u00e7o de todos os partos naquele pa\u00eds inclu\u00edram um tipo de indu\u00e7\u00e3o do trabalho de parto \u2013 e um ter\u00e7o deles ocorreu por cesariana.<br \/>\nJ\u00e1 os partos em casa, muitas vezes considerados o trabalho de parto \u201cnatural\u201d por excel\u00eancia, representaram apenas 1% do total.<br \/>\nMas, para muitas pessoas que enfatizam o parto natural como objetivo da sua abordagem \u201cpositiva\u201d, os seus partos nem sempre saem de acordo com o plano, o que pode ter efeito cascata.<br \/>\nAlgumas m\u00e3es afirmam que, por terem se concentrado apenas no seu parto ideal, foram pegas de surpresa pela realidade \u2013 e seu luto foi maior quando n\u00e3o tiveram a experi\u00eancia do parto perfeito que queriam. Em um estudo, 15% das mulheres que tiveram cesariana n\u00e3o programada declararam que se sentiam como se tivessem \u201cfracassado\u201d.<br \/>\nEm Toronto, no Canad\u00e1, Andie Perris, com 38 anos de idade, queria \u201ca experi\u00eancia mais natural poss\u00edvel\u201d quando estava gr\u00e1vida do seu primeiro filho.<br \/>\nEla fez um curso de hipnose no parto, ouviu \u00e1udios de relaxamento e leu o livro On Childbirth (\u201cSobre o nascimento de crian\u00e7as\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre), da parteira norte-americana Ina May Gaskin, \u201crepleto de hist\u00f3rias de partos serenos de mulheres tendo seus filhos respirando tranquilamente, com seu corpo assumindo o controle\u201d, afirma Perris.<br \/>\n\u201cEu havia visto e ouvido essas belas hist\u00f3rias de partos e era o que eu esperava para mim, j\u00e1 que eu tinha feito todo o trabalho\u201d, ela conta. \u201cEu realmente acreditava que mudaria o desfecho do meu parto.\u201d<br \/>\nMas Perris ficou em trabalho de parto por quase 24 horas. Seu assoalho p\u00e9lvico estava \u201ccompletamente destru\u00eddo\u201d. A crian\u00e7a n\u00e3o conseguia descer corretamente e acabou nascendo por aspira\u00e7\u00e3o. A m\u00e3e teve hemorragia p\u00f3s-parto.<br \/>\nAnalisando o que aconteceu, ela conta que provavelmente deveria ter feito uma cesariana, mas foi contra.<br \/>\n\u201cEu sentia que s\u00f3 havia uma forma \u2018certa\u2019 de ter meu beb\u00ea, o que me deixou totalmente concentrada naquela forma certa\u201d, afirma Perris. \u201cE, \u00e9 claro, n\u00e3o existe apenas uma forma certa. Mas eu estava muito envolvida nessa vis\u00e3o de como a natureza \u2018pretendia\u2019 que voc\u00ea tivesse um beb\u00ea.\u201d<br \/>\nComo ela estava muito concentrada em manter uma mentalidade positiva durante o seu trabalho de parto, Perris conta que n\u00e3o se preparou para a possibilidade de que tudo sa\u00edsse diferente. Por isso, \u201cquando as coisas come\u00e7aram a dar errado, adaptar-me foi muito dif\u00edcil para mim\u201d.<br \/>\nPara seu segundo filho, ela tentou ouvir os mesmos \u00e1udios de relaxamento, como costumava fazer na prepara\u00e7\u00e3o para o primeiro. Mas eles aumentaram tanto a sua ansiedade que ela teve que parar.<br \/>\nA doula brit\u00e2nica Emiliana Hall \u00e9 fundadora do grupo The Mindful Birth, que ajuda as mulheres a preparar-se para o parto. Hall afirma que sua abordagem evita a idealiza\u00e7\u00e3o de qualquer forma de parto e prefere cobrir todos os desfechos poss\u00edveis.<br \/>\nEla conta que agora est\u00e1 vendo uma onda de mulheres que est\u00e3o sendo m\u00e3es pela segunda vez e dizem que, depois de uma abordagem de parto \u201cpositivo\u201d, sua primeira experi\u00eancia n\u00e3o saiu como elas haviam planejado.