{"id":36571,"date":"2023-01-26T15:11:48","date_gmt":"2023-01-26T15:11:48","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/26\/a-desconhecida-rede-de-sorrisos-entre-mulheres-negras\/"},"modified":"2023-01-26T15:11:48","modified_gmt":"2023-01-26T15:11:48","slug":"a-desconhecida-rede-de-sorrisos-entre-mulheres-negras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/26\/a-desconhecida-rede-de-sorrisos-entre-mulheres-negras\/","title":{"rendered":"A desconhecida &#8216;rede de sorrisos&#8217; entre mulheres negras"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/k9MxPDEaJC0ZPWWJLmJ3kItWDp0=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/1\/G\/hlOpkBTsexNcp6w1cOEg\/mulheres-nas-ruas-de-londres-conversaram-com-a-bbc-sobre-a-rede-de-sorrisos-entre-mulheres-negras.png\"><br \/>   Se voc\u00ea j\u00e1 viu duas mulheres negras se cruzando nas ruas e sorrindo uma para a outra, na maioria das vezes n\u00e3o \u00e9 porque elas se conhecem ou j\u00e1 se viram em algum lugar. Mulheres nas ruas de Londres conversaram com a BBC sobre a &#8216;rede de sorrisos&#8217; entre mulheres negras<br \/>\nBBC<br \/>\nSe voc\u00ea j\u00e1 viu duas mulheres negras se cruzando nas ruas e sorrindo uma para a outra, na maioria das vezes n\u00e3o \u00e9 porque elas se conhecem ou j\u00e1 se viram em algum lugar.<br \/>\nA soci\u00f3loga Vilma Reis, soci\u00f3loga baiana especializada em Estudos \u00c9tnicos e Africanos, essa \u00e9 uma pr\u00e1tica que remonta a s\u00e9culos atr\u00e1s: &#8220;A gente aprendeu quando n\u00e3o era poss\u00edvel falar absolutamente nada &#8211; na brutalidade do tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico, muitas vezes foi somente com olhar que a gente construiu revolu\u00e7\u00f5es&#8221;.<br \/>\nO mesmo vale para os homens negros, que nesse caso se referem a essa troca em ingl\u00eas como &#8220;nod&#8221;, um aceno ou o que pode ser chamado nas periferias de &#8216;salve&#8217;.<br \/>\nVilma tem uma forma mais abrasileirada de se referir \u00e0 quest\u00e3o e usa um termo pelo qual pessoas escravizadas que tinham vindo na mesma embarca\u00e7\u00e3o se tratavam:<br \/>\n&#8220;Eu uso a palavra malungo para falar desse acordo nosso sem poder falar, \u00e9 um acordo malungo. Provavelmente o &#8220;The Nod&#8221; \u00e9 o nosso Jeito Malungo de resolver a quest\u00e3o&#8221;, diz. &#8220;\u00c9 o jeito da gente se olhar, todos n\u00f3s carregamos c\u00f3digos que fazem com que a gente se traduza.&#8221;<br \/>\nMas por que isso acontece?<br \/>\nEssa troca de sorrisos pode ser cumplicidade, admira\u00e7\u00e3o ou uma identifica\u00e7\u00e3o com s\u00edmbolos comuns, como o crescimento recente do uso do cabelo natural.<br \/>\nNas ruas de Londres, eu abordei mulheres negras que sorriram pra mim em uma tarde fria de dezembro para saber por que elas acham que isso acontece.<br \/>\n&#8220;Acho que primeiro n\u00f3s reconhecemos os nossos. N\u00f3s temos todas essas quest\u00f5es em comum, ent\u00e3o tendemos a cumprimentar&#8221;, disse Cara Lloid de 37 anos.<br \/>\n&#8220;H\u00e1 essa identifica\u00e7\u00e3o imediata, a gente se olha e se v\u00ea&#8221;, complementa Vilma.<br \/>\nAmbientes em que se \u00e9 minorit\u00e1rio<br \/>\nApesar de acontecer em qualquer lugar, existem certos espa\u00e7os onde essa cumplicidade se intensifica.<br \/>\n&#8220;Se for um espa\u00e7o majoritariamente negro, \u00e9 mais dif\u00edcil (acontecer) porque voc\u00ea n\u00e3o vai sair acenando para todas as outras mulheres, mas um espa\u00e7o que tenha a presen\u00e7a negra de uma forma minorit\u00e1ria \u00e9 quando elas visualizam uma a outra e realizam esse aceno&#8221;, diz a antrop\u00f3loga Elisa Hip\u00f3lito.<br \/>\nCara Lloid concorda e diz que experimenta isso na pele: &#8220;Eu costumava trabalhar em uma \u00e1rea de maioria branca e, quando encontr\u00e1vamos um dos nossos &#8211; e, quando eu digo um dos nossos, me refiro a algu\u00e9m com quem eu me identifico -, n\u00f3s \u00e9ramos mais amig\u00e1veis uns com os outros&#8221;, conta.<br \/>\nEssa facilidade maior desse aceno ocorrer em lugares de maioria branca faz muitas brasileiras experimentarem essa cumplicidade pela primeira vez quando saem do pa\u00eds.