{"id":4113,"date":"2022-09-23T07:11:43","date_gmt":"2022-09-23T07:11:43","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/09\/23\/independencia-do-brasil-as-mulheres-que-lutaram-e-foram-esquecidas-pela-historia\/"},"modified":"2022-09-23T07:11:43","modified_gmt":"2022-09-23T07:11:43","slug":"independencia-do-brasil-as-mulheres-que-lutaram-e-foram-esquecidas-pela-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/09\/23\/independencia-do-brasil-as-mulheres-que-lutaram-e-foram-esquecidas-pela-historia\/","title":{"rendered":"Independ\u00eancia do Brasil: as mulheres que lutaram e foram esquecidas pela Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/D-GDcatjYUuTa38b19mXi244tQY=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/m\/g\/EfNJy7T9Ko407fjVAIjw\/image001-43-.jpg\"><br \/>   Algumas empunharam armas, outras se engajaram no ativismo pol\u00edtico \u2014 mas todas recusaram o lugar subalterno que lhes era reservado. Maria Quit\u00e9ria cortou o cabelo, vestiu a farda militar do cunhado e, sob a alcunha de &#8216;Soldado Medeiros&#8217;, lutou na independ\u00eancia do Brasil<br \/>\nDOMENICO FAILUTTI_ACERVO DO MUSEU PAULISTA DA USP\/BBC<br \/>\nMaria Quit\u00e9ria estava em casa, na fazenda Serra da Agulha, quando representantes do Conselho Interino da Prov\u00edncia bateram \u00e0 porta de seu pai, o fazendeiro Gon\u00e7alo Alves de Almeida, para recrutar soldados. O vi\u00favo explicou que n\u00e3o tinha filhos com idade para servir, nem enviaria escravos para o campo de batalha. E mais: ele pr\u00f3prio estava muito velho para lutar pela Independ\u00eancia do Brasil. Era setembro de 1822.<br \/>\nAssim que os emiss\u00e1rios foram embora, sua filha pediu permiss\u00e3o para se alistar. &#8220;Mulheres fiam, tecem e bordam. N\u00e3o v\u00e3o \u00e0 guerra&#8221;, resmungou o pai. Maria Quit\u00e9ria n\u00e3o aceitou o &#8216;n\u00e3o&#8217; como resposta. Correu at\u00e9 a casa da irm\u00e3, que lhe emprestou o uniforme do marido. A jovem, ent\u00e3o, cortou o cabelo bem curto, vestiu a farda militar do cunhado e, sob a alcunha de &#8216;Soldado Medeiros&#8217;, foi se apresentar ao comando de Cachoeira.<br \/>\n&#8216;Independ\u00eancia ou Morte&#8217;: quadro mais famoso do Museu do Ipiranga idealiza fato hist\u00f3rico; saiba o que \u00e9 real ou n\u00e3o<br \/>\nMuseu do Ipiranga \u00e9 reinaugurado oficialmente em SP para autoridades e patrocinadores<br \/>\nFogos de artif\u00edcio verdes e amarelos marcam come\u00e7o do 7 de Setembro em Bras\u00edlia<br \/>\nO pai, ao notar o desaparecimento da filha, saiu \u00e0 sua procura. Logo, a encontrou entre os oficiais da infantaria. Mesmo depois de ter seu disfarce revelado, n\u00e3o abandonou o Ex\u00e9rcito. Ela integrava o Batalh\u00e3o dos Periquitos, apelido dado ao regimento que usava uniforme com verde e amarelo nos punhos e na gola. Entre outras proezas, a mo\u00e7a-cadete capturou prisioneiros entre as tropas portuguesas durante uma batalha em Itapu\u00e3.<br \/>\n&#8220;No dia 1\u00ba de abril de 1823, ao lado de outras mulheres, Maria Quit\u00e9ria, com \u00e1gua quase at\u00e9 o pesco\u00e7o, avan\u00e7ou em dire\u00e7\u00e3o a uma barca portuguesa e impediu o desembarque dos que n\u00e3o reconheciam a Independ\u00eancia&#8221;, descreve o jornalista Eduardo Bueno, autor de Dicion\u00e1rio da Independ\u00eancia \u2014 200 Anos em 200 Verbetes. &#8220;Dom Pedro I a condecorou com a ins\u00edgnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro&#8221;.