<br \/>\nO problema, segundo Hall, n\u00e3o \u00e9 apenas que elas tiveram uma experi\u00eancia negativa, mas sim que elas se culpam por isso. E este pode ser o risco de uma abordagem t\u00e3o concentrada na mentalidade, segundo ela.<br \/>\nMuitos cursos recomendam ouvir apenas hist\u00f3rias de parto positivas ou at\u00e9 substituir palavras negativas como \u201ccontra\u00e7\u00f5es\u201d por \u201condas\u201d, para afastar o medo e a ansiedade e, com eles, os horm\u00f4nios do estresse e, teoricamente, as dores. Por isso, se uma mulher realmente acabar sentindo dores ou trauma, ela poder\u00e1 se perguntar se foi porque ela n\u00e3o estava suficientemente relaxada.<br \/>\n\u201cQuando isso n\u00e3o funciona, elas se sentem como se tivessem fracassado ou como se tivesse sido uma completa perda de tempo\u201d, afirma Hall. \u201cMas existem tantas coisas que voc\u00ea n\u00e3o pode controlar.\u201d<br \/>\nHall afirma que toma muito cuidado nos seus cursos para at\u00e9 mesmo usar a express\u00e3o \u201cparto positivo\u201d. Apesar de ensinar t\u00e9cnicas que facilitam o parto, ela tem total consci\u00eancia de que n\u00e3o h\u00e1 garantia de que tudo sair\u00e1 conforme o planejado.<br \/>\n\u2018Eu n\u00e3o posso simplesmente ter tido sorte nas tr\u00eas vezes, certo?\u2019<br \/>\n\u00c9 claro que muitas m\u00e3es acharam as abordagens de parto positivo \u00fateis e at\u00e9 transformadoras.<br \/>\nEm Berlim, na Alemanha, Edwina Moorhouse, com 32 anos de idade, achava que essas t\u00e9cnicas pareciam coisas de \u201chippie\u201d. Mas, depois de assistir a uma vlogueira entusiasmada no YouTube contando sua experi\u00eancia, ela deixou o ceticismo de lado.<br \/>\n\u201cEu realmente queria ter aquela alegria que voc\u00ea v\u00ea que ela tem\u201d, ela conta.<br \/>\nMoorhouse fez um curso de hipnose no parto, praticou t\u00e9cnicas de respira\u00e7\u00e3o e passou por sess\u00f5es semanais de acupuntura. Ela teve um parto na \u00e1gua r\u00e1pido e f\u00e1cil.<br \/>\nSeu segundo parto foi similar. E, quando foi ter seu terceiro beb\u00ea, ela levou lumin\u00e1rias de sal rosa do Himalaia, grandes fones de ouvido e meias quentes para deixar o quarto do hospital mais acolhedor. Havia se convertido totalmente.<br \/>\n\u201cEu n\u00e3o posso simplesmente ter tido sorte nas tr\u00eas vezes, certo? Deve haver alguma raz\u00e3o nisso\u201d, segundo ela.<br \/>\n\u201cPensar que, no meu terceiro filho, eu ouvia religiosamente os \u00e1udios em mp3 sobre hipnose no parto, inundava meu c\u00e9rebro com hist\u00f3rias positivas no YouTube, gastava um mundo de dinheiro naquele xampu que tinha um aroma que oferecia al\u00edvio imediato das dores \u2013 fiquei completamente irreconhec\u00edvel com rela\u00e7\u00e3o \u00e0quela mulher que ficou gr\u00e1vida seis anos antes\u201d, conta Moorhouse.<br \/>\nDe fato, existem evid\u00eancias de que as t\u00e9cnicas ensinadas em muitos desses cursos de parto podem reduzir as dores e o uso de epidural, diminuir o n\u00famero de interven\u00e7\u00f5es e a pr\u00f3pria dura\u00e7\u00e3o do trabalho de parto, resulta em menor quantidade de cesarianas e melhora a experi\u00eancia geral do parto para as m\u00e3es. Mas estas descobertas nem sempre podem ser reproduzidas, pois alguns aspectos parecem ser mais \u00fateis do que outros.<br \/>\nUm extenso estudo demonstrou que alguns elementos populares, como a presen\u00e7a de um parceiro de parto treinado ou o uso de m\u00fasica ou massagem para relaxar, ajudou a reduzir a probabilidade de que a mulher relembre sua experi\u00eancia de parto como \u201cnegativa\u201d, mas outras t\u00e9cnicas foram menos \u00fateis.