{"id":41411,"date":"2023-02-13T07:11:15","date_gmt":"2023-02-13T07:11:15","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/02\/13\/o-que-ha-de-verdade-em-lenda-de-premie-holandes-comido-pela-populacao-em-furia\/"},"modified":"2023-02-13T07:11:15","modified_gmt":"2023-02-13T07:11:15","slug":"o-que-ha-de-verdade-em-lenda-de-premie-holandes-comido-pela-populacao-em-furia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/02\/13\/o-que-ha-de-verdade-em-lenda-de-premie-holandes-comido-pela-populacao-em-furia\/","title":{"rendered":"O que h\u00e1 de verdade em lenda de premi\u00ea holand\u00eas comido pela popula\u00e7\u00e3o em f\u00faria"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/goxz7Z4VggU_L_MQxsXGan8pkWI=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/q\/s\/Cma60GR5Gny0zOWnEGYg\/a.jpg\"><br \/>     Especialista explica que per\u00edodo conturbado no pa\u00eds europeu no s\u00e9culo 17 levou a trag\u00e9dia que \u00e9 retratada em pintura exposta em museu. Obra de Pieter Fris retrata execu\u00e7\u00e3o dos dois irm\u00e3os<br \/>\nDOM\u00cdNIO P\u00daBLICO<br \/>\nExposto no Rijksmuseum, o museu nacional dos Pa\u00edses Baixos, em Amsterd\u00e3, um \u00f3leo sobre tela de 69,5 cent\u00edmetros de altura por 56 cent\u00edmetros de largura mostra dois corpos desnudos, de cabe\u00e7a para baixo, com os \u00f3rg\u00e3os extirpados.<br \/>\nA pintura, do holand\u00eas Jan de Baen (1633-1702), chama-se &#8216;Os Cad\u00e1veres dos Irm\u00e3os De Witt&#8217; e foi feita possivelmente entre 1672 e 1675. Para alguns historiadores, o realismo do quadro \u00e9 uma das origens da narrativa \u2014 possivelmente fantasiosa \u2014 de que o primeiro-ministro holand\u00eas Johan de Witt (1625-1672) tenha sido devorado pela popula\u00e7\u00e3o enraivecida, depois de linchado.<br \/>\n&#8220;A imagem do primeiro-ministro sendo comido pela popula\u00e7\u00e3o se refere muito mais a uma representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica do pintor Jan de Baen. Podemos perceber que essas representa\u00e7\u00f5es mais realistas, mais envolventes do corpo humano, j\u00e1 vinham dos dois s\u00e9culos anteriores. Mas [a cena] ilustra muito mais um realismo corporal do que necessariamente um fato hist\u00f3rico&#8221;, comenta o historiador Victor Missiato, integrante de grupo de pesquisa na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e professor no Col\u00e9gio Presbiteriano Mackenzie Tambor\u00e9.<br \/>\nO que \u00e9 fato dado como certo foi que Johan de Witt e seu irm\u00e3o Cornelius (1623-1672), os dois corpos representados na pintura, sofreram uma morte violenta, executada por populares revoltosos. &#8220;O processo de linchamento ocorria com muito mais frequ\u00eancia [do que o canibalismo] e h\u00e1 muitos registros dessa pr\u00e1tica na Europa dos s\u00e9culo 16, 17 e 18&#8221;, diz.<br \/>\n&#8220;Historicamente \u00e9 poss\u00edvel afirmar que houve linchamento e que partes do corpo dos irm\u00e3os de Witt foram cortados&#8221;, complementa. &#8220;Mas registro hist\u00f3rico de que se alimentaram de suas partes, isso \u00e9 pouco veross\u00edmil. N\u00e3o h\u00e1 nada em rela\u00e7\u00e3o a isso. \u00c9 mais resultado do impacto da representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica do que necessariamente de um fato hist\u00f3rico.