{"id":35871,"date":"2023-01-24T11:11:21","date_gmt":"2023-01-24T11:11:21","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/24\/americanas-me-levou-a-falencia-e-agora-temo-nunca-reaver-dinheiro\/"},"modified":"2023-01-24T11:11:21","modified_gmt":"2023-01-24T11:11:21","slug":"americanas-me-levou-a-falencia-e-agora-temo-nunca-reaver-dinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/24\/americanas-me-levou-a-falencia-e-agora-temo-nunca-reaver-dinheiro\/","title":{"rendered":"&#8216;Americanas me levou \u00e0 fal\u00eancia e agora temo nunca reaver dinheiro&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/qpwuTQyT7N0Bfdkr9qMLODpHhuk=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/3\/Z\/B1gCG1QkmYIrSuNc5WCA\/thumbnail-image001.jpg\"><br \/>   Com recupera\u00e7\u00e3o judicial da varejista, Moacir de Almeida Reis \u00e9 um dos pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios brasileiros que temem nunca receber o que avaliam que Americanas lhes deve. Americanas nega d\u00edvida com a transportadora Forte Minas. Com recupera\u00e7\u00e3o judicial da varejista, Moacir de Almeida Reis \u00e9 um dos pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios brasileiros que temem nunca receber o que avaliam que Americanas lhes deve. Americanas nega d\u00edvida com a transportadora Forte Minas<br \/>\nArquivo Pessoal<br \/>\nA not\u00edcia da entrada em recupera\u00e7\u00e3o judicial da Americanas na quinta-feira (19) foi recebida com pesar num s\u00edtio em Bonfim, cidade mineira a cerca de duas horas de Belo Horizonte.<br \/>\nAli mora Moacir de Almeida Reis, de 62 anos, casado e pai de tr\u00eas filhos. Moacir mudou para o s\u00edtio por n\u00e3o conseguir mais se manter em Belo Horizonte.<br \/>\nEle atualmente dirige um carro emprestado do filho, vende queijos e leite que compra dos s\u00edtios vizinhos e tenta administrar com a esposa uma pequena lanchonete na capital mineira. No local, n\u00e3o h\u00e1 funcion\u00e1rios, pois n\u00e3o h\u00e1 dinheiro para contratar ningu\u00e9m. Para fechar as contas do m\u00eas, Moacir e sua esposa contam com a ajuda dos filhos.<br \/>\nMas nem sempre a vida de Moacir foi assim. At\u00e9 2021, ele era o dono, com outros dois s\u00f3cios, da Forte Minas Log\u00edstica e Transporte, empresa respons\u00e1vel pelas entregas da Americanas no interior de Minas Gerais.<br \/>\nDiversas vezes no topo do ranking de excel\u00eancia da Direct \u2014 bra\u00e7o log\u00edstico da Americanas, adquirida em 2014 da Tegma Gest\u00e3o e Log\u00edstica \u2014, a Forte Minas chegou a ter 29 filiais em Minas Gerais e expandiu sua atua\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para o Esp\u00edrito Santo.<br \/>\nNo auge, a empresa faturava cerca de R$ 50 milh\u00f5es por ano, segundo os s\u00f3cios, e empregava diretamente 350 funcion\u00e1rios em Minas e outros 200 no Estado vizinho, contando ainda com uma rede de 700 a 800 &#8220;agregados&#8221;, como eram chamados na companhia os trabalhadores terceirizados propriet\u00e1rios dos ve\u00edculos e prestadores do servi\u00e7o de entrega.<br \/>\nMoacir e seus s\u00f3cios Jo\u00e3o Wanderlay de Oliveira J\u00fanior e Carlos Henrique de Souza viram tudo isso ruir de um dia para o outro, ap\u00f3s, de acordo com eles, a Americanas romper repentinamente o contrato com a Forte Minas. Segundo os s\u00f3cios, o rompimento foi feito de forma unilateral e sem aviso pr\u00e9vio pela Americanas, embora o contrato entre as empresas \u2014 ao qual a BBC News Brasil teve acesso \u2014 estabelecesse um prazo de 30 dias de aviso.<br \/>\nCom 85% de sua receita ent\u00e3o dependente do grupo Americanas e, segundo o relato dos s\u00f3cios, R$ 7 milh\u00f5es em servi\u00e7os prestados e n\u00e3o pagos pela empresa de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, a Forte Minas entrou numa espiral de d\u00edvidas que j\u00e1 chegam a R$ 18 milh\u00f5es, de acordo com os empres\u00e1rios. A Americanas nega d\u00edvida com a transportadora Forte Minas.