{"id":36436,"date":"2023-01-26T05:10:46","date_gmt":"2023-01-26T05:10:46","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/26\/como-japao-mudou-de-terra-do-futuro-para-preso-ao-passado\/"},"modified":"2023-01-26T05:10:46","modified_gmt":"2023-01-26T05:10:46","slug":"como-japao-mudou-de-terra-do-futuro-para-preso-ao-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/26\/como-japao-mudou-de-terra-do-futuro-para-preso-ao-passado\/","title":{"rendered":"Como Jap\u00e3o mudou de &#8216;terra do futuro&#8217; para &#8216;preso ao passado&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/VAR2Hmu1uZ4OCPeHXCd7aRucwHc=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/1\/q\/61UTGSRluF7NvAJg95WA\/1.png\"><br \/>   A chamada d\u00e9cada perdida j\u00e1 se estendeu para tr\u00eas. O que deu errado, questiona Rupert Wingfield-Hayes, correspondente da BBC em T\u00f3quio. Economia japonesa \u00e9 a terceira maior do mundo, mas est\u00e1 estagnada h\u00e1 anos<br \/>\nJIRO AKIBA\/ BBC<br \/>\nNo Jap\u00e3o, as casas s\u00e3o como carros.<br \/>\nAssim que voc\u00ea se muda, a sua nova casa come\u00e7a a valer menos do que voc\u00ea pagou. E, quando voc\u00ea termina de pagar seu financiamento, depois de 40 anos, ela n\u00e3o vale quase nada.<br \/>\nFiquei perplexo ao saber disso, quando me mudei para c\u00e1 como correspondente da BBC, 10 anos atr\u00e1s. E, agora que me preparo para sair, a situa\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 a mesma.<br \/>\nO Jap\u00e3o \u00e9 a terceira maior economia do mundo. \u00c9 um pa\u00eds pr\u00f3spero e pac\u00edfico, com a maior expectativa de vida do mundo, a menor taxa de assassinatos, poucos conflitos pol\u00edticos, um passaporte poderoso e o extraordin\u00e1rio Shinkansen \u2014 a melhor rede ferrovi\u00e1ria de alta velocidade do mundo.<br \/>\nA Europa e a Am\u00e9rica do Norte j\u00e1 tiveram medo, um dia, do poderio econ\u00f4mico japon\u00eas, da mesma forma que temem hoje a crescente economia da China. Mas o Jap\u00e3o que o mundo esperava nunca chegou.<br \/>\nNo final dos anos 1980, os japoneses eram mais ricos do que os americanos. Hoje, ele ganham menos que os brit\u00e2nicos.<br \/>\nO Jap\u00e3o vem lutando h\u00e1 d\u00e9cadas com uma economia morosa, contida por uma profunda resist\u00eancia a mudan\u00e7as e uma teimosa liga\u00e7\u00e3o ao seu passado. E, agora, sua popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 envelhecendo e diminuindo.<br \/>\nO Jap\u00e3o ficou estagnado.<br \/>\nO futuro estava aqui<br \/>\nQuando cheguei ao Jap\u00e3o pela primeira vez, em 1993, o que me impressionou n\u00e3o foram as l\u00e2mpadas de neon dos distritos de Ginza e Shinjuku, nem a moda selvagem &#8220;Ganguro&#8221; das meninas de Harajuku.<br \/>\nO que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi como o Jap\u00e3o parecia muito mais rico do que qualquer outro lugar onde estive na \u00c1sia \u2014 e como sua capital, T\u00f3quio, \u00e9 primorosamente limpa e organizada, em compara\u00e7\u00e3o com qualquer outra cidade asi\u00e1tica.<br \/>\nHong Kong era um ataque aos sentidos, cheia de odores e ru\u00eddos \u2014 uma cidade de extremos, variando desde as extravagantes mans\u00f5es de Victoria Peak at\u00e9 as lojas &#8220;sombrias e sat\u00e2nicas&#8221;, que exploram seus funcion\u00e1rios no norte de Kowloon.<br \/>\nEm Taipei (capital de Taiwan), onde estudei chin\u00eas, as ruas ficavam lotadas ao som das motocicletas de dois tempos que lan\u00e7avam uma fuma\u00e7a azeda que envolvia a cidade. O cobertor de neblina era t\u00e3o espesso que, muitas vezes, mal se conseguia olhar a dois quarteir\u00f5es de dist\u00e2ncia.