{"id":37597,"date":"2023-01-30T16:10:39","date_gmt":"2023-01-30T16:10:39","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/30\/quem-foi-maome-a-figura-chave-do-isla\/"},"modified":"2023-01-30T16:10:39","modified_gmt":"2023-01-30T16:10:39","slug":"quem-foi-maome-a-figura-chave-do-isla","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/30\/quem-foi-maome-a-figura-chave-do-isla\/","title":{"rendered":"Quem foi Maom\u00e9, a figura-chave do isl\u00e3"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/L3AUTHgmeZbCSz4uRdc2oEBrL0Q=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/a\/Z\/2qGIhAQAib8ehAndR42A\/gravura-otomana-de-autor-desconhecido-representa-maome-com-o-rosto-vendado-justamente-para-nao-representa-lo.jpg\"><br \/>   L\u00edder religioso ficou conhecido em portugu\u00eas como Maom\u00e9. Para mu\u00e7ulmanos e estudiosos do isl\u00e3, contudo, a translitera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 bem-vinda \u2014 pode soar at\u00e9 como ofensiva. Gravura otomana de autor desconhecido representa Maom\u00e9 com o rosto vendado, justamente para n\u00e3o &#8220;represent\u00e1-lo&#8221;<br \/>\nBBC<br \/>\nL\u00edder religioso e pol\u00edtico do Oriente M\u00e9dio, Abul Al-Qasim Muhammad ibn Abd Allah ibn Abd Al-Muttalib ibn Hashim (571-632) entrou para a hist\u00f3ria como Maom\u00e9 \u2014 ou Muhammad, com preferem seus seguidores \u2014, o fundador do isl\u00e3.<br \/>\n&#8220;Sabe-se que ele foi um l\u00edder que fez uma revolu\u00e7\u00e3o muito significativa no territ\u00f3rio que hoje majoritariamente pertence \u00e0 Ar\u00e1bia Saudita&#8221;, resume o cientista da religi\u00e3o Atilla Kus, pesquisador e mestre pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP), e autor do livro A Constitui\u00e7\u00e3o de Medina.<br \/>\n&#8220;Ele nasceu em Meca e, aos 40 anos, come\u00e7ou a pregar uma nova religi\u00e3o que foi denominada, no livro sagrado Alcor\u00e3o, como &#8216;islam&#8217; &#8211; isl\u00e3, como se costuma dizer no Brasil.&#8221;<br \/>\nO pesquisador \u00e9 enf\u00e1tico: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 registros que indiquem que ele n\u00e3o existiu&#8221;. E diz que, como acontece com outros fundadores de religi\u00f5es, o pr\u00f3prio fato de que tantos passaram a seguir o que foi deixado por ele tamb\u00e9m \u00e9 um indicativo que, sim, ele existiu.<br \/>\nKus diz que os 1,8 bilh\u00e3o de adeptos do isl\u00e3 s\u00e3o &#8220;a maior evid\u00eancia de que ele existiu e liderou um movimento religioso na primeira metade do s\u00e9culo 7 da era comum&#8221;.<br \/>\nMaom\u00e9 \u00e9 o fundador do Isl\u00e3<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nH\u00e1 documentos antigos, escritos pouco tempo ap\u00f3s a morte dele, chamados de &#8220;sira&#8221; e que s\u00e3o considerados, por mu\u00e7ulmanos e tamb\u00e9m por alguns estudiosos do isl\u00e3, como as biografias de Maom\u00e9. Segundo a antrop\u00f3loga Francirosy Campos Barbosa, professora na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP-Ribeir\u00e3o Preto) e autora do livro &#8216;Hajja, hajja: a experi\u00eancia de peregrinar&#8217;, &#8220;muito do que sabemos sobre a vida&#8221; dele \u00e9 devido a esses registros.