&#8221;<br \/>\nPer\u00edodo conturbado<br \/>\nObra &#8216;Os Cad\u00e1veres dos Irm\u00e3os De Witt&#8217;, de Jan de Baen<br \/>\nDOM\u00cdNIO P\u00daBLICO<br \/>\nMas o que acontecia nos Pa\u00edses Baixos naqueles tumultuados anos do s\u00e9culo 17 para desencadear t\u00e3o grotesco epis\u00f3dio? Conforme explica Roberto Georg Uebel, professor de rela\u00e7\u00f5es internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), foi um &#8220;per\u00edodo muito conturbado da Holanda, hoje parte dos Pa\u00edses Baixos, que na \u00e9poca era uma das poucas rep\u00fablicas no continente europeu&#8221;.<br \/>\nFilho de uma fam\u00edlia de pol\u00edticos importantes da sociedade neerlandesa de ent\u00e3o, Witt era advogado e matem\u00e1tico quando assumiu o posto de grande pension\u00e1rio da rep\u00fablica \u2014 algo equivalente ao cargo de primeiro-ministro. Ele ficou no comando do executivo do pa\u00eds por quase duas d\u00e9cadas, entre 1653 e 1672.<br \/>\nUebel pontua que aquele per\u00edodo &#8220;coincidiu com as guerras holandesas com a Fran\u00e7a, Inglaterra e alguns Estados germ\u00e2nicos&#8221;. No per\u00edodo, houve &#8220;um certo enfraquecimento dos Orange-Nassau, uma das fam\u00edlias reais mais importantes e fortes na hist\u00f3ria europeia&#8221;.<br \/>\nIsto porque o estatuder \u2014 chefe do Executivo \u2014 da regi\u00e3o, pr\u00edncipe Guilherme II de Orange-Nassau (1626-1650) morreu deixando como \u00fanico herdeiro, Guilherme III (1650-1702), uma crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida. Depois de diversas disputadas, Witt assumiu o poder de fato, enquanto Guilherme III era criado e educado para, um dia, suceder o pai.<br \/>\n&#8220;De Witt teve sua responsabilidade no fortalecimento do poder mar\u00edtimo e geopol\u00edtico da Holanda, que \u00e0 \u00e9poca era concebida como uma das maiores pot\u00eancias econ\u00f4micas e geopol\u00edticas do mundo&#8221;, comenta Uebel.<br \/>\nCostumava-se comparar a ent\u00e3o Holanda com o imp\u00e9rio brit\u00e2nico, no sentido de que em ambos &#8220;nunca se via o sol se p\u00f4r&#8221;, j\u00e1 que o poderio se estendia por col\u00f4nias al\u00e9m-mar. &#8220;Por meio das Companhias das \u00cdndias Ocidentais e Orientais, o dom\u00ednio chegava ao Caribe e Am\u00e9ricas e ao Sudeste Asi\u00e1tico&#8221;, acrescenta o professor. &#8220;O pr\u00f3prio nordeste do Brasil se viu sob ocupa\u00e7\u00e3o holandesa.&#8221;<br \/>\nMissiato explica que a Holanda passava por grandes transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. &#8220;J\u00e1 vinha, anteriormente, da independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Espanha [ocorrida ap\u00f3s a Guerra dos 80 anos, terminada em 1648]. E isso fez com que ocorresse no seio da Europa uma primeira grande divis\u00e3o entre catolicismo e protestantismo ap\u00f3s os movimentos de reforma e contrarreforma&#8221;, contextualiza.<br \/>\nNos primeiros anos p\u00f3s-independ\u00eancia, a Holanda experimentou um momento de crescimento econ\u00f4mico sem precedentes. &#8220;Principalmente na \u00e1rea do com\u00e9rcio, a partir da vis\u00e3o protestante de sociedade&#8221;, frisa Missiato.<br \/>\nO historiador tamb\u00e9m afirma que o fato de o pa\u00eds ter se configurado como uma rep\u00fablica favoreceu esse desenvolvimento. &#8220;Os neg\u00f3cios n\u00e3o ficavam presos ao poder hierarquizado, aristocr\u00e1tico&#8221;, comenta.<br \/>\nEsse cen\u00e1rio promissor passou a incomodar outras regi\u00f5es da Europa. &#8220;Tanto na parte comercial quanto na parte religiosa&#8221;, diz Missiato, citando regi\u00f5es da atual Alemanha, al\u00e9m de Fran\u00e7a e Inglaterra como fortes concorrentes. &#8220;No centro de muitas disputas comerciais e religiosas, a Holanda teve diversos confrontos ao longo do s\u00e9culo 17&#8221;, acrescenta.