<br \/>\nEnquanto Hong Kong e Taiwan eram os adolescentes da \u00c1sia, o Jap\u00e3o j\u00e1 era adulto. Sim, T\u00f3quio era uma selva de pedra, mas belissimamente maquiada.<br \/>\nEm frente ao Pal\u00e1cio Imperial de T\u00f3quio, o horizonte era dominado pelas torres de vidro das imensas corpora\u00e7\u00f5es do pa\u00eds \u2014 Mitsubishi, Mitsui, Hitachi e Sony.<br \/>\nDe Nova York, nos Estados Unidos, at\u00e9 Sydney, na Austr\u00e1lia, pais ambiciosos imploravam aos seus filhos para que aprendessem japon\u00eas. Eu ficava imaginando se teria cometido um erro apostando no mandarim.<br \/>\nO Jap\u00e3o se reergueu da destrui\u00e7\u00e3o da Segunda Guerra Mundial e conquistou a ind\u00fastria global. O dinheiro voltou para o pa\u00eds, trazendo um boom imobili\u00e1rio que fazia com que as pessoas comprassem qualquer propriedade que estivesse dispon\u00edvel \u2014 at\u00e9 terrenos florestais.<br \/>\nEm meados dos anos 1980, a piada era que o terreno do Pal\u00e1cio Imperial de T\u00f3quio valia o mesmo que todo o Estado americano da Calif\u00f3rnia. Os japoneses chamam essa \u00e9poca de Baburu Jidai \u2014 a era da bolha.<br \/>\nMas, em 1991, a bolha estourou. A bolsa de valores de T\u00f3quio entrou em colapso. Os pre\u00e7os dos im\u00f3veis despencaram e n\u00e3o se recuperaram at\u00e9 hoje.<br \/>\nUm amigo estava recentemente negociando a compra de v\u00e1rios hectares de floresta. O propriet\u00e1rio queria US$ 20 (cerca de R$ 104) por metro quadrado.<br \/>\n&#8220;Eu disse a ele que a terra florestal s\u00f3 vale US$ 2 (cerca de R$ 10,40) por metro quadrado&#8221;, disse o meu amigo. &#8220;Mas ele insistiu que precisava de US$ 20 por metro quadrado, porque foi o que ele pagou nos anos 1970.&#8221;<br \/>\nQuando pensamos nos elegantes trens-bala do Jap\u00e3o ou na maravilhosa fabrica\u00e7\u00e3o em linha de montagem da Toyota, podemos facilmente pensar que o Jap\u00e3o \u00e9 o modelo da efici\u00eancia. Mas n\u00e3o \u00e9. A burocracia pode ser assustadora e enormes montantes de dinheiro p\u00fablico s\u00e3o gastos em atividades de utilidade duvidosa.<br \/>\nEm 2022, descobri a hist\u00f3ria por tr\u00e1s das deslumbrantes tampas de bueiro em uma pequena cidade nos Alpes Japoneses.<br \/>\nEm 1924, foram encontrados, em um lago pr\u00f3ximo, os ossos fossilizados de uma antiga esp\u00e9cie de elefante, que se tornou s\u00edmbolo da cidade. At\u00e9 que, alguns anos atr\u00e1s, algu\u00e9m decidiu substituir todas as tampas de bueiro por tampas novas com a imagem do famoso elefante.<br \/>\nIsso vem sendo feito em todo o Jap\u00e3o. Existe agora uma Sociedade Japonesa das Tampas de Bueiro, que afirma que existem 6 mil desenhos de tampas diferentes no pa\u00eds.<br \/>\nEntendo que as pessoas adorem essas tampas. Elas s\u00e3o verdadeiras obras de arte. Mas cada uma delas custa at\u00e9 US$ 900 (cerca de R$ 4,7 mil).<br \/>\nEsta \u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o dos motivos que levaram o Jap\u00e3o a ter a maior d\u00edvida p\u00fablica do mundo. E essa conta astron\u00f4mica \u00e9 agravada por uma popula\u00e7\u00e3o envelhecida que n\u00e3o consegue se aposentar devido \u00e0 press\u00e3o sobre as pens\u00f5es e a assist\u00eancia m\u00e9dica.