<br \/>\nEla ressalta que pesquisadores n\u00e3o mu\u00e7ulmanos tamb\u00e9m costumam se apoiar nesses escritos, como \u00e9 o caso da historiadora da religi\u00e3o Karen Armstrong, ex-freira, graduada na Universidade de Oxford, que lecionou na Universidade de Londres. Entre seus livros, est\u00e3o t\u00edtulos como &#8216;Muhammad: a Biography of the Prophet&#8217; e &#8216;Muhammad: Prophet For Our Time&#8217;.<br \/>\n&#8220;Muhammad tornou-se profeta aos 40 anos. E o que se sabia \u00e9 que ele era um membro do Hachemita, nome que vem da linhagem de seu pai Hashim, e dos Coraichitas, grupo influente em Meca&#8221;, relata Barbosa. &#8220;Sobre a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, sabemos que ele perdeu seus pais ainda crian\u00e7a, e foi criado por seu tio, Abu Talib. Tornou-se mercador como muitos homens de sua \u00e9poca.&#8221;<br \/>\nAos 25 anos, ele se casou com Khadija, vivendo com ela at\u00e9 se tornar vi\u00favo, com 50 anos. Khadija era uma comerciante 15 anos mais velha do que Maom\u00e9. Tiveram v\u00e1rios filhos. &#8220;Mas v\u00e1rios deles tamb\u00e9m morreram. Uma das suas filhas mais conhecidas \u00e9 F\u00e1tima&#8221;, comenta Barbosa.<br \/>\n&#8220;Na \u00e9poca, Meca j\u00e1 era uma cidade importante, um caminho de trocas comerciais, por onde passavam grandes caravanas de mercadores&#8221;, acrescenta a antrop\u00f3loga. O local j\u00e1 era ponto de peregrina\u00e7\u00e3o para quem visitava a Caaba, local considerado sagrado por tribos bedu\u00ednas da regi\u00e3o mesmo antes do isl\u00e3 \u2014 e depois ressignificado com o advento da nova religi\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Essa cidade-estado era controlada pelos Coraichitas. No entanto, muitos moradores da pen\u00ednsula ar\u00e1bica eram adoradores de deuses e faziam seus cultos na Caabra&#8221;, contextualiza a pesquisadora. &#8220;Muhammad era conhecido pela sua bondade desde crian\u00e7a, seu tratamento justo com as pessoas, sua honestidade que sempre se destacava. Ele tinha o h\u00e1bito de se afastar para o Monte Hira para rezar e estar mais perto de Deus.&#8221;<br \/>\nEm 2015, milhares de mu\u00e7ulmanos protestaram contra caricatura de Maom\u00e9 pela revista sat\u00edrica francesa Charles Hebdo<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nFoi numa dessas idas \u00e0 montanha que Maom\u00e9 viveu a epifania que daria origem ao seu papel religioso. Ele teria sido surpreendido pelo anjo Gabriel. &#8220;Que disse a ele: Iqra, ou seja, leia!&#8221;, pontua Barbosa.<br \/>\n&#8220;L\u00ea, em nome do teu Senhor Que criou; Criou o homem de algo que se agarra. L\u00ea, que o teu Senhor \u00e9 Generos\u00edssimo, Que ensinou atrav\u00e9s do c\u00e1lamo, Ensinou ao homem o que este n\u00e3o sabia&#8221;, diz o trecho do Alcor\u00e3o.<br \/>\n&#8220;A partir dessa experi\u00eancia, o profeta passa a conduzir a sua vida espiritualmente. Se por um lado trouxe muitos seguidores, tamb\u00e9m trouxe muitos que os perseguiram, passando a ser considerado um subversivo religioso&#8221;, comenta a pesquisadora.