{"id":38963,"date":"2023-02-04T08:12:03","date_gmt":"2023-02-04T08:12:03","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/02\/04\/filhos-de-garis-pedreiros-e-faxineiras-1a-turma-com-cotistas-negros-se-forma-na-faculdade-de-direito-da-usp\/"},"modified":"2023-02-04T08:12:03","modified_gmt":"2023-02-04T08:12:03","slug":"filhos-de-garis-pedreiros-e-faxineiras-1a-turma-com-cotistas-negros-se-forma-na-faculdade-de-direito-da-usp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/02\/04\/filhos-de-garis-pedreiros-e-faxineiras-1a-turma-com-cotistas-negros-se-forma-na-faculdade-de-direito-da-usp\/","title":{"rendered":"Filhos de garis, pedreiros e faxineiras: 1\u00aa turma com cotistas negros se forma na Faculdade de Direito da USP"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/DoW8iimSjmTdp0yTt-HNU8dZZS8=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/p\/P\/TDO2EYTp2K5LACH8lOgw\/turma-2.jpg\"><br \/>   Ao g1, estudantes falam sobre como se sentiram \u2018extraterrestres\u2019 em um espa\u00e7o que, at\u00e9 ent\u00e3o, era formado majoritariamente por professores e alunos brancos. Ao longo dos 5 anos de curso, cotistas transformaram a universidade com novos debates e luta por pol\u00edticas de perman\u00eancia mais efetivas.  Primeira turma com cotas \u00e9tnico-raciais da Faculdade de Direito da USP acaba de se formar<br \/>\nArquivo pessoal\/ Uoon<br \/>\n\u201cOlhava ao meu redor e pensava: &#8216;ser\u00e1 que deveria mesmo estar aqui?\u2019.\u201d<br \/>\n\u201cEu me sentia uma extraterrestre.\u201d<br \/>\n\u201cContei nos dedos quantos negros vi ali. Fiquei assustada.\u201d<br \/>\nAs frases acima foram ditas por alunos cotistas que ingressaram na Faculdade de Direito da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) em 2018, na 1\u00aa turma \u2014 em quase 200 anos de hist\u00f3ria da institui\u00e7\u00e3o \u2014 a ter vagas reservadas para pretos, pardos e ind\u00edgenas.<br \/>\nAp\u00f3s conclu\u00edrem o curso em dezembro de 2022, os estudantes reuniram-se no fim de janeiro para tirar as fotos da formatura (veja abaixo). Filhos de faxineiras, garis, pedreiros, donas de casa e professores, esses 35 jovens venceram a sensa\u00e7\u00e3o inicial de n\u00e3o pertencimento \u00e0 faculdade e promoveram uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es na institui\u00e7\u00e3o ao longo dos \u00faltimos 5 anos, como:<br \/>\nimplementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de perman\u00eancia mais efetivas, com reajuste de bolsas para jovens de baixa renda e reformas na resid\u00eancia estudantil;<br \/>\ninclus\u00e3o de novos debates em sala de aula e de autores negros nas bibliografias das disciplinas.<br \/>\n\u201cA gente n\u00e3o podia se dar ao luxo de s\u00f3 estudar. A primeira turma de cotistas negros tinha de ser ativa politicamente\u201d, conta Let\u00edcia L\u00e9, de 24 anos.<br \/>\nEla relembra que havia certo espanto com a sua presen\u00e7a ali. \u201cEu andava pela faculdade e ouvia: \u2018mas voc\u00ea estuda aqui?\u2019. Havia um estranhamento em ver alunos como n\u00f3s. Acho que agora, 5 gera\u00e7\u00f5es depois, os novos cotistas que entram ficam mais confort\u00e1veis de sentir que \u00e9 um espa\u00e7o deles tamb\u00e9m.\u201d<br \/>\nEm dezembro de 2022, na turma de Let\u00edcia, formaram-se 312 estudantes, sendo:<br \/>\n237 via Fuvest (vestibular);<br \/>\n75 via Sistema de Sele\u00e7\u00e3o Unificada (Sisu, que usa as notas do Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio). Destes, 35 s\u00e3o cotistas pretos, pardos e ind\u00edgenas.