<br \/>\nTerminada a guerra, Maria Quit\u00e9ria voltou para casa. Meses depois, se casou com o agricultor Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha, Lu\u00edsa Maria da Concei\u00e7\u00e3o. Morreu em 1853, aos 61 anos, quase cega e sem dinheiro. Quanto ao seu pai, ele nunca a perdoou por t\u00ea-lo desobedecido.<br \/>\nMulheres \u00e0 frente de seu tempo<br \/>\nO nome de Maria Quit\u00e9ria de Jesus (1792-1853) n\u00e3o pode faltar em nenhuma antologia que se prop\u00f5e a resgatar grandes personagens femininos da Hist\u00f3ria do Brasil. Como o rec\u00e9m-lan\u00e7ado Independ\u00eancia do Brasil \u2014 As Mulheres que Estavam L\u00e1, organizado por Helo\u00edsa Starling e Antonia Pellegrino.<br \/>\nA obra apresenta a biografia de sete aut\u00eanticas hero\u00ednas, como Hip\u00f3lita Jacinta Teixeira de Melo (1748-1828), B\u00e1rbara de Alencar (1760-1832), Ur\u00e2nia Van\u00e9rio (1811-1849), Maria Felipa de Oliveira (1800-1873), Maria Leopoldina (1797-1826) e Ana Lins (1764-1839), al\u00e9m de Maria Quit\u00e9ria.<br \/>\n&#8220;As mulheres reunidas neste livro t\u00eam um tra\u00e7o em comum: elas assumiram protagonismo e decidiram agir politicamente em p\u00fablico, o espa\u00e7o por excel\u00eancia da pol\u00edtica, um espa\u00e7o rigorosamente proibido para uma mulher&#8221;, explica a historiadora e cientista pol\u00edtica Helo\u00edsa Starling.<br \/>\n&#8220;Seja no Brasil, seja na Europa, as mulheres atuavam confinadas em casa. Podiam ganhar a vida com o pr\u00f3prio trabalho ou, ent\u00e3o, sustentar maridos. Mas, de jeito nenhum, podiam reivindicar voz p\u00fablica, visibilidade e participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&#8221;.<br \/>\nCoordenadora do Projeto Rep\u00fablica, n\u00facleo de pesquisa, documenta\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Helo\u00edsa acrescenta que as sete personagens do livro levaram a s\u00e9rio um projeto de Independ\u00eancia para o Brasil. E viveram esse projeto de diferentes maneiras, partiram de patamares sociais desiguais e atuaram de forma diversa.<br \/>\nAlgumas empunharam armas. Outras se engajaram no ativismo pol\u00edtico. Outras, ainda, fizeram uso da palavra escrita no debate p\u00fablico. Mas, todas recusaram o lugar subalterno que lhes era reservado. &#8220;At\u00e9 hoje, sabemos pouco ou quase nada sobre a hist\u00f3ria dessas mulheres e o modo como se posicionaram na cena p\u00fablica brasileira durante a Independ\u00eancia. Seu protagonismo continua ignorado. A veda\u00e7\u00e3o ao acesso da mulher ao mundo p\u00fablico foi de tal forma enraizada na sociedade que se mant\u00e9m no centro da desigualdade de g\u00eanero at\u00e9 hoje. Para as mulheres brasileiras, a fronteira da pol\u00edtica foi e continua sendo a mais dif\u00edcil de transpor&#8221;.<br \/>\nUma mulher entre os inconfidentes<br \/>\nAl\u00e9m de organizar a obra, Helo\u00edsa Starling assina o cap\u00edtulo dedicado \u00e0 mineira Hip\u00f3lita Jacinta Teixeira de Melo, a \u00fanica mulher a participar da Conjura\u00e7\u00e3o Mineira, em 1789, um dos principais movimentos separatistas do Brasil Col\u00f4nia, que abre a antologia.