<br \/>\nSem dinheiro sequer para pagar os direitos trabalhistas dos ex-funcion\u00e1rios ou processar a Americanas pelos valores aos quais avaliam ter direito, os s\u00f3cios se veem atualmente afundados em cobran\u00e7as e processos judiciais. Perderam o sustento de suas fam\u00edlias, bens pessoais e a sa\u00fade \u2014 Moacir sofreu um infarto, Carlos enfrenta uma depress\u00e3o severa.<br \/>\nAgora, com a entrada da Americanas em recupera\u00e7\u00e3o judicial ap\u00f3s a revela\u00e7\u00e3o de uma inconsist\u00eancia de R$ 20 bilh\u00f5es no balan\u00e7o da empresa, eles temem talvez nunca reaver o dinheiro que acreditam que a varejista lhes deve.<br \/>\n As fam\u00edlias de Moacir, Jo\u00e3o e Carlos s\u00e3o tr\u00eas de milhares de fam\u00edlias brasileiras afetadas pelo colapso financeiro da rede de lojas e e-commerce.<br \/>\nCriada em 1929 como uma lojinha de rua, a Americanas hoje emprega 44 mil funcion\u00e1rios e vende produtos de 150 mil lojistas em seu market place virtual, contando com uma rede de milhares de fornecedores, como foi um dia a Forte Minas.<br \/>\nQuestionada pela BBC News Brasil, a Americanas afirma que se considera um credor do Grupo Forte Minas\/Forte Vix, e n\u00e3o devedor, como alegado. &#8220;A companhia instaurou, em 2021, processo para cobrar os valores que entende devidos pela empresa de transporte&#8221;, informou a Americanas em nota.<br \/>\nA Americanas optou ainda por n\u00e3o comentar a alega\u00e7\u00e3o de que teria desrespeitado o contrato com a Forte Minas, ao supostamente romp\u00ea-lo de forma unilateral e sem o aviso pr\u00e9vio de 30 dias estabelecido em cl\u00e1usula contratual.<br \/>\n&#8216;Acabou&#8217;<br \/>\n&#8220;Eu lembro no dia que ele me contou da fal\u00eancia. A gente estava junto e ele falou: &#8216;Acabou&#8217; e come\u00e7ou a chorar&#8221;, lembra Bernardo Garcia, de 31 anos e filho de Moacir. &#8220;Eu n\u00e3o entendi na hora como que do nada [uma empresa acaba] \u2014 no dia anterior estava tudo bem.&#8221;<br \/>\nBernardo lembra que seu pai ficou muito abatido nos meses posteriores \u00e0 fal\u00eancia, perdeu 30 quilos e infartou cerca de 3 ou 4 meses depois desse dia fat\u00eddico, durante uma viagem de trabalho para fechar uma das filiais, ap\u00f3s a ru\u00edna financeira da empresa.<br \/>\n&#8216;Na UTI, com ele muito fragilizado mentalmente e o s\u00f3cio dele em condi\u00e7\u00e3o ainda pior, com crises de p\u00e2nico, eu dizia para o meu pai: &#8216;Pai, a gente vai fazer alguma coisa, vamos conseguir alguma justi\u00e7a&#8217;, diz Bernardo, filho de Moacir<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\n&#8220;O susto foi muito grande. Na UTI, com ele muito fragilizado mentalmente e o s\u00f3cio dele em condi\u00e7\u00e3o ainda pior, com crises de p\u00e2nico, eu dizia para o meu pai: &#8216;Pai, a gente vai fazer alguma coisa, vamos conseguir alguma justi\u00e7a para isso'&#8221;, lembra Bernardo.<br \/>\nMas, por dois anos, Bernardo ouviu do pai que era melhor deixar para l\u00e1, que tentar tomar alguma a\u00e7\u00e3o contra a Americanas seria &#8220;mexer com cachorro grande&#8221; e n\u00e3o daria em nada.<br \/>\n&#8220;Para voc\u00ea ter uma no\u00e7\u00e3o da gravidade da situa\u00e7\u00e3o da nossa fam\u00edlia e como aquilo me do\u00eda, teve um dia que minha m\u00e3e comprou um amendoim de R$ 6 e ela chorou porque naquele dia ela teve dinheiro para comprar isso&#8221;, afirma.<br \/>\n&#8220;Mas o ponto de virada para mim foi que meus pais j\u00e1 n\u00e3o tinham carro pr\u00f3prio, nem casa pr\u00f3pria, e eles usavam uma picapezinha que era da empresa para fazer o caminho entre a ro\u00e7a e BH, trajeto que ele faz agora vendendo leite e queijo. E a\u00ed nesse trajeto, o carro parou na blitz e foi apreendido, por conta de processo trabalhista. Eles ficaram na estrada, chorando muito e se sentindo completamente humilhados&#8221;, relata o filho do casal.