<br \/>\nNo cargo que j\u00e1 foi de Haddad, uma filha de caminhoneiro e empregada dom\u00e9stica<br \/>\nLet\u00edcia Chagas \u00e9 uma das formandas em direito da USP<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\nUm dos grandes marcos dessa luta pol\u00edtica dos alunos mais pobres aconteceu em 2019, quando, pela primeira vez em 116 anos, uma mulher negra ganhou as elei\u00e7\u00f5es internas para ser presidente do mais antigo centro acad\u00eamico do Brasil: o XI de Agosto.<br \/>\nO cargo, que j\u00e1 havia sido ocupado pelo ex-senador Aloysio Nunes Filho (PSDB) e pelo ministro Fernando Haddad (PT), por exemplo, passou a ser da cotista Let\u00edcia Chagas, de 22 anos, filha de um caminhoneiro e de uma empregada dom\u00e9stica aposentados.<br \/>\n\u201cMeus colegas tinham pais e av\u00f3s que fizeram a S\u00e3o Francisco [como \u00e9 conhecida a faculdade] \u2014 e o direito tem muito de tradi\u00e7\u00e3o e networking\u201d, diz.<br \/>\nChagas conta que, no come\u00e7o, sentia dificuldade nas disciplinas que exigiam dom\u00ednio de outros idiomas. \u201cFaz muita diferen\u00e7a n\u00e3o ter o mesmo capital cultural que os outros alunos, porque a maioria dos escrit\u00f3rios exige que a gente saiba mais de uma l\u00edngua [nos processos seletivos para est\u00e1gio].\u201d<br \/>\nEsse tipo de obst\u00e1culo pressionava o grupo.<br \/>\n\u201cN\u00f3s sent\u00edamos uma responsabilidade muito grande. Se err\u00e1ssemos e f\u00f4ssemos mal, isso ia virar argumento contra cotas. Precis\u00e1vamos ter notas boas. Era um peso.\u201d<br \/>\nCom o passar dos anos e a amplia\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de cotas, universidades brasileiras, inclusive a USP, passaram a oferecer programas gratuitos de aulas de ingl\u00eas. Ao g1, a Faculdade de Direito afirma que atualmente tem uma parceria com escrit\u00f3rios para facilitar a contrata\u00e7\u00e3o de cotistas.<br \/>\nLEIA TAMB\u00c9M: Cotas em mestrado e doutorado dobram em 3 anos, mas bolsas congeladas e provas de idiomas s\u00e3o desafios<br \/>\nLutas pol\u00edticas<br \/>\nLet\u00edcia L\u00e9 ingressou na USP na primeira turma de cotistas \u00e9tnico-raciais da Faculdade de Direito<br \/>\nArquivo pessoal\/Uoon<br \/>\nA chapa de Let\u00edcia Chagas no centro acad\u00eamico e o movimento pol\u00edtico Travessia levantaram debates para vencer as principais dificuldades dos alunos das cotas \u00e9tnico-raciais. Veja abaixo:<br \/>\n\ud83d\udcb0 Como se bancar com R$ 400?<br \/>\nOs alunos de baixa renda da Faculdade de Direito da USP recebiam da institui\u00e7\u00e3o, em 2018, R$ 400 por m\u00eas como aux\u00edlio financeiro (atualmente, s\u00e3o R$ 600). Aos poucos, outros programas de assist\u00eancia foram criados pela iniciativa privada, como o \u201cAdote um aluno\u201d, sustentado por contribui\u00e7\u00f5es financeiras de quem j\u00e1 estudou l\u00e1, e o \u201cProjeto de Promo\u00e7\u00e3o \u00e0 Dedica\u00e7\u00e3o Acad\u00eamica\u201d, que oferece aux\u00edlio a quem se dedica a atividades acad\u00eamicas.<br \/>\nAinda assim, para os cotistas que precisavam ajudar a fam\u00edlia, era dif\u00edcil se bancar em S\u00e3o Paulo.<br \/>\n\u201cNas f\u00e9rias, v\u00edamos no Instagram nossos colegas na Europa. Vivemos gradua\u00e7\u00f5es diferentes, n\u00e3o tem jeito\u201d, conta Erick Ara\u00fajo, de 23 anos, filho de uma diarista e um dos formandos da 1\u00aa turma com cotas \u00e9tnico-raciais.<br \/>\nAo g1, a Faculdade de Direito da USP diz que, \u201cdepois de muita movimenta\u00e7\u00e3o dos estudantes sobre a insufici\u00eancia deste valor para a perman\u00eancia, a universidade promete aumentar o valor [de assist\u00eancia estudantil] neste ano\u201d.