<br \/>\n&#8220;Ele pregava a exist\u00eancia de um s\u00f3 Deus e isso provocava imensamente a popula\u00e7\u00e3o da \u00e9poca, que adorava v\u00e1rios. Durante 23 anos o Alcor\u00e3o foi revelado ao profeta, uma parte em Meca e a outra parte em Medina, para onde teve que imigrar devido a persegui\u00e7\u00f5es que sofria do povo de Meca. Aos poucos Muhammad foi se tornando de l\u00edder carism\u00e1tico a um l\u00edder pol\u00edtico. A pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o de Medina \u00e9 um exemplo da sua forma equilibrada de dialogar com mu\u00e7ulmanos e n\u00e3o mu\u00e7ulmanos.&#8221;<br \/>\nIsl\u00e3 e islamismo<br \/>\nPara os mu\u00e7ulmanos, \u00e9 importante delimitar a diferen\u00e7a dos termos isl\u00e3 e islamismo. &#8220;\u00c9 muito comum e \u00e9 um v\u00edcio de linguagem se referir ao isl\u00e3 como islamismo, por\u00e9m \u00e9 um equ\u00edvoco, pois islamismo \u00e9, academicamente, a nomenclatura que se usa para referenciar o movimento pol\u00edtico que se sustenta no isl\u00e3&#8221;, explica Kus. &#8220;O nome da pr\u00f3pria religi\u00e3o \u00e9 islam, ou isl\u00e3 &#8211; esta como foi feita a adapta\u00e7\u00e3o no portugu\u00eas brasileiro.&#8221;<br \/>\n&#8220;O termo mais correto \u00e9 islam, que significa paz. Este \u00e9 o nome da religi\u00e3o&#8221;, complementa Barbosa. &#8220;\u00c9 comum usarmos islamismo quando nos referimos a a\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-religiosas de alguns grupos mu\u00e7ulmanos.&#8221;<br \/>\nOutra quest\u00e3o recorrente quando se fala sobre a religi\u00e3o mu\u00e7ulmana \u00e9 a possibilidade da representa\u00e7\u00e3o, por meio de imagens, do profeta Maom\u00e9. Costuma-se dizer que qualquer retrato que aluda a ele seja algo terminantemente proibido. Mas, segundo os pesquisadores, isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o radical como possa parecer.<br \/>\n&#8220;A imagem \u00e9 permitida desde que n\u00e3o seja um objeto de adora\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Kus. &#8220;No isl\u00e3, o uso de figuras humanas em desenhos e imagens foi proibido por muito tempo porque as pessoas poderiam adotar aquilo como uma divindade. Portanto, [no contexto religioso,] a representa\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica de Muhammad tamb\u00e9m \u00e9 proibida por esse motivo.&#8221;<br \/>\nA antrop\u00f3loga Barbosa ressalta que &#8220;a imagem de todo profeta&#8221; tem a reprodu\u00e7\u00e3o proibida dentro do isl\u00e3. &#8220;N\u00e3o apenas de Muhammad. H\u00e1 mais de 144 mil profetas segundo o islam e nenhum deles pode ter sua imagem reproduzida. Inclusive Jesus, que \u00e9 um dos profetas da religi\u00e3o.&#8221;<br \/>\n&#8220;Como o isl\u00e3 \u00e9 uma religi\u00e3o monote\u00edsta, de cren\u00e7a em Deus \u00fanico, a preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que imagens de pessoas importantes para o isl\u00e3 possam virar cultos, o que passem a ser adorados. Isso faz com que o entendimento seja de proibir imagens de profetas e mensageiros&#8221;, contextualiza ela.<br \/>\nO cientista da religi\u00e3o Kus ressalta que a determina\u00e7\u00e3o foi dada pelo pr\u00f3prio profeta, &#8220;para que as pessoas posteriormente n\u00e3o adotassem a imagem dele como uma divindade e, assim, ca\u00edssem no \u00fanico pecado imperdo\u00e1vel no isl\u00e3: o de atribuir parceiros a Deus&#8221;.