<br \/>\n&#8220;Minha m\u00e3e pegou o telefone, chorando, e falou para mim: &#8216;Olha onde a gente est\u00e1, olha o que essa empresa fez com a gente&#8217;. Aquilo me doeu demais e foi quando eu decidi que essa hist\u00f3ria precisava ser contada.&#8221;<br \/>\n A parceria entre Forte Minas e Americanas<br \/>\nSegundo Moacir de Almeida Reis, ent\u00e3o diretor de opera\u00e7\u00f5es da Forte Minas, a empresa foi criada em 2015, com o prop\u00f3sito de atender o interior de Minas Gerais, uma regi\u00e3o com quase 15 milh\u00f5es de habitantes, mas carente de transportadoras.<br \/>\nO foco da empresa era a entrega de pequenos volumes do varejo virtual, que podiam ser feitas por uma pessoa s\u00f3, utilizando ve\u00edculos pequenos, como uma Fiorino ou uma van.<br \/>\nOs s\u00f3cios Carlos (\u00e0 frente) e Moacir com gerentes de filial, vestindo camisas da Direct, empresa do grupo Americanas<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\nA Direct, empresa de servi\u00e7os log\u00edsticos para cargas e encomendas expressas do grupo Americanas, entrou na carteira de clientes em 2016, lembra Moacir.<br \/>\nA Forte Minas come\u00e7ou realizando entregas para a Direct no centro-oeste mineiro. Com os bons resultados apresentados, a parceria foi estendida para a Zona da Mata, no sudeste do Estado, depois para o Vale do A\u00e7o e o Tri\u00e2ngulo Mineiro.<br \/>\n&#8220;Fomos expandindo, at\u00e9 fechar todo o Estado de Minas Gerais, sempre dando esse passo em fun\u00e7\u00e3o do cliente&#8221;, lembra o empres\u00e1rio. &#8220;Depois fomos convidados por eles tamb\u00e9m para assumir o Esp\u00edrito Santo. Ficamos l\u00e1 um ano e depois tudo ocorreu&#8230;&#8221;<br \/>\nRumores de mercado<br \/>\nCom a empresa faturando \u00e0 \u00e9poca cerca de R$ 4 milh\u00f5es por m\u00eas e crescendo 30% ao ano, segundo relata Jo\u00e3o Wanderlay de Oliveira Jr., ent\u00e3o diretor comercial da Forte Minas, os s\u00f3cios n\u00e3o davam import\u00e2ncia a rumores de mercado de que a Americanas n\u00e3o teria sido leal com outras empresas do setor.<br \/>\nEm 2012, por exemplo, a Ramos Transportes, do empres\u00e1rio Marcelo Ramos, entrou em recupera\u00e7\u00e3o judicial com uma d\u00edvida de R$ 115 milh\u00f5es, ap\u00f3s a B2W \u2014 ent\u00e3o controladora das marcas Americanas.com, Shoptime e Submarino \u2014, maior cliente da empresa, rescindir o contrato entre as partes.<br \/>\nEm 2012, a Ramos Transportes entrou em recupera\u00e7\u00e3o judicial com uma d\u00edvida de R$ 115 milh\u00f5es, ap\u00f3s a B2W \u2014 ent\u00e3o controladora das marcas Americanas.com, Shoptime e Submarino \u2014, rescindir o contrato entre as partes<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<br \/>\nCom a decis\u00e3o da Americanas, a Ramos Transportes \u2014 fundada em 1938 e ent\u00e3o h\u00e1 mais de 70 anos no mercado \u2014 demitiu em um m\u00eas 1,6 mil de seus 5,1 mil funcion\u00e1rios \u00e0 \u00e9poca, encerrando opera\u00e7\u00f5es no norte e sul de Minas, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo.<br \/>\nO enxugamento, no entanto, n\u00e3o foi suficiente para sanear as contas da empresa, que enfrentou problemas operacionais, gerando transtornos e preju\u00edzos a clientes, conforme noticiado pela ag\u00eancia Transporta Brasil e pelo jornal Estado de Minas \u00e0 \u00e9poca.<br \/>\nA BBC News Brasil tentou contato com o empres\u00e1rio Marcelo Ramos da Ramos Transportes, sem sucesso.<br \/>\n&#8220;N\u00f3s conhec\u00edamos essas hist\u00f3rias, mas nossa rela\u00e7\u00e3o com a Direct sempre foi muito boa. Inclusive ela lan\u00e7ou um plano de premia\u00e7\u00e3o por melhores entregas e nossas filiais todos os anos estavam entre os dez primeiros lugares&#8221;, conta Moacir.