<br \/>\nOutro estudo demonstrou que a m\u00fasica, ioga e t\u00e9cnicas de relaxamento como medita\u00e7\u00f5es orientadas podem ajudar a reduzir as dores. Mas n\u00e3o houve diferen\u00e7a na redu\u00e7\u00e3o das taxas de interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, incluindo cesarianas, nem da quantidade de mulheres que acabaram precisando de al\u00edvio das dores com medicamentos.<br \/>\nDo ponto de vista m\u00e9dico, \u00e9 geralmente aceito que todas as interven\u00e7\u00f5es t\u00eam seus pr\u00f3prios custos e riscos e, por isso, elas n\u00e3o devem ser realizadas sem necessidade \u2013 ou, no caso de interven\u00e7\u00f5es para controlar as dores, sem total consentimento informado da m\u00e3e.<br \/>\nA epidural, por exemplo, pode estar relacionada a um segundo est\u00e1gio de trabalho de parto mais longo, maior possibilidade de ser necess\u00e1rio o parto instrumental e, em casos raros, febre ou les\u00f5es dos nervos.<br \/>\nMas as mulheres que seguem abordagens de parto \u201cpositivo\u201d afirmam que a mensagem subjacente, \u00e0s vezes, pode ir al\u00e9m, fazendo com que as pessoas sintam que qualquer interven\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cruim\u201d.<br \/>\n\u201cA mensagem \u00e9 que voc\u00ea foi feita para isso, que \u00e9 natural, que as mulheres v\u00eam fazendo isso desde o in\u00edcio dos tempos, que o seu corpo sabe o que est\u00e1 fazendo e que o seu beb\u00ea sabe o que est\u00e1 fazendo\u201d, segundo a blogueira de estilo de vida Beth Sandland, fundadora da revista digital The Motherhood Edit.<br \/>\n\u201cEu n\u00e3o diria que isso incentiva o medo. Mas eu diria que existe certamente uma mensagem subjacente de que \u2018os hospitais n\u00e3o trabalham necessariamente no seu melhor interesse. Os m\u00e9dicos n\u00e3o t\u00eam necessariamente uma abordagem realista do parto fisiol\u00f3gico\u2019\u201d em alguns dos cursos e contas de redes sociais que Sandland, com 26 anos de idade, tem observado.<br \/>\nPara muitas m\u00e3es, o aspecto mais importante de ter um parto \u2018positivo\u2019 \u00e9 a autonomia<br \/>\nBBC<br \/>\nMas as interven\u00e7\u00f5es isoladamente n\u00e3o s\u00e3o necessariamente o fator decisivo para que uma experi\u00eancia seja considerada \u201cpositiva\u201d. Na verdade, pesquisas conclu\u00edram que um dos aspectos mais importantes que definem se o parto foi positivo para uma mulher \u00e9 o tempo que levou o trabalho de parto.<br \/>\nAs m\u00e3es que tiveram trabalho de parto mais curto ficaram mais satisfeitas, mesmo quando o tempo foi reduzido por uma interven\u00e7\u00e3o como o aumento da oxitocina, por exemplo. E, considerando o efeito do trabalho de parto prolongado, os pesquisadores conclu\u00edram que \u201cas interven\u00e7\u00f5es para evitar isso podem resultar em \u2018benef\u00edcio l\u00edquido\u2019.\u201d<br \/>\n\u00c9 claro que as interven\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m podem salvar a vida de muitas mulheres.<br \/>\n\u201cA forma de apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o precisa fazer o que eles dizem. E os m\u00e9dicos est\u00e3o ali meio que para prejudicar voc\u00ea, de certa forma\u201d, afirma Carr. \u201cEles dizem, \u2018oh, n\u00e3o \u00e9 perigoso. \u00c9 natural.\u2019 Isso pode ser verdade, mas nem sempre.\u201d<br \/>\n\u201cAcho que, para mim, havia risco\u201d, prossegue ela. \u201cSe eu n\u00e3o tivesse recebido interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, um de n\u00f3s poderia n\u00e3o ter sobrevivido&#8230; n\u00e3o acho que, no meio natural, eu teria tido aquele beb\u00ea com facilidade.\u201d<br \/>\n\u2018Estudei como se fosse para um exame\u2019<br \/>\nUma grande parte do movimento do parto positivo envolve o empoderamento.