<br \/>\nQuando renovei minha carteira de motorista japonesa, os funcion\u00e1rios \u2014 extremamente educados \u2014 me encaminharam do teste de vis\u00e3o para a cabine de fotografia e o pagamento da taxa. Em seguida, eles me pediram para comparecer \u00e0 &#8220;sala de palestras 28&#8221;. Estas palestras sobre &#8220;seguran\u00e7a&#8221; s\u00e3o obrigat\u00f3rias para qualquer pessoa que tenha cometido uma infra\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito nos \u00faltimos cinco anos.<br \/>\nDentro da sala, encontrei um grupo de almas com apar\u00eancia desconsolada, esperando que nossa puni\u00e7\u00e3o come\u00e7asse. Um homem elegantemente trajado entrou e disse que nossa &#8220;palestra&#8221; come\u00e7aria em 10 minutos e iria durar duas horas!<br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o precisa nem mesmo entender a palestra. Eu me perdi na maior parte dela.<br \/>\nEnquanto ela se arrastava pela segunda hora, diversos dos meus colegas adormeceram. O homem ao meu lado fez um desenho muito bom da Torre de T\u00f3quio. E fiquei ali, ressentido e entediado, com o rel\u00f3gio na parede zombando da minha situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Qual \u00e9 o prop\u00f3sito daquilo?&#8221;, perguntei \u00e0 minha colega japonesa quando voltei ao escrit\u00f3rio. &#8220;\u00c9 uma puni\u00e7\u00e3o, certo?&#8221;<br \/>\n&#8220;N\u00e3o&#8221;, respondeu ela, rindo. &#8220;\u00c9 um esquema de cria\u00e7\u00e3o de empregos para guardas de tr\u00e2nsito aposentados.&#8221;<br \/>\nO fator externo<br \/>\nQuando voc\u00ea vive aqui por mais tempo, at\u00e9 as frustra\u00e7\u00f5es se tornam algo familiar e mesmo curioso. Voc\u00ea come\u00e7a a apreciar os h\u00e1bitos peculiares \u2014 como os quatro funcion\u00e1rios do posto de gasolina que limpam todas as janelas do seu carro enquanto enchem o tanque e fazem uma rever\u00eancia sincronizada quando voc\u00ea sai.<br \/>\nO Jap\u00e3o ainda parece muito o Jap\u00e3o e n\u00e3o uma c\u00f3pia dos Estados Unidos. \u00c9 por isso que o mundo \u00e9 t\u00e3o fascinado por tudo o que \u00e9 japon\u00eas, da neve em p\u00f3 at\u00e9 a moda.<br \/>\nT\u00f3quio abriga restaurantes excepcionais. O Studio Ghibli produz \u2014 perd\u00e3o, Disney! \u2014 as anima\u00e7\u00f5es mais encantadoras do mundo. E \u00e9 claro que o J-Pop \u00e9 horr\u00edvel, mas o Jap\u00e3o, sem d\u00favida, \u00e9 uma superpot\u00eancia do soft power.<br \/>\nOs geeks e pessoas exc\u00eantricas adoram o pa\u00eds e sua maravilhosa esquisitice. Mas o Jap\u00e3o tamb\u00e9m tem seus admiradores na extrema-direita, por rejeitar a imigra\u00e7\u00e3o e manter o patriarcado.<br \/>\nAgricultores japoneses s\u00e3o os mais idosos do mundo<br \/>\nJIRO AKIBA\/BBC<br \/>\nO pa\u00eds, muitas vezes, \u00e9 descrito como uma na\u00e7\u00e3o que conseguiu se modernizar sem abandonar o passado. E h\u00e1 alguma verdade nisso, mas eu afirmaria que o moderno \u00e9 mais uma fachada.<br \/>\nQuando veio a pandemia, o Jap\u00e3o fechou as fronteiras. At\u00e9 os estrangeiros que eram moradores permanentes foram proibidos de voltar para o pa\u00eds.<br \/>\nEu questionei o minist\u00e9rio do Exterior para saber por que os estrangeiros que passaram d\u00e9cadas no Jap\u00e3o, que tinham casas e empresas aqui, eram tratados como turistas.  A resposta foi curta e direta: &#8220;todos eles s\u00e3o estrangeiros&#8221;.<br \/>\nO Jap\u00e3o foi for\u00e7ado a abrir suas portas 150 anos atr\u00e1s. E, at\u00e9 hoje, o pa\u00eds \u00e9 c\u00e9tico e at\u00e9 temeroso sobre o mundo exterior.