<br \/>\nUm dos certifcados de excel\u00eancia recebido pela Forte Minas da Direct, ao longo dos anos de boas rela\u00e7\u00f5es entre as empresas<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\nA virada na rela\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8220;A virada nessa rela\u00e7\u00e3o aconteceu em 2020&#8221;, lembra o empres\u00e1rio. Naquele momento, a empresa operava h\u00e1 cerca de tr\u00eas anos sem reajuste de contrato. Os s\u00f3cios ent\u00e3o pleitearam um reajuste de 13% e conseguiram ao fim 8% de aumento, relatam.<br \/>\nO contrato com os novos valores chegou a ser assinado entre as partes mas, antes de passar a viger, houve uma mudan\u00e7a na administra\u00e7\u00e3o da Direct e, em vez do aumento de 8% acordado, a Forte Minas teria recebido um corte de 5% na sua remunera\u00e7\u00e3o. A BBC News Brasil n\u00e3o p\u00f4de checar de forma independente esta informa\u00e7\u00e3o relatada pelos s\u00f3cios da Forte Minas.<br \/>\nQuestionado sobre por que aceitaram a redu\u00e7\u00e3o de valores, Moacir conta que a Americanas ent\u00e3o representava parcela grande demais do faturamento da empresa, para que ela pudesse simplesmente romper o contrato.<br \/>\n&#8220;Ela ent\u00e3o representava 85% a 90% da nossa receita, era dif\u00edcil tomar uma decis\u00e3o de interromper o servi\u00e7o e n\u00e3o trabalhar mais para eles, porque t\u00ednhamos mais de 300 funcion\u00e1rios, 600 e tantos agregados e toda uma estrutura&#8221;, conta Moacir.<br \/>\nEle destaca que, a essa altura, a empresa havia sido estimulada pela Americanas a assumir a entrega de linha branca (geladeiras, fog\u00f5es, etc) na sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o, o que elevou o custo mensal com aluguel de galp\u00f5es da Forte Minas de cerca de R$ 38 mil para R$ 800 mil. Assim, desfazer esses contratos de aluguel e demitir os funcion\u00e1rios teria custos proibitivos.<br \/>\nArmaz\u00e9m da Forte Minas em Curvelo (MG)<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\n&#8220;Ent\u00e3o, mesmo com o caixa da empresa apertado, decidimos aceitar [o corte de remunera\u00e7\u00e3o de 5%] e refor\u00e7ar nosso comercial, para tentar compensar essa perda com novos clientes.&#8221;<br \/>\nNo meio dessa situa\u00e7\u00e3o apertada, foi quando Jo\u00e3o entrou para a sociedade, comprando uma fatia de 20% do neg\u00f3cio. Ao assumir a diretoria comercial, Jo\u00e3o trouxe novos clientes e um desses novos grandes clientes comunicou o interesse em comprar a empresa.<br \/>\nComo o contrato com a Americanas dava a ela prefer\u00eancia para uma eventual aquisi\u00e7\u00e3o, os s\u00f3cios comunicaram a ela a conversa em curso com a concorrente. A Americanas ent\u00e3o teria demonstrado interesse na aquisi\u00e7\u00e3o, segundo o relato dos s\u00f3cios.<br \/>\n&#8220;Eles foram empurrando essa conversa at\u00e9 o dia 29 de janeiro de 2021. Naquele dia, eles me ligaram umas 20h e falaram: &#8216;A partir de amanh\u00e3, a Americanas n\u00e3o trabalha mais com a Forte Minas. Estamos retirando todas as cargas de voc\u00eas'&#8221;, conta Jo\u00e3o.<br \/>\nMercadorias saqueadas e fal\u00eancia<br \/>\nSegundo Jo\u00e3o, sem respeitar o aviso pr\u00e9vio de 30 dias, no dia seguinte, a Americanas direcionou caminh\u00f5es aos armaz\u00e9ns da Forte Minas para retirada de mercadorias.<br \/>\n&#8220;Foi uma debandada geral nas 29 filiais, os agregados ligando para colegas que estavam com carga e mandando n\u00e3o entregar porque a empresa quebrou. E come\u00e7aram a saquear nossos galp\u00f5es, n\u00e3o deixando carregar os caminh\u00f5es da Direct. Os gerentes e funcion\u00e1rios nos galp\u00f5es perderam o dom\u00ednio da situa\u00e7\u00e3o e eles tamb\u00e9m se sentiam tra\u00eddos pela companhia&#8221;, diz Jo\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Tivemos muita mercadoria saqueada devido a essa falta de aviso pr\u00e9vio e hoje a Americanas nos cobra a conta disso&#8221;, afirma o diretor comercial.