<br \/>\nDe fato, sentir-se no controle e envolvida na tomada de decis\u00f5es \u00e9 uma grande parte da experi\u00eancia positiva. E, mesmo se houver complica\u00e7\u00f5es durante o parto, algumas mulheres ainda encontram t\u00e9cnicas \u00fateis para ajud\u00e1-las a manter-se no controle.<br \/>\nEm Glasgow, no Reino Unido, Anna Murray, com 34 anos de idade, fez toda a prepara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para o parto.<br \/>\n\u201cEstudei como se fosse para um exame\u201d, ela conta. Murray fez um curso particular com uma doula, leu livros e fez um curso de hipnose no parto com ioga. Ela chegou a ter uma pasta no Google Drive com todos os seus \u00e1udios e v\u00eddeos de ioga para diferentes posi\u00e7\u00f5es de parto.<br \/>\nPor fim, Murray precisou de uma cesariana n\u00e3o programada. Seu beb\u00ea havia crescido demais e estava em posi\u00e7\u00e3o fixa, de forma que nenhum exerc\u00edcio poderia vir\u00e1-lo.<br \/>\nMas ela conta que as t\u00e9cnicas de respira\u00e7\u00e3o a ajudaram a ficar calma na mesa de cirurgia. \u201cControlar a calma durante o parto pode ajudar, independente do que voc\u00ea tenha\u201d, afirma Murray. \u201cMas, no final, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter mais controle sobre o que est\u00e1 acontecendo.\u201d<br \/>\nO parto de Murray \u00e9 um exemplo da natureza diversa de como as m\u00e3es vivenciam atualmente o ideal do parto positivo. Para algumas, ele se desenvolve exatamente como elas sonharam e fornece as t\u00e9cnicas para ajudar no processo. Para outras, \u00e9 um desapontamento arrasador. E, para ainda outras, como Murray, as t\u00e9cnicas podem fornecer ferramentas \u00fateis para que elas consigam o melhor poss\u00edvel em situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis.<br \/>\nPor fim, para muitas mulheres, o aspecto mais importante de ter um parto positivo resume-se em uma palavra: autonomia. N\u00e3o significa apenas sentir-se empoderada, seja na enfermaria ou no parto em casa. Significa n\u00e3o se sentir pressionada a ter o parto de nenhuma forma espec\u00edfica.<br \/>\nE, culturalmente, significa reconhecer que a fisiologia, as condi\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas e o processo de parto de cada mulher ter\u00e3o apar\u00eancias diferentes, cuidando para n\u00e3o idolatrar nenhuma experi\u00eancia espec\u00edfica como se fosse o m\u00e1ximo dos ideais, seja com o uso de anestesia ou em uma banheira \u00e0 luz de velas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas mulheres lutam para ter uma &#8216;linda&#8217; experi\u00eancia de parto sem interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Isso funciona para algumas mulheres, mas \u00e9 um desejo que pode ser prejudicial se os planos n\u00e3o se realizarem. M\u00e3e carrega beb\u00ea BBC Aten\u00e7\u00e3o: esta reportagem inclui detalhes de partos traum\u00e1ticos que podem ser sens\u00edveis para alguns leitores. Quando Emma Carr ficou<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":42888,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":{"0":"post-42887","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42887","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42887"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42887\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42888"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42887"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42887"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42887"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}