{"id":36989,"date":"2023-01-27T21:11:40","date_gmt":"2023-01-27T21:11:40","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/27\/o-schindler-da-bolivia-que-salvou-milhares-de-judeus-do-holocausto\/"},"modified":"2023-01-27T21:11:40","modified_gmt":"2023-01-27T21:11:40","slug":"o-schindler-da-bolivia-que-salvou-milhares-de-judeus-do-holocausto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/27\/o-schindler-da-bolivia-que-salvou-milhares-de-judeus-do-holocausto\/","title":{"rendered":"O &#8216;Schindler da Bol\u00edvia&#8217; que salvou milhares de judeus do Holocausto"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/9SvdfB4WbbYlROIQoIv1envKOUU=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/b\/2\/kALS7KQISQuC4QyIqi7g\/8563.png\"><br \/>   Magnata foi visto por muito tempo como um &#8216;vil\u00e3o&#8217; no pa\u00eds sul-americano, mas seus feitos humanit\u00e1rios durante o Holocausto foram descobertos muitos anos depois. Moritz Hochschild (1881-1965) ficou conhecido como um dos tr\u00eas &#8216;bar\u00f5es do estanho&#8217; na Bol\u00edvia<br \/>\nA. BLAUM<br \/>\nNa primeira metade do s\u00e9culo 20, os homens mais poderosos da Bol\u00edvia \u2014 e talvez da Am\u00e9rica do Sul \u2014 eram empres\u00e1rios do setor de minera\u00e7\u00e3o: Sim\u00f3n Pati\u00f1o, Carlos Aramayo e Moritz Hochschild.<br \/>\nDurante anos, seus pol\u00eamicos m\u00e9todos de ac\u00famulo de riqueza fizeram os arquivos hist\u00f3ricos classificarem esses tr\u00eas homens, conhecidos como os &#8220;bar\u00f5es do estanho&#8221;, como &#8220;inimigos da Bol\u00edvia&#8221;.<br \/>\n Entre eles, destacava-se a figura de Hochschild, o \u00fanico que n\u00e3o tinha cidadania boliviana. De origem alem\u00e3 e fortes la\u00e7os com o continente europeu, ele era constantemente chamado de &#8220;explorador&#8221;.<br \/>\nMas a hist\u00f3ria se mostrou mais complexa. No final de 1999,  os arquivos da Corpora\u00e7\u00e3o Mineradora da Bol\u00edvia (Comibol) foram organizados \u2014 e os respons\u00e1veis pela tarefa encontraram documentos revelando que Hochschild, gra\u00e7as a seus contatos europeus, havia conseguido salvar milhares de judeus do regime nazista.<br \/>\n&#8220;Ele era o que podemos chamar de homem de neg\u00f3cios da minera\u00e7\u00e3o, a quem o que importava eram os lucros e que explorava seus funcion\u00e1rios&#8221;, diz o historiador boliviano Robert Brockmann \u00e0 BBC News Mundo, o servi\u00e7o em espanhol da BBC.<br \/>\n&#8220;Mas os pap\u00e9is encontrados na Comibol mostraram o outro lado desse homem: uma esp\u00e9cie de Schindler que fez o poss\u00edvel para salvar os judeus do Holocausto nazista.&#8221;<br \/>\nO empres\u00e1rio industrial alem\u00e3o Oskar Schindler, membro do partido nazista, \u00e9 reconhecido por ter salvado a vida de mais de 1 mil pessoas, empregando-as nas suas f\u00e1bricas para proteg\u00ea-las das persegui\u00e7\u00f5es.<br \/>\nHochschild fez o mesmo na Bol\u00edvia. E, segundo os documentos encontrados, ele chegou a salvar entre 9 mil e 20 mil pessoas \u2014 muito mais que o pr\u00f3prio Schindler.<br \/>\nRobert Brockmann escreveu uma biografia sobre o magnata da minera\u00e7\u00e3o, destacando seus esfor\u00e7os para resgatar a maior quantidade poss\u00edvel de judeus que viviam sob o regime nazista, pouco antes do in\u00edcio da Segunda Guerra Mundial, em 1939.<br \/>\n&#8220;Hochschild conseguiu convencer o governo boliviano da \u00e9poca que era uma boa ideia abrir as fronteiras para os judeus, totalmente na contram\u00e3o do que a maioria dos pa\u00edses da regi\u00e3o estava fazendo&#8221;, conta Brockmann \u00e0 BBC News Mundo.