<br \/>\nEm meio a esse t\u00e9rmino ruidoso, a empresa tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiu arcar com os direitos dos trabalhadores desligados e agora enfrenta um mar de processos trabalhistas.<br \/>\n&#8220;Ficamos sem recurso nenhum. Tentamos continuar at\u00e9 julho, colocando na empresa todos os nossos recursos pessoais. N\u00e3o tivemos dinheiro nem para entrar em recupera\u00e7\u00e3o judicial&#8221;, diz Jo\u00e3o, que estima que a Americanas encerrou o contrato devendo R$ 7 milh\u00f5es em servi\u00e7os realizados e n\u00e3o pagos \u2014 o que a Americanas nega.<br \/>\n&#8220;Eu tenho 35 anos no mercado de transportes e hoje n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de sair na rua nem para procurar emprego. Todos os dias tenho no m\u00ednimo dez liga\u00e7\u00f5es de cobran\u00e7a e um oficial de justi\u00e7a batendo na porta. Minha vida, que sempre foi muito tranquila, virou um inferno&#8221;, conta o executivo.<br \/>\n&#8220;Quando penso no rombo da Americanas e que os tr\u00eas acionistas da empresa s\u00e3o alguns dos homens mais ricos do Brasil, e eu n\u00e3o consigo pagar a faculdade dos meus filhos e trazer comida para dentro de casa, sinto que fui feito de trouxa.&#8221;<br \/>\n&#8216;Quando penso no rombo da Americanas e que os tr\u00eas acionistas da empresa s\u00e3o alguns dos homens mais ricos do Brasil, e eu n\u00e3o consigo pagar a faculdade dos meus filhos e trazer comida para dentro de casa, sinto que fui feito de trouxa&#8217;, diz Jo\u00e3o, um dos s\u00f3cios da Forte Minas<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\nUm hist\u00f3rico de rela\u00e7\u00f5es agressivas com fornecedores<br \/>\nO caso da Forte Minas n\u00e3o \u00e9 isolado. A Americanas tem um hist\u00f3rico de ser muito &#8220;agressiva&#8221; em suas negocia\u00e7\u00f5es com fornecedores, afirma Andr\u00e9 Pimentel, s\u00f3cio da consultoria Performa Partners, que trabalhou na reestrutura\u00e7\u00e3o da Americanas no fim dos anos 1990, quando estava na Galeazzi &#038; Associados. Antes disso, Pimentel atuou na PwC, atual auditoria da Americanas.<br \/>\n&#8220;O jogo de neg\u00f3cios \u2014 principalmente no varejo, que \u00e9 um setor de margens muito apertadas \u2014 n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para ningu\u00e9m. Toda varejista procura maximizar a efici\u00eancia de sua opera\u00e7\u00e3o e uma das formas \u00e9 negociar com os fornecedores melhores condi\u00e7\u00f5es&#8221;, diz Pimentel.<br \/>\n&#8220;Mas quanto maior o varejista e menor o fornecedor, a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as traz um desequil\u00edbrio \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es e, algumas vezes, esses fornecedores se veem obrigados a aceitar determinadas condi\u00e7\u00f5es que acabam sendo muito duras para eles&#8221;, acrescenta.<br \/>\n&#8220;A Americana, historicamente, j\u00e1 de muitos anos, traz essa cultura de apertar fornecedores para maximizar a rentabilidade&#8221;, observa o consultor, acrescentando que essa \u00e9 uma caracter\u00edstica das companhias administradas pelo 3G Capital, empresa de investimentos de Lemann, Telles e Sicupira.<br \/>\nCarlos Alberto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Herrmann Telles, s\u00f3cios da 3G Capital, principais acionistas da Americanas<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o<br \/>\nPor exemplo, enquanto o mercado pratica prazos de 30 a 90 dias para pagamento aos fornecedores, a Americanas chegava a 120, 180 dias para pagamento, cita o especialista.