<br \/>\n&#8220;Por outro lado, depois de um certo avan\u00e7o cient\u00edfico e intelectual, na jurisprud\u00eancia isl\u00e2mica permitiu-se a pintura de figuras humanas&#8221;, comenta ele. Como exemplo, ele cita a pintura do sult\u00e3o Mehmed 2\u00ba (1432-1481), do Imp\u00e9rio Otomano, realizada no s\u00e9culo 15.<br \/>\nRepresenta\u00e7\u00e3o de Maom\u00e9 ou Muhammad por meio de imagens \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito controversa mesmo dentro do isl\u00e3<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nCharlie Hebdo<br \/>\nA representa\u00e7\u00e3o de Maom\u00e9 ou Muhammad por meio de imagens \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito controversa mesmo dentro do isl\u00e3. Em 30 de setembro de 2005, o jornal dinamarqu\u00eas Jyllands-Posten publicou 12 caricaturas do profeta mu\u00e7ulmanos e, com isso, desencadeou uma s\u00e9rie de protestos.<br \/>\nA narrativa da \u00e9poca era de que o \u00f3rg\u00e3o de imprensa havia violado de forma proposital o preceito isl\u00e2mico de n\u00e3o representa\u00e7\u00e3o iconogr\u00e1fica do l\u00edder religioso. Seguidores do isl\u00e3 no pa\u00eds passaram a exigir um pedido formal de desculpas e pelo menos dois dos cartunistas precisaram de resguardo porque passaram a enfrentar amea\u00e7as de morte. Houve protestos de mu\u00e7ulmanos em Copenhague e um pedido de diplomatas mu\u00e7ulmanos para que o chefe de estado dinamarqu\u00eas condenasse publicamente o jornal.<br \/>\nEm janeiro do ano seguinte, o Jyllands-Posten publicou um pedido de desculpas. Contudo, diversas outras publica\u00e7\u00f5es europeias, baseadas em princ\u00edpios da liberdade de imprensa, decidiram republicar as caricaturas. Houve incidentes em embaixadas. Em 4 de fevereiro, manifestantes mu\u00e7ulamos na S\u00edria incendiaram as sedes locais da Noruega e da Dinamarca. No dia seguinte, seguidores do isl\u00e3 atearam fogo no consulado dinamarqu\u00eas em Beirute, no L\u00edbano.<br \/>\nEm 7 de janeiro de 2015, o alvo foi o jornal sat\u00edrico franc\u00eas Charlie Hebdo. Um atentado ocorrido na reda\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o, em Paris, acabou deixando 12 mortos e cinco feridos. O jornal vinha, reiteradamente e h\u00e1 anos, publicando ilustra\u00e7\u00f5es de Maom\u00e9 e de tem\u00e1ticas isl\u00e2micas, sempre com fundo humor\u00edstico.<br \/>\nSegundo a antrop\u00f3loga Francirosy Campos Barbosa, &#8220;a cria\u00e7\u00e3o de imagens \u00e9 uma quest\u00e3o controversa entre os mu\u00e7ulmanos devido \u00e0s narra\u00e7\u00f5es prof\u00e9ticas que pro\u00edbem fortemente imagens associadas \u00e0 idolatria e que rivalizam com a cria\u00e7\u00e3o de Al\u00e1&#8221;.<br \/>\n&#8220;No entanto, o profeta fez uma concess\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a imagens e os estudiosos modernos permitiram imagens se elas servissem a um prop\u00f3sito \u00fatil&#8221;, explica. &#8220;Todos os estudiosos mu\u00e7ulmanos permitem fotos e imagens de coisas que n\u00e3o t\u00eam alma, como \u00e1rvores, pedras, paisagens e assim por diante. Essa concess\u00e3o foi dada por Ibn Abbas quando lhe foi pedido um julgamento sobre imagens.&#8221;<br \/>\nParente de Muhammad, Ibn Abbas \u00e9 considerado, pelos mu\u00e7ulmanos, um dos primeiros especialistas em Alcor\u00e3o.