<br \/>\nSegundo Vilma Reis, isso j\u00e1 acontecia quando ela era uma estudante em Viena, na \u00c1ustria, em 1993, mas tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de ocorrer at\u00e9 hoje em espa\u00e7os mais elitistas de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nA troca de sorrisos pode ser cumplicidade, admira\u00e7\u00e3o ou uma identifica\u00e7\u00e3o com s\u00edmbolos comuns, como o crescimento recente do uso do cabelo natural<br \/>\nBBC<br \/>\n&#8220;Em Viena, as mulheres nigerianas que l\u00e1 vivem olhavam pra mim e a gente se identificava. Mas eu tamb\u00e9m sinto essa energia em S\u00e3o Paulo, que \u00e9 uma cidade das congolesas, das angolanas, das mo\u00e7ambicanas. Nesses espa\u00e7os onde n\u00f3s n\u00e3o somos majorit\u00e1rias, elas olham para mim com muita cumplicidade. Porque o corpo fala, corpo \u00e9 texto&#8221;, diz.<br \/>\nAdmira\u00e7\u00e3o est\u00e9tica<br \/>\nUm outro motivo muito citado nas ruas para motivar a troca de sorrisos \u00e9 uma admira\u00e7\u00e3o est\u00e9tica &#8211; o que Patr\u00edcia Louisor diz que j\u00e1 estava na hora de acontecer:<br \/>\n&#8220;Acho \u00f3timo porque, por anos, sen\u00e3o s\u00e9culos, n\u00f3s costum\u00e1vamos lutar para sermos admiradas por pessoas brancas. E agora \u00e9 uma \u00e9poca em que negros reconhecem negros, eu acho que \u00e9 muito poderoso&#8221;, conta.<br \/>\nA antrop\u00f3loga Elisa Hip\u00f3lito concorda e diz que \u00e9 comum uma mulher negra sorrir ao ver a outra usando seu cabelo na textura natural ou at\u00e9 mesmo tran\u00e7ado.<br \/>\n&#8220;Remonta a um pertencimento, a uma certa resist\u00eancia. Principalmente se voc\u00ea almeja usar seu cabelo na textura natural e v\u00ea uma mulher com cabelo crespo; voc\u00ea sente um fortalecimento, um apoio pra fazer isso com voc\u00ea mesma&#8221;, explica.<br \/>\nCumplicidade no olhar<br \/>\nNem sempre, por\u00e9m, a viv\u00eancia compartilhada que gera essa troca de olhares e sorrisos nas ruas \u00e9 positiva. Uma mulher negra sabe o que a outra passa. Elas recebem os menores sal\u00e1rios, s\u00e3o as que mais sofrem viol\u00eancia dom\u00e9stica e as que mais encontram dificuldades para se sair bem no mercado de trabalho.<br \/>\nNo Brasil, por exemplo, s\u00e3o menos de 1% dos CEOs de empresas e no Reino Unido o n\u00famero \u00e9 ainda menor.<br \/>\nPara Elisa Hip\u00f3lito, esse compartilhamento pela dor \u00e9 igualmente potente:<br \/>\n&#8220;A Vilma Piedade, intelectual brasileira, fala do conceito de dororidade, que sobrep\u00f5e essa ideia da sororidade que a gente escuta tanto. \u00c9 um termo para se pensar essa dor compartilhada entre mulheres negras, essa dor marcada pelo sistema patriarcal, mas tamb\u00e9m pelo racismo&#8221;, explica.<br \/>\nMulheres nas ruas de Londres conversaram com a BBC sobre a &#8216;rede de sorrisos&#8217;<br \/>\nBBC<br \/>\nAcordo sem palavras<br \/>\nPara Vilma Reis, essa troca de olhares, sorrisos ou um salve tem a ver com a tentativa de resgate de uma uni\u00e3o propositalmente desfeita s\u00e9culos atr\u00e1s.<br \/>\n&#8220;Eles separaram o nosso povo ao descermos na di\u00e1spora. Separaram quem era Fulani, Igbo, Hau\u00e7\u00e1 e Iorub\u00e1. Mas o nosso povo se juntou. Diante de todas as impossibilidades a gente construiu uma linguagem no olhar e a possibilidade de empatia e acolhimento no olhar&#8221;, diz.<br \/>\nA soci\u00f3loga afirma que algo t\u00e3o simples como uma troca de sorrisos nas ruas aponta para um movimento de resgate da autoestima e de pot\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o negra.<br \/>\n&#8220;\u00c9 n\u00f3s sabermos que estamos \u00e0 margem, mas que a margem pode se juntar para criar uma nova centralidade.&#8221;<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-64335991<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea j\u00e1 viu duas mulheres negras se cruzando nas ruas e sorrindo uma para a outra, na maioria das vezes n\u00e3o \u00e9 porque elas se conhecem ou j\u00e1 se viram em algum lugar. 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