<br \/>\n&#8220;Era um per\u00edodo de efervesc\u00eancia pol\u00edtica que coincidia com movimentos p\u00f3s-reforma protestante, ocorrida um s\u00e9culo antes, com a antessala do iluminismo e com as r\u00e1pidas mudan\u00e7as trazidas pelo capitalismo metalista e mercantilista, em substitui\u00e7\u00e3o ao feudalismo, que come\u00e7ava a ruir suas \u00faltimas fortalezas na Europa, inclusive na Holanda&#8221;, afirma Uebel.<br \/>\n&#8220;No contexto holand\u00eas, o pa\u00eds passava por uma guerra de propor\u00e7\u00f5es continentais, a Guerra Franco-Holandesa, que deixou marcada a rivalidade de Witt com a casa de Orange-Nassau e seus apoiadores orangistas&#8221;, conta o professor.<br \/>\nTens\u00e3o e linchamento<br \/>\nSegundo o professor de hist\u00f3ria Victor Alexandre, roteirista do podcast Hist\u00f3ria em Meia Hora, o estopim desse conflito foi a recusa de Witt em devolver o poder aos de Orange, mesmo com Guilherme j\u00e1 tendo alcan\u00e7ado a maioridade. &#8220;Esse foi o primeiro sinal de rusgas entre de Witt e outras na\u00e7\u00f5es, como Fran\u00e7a e Inglaterra, que come\u00e7avam a fazer uma forte oposi\u00e7\u00e3o ao comandante holand\u00eas&#8221;, comenta.<br \/>\nOs demais reinos entendiam que essa postura n\u00e3o era um bom exemplo. &#8220;Essa tens\u00e3o entre as na\u00e7\u00f5es escalou ao ponto de o rei franc\u00eas Lu\u00eds 14 determinar a invas\u00e3o dos Pa\u00edses Baixos em 1672, dando in\u00edcio a uma guerra entre Fran\u00e7a e Reino Unido contra a Holanda&#8221;, diz Alexandre. &#8220;Foi a partir dos desdobramentos dessa guerra que Johan de Witt foi linchado pela popula\u00e7\u00e3o que queria Guilherme de Orange no poder.&#8221;<br \/>\nOs dois irm\u00e3os acabaram tentando for\u00e7ar um acordo de paz com a Fran\u00e7a. &#8220;Cornelius chegou a ser acusado de trai\u00e7\u00e3o e foi preso&#8221;, narra Uebel. &#8220;Na tentativa de ajudar o irm\u00e3o a fugir, Johan de Witt tamb\u00e9m foi linchado, assassinado. H\u00e1 relatos que tenha sido, junto com seu irm\u00e3o, alvo de canibalismo post mortem.&#8221;<br \/>\nUebel n\u00e3o descarta que isso realmente tenha ocorrido, lembrando que tal viol\u00eancia era uma pr\u00e1tica que aludia a uma &#8220;Europa pr\u00e9-iluminista&#8221; guardando resqu\u00edcios &#8220;do feudalismo e do medievalismo&#8221;.<br \/>\nContudo, oficialmente, de acordo com os relatos hist\u00f3ricos da pol\u00edtica holandesa, Uebel diz que o que consta \u00e9 que os corpos dos irm\u00e3os Witt foram &#8220;mutilados ap\u00f3s suas mortes pelos opositores orangistas e pela popula\u00e7\u00e3o descontente com a situa\u00e7\u00e3o pela qual a Holanda passava e a humilha\u00e7\u00e3o face \u00e0 Guerra Franco-Holandesa&#8221;.<br \/>\nRetrato de Johan de Witt, obra de Jan de Baen<br \/>\nDOM\u00cdNIO P\u00daBLICO<br \/>\n&#8220;Lenda ou n\u00e3o, tamb\u00e9m h\u00e1 relatos, inclusive jornal\u00edsticos, de que seus corpos mutilados de fato tenham sido alvo de pr\u00e1ticas de canibalismo&#8221;, comenta o professor. &#8220;Para a cultura pol\u00edtica, o que mais pesa, contudo, \u00e9 o s\u00edmbolo do desfecho desta crise pol\u00edtica que marcou a transi\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica holandesa para uma monarquia orangista e o retorno dos Orange-Nassau ao poder.