<br \/>\nA proibi\u00e7\u00e3o das imagens, conforme explica Barbosa, \u00e9 baseada nos h\u00e1dices do profeta. S\u00e3o diversos os que versam sobre isso. &#8220;Segundo algumas opini\u00f5es, \u00e9 totalmente proibido fazer imagens de coisas com uma alma. Essa \u00e9 a opini\u00e3o mais estrita e a mais segura para os mu\u00e7ulmanos que desejam evitar imagens ilegais&#8221;, contextualiza a especialista. &#8220;No entanto, existem fortes evid\u00eancias que sugerem que n\u00e3o s\u00e3o as imagens em si mesmas que s\u00e3o ilegais, mas \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o para a qual elas s\u00e3o usadas.&#8221;<br \/>\n&#8220;Desde o in\u00edcio, o profeta Muhammad havia proibido o desenho da imagem dele, pelo medo de que as pessoas pudessem adot\u00e1-la como \u00edcone de adora\u00e7\u00e3o, de idolatria&#8221;, diz Kus.<br \/>\n&#8220;Desde o in\u00edcio, o profeta Muhammad havia proibido o desenho da imagem dele, pelo medo de que as pessoas pudessem adot\u00e1-la como \u00edcone de adora\u00e7\u00e3o, de idolatria&#8221;, diz Atilla Kus<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nMaom\u00e9 ou Muhammad?<br \/>\nO l\u00edder religioso acabou ficando conhecido, em portugu\u00eas, como Maom\u00e9. Para mu\u00e7ulmanos e estudiosos do isl\u00e3, contudo, a translitera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 bem-vinda \u2014 pode soar at\u00e9 como ofensiva. N\u00e3o h\u00e1 um consenso, contudo.<br \/>\nA antrop\u00f3loga Barbosa cita um estudo realizado pela Universidade Jean Moulin Lyon 3, da Fran\u00e7a, para argumentar que houve uma &#8220;deforma\u00e7\u00e3o&#8221; do nome do profeta do isl\u00e3 que remonta \u00e0 Idade M\u00e9dia.<br \/>\nNas primeiras tradu\u00e7\u00f5es latinas do Alcor\u00e3o, o livro sagrado dos mu\u00e7ulmanos, Muhammad foi transcrito como Mahumet ou Mahomet. &#8220;Alguns mu\u00e7ulmanos na Fran\u00e7a acreditam que &#8216;Mahomet&#8217; tenha sido forjado a partir de um raiz xen\u00f3foba denegridora, ou que tenha vindo de &#8216;ma houmid&#8217;, express\u00e3o que significaria &#8216;o indigno de louvor'&#8221;, aponta Barbosa.<br \/>\nEla lembra que esse nome n\u00e3o foi o \u00fanico a ser distorcido durante a transi\u00e7\u00e3o do \u00e1rabe para o l\u00e1tim. &#8220;Nomes de grandes estudiosos mu\u00e7ulmanos sofreram o mesmo destino, sem que isso tenha dado origem \u00e0 menor disputa. Como o fil\u00f3sofo Ibn Sina [estudioso que viveu entre 980 e 1037], que se tornou Avicena&#8221;, comenta ela. &#8220;A corruptela do nome foi seguida em Portugal. Muhammad para Mahumet e, da\u00ed, Maom\u00e9.&#8221;<br \/>\n&#8220;Eu acredito que o uso do nome Maom\u00e9 \u00e9 inapropriado e errado, pois por mais que os prenomes sejam traduz\u00edveis, os nomes de pessoas que marcam a hist\u00f3ria geralmente s\u00e3o preservados em sua forma original&#8221;, argumenta Kus.<br \/>\n\u00c9 uma verdade parcial. Kus usa como exemplo o fato de que o atual monarca do Reino Unido seja tratado, no Brasil, como Rei Charles 3\u00ba, e n\u00e3o Rei Carlos 3\u00ba. Entretanto, muitos pa\u00edses &#8220;traduzem&#8221; o nome do brit\u00e2nico, chamado de Carlos em Portugal, Carlo na It\u00e1lia e Karel na Eslov\u00eania, por exemplo.