<br \/>\nErick Ara\u00fajo mora na Casa do Estudante, moradia estudantil da Faculdade de Direito da USP<br \/>\nArquivo pessoal \/ Uoon<br \/>\n\ud83d\udeab &#8216;N\u00e3o pode trabalhar no come\u00e7o do curso&#8217;<br \/>\nCom o aumento do n\u00famero de alunos de baixa renda, uma orienta\u00e7\u00e3o comum dos professores deixou de fazer sentido: n\u00e3o dava mais para pedir que a turma se dedicasse exclusivamente ao curso de direito e s\u00f3 trabalhasse depois do terceiro ano da gradua\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u201cComo que um aluno que veio de outro estado vai se manter? Esses discursos v\u00e3o violentando quem n\u00e3o tem suporte. Criamos quilombos para nos apoiar\u201d, conta Erick.<br \/>\n\ud83c\udfe0 &#8216;Sem a moradia estudantil, eu demoraria mais de 2 horas no trajeto&#8217;<br \/>\nReuni\u00f5es entre esses alunos da 1\u00aa turma de cotas \u00e9tnico-raciais aconteciam frequentemente na Casa do Estudante, moradia estudantil gratuita no centro de S\u00e3o Paulo,  onde vivem atualmente 55 jovens matriculados na Faculdade de Direito da USP.<br \/>\n\u201cO pr\u00e9dio estava muito degradado na pandemia. Mas, depois de uma reforma, estamos com condi\u00e7\u00f5es melhores agora.\u201d<br \/>\nNo caso de Erick, foi essencial contar com a resid\u00eancia da universidade. Antes de passar no vestibular, ele morava em um conjunto habitacional na periferia de S\u00e3o Paulo. \u201cDo Itaim Paulista at\u00e9 a USP, eu demoraria de 2 a 2,5 horas em cada trajeto. Teria perdido a possibilidade de participar de projetos extracurriculares, de fazer parte do centro acad\u00eamico e de estagiar desde cedo\u201d, conta.<br \/>\n\ud83d\udde3\ufe0f\ud83d\udcac &#8216;Mudaram as provoca\u00e7\u00f5es&#8217;<br \/>\nLet\u00edcia Chagas e Let\u00edcia L\u00e9 participam de manifesta\u00e7\u00e3o pr\u00f3-cotas<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\nLet\u00edcia Chagas diz que, na semana de calouros, o coletivo Travessia batalhou para que houvesse novos debates sobre as reformas da Casa do Estudante e as pol\u00edticas de perman\u00eancia.<br \/>\nPor meio tamb\u00e9m desse movimento pol\u00edtico, o grupo de alunos conseguiu que professores inclu\u00edssem na bibliografia do curso novos temas e te\u00f3ricos negros importantes para o direito.<br \/>\n\u201cMudaram as provoca\u00e7\u00f5es. N\u00e3o que os alunos brancos n\u00e3o se preocupassem com racismo; muitos eram nossos aliados. Mas a gente trouxe [esse debate] com mais \u00eanfase\u201d, conta Chagas.<br \/>\nMudan\u00e7as de vida: aluna a caminho do segundo interc\u00e2mbio<br \/>\nErick chora ao falar das mudan\u00e7as que a entrada na universidade promoveu em sua vida. \u201cSa\u00ed de uma escola muito prec\u00e1ria e hoje tenho a oportunidade de participar intelectualmente da vida pol\u00edtica do pa\u00eds.\u201d<br \/>\nOutra aluna dessa turma, Gislaine Silva, de 24 anos, \u00e9 filha de pedreiro e de dona de casa, e est\u00e1 se preparando para o seu segundo interc\u00e2mbio pela USP \u2014 j\u00e1 estudou na Fran\u00e7a, e, agora, vai para a Espanha.<br \/>\n\u201cSa\u00ed da minha cidade [S\u00e3o Carlos, em SP] e cheguei a S\u00e3o Paulo com a minha mochilinha. N\u00e3o consegui me identificar com as pessoas, me sentia um extraterrestre. Agora, [depois de 5 anos de cotas], vai ter gente pobre como eu, que veio da periferia, mostrando que a universidade \u00e9 um lugar perfeito para n\u00f3s.\u201d<br \/>\nGislaine j\u00e1 estudou na Fran\u00e7a e, agora, se prepara para o segundo interc\u00e2mbio, na Espanha<br \/>\nArquivo pessoal \/ Uoon<br \/>\nV\u00eddeos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao g1, estudantes falam sobre como se sentiram \u2018extraterrestres\u2019 em um espa\u00e7o que, at\u00e9 ent\u00e3o, era formado majoritariamente por professores e alunos brancos. Ao longo dos 5 anos de curso, cotistas transformaram a universidade com novos debates e luta por pol\u00edticas de perman\u00eancia mais efetivas. 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