<br \/>\nHochschild, o minerador<br \/>\nMoritz Hochschild nasceu em fevereiro de 1881 na cidade de Biblis, no sudoeste da Alemanha. Ele era de uma fam\u00edlia de judeus dedicados \u00e0 minera\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Estes dois aspectos \u2014 a minera\u00e7\u00e3o e o fato de que a maioria dos seus familiares e vizinhos era da etnia asquenaze [judeus que se estabeleceram na Europa central e oriental] \u2014 definiriam o que ele viria a fazer pelo resto da sua vida&#8221;, diz o historiador.<br \/>\nNo in\u00edcio do s\u00e9culo 20, Hochschild viajou para o exterior pela primeira vez. Ele come\u00e7ou ent\u00e3o a fazer neg\u00f3cios de forma independente, primeiramente na Austr\u00e1lia e, depois, no Chile, onde manteria a sede das suas opera\u00e7\u00f5es por muitos anos.<br \/>\n&#8220;\u00c9 no Chile que ele organiza sua empresa de minera\u00e7\u00e3o e, de forma quase implac\u00e1vel, come\u00e7a a desenvolver os neg\u00f3cios que o levariam \u00e0 Bol\u00edvia, onde revolucionaria a extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios&#8221;, explica Brockmann.<br \/>\nSegundo n\u00e3o s\u00f3 o relato do historiador, como tamb\u00e9m outros documentos hist\u00f3ricos, Hochschild buscou se apropriar de minas que estavam inativas ou abandonadas e torn\u00e1-las rent\u00e1veis com novos m\u00e9todos de extra\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;O que aconteceu foi que aquelas minas que antes eram de prata foram abandonadas quando esse elemento se esgotou&#8221;, afirma Brockmann.<br \/>\n&#8220;Mas elas tinham outros metais, como o estanho ou zinco, que Hochschild sabia que poderia explorar.&#8221;<br \/>\nMas Hochschild n\u00e3o foi o \u00fanico. Este sistema de minera\u00e7\u00e3o na Bol\u00edvia tamb\u00e9m seria adotado por Pati\u00f1o e Aramayo. Os tr\u00eas logo ficariam conhecidos como os &#8220;bar\u00f5es do estanho&#8221;.<br \/>\n&#8220;Com o in\u00edcio da Primeira Guerra Mundial, esses homens come\u00e7aram a vender estanho para as grandes pot\u00eancias&#8221;, conta Brockmann.<br \/>\n&#8220;Ganharam muito dinheiro, mas \u00e0 custa da explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.&#8221;<br \/>\nTudo estava indo bem para os poderosos bar\u00f5es da minera\u00e7\u00e3o nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930, at\u00e9 que as mudan\u00e7as de governo no in\u00edcio dos anos 1940 levaram ao fim do seu imp\u00e9rio.<br \/>\n&#8220;Hochschild perdeu todos os seus privil\u00e9gios. Foi preso em duas ocasi\u00f5es, e suas minas come\u00e7aram a ser tomadas pelo Estado&#8221;, relata o historiador.<br \/>\nCom o passar do tempo, especialmente durante a chamada Revolu\u00e7\u00e3o de 1952 na Bol\u00edvia, vieram \u00e0 tona detalhes dos m\u00e9todos de explora\u00e7\u00e3o dos mineiros e da apropria\u00e7\u00e3o de minas em todo o pa\u00eds.<br \/>\nE, pela narrativa estabelecida na \u00e9poca, os antigos bar\u00f5es do estanho passaram a ser considerados &#8220;vil\u00f5es da Bol\u00edvia&#8221;.<br \/>\n&#8220;Esses documentos mencionam que Hochschild esteve a ponto de ser executado, mas acabou sendo libertado&#8221;, acrescenta Brockmann.<br \/>\nEm 1944, depois de recuperar sua liberdade, Hochschild abandonou a Bol\u00edvia e nunca mais voltou. Ele foi para o Chile, onde conseguiu retomar sua fortuna, concentrando-se novamente na minera\u00e7\u00e3o. E morreu em 1965, em um hotel de Paris.