<br \/>\nE mesmo no Brasil h\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o de translitera\u00e7\u00f5es, considerando outras figuras hist\u00f3ricas. Nas escolas, por exemplo, \u00e9 comum que o pr\u00edncipe neerland\u00eas Willem Van Oranje (1544-1584) seja referido como Guilherme de Orange. E, navegando por searas religiosas, Mois\u00e9s \u00e9 plenamente aceito como a vers\u00e3o em portugu\u00eas de Mosh\u00e9, assim como Jesus \u00e9 a maneira como se nomeia Yeshu.<br \/>\nOutro ponto levantado por Kus, contudo, merece reflex\u00e3o: para muitos seguidores do isl\u00e3, Maom\u00e9 pode ter sido uma tradu\u00e7\u00e3o mal-feita. &#8220;Acredito que devamos usar Muhammad ao inv\u00e9s de Maom\u00e9 porque, com se pode ver, um nome n\u00e3o tem nada a ver com outro&#8221;, argumenta o pesquisador. &#8220;Pelo que tenho visto, portugu\u00eas e franc\u00eas s\u00e3o os \u00fanicos idiomas que fizeram essa adapta\u00e7\u00e3o nada a ver com o nome original.&#8221;<br \/>\nSegundo Kus, uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o seria por conta de &#8220;nomes de escravizados africanos que eram mu\u00e7ulmanos&#8221;. &#8220;Um deles tem uma autobiografia, e se chamava Mahomah Baquaqua. Por\u00e9m, as adapta\u00e7\u00f5es desses nomes n\u00e3o eram para substituir o original Muhammad. Era para derivar novos nomes para que as pessoas n\u00e3o ofendessem o nome do profeta&#8221;, explica ele.<br \/>\nNesse sentido, usar Maom\u00e9 para se referir ao l\u00edder religioso seria um contrassenso, \u00e0 medida que a translitera\u00e7\u00e3o torta teria sua origem justamente quando a ideia fosse n\u00e3o se referir a ele.<br \/>\n&#8220;Penso que isso pode ter sido uma translitera\u00e7\u00e3o do nome para facilitar a pron\u00fancia&#8221;, comenta a antrop\u00f3loga Barbosa. &#8220;No entanto, nenhum mu\u00e7ulmano no Brasil vai se referir ao profeta com esse nome. O incorreto para os mu\u00e7ulmanos \u00e9 dizer que se segue a Maom\u00e9, ou se referir a eles como maometanos.&#8221;<br \/>\n\u00c9 uma pol\u00eamica que j\u00e1 foi discutida na imprensa. Entre 2001 e 2006, por exemplo, naquele contexto p\u00f3s-atentados do 11 de Setembro, a Folha de S. Paulo adotou a grafia Muhammad em vez de Maom\u00e9. Conforme explicou o jornalista Marcelo Beraba, ent\u00e3o ombudsman do jornal, em coluna publicada em 19 de mar\u00e7o de 2006, isso ocorreu porque havia o entendimento de &#8220;que Maom\u00e9 era uma palavra ofensiva para os mu\u00e7ulmanos&#8221;. E isso passou a constar inclusive do Manual de Reda\u00e7\u00e3o utilizado pela publica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm seu texto, no entanto, Beraba justificou a volta do uso de Maom\u00e9 argumentando que &#8220;uma translitera\u00e7\u00e3o malfeita n\u00e3o significa que o termo transliterado seja uma ofensa&#8221;. Em linhas gerais, contudo, a volta do termo outrora consolidado se apoiou, depois de tantas reclama\u00e7\u00f5es de leitores, na tradi\u00e7\u00e3o. &#8220;O questionamento principal [dos leitores] tinha como base a tradi\u00e7\u00e3o. Por que dever\u00edamos adotar uma grafia novas se t\u00ednhamos uma consagrada, Maom\u00e9?&#8221;, argumentou o jornalista.<br \/>\nMuhammad e seus seguidores indo para a batalha, f\u00f3lio de um Hamla-yi Haidari, por volta de 1820. Artista desconhecido.