<br \/>\nFoi justamente nessa rela\u00e7\u00e3o com os fornecedores que surgiu o rombo bilion\u00e1rio de R$ 20 bilh\u00f5es no balan\u00e7o da empresa. Numa opera\u00e7\u00e3o financeira conhecida como &#8220;risco sacado&#8221;, bancos pagavam os fornecedores e a Americanas conseguia um prazo maior para pagar ao banco, com juros.<br \/>\nO problema \u00e9 que essa d\u00edvida banc\u00e1ria n\u00e3o foi corretamente registrada no balan\u00e7o, que durante anos mostrou uma d\u00edvida total menor e lucro e patrim\u00f4nio l\u00edquido maiores do que a realidade. Quando isso veio \u00e0 tona, as a\u00e7\u00f5es da empresa derreteram na bolsa de valores e as disponibilidades de caixa diminu\u00edram fortemente, levando a Americanas \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o judicial.<br \/>\n&#8220;Infelizmente, a Americanas nunca respeitou muito [seus fornecedores]. Ela sempre passou muito da linha da negocia\u00e7\u00e3o justa. Hoje em dia se fala muito em rela\u00e7\u00f5es abusivas e o que ela fazia era quase uma rela\u00e7\u00e3o abusiva entre empresas&#8221;, opina o consultor.<br \/>\nSitua\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de ser resolvida<br \/>\nCarlos Deneszczuk, s\u00f3cio da Dasa Advogados e especialista em recupera\u00e7\u00e3o judicial e reestrutura\u00e7\u00e3o de empresas, avalia que a situa\u00e7\u00e3o dos s\u00f3cios da Forte Minas \u00e9 dif\u00edcil de ser resolvida. Ele explica que, num processo de recupera\u00e7\u00e3o judicial, h\u00e1 quatro classes de credores.<br \/>\nA primeira s\u00e3o os trabalhistas.<br \/>\nA segunda, credores com garantia (aqueles com d\u00edvidas garantidas por im\u00f3veis ou bens m\u00f3veis, como m\u00e1quinas, equipamentos e estoques).<br \/>\nNa classe tr\u00eas, entram os credores quirografados: bancos e fornecedores.<br \/>\nPor fim, na classe quatro, entram os pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios.<br \/>\n&#8216;Provavelmente, ser\u00e3o anos para os credores [da Americanas] receberem&#8217;, diz advogado especialista em recupera\u00e7\u00e3o judicial<br \/>\nReuters<br \/>\nPara receber os valores que acreditam ter direito, diz Deneszczuk, os s\u00f3cios da Forte Minas precisariam mover a\u00e7\u00e3o judicial para ter a d\u00edvida reconhecida em senten\u00e7a. S\u00f3 assim eles entrariam em uma das \u00faltimas classes de credores.<br \/>\n&#8220;Provavelmente, ser\u00e3o anos para os credores receberem, ou a d\u00edvida ser\u00e1 convertida em a\u00e7\u00f5es da companhia, a depender do que for negociado. E certamente essa d\u00edvida ter\u00e1 um des\u00e1gio, porque \u00e9 muito grande para o tamanho da empresa&#8221;, diz o advogado, avaliando que o caminho para os credores ser\u00e1 longo.<br \/>\nBernardo, o filho de Moacir, afirma que, apesar do drama vivido por sua fam\u00edlia, torce pela recupera\u00e7\u00e3o da Americanas.<br \/>\n&#8220;A not\u00edcia da recupera\u00e7\u00e3o judicial tocou muito meus pais. Eles ficaram muito afetados e ainda mais inseguros, pois vai prejudicar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o de todos os credores se essa empresa vir \u00e0 fal\u00eancia&#8221;, diz o jovem.<br \/>\n&#8220;Ent\u00e3o eu tor\u00e7o pela recupera\u00e7\u00e3o e por uma conscientiza\u00e7\u00e3o. Essa recupera\u00e7\u00e3o da Americanas tem que vir necessariamente com uma tomada de consci\u00eancia sobre a forma com que acontecem as rela\u00e7\u00f5es capitalistas.&#8221;<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-64380982<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com recupera\u00e7\u00e3o judicial da varejista, Moacir de Almeida Reis \u00e9 um dos pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios brasileiros que temem nunca receber o que avaliam que Americanas lhes deve. Americanas nega d\u00edvida com a transportadora Forte Minas. 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