<br \/>\nMas uma das principais a\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s dos seus neg\u00f3cios durante os anos que passou na Bol\u00edvia seria revelada quase 60 anos depois, em meio a arquivos que ningu\u00e9m havia organizado antes.<br \/>\nHochschild tamb\u00e9m entrou no ramo de produtos qu\u00edmicos<br \/>\nWIKICOMMONS<br \/>\nRela\u00e7\u00e3o especial<br \/>\nEm 1999, o governo boliviano encomendou a Edgar Ram\u00edrez \u2014 que esteve ligado ao campo de minera\u00e7\u00e3o por mais de 20 anos \u2014 a tarefa de organizar os documentos apreendidos junto aos tr\u00eas bar\u00f5es do estanho na d\u00e9cada de 1950.<br \/>\nRam\u00edrez se p\u00f4s a trabalhar e, enquanto revisava as caixas que haviam pertencido \u00e0 companhia mineradora de Hochschild, se deparou com diversas surpresas. Entre elas, que o empres\u00e1rio \u2014 chamado de &#8220;vil\u00e3o&#8221; e que esteve a ponto de ser fuzilado \u2014 havia salvado milhares de judeus do Holocausto.<br \/>\n&#8220;Este aspecto de Hochschild era desconhecido at\u00e9 descobrirmos esses pap\u00e9is&#8221;, afirmou Ram\u00edrez ao jornal brit\u00e2nico The Guardian, em 2020.<br \/>\n&#8220;Ele era conhecido na Bol\u00edvia como o pior tipo de empres\u00e1rio. O pior!&#8221;<br \/>\nO arquivo em quest\u00e3o agora \u00e9 propriedade da Comibol e foi declarado Patrim\u00f4nio da Humanidade pela Unesco em 2016. Os documentos revelaram detalhes de como esses judeus haviam viajado da Alemanha at\u00e9 os picos andinos da Bol\u00edvia.<br \/>\n&#8220;O que os documentos nos mostram \u00e9 que, devido \u00e0s a\u00e7\u00f5es de Hochschild, muitos judeus provenientes da Alemanha, Fran\u00e7a, Pol\u00f4nia e at\u00e9 da Iugosl\u00e1via conseguiram obter visto e trabalho para recome\u00e7ar a vida&#8221;, conta \u00e0 BBC News Mundo Max Ra\u00fal Murillo, atual diretor do arquivo da Comibol.<br \/>\n&#8220;H\u00e1 comprovantes de trabalho, sal\u00e1rios, vistos, cartas n\u00e3o s\u00f3 em espanhol, mas tamb\u00e9m em alem\u00e3o e hebraico, que precisamos traduzir para saber como tudo havia acontecido&#8221;, destaca Murillo.<br \/>\nSegundo os documentos, foi gra\u00e7as \u00e0 rela\u00e7\u00e3o especial entre Hochschild e o ent\u00e3o presidente boliviano Germ\u00e1n Busch Becerra (1937-1939) que ele conseguiu trazer de 9 mil a 20 mil judeus, principalmente de origem asquenaze.<br \/>\nEm 1999, come\u00e7ou o processo de pesquisa que revelaria como Hochschild salvou milhares de judeus do Holocausto<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\nDa Alemanha para a Bol\u00edvia<br \/>\nNas biografias escritas sobre Hochschild, existe um aspecto que \u00e9 mencionado repetidamente.<br \/>\nEm 1933, quando o governo nazista declarou a perda da nacionalidade de todos os judeus alem\u00e3es n\u00e3o residentes no pa\u00eds, o empres\u00e1rio da minera\u00e7\u00e3o percebeu que algo grave estava prestes a acontecer.<br \/>\n&#8220;Era um homem que viajava o tempo todo, e esta situa\u00e7\u00e3o o coloca em alerta sobre o que acontece no seu pa\u00eds, especialmente com a sua comunidade&#8221;, destaca Brockmann.<br \/>\n&#8220;Ele ent\u00e3o sente que precisa fazer alguma coisa.&#8221;<br \/>\nSegundo o relato dos historiadores, sua primeira tentativa \u00e9 viabilizar a entrada em pa\u00edses onde j\u00e1 existem comunidades judaicas bem estabelecidas, como os Estados Unidos e a Argentina, mas alcan\u00e7ou poucos resultados.<br \/>\nHochschild recorre ent\u00e3o ao presidente Busch, que n\u00e3o estava muito de acordo com a ideia porque n\u00e3o via como fazer para que os judeus que chegassem \u00e0 Bol\u00edvia n\u00e3o usassem o pa\u00eds simplesmente como trampolim para chegar a outros territ\u00f3rios.