<br \/>\nEu me lembro de estar sentado no sal\u00e3o de comunit\u00e1rio de uma aldeia na pen\u00ednsula de Boso, no outro lado da ba\u00eda de T\u00f3quio. Fui at\u00e9 l\u00e1 porque o local estava na rela\u00e7\u00e3o de 900 aldeias amea\u00e7adas no Jap\u00e3o.<br \/>\nOs anci\u00e3os reunidos no sal\u00e3o estavam preocupados. Desde os anos 1970, eles vinham vendo os jovens sa\u00edrem para trabalhar nas cidades grandes. Dos 60 habitantes que sobraram, havia apenas um adolescente e nenhuma crian\u00e7a.<br \/>\n&#8220;Quem vai cuidar dos nossos t\u00famulos quando morrermos?&#8221;, lamentava um senhor idoso. Tomar conta dos esp\u00edritos \u00e9 um trabalho s\u00e9rio no Jap\u00e3o.<br \/>\nMas eu nasci no sudeste da Inglaterra e a morte daquela aldeia, para mim, parecia um absurdo. Ela era rodeada de campos de arroz e montanhas cobertas por densas florestas \u2014 cenas dignas de cart\u00f5es-postais. E T\u00f3quio estava a menos de duas horas de carro de dist\u00e2ncia.<br \/>\n&#8220;\u00c9 um lugar t\u00e3o bonito&#8221;, eu disse a eles. &#8220;Com certeza, muitas pessoas adorariam morar aqui. Como voc\u00eas se sentiriam se eu trouxesse minha fam\u00edlia para morar aqui?&#8221;<br \/>\nO ar no sal\u00e3o ficou pesado. Os homens se entreolharam, embara\u00e7ados e em sil\u00eancio. At\u00e9 que um deles pigarreou e disse, com um olhar preocupado no rosto: &#8220;bem, voc\u00eas precisariam aprender nosso modo de vida. N\u00e3o seria f\u00e1cil.&#8221;<br \/>\nA aldeia estava a caminho da extin\u00e7\u00e3o, mas a ideia de que ela pudesse ser invadida por &#8220;gente de fora&#8221; parecia ainda pior.<br \/>\nUm ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o japonesa tem mais de 60 anos de idade. Por isso, o Jap\u00e3o abriga a segunda popula\u00e7\u00e3o mais idosa do mundo, perdendo apenas para o min\u00fasculo principado de M\u00f4naco. O pa\u00eds vem registrando cada vez menos nascimentos e pode perder um quinto da sua popula\u00e7\u00e3o atual at\u00e9 2050.<br \/>\nMesmo assim, a hostilidade \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o n\u00e3o desapareceu. Apenas cerca de 3% dos moradores do Jap\u00e3o nasceram no exterior, em compara\u00e7\u00e3o com 15% no Reino Unido. Na Europa e na Am\u00e9rica do Norte, os movimentos de extrema-direita apontam para o pa\u00eds como um exemplo claro de pureza racial e harmonia social.<br \/>\nMas o Jap\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o etnicamente puro como os seus admiradores podem acreditar. Existem os ainus da ilha de Hokkaido, os nativos de Okinawa no sul, meio milh\u00e3o de coreanos e perto de um milh\u00e3o de chineses. E existem os filhos de casais japoneses em que um dos pais \u00e9 estrangeiro, incluindo meus tr\u00eas filhos.<br \/>\nEssas crian\u00e7as filhas de duas culturas s\u00e3o conhecidas como &#8220;hafu&#8221; \u2014 &#8220;metades&#8221;, um termo pejorativo que, aqui, \u00e9 de uso normal. Elas incluem celebridades e \u00eddolos do esporte, como a estrela do t\u00eanis Naomi Osaka.<br \/>\nA cultura popular os idolatra como &#8220;mais belos e talentosos&#8221;. Mas uma coisa \u00e9 ser idolatrado e outra, bem diferente, \u00e9 ser aceito.<br \/>\nSe voc\u00ea quiser saber o que acontece em um pa\u00eds que rejeita a imigra\u00e7\u00e3o como solu\u00e7\u00e3o para a queda da fertilidade, o Jap\u00e3o \u00e9 um bom lugar para come\u00e7ar. Aqui, os sal\u00e1rios reais n\u00e3o aumentam h\u00e1 30 anos. A renda na Coreia do Sul e em Taiwan alcan\u00e7ou e at\u00e9 superou a do Jap\u00e3o.