<br \/>\nFilha de um rico casal de portugueses, Hip\u00f3lita se casou tarde, por volta dos 33 anos, com o coronel Francisco de Oliveira Lopes, amigo do alferes Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes. &#8220;Pouco se sabe sobre essa mulher, mas uma coisa salta aos olhos: era destemida. Quando a not\u00edcia da pris\u00e3o de Tiradentes chegou \u00e0 fazenda da Ponta do Morro, na noite de 20 de maio de 1789, Hip\u00f3lita decidiu, sozinha, levar a revolta adiante. Tudo indica que partiu dela a ordem de dar in\u00edcio ao levante militar&#8221;, afirma Helo\u00edsa Starling.<br \/>\nHip\u00f3lita escreveu cartas para o marido e demais inconfidentes, relatando a pris\u00e3o de Tiradentes e denunciando a trai\u00e7\u00e3o de Joaquim Silv\u00e9rio dos Reis (1756-1819). Pedia a todos que tomassem cuidado e lembrava a eles que estavam lutando por algo maior. &#8220;Quem n\u00e3o \u00e9 capaz para as coisas, n\u00e3o se meta nelas&#8221;, dizia a carta. &#8220;Mais vale morrer com honra do que viver com desonra&#8221;.<br \/>\n(V\u00cdDEO: Quadro \u2018Independ\u00eancia ou morte\u2019, de Pedro Am\u00e9rico, tem 31 metros quadrados e \u00e9 destaque no Museu do Ipiranga.)<br \/>\nQuadro \u2018Independ\u00eancia ou morte\u2019, de Pedro Am\u00e9rico, tem 31 metros quadrados e \u00e9 destaque no Museu do Ipiranga<br \/>\nEm 19 de abril de 1792, seu marido foi condenado ao ex\u00edlio na \u00c1frica, onde morreu. Hip\u00f3lita, ent\u00e3o, teve seus bens confiscados. No entanto, argumentou que boa parte de seu patrim\u00f4nio tinha sido heran\u00e7a paterna. Ao fim de uma longa batalha, que durou at\u00e9 1795, conseguiu reaver sua fortuna.<br \/>\n&#8220;Ao se colocar como ex\u00edmia negociadora e competente administradora, Hip\u00f3lita rompeu com a imagem de mulher submissa&#8221;, afirma a jornalista Duda Porto de Souza, coautora de Extraordin\u00e1rias \u2014 Mulheres Que Revolucionaram o Brasil. &#8220;Por um lado, Hip\u00f3lita se mostrou implac\u00e1vel na defesa de seu patrim\u00f4nio. Por outro, se revelou generosa ao distribuir parte dele entre os mais pobres da regi\u00e3o&#8221;.<br \/>\nAs sentinelas da Ilha de Itaparica<br \/>\nDuas das hero\u00ednas do livro lideraram revoltas populares: Maria Felipa de Oliveira, na Ilha de Itaparica, na Bahia, e B\u00e1rbara de Alencar, em Crato, no Cear\u00e1. &#8220;N\u00e3o se sabe ao certo se Maria Felipa de Oliveira, negra da ilha de Itaparica, era escrava, se foi alforriada ou se nasceu livre&#8221;, observa a jornalista Aryane Cararo, coautora de Extraordin\u00e1rias. &#8220;Como se voluntariou para lutar contra os portugueses, a op\u00e7\u00e3o mais prov\u00e1vel \u00e9 a \u00faltima&#8221;.<br \/>\nMaria Felipa combateu marinheiros portugueses e incendiou navios<br \/>\nFILOMENA MODESTO\/ARQUIVO P\u00daBLICO DO ESTADO BAHIA\/BBC<br \/>\nMaria Felipa era marisqueira (vendedora de frutos do mar) e liderou as Vedetas da Praia. Armadas de facas, arp\u00f5es e peixeiras, emboscavam os soldados da Coroa que mal atracavam nas imedia\u00e7\u00f5es da Ilha de Itaparica. \u00c0s vezes, surravam os portugueses com galhos de cansan\u00e7\u00e3o, arbusto espinhoso que provoca \u00falcera e coceira. Outras, ateavam fogo em suas embarca\u00e7\u00f5es com tochas feitas de palha de coco e chumbo.