<br \/>\n&#8220;Mas Hochschild o convence dizendo que os judeus poderiam trabalhar no campo e ajudar a desenvolver este setor da economia boliviana&#8221;, diz Brockmann.<br \/>\nCom isso, foram criadas a Sociedade Protetora dos Imigrantes e Israelitas (SOPRO) e a Sociedade Colonizadora da Bol\u00edvia (SOCOBO), com o prop\u00f3sito de legalizar a entrada desses imigrantes.<br \/>\n&#8220;Essas entidades fazem o tr\u00e2mite da documenta\u00e7\u00e3o com base nas normas nacionais, como a promulga\u00e7\u00e3o dos Decretos Supremos de 1938, a Resolu\u00e7\u00e3o Suprema de 14 de mar\u00e7o de 1938, sobre a entrada de judeus no pa\u00eds, e a Circular de 24 de abril de 1938, que s\u00e3o requisitos exigidos dos imigrantes que desejam povoar terras vazias&#8221;, explica Murillo.<br \/>\nMas as a\u00e7\u00f5es de Hochschild n\u00e3o se limitaram a convencer o governo boliviano.<br \/>\n&#8220;Os arquivos mostram que ele dirigiu o trabalho de imigra\u00e7\u00e3o at\u00e9 o final da Segunda Guerra Mundial. Ele criou creches, centros infantis, locais de recrea\u00e7\u00e3o para crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s de origem judaica e contratou trabalhadores imigrantes judeus nas suas empresas de minera\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nMurillo acrescenta que, &#8220;al\u00e9m disso, ele comprou as fazendas Santa Rosa, Chorobamba e Polo Polo nos Yungas [regi\u00e3o de floresta no centro da Bol\u00edvia], onde desenvolveu atividades agr\u00edcolas com os pr\u00f3prios imigrantes, para gerar alimentos, trabalho e estabilidade econ\u00f4mica&#8221;.<br \/>\nMas o que o presidente Busch n\u00e3o sabia \u00e9 que a maioria dos judeus a quem o governo boliviano havia oferecido vistos para que pudessem entrar no pa\u00eds \u2014 e, assim, fugir da Alemanha \u2014 nunca havia trabalhado no campo.<br \/>\n&#8220;Por diferentes raz\u00f5es hist\u00f3ricas e religiosas, os judeus nunca tiveram grande participa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola da Europa&#8221;, diz o acad\u00eamico.<br \/>\n&#8220;Por esta raz\u00e3o, muito poucos ficaram na Bol\u00edvia. Muitos seguiram para a Argentina ou para outros pa\u00edses da regi\u00e3o.&#8221;<br \/>\nDe qualquer forma, com a ajuda de Busch, Hochschild viabiliza a sa\u00edda dos judeus da Alemanha e sua chegada \u00e0 Bol\u00edvia. Milhares de imigrantes sa\u00edam de diversos portos da Europa, atravessavam o Atl\u00e2ntico e chegavam ao porto de Arica, no norte do Chile. De l\u00e1, sa\u00eda o chamado &#8220;Expresso dos Judeus&#8221;, que cobria o \u00faltimo trecho da viagem \u2014 do porto chileno at\u00e9 a capital boliviana, La Paz.<br \/>\nDocumentos obtidos pelo historiador revelam que a maior parte das pessoas que ficaram na Alemanha e pertenciam \u00e0 mesma comunidade do empres\u00e1rio da minera\u00e7\u00e3o n\u00e3o sobreviveu ao Holocausto.<br \/>\n&#8220;Independentemente do seu comportamento como empres\u00e1rio, esta a\u00e7\u00e3o de Hochschild realmente salvou a vida daquelas pessoas&#8221;, destaca Brockmann.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Magnata foi visto por muito tempo como um &#8216;vil\u00e3o&#8217; no pa\u00eds sul-americano, mas seus feitos humanit\u00e1rios durante o Holocausto foram descobertos muitos anos depois. Moritz Hochschild (1881-1965) ficou conhecido como um dos tr\u00eas &#8216;bar\u00f5es do estanho&#8217; na Bol\u00edvia A. 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