<br \/>\nMas as mudan\u00e7as ainda parecem distantes \u2014 em parte, devido \u00e0 r\u00edgida hierarquia que determina quem mant\u00e9m as cadeias de poder.<br \/>\nOs antigos ainda governam<br \/>\n&#8220;Veja, existe algo que voc\u00ea precisa entender sobre como funciona o Jap\u00e3o&#8221;, disse-me certa uma vez um eminente acad\u00eamico do pa\u00eds.<br \/>\n&#8220;Em 1868, os samurais entregaram suas espadas, cortaram seus cabelos, passaram a usar roupas ocidentais, marcharam para os minist\u00e9rios em Kasumigaseki [o distrito do governo, no centro de T\u00f3quio] e est\u00e3o por l\u00e1 at\u00e9 hoje&#8221;, contou ele.<br \/>\nEm 1868, temendo a repeti\u00e7\u00e3o do destino chin\u00eas nas m\u00e3os dos imperialistas ocidentais, os reformadores derrubaram a ditadura militar do xogunato Tokugawa e colocaram o Jap\u00e3o no caminho da industrializa\u00e7\u00e3o a todo vapor.<br \/>\nMas a restaura\u00e7\u00e3o da era Meiji, como se sabe, n\u00e3o foi como a queda da Bastilha. Foi um golpe de Estado da elite. E, mesmo ap\u00f3s uma segunda convuls\u00e3o em 1945, as &#8220;grandes&#8221; fam\u00edlias japonesas mantiveram seu poder.<br \/>\nEssa classe governante, predominantemente masculina, \u00e9 definida pelo nacionalismo e pela convic\u00e7\u00e3o de que o Jap\u00e3o \u00e9 especial. Eles n\u00e3o acreditam que o Jap\u00e3o tenha sido o agressor na guerra, mas sim sua v\u00edtima.<br \/>\nPor que mais de quatro em cada 10 jovens japoneses afirmam que ainda s\u00e3o virgens<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\nPara citar um exemplo, o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, assassinado em julho de 2022, era filho de um ministro do Exterior e neto de outro primeiro-ministro, Nobusuke Kishi.<br \/>\nKishi era membro do gabinete na \u00e9poca da Segunda Guerra Mundial e foi preso pelos americanos como suspeito de crimes de guerra. Mas ele escapou da forca e, em meados dos anos 1950, ajudou a fundar o Partido Liberal Democrata (PLD), que governa o Jap\u00e3o at\u00e9 hoje.<br \/>\nAlgumas pessoas brincam que o Jap\u00e3o \u00e9 um Estado de um partido s\u00f3, o que n\u00e3o \u00e9 o caso. Mas \u00e9 razo\u00e1vel perguntar por que o Jap\u00e3o continua a reeleger um partido regido por uma elite poderosa, que deseja descartar o pacifismo imposto pelos Estados Unidos, mas n\u00e3o conseguiu melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida em 30 anos.<br \/>\nEm uma recente elei\u00e7\u00e3o, viajei de carro por um vale estreito cortado nas montanhas a duas horas a oeste de T\u00f3quio. Era uma regi\u00e3o rural, dominada pelo PLD. A economia local depende da fabrica\u00e7\u00e3o de cimento e da energia hidrel\u00e9trica.<br \/>\nEm uma cidade pequena, encontrei um casal de idosos caminhando para o posto de vota\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Vou votar no PLD&#8221;, disse o marido. &#8220;N\u00f3s confiamos neles, eles ir\u00e3o cuidar de n\u00f3s.&#8221; E sua esposa disse &#8220;concordo com meu marido&#8221;.<br \/>\nO casal apontou para o vale, onde havia um t\u00fanel e uma ponte rec\u00e9m-constru\u00eddos. Eles esperam que a obra traga mais turistas de T\u00f3quio para passar o fim de semana no local.<br \/>\nCostuma-se dizer que as bases de apoio do PLD s\u00e3o feitas de concreto. Esta forma de pol\u00edtica clientelista \u00e9 uma raz\u00e3o por que, em grande parte do litoral do Jap\u00e3o, existem tantos blocos de concreto protegendo os rios. \u00c9 porque eles s\u00e3o essenciais para fortalecer essas bases de concreto.