<br \/>\n&#8220;Embora suas habilidades como guerreira sejam cantadas em prosa e verso, \u00e9 necess\u00e1rio destacar seus predicados como comerciante e navegadora numa guerra em que as quest\u00f5es ligadas ao abastecimento de comida foram determinantes para os portugueses abandonarem a derradeira batalha de 2 de julho de 1823, em Salvador, escapando pelo mar. Eles n\u00e3o tinham mais o que comer&#8221;, revela a escritora Cidinha da Silva. &#8220;Segundo registros hist\u00f3ricos, morreram mais soldados vitimados pela fome e por doen\u00e7as do que por balas&#8221;.<br \/>\nViol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero<br \/>\nFilha de m\u00e3e ind\u00edgena e pai portugu\u00eas, B\u00e1rbara de Alencar tinha 57 anos quando, em maio de 1817, conduziu a multid\u00e3o da cidade de Crato, a 508 km de Fortaleza, at\u00e9 a C\u00e2mara Municipal. Acompanhada de seus filhos, familiares e outros combatentes, todos homens, retirou a bandeira da Coroa Portuguesa e hasteou outra, branca, s\u00edmbolo dos republicanos, em seu lugar. N\u00e3o satisfeita, ainda destituiu seus membros e nomeou novos representantes que aboliram impostos, soltaram presos e confiscaram armas e bens dos portugueses.<br \/>\nAcusada de trai\u00e7\u00e3o, rebeldia e resist\u00eancia \u00e0 pris\u00e3o, B\u00e1rbara foi mandada para a Fortaleza de Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o, na capital cearense. De l\u00e1, foi transferida para pris\u00f5es no Recife e em Salvador. Foi solta, quatro anos depois, em 17 de novembro de 1821, gra\u00e7as a um decreto de Dom Jo\u00e3o 6\u00ba que anistiou presos pol\u00edticos.<br \/>\n&#8220;B\u00e1rbara de Alencar sabia que poderia ser punida com pena de morte. No entanto, suas convic\u00e7\u00f5es eram maiores que seus medos. Ousada e corajosa, \u00e9 considerada a primeira presa pol\u00edtica brasileira. E, por mais brutal que tenha sido o c\u00e1rcere, ela n\u00e3o se intimidou. Continuou fiel aos seus ideais revolucion\u00e1rios. Tanto que, anos depois, participou tamb\u00e9m da Confedera\u00e7\u00e3o do Equador&#8221;, destaca a roteirista Antonia Pellegrino.<br \/>\nAl\u00e9m de ser a primeira mulher presa por suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, B\u00e1rbara de Alencar entrou para a Hist\u00f3ria tamb\u00e9m como a primeira v\u00edtima de viol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero no Brasil. Ao ser presa, foi acusada de amasia (concubinato) por causa de sua amizade com o vig\u00e1rio-geral do Crato, Padre Miguel Carlos da Silva Saldanha, e perdeu todos os seus bens. Dizia-se at\u00e9 que Jos\u00e9 Martiniano, o ca\u00e7ula de seus cinco filhos, seria dele. &#8220;A acusa\u00e7\u00e3o de amasia tinha por objetivo difamar a \u00fanica mulher que participou da Revolu\u00e7\u00e3o de 1817 para que ela n\u00e3o servisse de exemplo para nenhuma outra que tivesse aspira\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&#8221;, afirma a roteirista.<br \/>\nMaria Felipa morreu em 4 de janeiro de 1873, em local desconhecido, aos 73 anos. E B\u00e1rbara de Alencar em 28 de agosto de 1832, na fazenda Alecrim, no Piau\u00ed, aos 72. Seu corpo foi sepultado na Igreja de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, no distrito de Itagu\u00e1, pr\u00f3ximo \u00e0 sede do munic\u00edpio de Campos Sales, no Cear\u00e1. Uma curiosidade: o escritor Jos\u00e9 de Alencar (1829-1877) era filho de Jos\u00e9 Martiniano e neto de B\u00e1rbara de Alencar.<br \/>\nUma aut\u00eantica chefe de Estado<br \/>\nDos sete perfis apresentados em Independ\u00eancia do Brasil \u2014 As Mulheres que Estavam L\u00e1, o mais famoso deles \u00e9 o da Maria Leopoldina da \u00c1ustria. Nascida em 22 de janeiro de 1797, seu nome completo era Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena.<br \/>\nCasada com Dom Pedro, Leopoldina teve papel decisivo na separa\u00e7\u00e3o entre Brasil e Portugal<br \/>\nDOMENICO FAILUTTI_ACERVO DO MUSEU PAULISTA DA USP\/BBC<br \/>\n&#8220;Estava completando 20 anos quando aceitou se casar com Dom Pedro e se mudar para um pa\u00eds distante e completamente diferente. No in\u00edcio do s\u00e9culo 19, Viena e Rio de Janeiro n\u00e3o poderiam ser mais d\u00edspares&#8221;, observa a jornalista Virg\u00ednia Siqueira Starling. &#8220;Leopoldina estava empolgad\u00edssima com seu casamento: n\u00e3o s\u00f3 representava a concretiza\u00e7\u00e3o de um dever p\u00fablico como tamb\u00e9m marcava sua passagem para a vida adulta&#8221;.<br \/>\nNo in\u00edcio, Leopoldina at\u00e9 levou uma vida feliz ao lado do pr\u00edncipe regente, mas, em pouco tempo, passou a sofrer com suas infidelidades conjugais. A futura imperatriz teve papel decisivo na separa\u00e7\u00e3o entre Brasil e Portugal. Na manh\u00e3 do dia 2 de setembro de 1822, assinou o decreto da Independ\u00eancia. Em seguida, escreveu uma carta a Dom Pedro 1\u00ba, entregue em m\u00e3os por Paulo Bregaro, o carteiro oficial da fam\u00edlia real, \u00e0s margens do Ipiranga, cinco dias depois. A correspond\u00eancia o aconselhava a romper com Portugal, que amea\u00e7ava rebaixar o Brasil de reino para col\u00f4nia. &#8220;O pomo est\u00e1 maduro. Colhei-o j\u00e1. Sen\u00e3o apodrece&#8221;, aconselhou a princesa.<br \/>\n&#8220;Al\u00e9m de determinante na perman\u00eancia de Dom Pedro no Brasil, Leopoldina era considerada uma excelente chefe de Estado. Muito de sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado da educa\u00e7\u00e3o que recebeu desde crian\u00e7a. Proveniente de uma fam\u00edlia rica e influente da Europa, os Habsburgo, serviu de refer\u00eancia intelectual e pol\u00edtica at\u00e9 para Dom Pedro&#8221;, explica a historiadora Giovanna Trevelin. &#8220;Na carta que escreveu para Dom Pedro, Leopoldina o incentiva a concluir o processo. A Independ\u00eancia j\u00e1 estava basicamente decidida, s\u00f3 precisava ser proclamada&#8221;.<br \/>\nPesquisadora do Grupo Nina Simone, um grupo de Estudos Interdisciplinares de G\u00eanero da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Giovanna relata a exist\u00eancia de um movimento nascido na cidade de Saubara, a 110 km de Salvador: as Caretas do Mingau. &#8220;Mulheres se vestiam de branco e, com panelas de mingau na cabe\u00e7a, sa\u00edam \u00e0s ruas para assustar os portugueses. Quando eles fugiam apavorados, elas levavam armas e mantimentos para seus filhos e maridos, que lutavam contra as tropas&#8221;, revela a historiadora.<br \/>\nIndigna\u00e7\u00e3o em forma de panfleto<br \/>\nO menos conhecido dos sete perfis \u00e9 o de Ur\u00e2nia Van\u00e9rio. A filha \u00fanica de um casal de portugueses nasceu em 14 de dezembro de 1811, em Salvador (BA). Ainda na inf\u00e2ncia, foi educada pela pr\u00f3pria m\u00e3e, Samoa Ang\u00e9lica Van\u00e9rio, que lhe ensinou, entre outros idiomas, ingl\u00eas, franc\u00eas e italiano.