<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nDi\u00e1logo interreligioso<br \/>\nInteressante notar que o isl\u00e3, nascido ap\u00f3s o juda\u00edsmo e o cristianismo, conserva em suas bases um di\u00e1logo com essas religi\u00f5es predecessoras. &#8220;Isso vem desde os prim\u00f3rdios&#8221;, diz Kus. &#8220;Segundo a tradi\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica, quando o profeta Muhammad recebeu as primeiras revela\u00e7\u00f5es cor\u00e2nicas aos seus 40 anos de idade e ficou espantado pela realidade sobrenatural que lhe aconteceu, Khadija, sua esposa, o levou at\u00e9 um primo pr\u00f3ximo que era um estudioso crist\u00e3o das escrituras sagradas.&#8221;<br \/>\nEsse primo, Waraqa ben Nawfal, teria sido quem lhe deu amparo sobre o ocorrido e o orientado sobre os pr\u00f3ximos passos. &#8220;Al\u00e9m disso, os primeiros mu\u00e7ulmanos foram bem recebido por reis crist\u00e3os como Najashi As-ham, da Abiss\u00ednia, e Heracleio, do Imp\u00e9rio Bizantino&#8221;, pontua Kus. &#8220;J\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o com os judeus \u00e9 muito mais estrita, conforme vemos na Constitui\u00e7\u00e3o de Medina, que \u00e9 meu objeto de estudo no meu livro de mesmo nome.&#8221;<br \/>\nEle ressalta que a maioria das figuras b\u00edblicas, como Ad\u00e3o, No\u00e9, Mois\u00e9s, Jesus e Maria, faziam parte &#8220;de ensinamentos&#8221; do Alcor\u00e3o, sempre &#8220;como exemplos de f\u00e9 e profetas de Deus&#8221;. &#8220;Particularmente, No\u00e9, Abra\u00e3o, Mois\u00e9s e Jesus s\u00e3o citados como os maiores profetas e mensageiros enviados na hist\u00f3ria de toda a humanidade&#8221;, comenta Kus.<br \/>\n&#8220;Jesus \u00e9 conhecido e respeitado pelo islam como a palavra de Deus encarnada e concebida por Virgem Maria de forma milagrosa. Maria \u00e9 a \u00fanica mulher citada por nome como um exemplo de f\u00e9 e devo\u00e7\u00e3o e possui um cap\u00edtulo do Alcor\u00e3o propriamente dedicado a ela.&#8221;<br \/>\nBarbosa ressalta que Jesus e Mois\u00e9s s\u00e3o mais vezes citados no Alcor\u00e3o do que o pr\u00f3prio Muhammad.<br \/>\n&#8211; Este texto foi originalmente publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-63635739<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00edder religioso ficou conhecido em portugu\u00eas como Maom\u00e9. Para mu\u00e7ulmanos e estudiosos do isl\u00e3, contudo, a translitera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 bem-vinda \u2014 pode soar at\u00e9 como ofensiva. Gravura otomana de autor desconhecido representa Maom\u00e9 com o rosto vendado, justamente para n\u00e3o &#8220;represent\u00e1-lo&#8221; BBC L\u00edder religioso e pol\u00edtico do Oriente M\u00e9dio, Abul Al-Qasim Muhammad ibn Abd Allah<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":37598,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":{"0":"post-37597","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37597","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37597"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37597\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37598"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37597"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37597"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37597"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}