<br \/>\nOs redutos rurais s\u00e3o agora fundamentais devido \u00e0 demografia do Jap\u00e3o. Eles deveriam ter se reduzido, \u00e0 medida que milh\u00f5es de jovens se mudavam para as cidades grandes em busca de trabalho, mas n\u00e3o foi o que aconteceu.<br \/>\nPara o PLD, isso \u00e9 bom porque significa que os votos rurais dos idosos contam mais. Quando essa gera\u00e7\u00e3o mais idosa passar, as mudan\u00e7as ser\u00e3o inevit\u00e1veis. Mas n\u00e3o tenho certeza se isso significa que o Jap\u00e3o ir\u00e1 ficar mais aberto ou liberal.<br \/>\nOs jovens japoneses est\u00e3o menos dispostos a se casar ou ter filhos. Mas eles tamb\u00e9m t\u00eam menos inclina\u00e7\u00e3o a aprender idiomas estrangeiros ou estudar no exterior do que seus pais ou av\u00f3s. As mulheres ocupam apenas 13% dos cargos de ger\u00eancia no Jap\u00e3o \u2014 e elas representam menos de 10% do total de parlamentares.<br \/>\nQuando entrevistei a primeira mulher governadora de T\u00f3quio, Yuriko Koike, perguntei a ela como o seu governo planejava combater a discrep\u00e2ncia de g\u00eanero.<br \/>\n&#8220;Tenho duas filhas que logo ir\u00e3o se formar na universidade&#8221;, eu disse a ela. &#8220;Elas s\u00e3o cidad\u00e3s japonesas bil\u00edngues. O que a sra. diria a elas para incentiv\u00e1-las a ficar e fazer suas carreiras aqui?&#8221;<br \/>\n&#8220;Eu diria a elas que, se eu posso ter sucesso aqui, elas tamb\u00e9m podem&#8221;, respondeu Koike. Eu pensei &#8220;\u00e9 s\u00f3 isso que voc\u00ea tem a oferecer?&#8221;<br \/>\nE quanto ao futuro?<br \/>\nVou sentir saudades do Jap\u00e3o, apesar de tudo. O pa\u00eds me inspira enorme afei\u00e7\u00e3o, ao lado dos \u2014 n\u00e3o muito raros \u2014 ataques de irrita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm um dos meus \u00faltimos dias em T\u00f3quio, fui com um grupo de amigos a um mercado de rua de fim de ano. Em uma das bancas, revirei as caixas de belas ferramentas antigas de madeira. A pouca dist\u00e2ncia, um grupo de mulheres jovens vestidas com belos quimonos de seda estava conversando.<br \/>\nAo meio-dia, n\u00f3s entramos em um min\u00fasculo restaurante para comer um &#8220;prato feito&#8221; de cavalinha grelhada, sashimi e sopa de miss\u00f4. A comida, o ambiente acolhedor, o simp\u00e1tico casal de idosos nos servindo \u2014 tudo era t\u00e3o familiar, t\u00e3o confort\u00e1vel.<br \/>\nDepois de uma d\u00e9cada morando aqui, eu me acostumei \u00e0 forma como \u00e9 o Jap\u00e3o e aceitei o fato de que o pa\u00eds n\u00e3o ir\u00e1 mudar t\u00e3o cedo.<br \/>\nSim, eu me preocupo com o futuro. E o futuro do Jap\u00e3o trar\u00e1 li\u00e7\u00f5es para todos n\u00f3s. Na era da intelig\u00eancia artificial, menos trabalhadores podem significar inova\u00e7\u00e3o. Os agricultores idosos podem ser substitu\u00eddos por rob\u00f4s inteligentes. Grande parte do pa\u00eds pode voltar a ser selvagem.<br \/>\nIr\u00e1 o Jap\u00e3o gradualmente cair para a irrelev\u00e2ncia ou conseguir\u00e1 reinventar-se?<br \/>\nMinha cabe\u00e7a diz que, para progredir novamente, o pa\u00eds precisa abra\u00e7ar as mudan\u00e7as. Mas meu cora\u00e7\u00e3o d\u00f3i com a perspectiva de perder tudo aquilo que faz o Jap\u00e3o t\u00e3o especial.<br \/>\nEste texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-64388192<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A chamada d\u00e9cada perdida j\u00e1 se estendeu para tr\u00eas. O que deu errado, questiona Rupert Wingfield-Hayes, correspondente da BBC em T\u00f3quio. 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