<br \/>\nUr\u00e2nia estava na janela de casa, provavelmente nos arredores da Pra\u00e7a da Piedade, em Salvador, quando, no dia 19 de fevereiro de 1822, assistiu \u00e0 execu\u00e7\u00e3o da abadessa s\u00f3ror Joana Ang\u00e9lica de Jesus (1761-1822) a golpes de baioneta. A religiosa tentava impedir que tropas portuguesas invadissem o Convento de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Lapa. Eles acreditavam que soldados baianos estivessem escondidos no claustro. &#8220;Para tr\u00e1s, bandidos! Respeitai a casa de Deus! S\u00f3 entrar\u00e3o passando  por cima do meu cad\u00e1ver!&#8221;, teriam sido suas \u00faltimas palavras.<br \/>\nJoana Ang\u00e9lica morreu ap\u00f3s ser atingida por golpes de baioneta quando tentava proteger seu convento da invas\u00e3o de tropas portuguesas<br \/>\nDOMENICO FAILUTTI_ACERVO DO MUSEU PAULISTA DA USP\/BBC<br \/>\nIndignada, Ur\u00e2nia, de apenas 10 anos, escreveu Lamentos de uma Baiana. Os versos inflamados denunciavam as atrocidades cometidas pelas tropas portuguesas. &#8220;Justos C\u00e9us, como \u00e9 poss\u00edvel \/ Ficar impune a maldade \/ De monstros, que n\u00e3o perdoam \/ Nem mesmo o sexo, ou a idade\u2026&#8221;, dizia o panfleto.<br \/>\n&#8220;Nos dias de hoje, Ur\u00e2nia seria considerada uma menina. Mas, naquele tempo, j\u00e1 era vista como uma mo\u00e7a. Em meados do s\u00e9culo 19, elas se casavam entre os 13 e os 15 anos&#8221;, contextualiza a historiadora Patr\u00edcia Valim, do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal da Bahia (UFBA). &#8220;Chama a aten\u00e7\u00e3o por ser uma menina que, aos 10 anos, se sentiu estimulada a participar do debate pol\u00edtico por meio do engajamento de suas ideias&#8221;.<br \/>\nEm 1824, Ur\u00e2nia Van\u00e9rio passou a trabalhar, ao lado dos pais, no antigo col\u00e9gio da fam\u00edlia e, dois anos depois, traduziu, a partir do franc\u00eas, Triunfo e o Car\u00e1ter do Patriotismo, escrito por M. de Florian, pseud\u00f4nimo de Louis-Pierre Claris de Florian (1755-1794). Tudo indica que, aos 15 anos, Ur\u00e2nia Van\u00e9rio se tornou a primeira tradutora do pa\u00eds, uma d\u00e9cada antes de N\u00edsia Floresta (1810-1885).<br \/>\nNo dia 1\u00ba de mar\u00e7o de 1827, Ur\u00e2nia se casou com Felisberto Gomes de Argollo Ferr\u00e3o, filho de uma das fam\u00edlias mais ricas e tradicionais de Salvador. O casal teve 13 filhos. Desses, dois nasceram mortos. V\u00edtima de uma infec\u00e7\u00e3o na hora do parto de seu \u00faltimo filho, Ur\u00e2nia morreu em 3 de dezembro de 1849, aos 38 anos.<br \/>\n&#8220;Hero\u00ednas como Maria Felipa, Hip\u00f3lita Jacinta e B\u00e1rbara de Alencar s\u00e3o invisibilizadas pela hist\u00f3ria hegem\u00f4nica porque simbolizam ideias poderosas e, para nossa sociedade machista e racista, perigosas. Elas enfrentavam proibi\u00e7\u00f5es \u00e0 participa\u00e7\u00e3o feminina na cena p\u00fablica, bradavam seus ideais de liberdade e desafiavam as repetidas tentativas de apagamento de seus nomes&#8221;, afirma a jornalista Virginia Starling.<br \/>\n&#8220;Para resgatar essas mulheres do esquecimento e impedi-las de se perderem para sempre, \u00e9 preciso continuar repetindo seus nomes e contando as suas hist\u00f3rias. S\u00f3 assim a Hist\u00f3ria do nosso pa\u00eds ser\u00e1 mais rica e diversa&#8221;.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-62809341<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algumas empunharam armas, outras se engajaram no ativismo pol\u00edtico \u2014 mas todas recusaram o lugar subalterno que lhes era reservado. 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