&#8221;<br \/>\nAntropofagia improv\u00e1vel<br \/>\n&#8220;Historicamente falando, \u00e9 plenamente poss\u00edvel que o primeiro-ministro tenha sido comido. Por\u00e9m, precisamos tomar cuidado: n\u00e3o \u00e9 porque algo \u00e9 poss\u00edvel que isso de fato aconteceu&#8221;, relativiza Alexandre. &#8220;Johan de Witt foi morto ap\u00f3s a f\u00faria desenfreada da popula\u00e7\u00e3o e os relatos contam que ele foi mutilado e, em seguida, seu corpo foi exposto para toda a popula\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nO professor de hist\u00f3ria conta que, sendo ele um dos homens mais importantes dos Pa\u00edses Baixos, h\u00e1 registros sobre sobre os epis\u00f3dios que o envolviam. &#8220;E as fontes mais confi\u00e1veis que contam sobre sua vida e tamb\u00e9m sua morte n\u00e3o trazem nada que diga respeito a canibalismo&#8221;, enfatiza. &#8220;\u00c9 ineg\u00e1vel que ele foi morto pela f\u00faria da popula\u00e7\u00e3o e bem prov\u00e1vel que a lenda a respeito de um homem p\u00fablico ter sido devorado pelos cidad\u00e3os tenha se alastrado porque refor\u00e7a a no\u00e7\u00e3o de que a for\u00e7a de mudan\u00e7a estava com o povo que pedia mudan\u00e7as.&#8221;<br \/>\n&#8220;Afirmei que historicamente \u00e9 poss\u00edvel que ele tenha sido comido porque diversas civiliza\u00e7\u00f5es t\u00eam no ritual da antropofagia uma pr\u00e1tica relativamente com um em seus respectivos costumes locais&#8221;, pondera Alexandre. &#8220;Os casos mais famosos s\u00e3o dos povos habitantes da mesoam\u00e9rica e em alguns povos do territ\u00f3rio que hoje chamamos de Brasil. Por\u00e9m, todos esses rituais tinham uma conota\u00e7\u00e3o religiosa ou simb\u00f3lica para justificar a ingest\u00e3o de carne humana. Em nenhum dos casos algum ser humano foi comido por um ataque coletivo de raiva, como nesse caso da Holanda.&#8221;<br \/>\nOrange<br \/>\nCom a morte do primeiro-ministro e de seu irm\u00e3o, houve um enfraquecimento desse grupo pol\u00edtico que eles representavam. &#8220;E a casa de Orange-Nassau voltou ao poder. A reg\u00eancia da Holanda, antes comandada por Witt, foi substitu\u00edda por um reino comandado por Guilherme III, que depois viria a ser tamb\u00e9m o rei da Inglaterra&#8221;, contextualiza Uebel.<br \/>\nEle frisa, entretanto, que embora o epis\u00f3dio tenha deixado &#8220;o republicanismo holand\u00eas enfraquecido&#8221;, a experi\u00eancia republicana ali havida &#8220;acabaria por influenciar outros movimentos&#8221;, como &#8220;nos pa\u00edses germ\u00e2nicos e na pr\u00f3pria Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica&#8221;. &#8220;Embora fossem vislumbrar a ascens\u00e3o de movimentos republicanos apenas no limiar do s\u00e9culo 19&#8221;.<br \/>\nMissiato comenta que, embora Guilherme III tenha sido diretamente beneficiado pela morte dos irm\u00e3os Witt, &#8220;n\u00e3o h\u00e1 registro de participa\u00e7\u00e3o direta ou indireta dele no epis\u00f3dio&#8221;. &#8220;No s\u00e9culo 19, muitos historiadores afirmavam que haveria essa participa\u00e7\u00e3o. Hoje, ela \u00e9 question\u00e1vel&#8221;, argumenta.<br \/>\n&#8220;Sua ascens\u00e3o a partir de 1673 destravou muitas consequ\u00eancias para a hist\u00f3ria europeia&#8221;, acrescenta o historiador Missiato. &#8220;Guilherme III foi fundamental para as transforma\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas que ocorreram na Europa no s\u00e9culo 18.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialista explica que per\u00edodo conturbado no pa\u00eds europeu no s\u00e9culo 17 levou a trag\u00e9dia que \u00e9 retratada em pintura exposta em museu. 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