{"id":35765,"date":"2023-01-23T21:12:00","date_gmt":"2023-01-23T21:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/23\/como-china-superou-brasil-e-virou-grande-produtora-de-peixes-amazonicos\/"},"modified":"2023-01-23T21:12:00","modified_gmt":"2023-01-23T21:12:00","slug":"como-china-superou-brasil-e-virou-grande-produtora-de-peixes-amazonicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/23\/como-china-superou-brasil-e-virou-grande-produtora-de-peixes-amazonicos\/","title":{"rendered":"Como China superou Brasil e virou grande produtora de peixes amaz\u00f4nicos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/7tdAKy6_HK6MUocuTbII_Ogm3bA=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/r\/B\/Qh3S7hTSevgGCybXO3kQ\/peixes-amazonia-venda-china-bbc.png\"><br \/>   Esp\u00e9cies como a pirapitinga s\u00e3o cultivadas no pa\u00eds asi\u00e1tico numa escala superior ao observado no pa\u00eds de origem delas. Peixes ornamentais t\u00edpicos dos rios da regi\u00e3o tamb\u00e9m ganharam varia\u00e7\u00f5es e caracter\u00edsticas que n\u00e3o s\u00e3o observadas na natureza. Peixes como o tambaqui s\u00e3o criados hoje na China e em outros pa\u00edses do continente asi\u00e1tico<br \/>\nGetty Images<\/p>\n<p>Uma r\u00e1pida pesquisa no site de com\u00e9rcio online chin\u00eas AliBaba permite encontrar algumas ofertas de &#8220;red pacu&#8221;, um peixe cinza de barriga vermelha, vendido por US$ 0,80 a 1,23 (R$ 4,35 a 6,68) o quilo.<br \/>\nO tal &#8220;red pacu&#8221; nada mais \u00e9 que a pirapitinga, um peixe t\u00edpico da regi\u00e3o amaz\u00f4nica e da bacia dos rios Araguaia-Tocantins.<br \/>\n Os dados oficiais da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO) revelam que a China \u00e9 hoje a maior fonte deste peixe no mundo.<br \/>\nEm 2020, foram produzidas 59,4 mil toneladas de pirapitinga no pa\u00eds asi\u00e1tico. Na sequ\u00eancia, aparecem Col\u00f4mbia (33 mil toneladas), Vietn\u00e3 (23 mil), Peru (2,1 mil) e Brasil (1,8 mil) \u2014 vale destacar que esse peixe n\u00e3o \u00e9 muito apreciado entre os habitantes da regi\u00e3o amaz\u00f4nica brasileira, que preferem outras op\u00e7\u00f5es locais, como o tambaqui, o matrinx\u00e3 e o jaraqui, sobre os quais falaremos mais adiante.<br \/>\nAl\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o de pescados para consumo humano, a China e outras na\u00e7\u00f5es asi\u00e1ticas viraram refer\u00eancia na cria\u00e7\u00e3o de peixes ornamentais amaz\u00f4nicos. Hoje, h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es de uma esp\u00e9cie chamada acar\u00e1-disco que s\u00f3 s\u00e3o encontradas neste continente, segundo pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil.<br \/>\nMas como esses peixes, nativos de Amaz\u00f4nia e adjac\u00eancias, foram parar do outro lado do mundo? Por tr\u00e1s dessa verdadeira saga, existem lendas, hist\u00f3rias de coopera\u00e7\u00e3o e investimento pesado em ci\u00eancia de ponta.<br \/>\nLEIA MAIS:<br \/>\nSaiba como \u00e9 o processo de cria\u00e7\u00e3o e venda de til\u00e1pias no Brasil<br \/>\nEntenda por que o pirarucu, peixe nativo da Amaz\u00f4nia, \u00e9 um perigo para os rios de SP<br \/>\nDe onde vem o que eu como: til\u00e1pia<br \/>\nDa Amaz\u00f4nia para a \u00c1sia<br \/>\nDiz a lenda que, antes da Rio-92, a hist\u00f3rica confer\u00eancia do clima realizada no Rio de Janeiro, o primeiro-ministro chin\u00eas Li Peng teria viajado para Manaus, onde se reuniu com o ent\u00e3o governador do Estado do Amazonas, Gilberto Mestrinho (MDB).<br \/>\nDurante o encontro, o emiss\u00e1rio da China recebeu de presente casais vivos de tambaquis, que foram levados de volta ao pa\u00eds asi\u00e1tico \u2014 e teriam dado in\u00edcio ao interesse pelas esp\u00e9cies aqu\u00e1ticas amaz\u00f4nicas por l\u00e1.<br \/>\nO fato \u00e9 que existem poucas evid\u00eancias ou registros oficiais dessa reuni\u00e3o entre emiss\u00e1rios chineses e amazonenses, e os principais nomes supostamente envolvidos no epis\u00f3dio (Li Peng e Gilberto Mestrinho) j\u00e1 morreram.<br \/>\nA BBC News Brasil entrou em contato com o Governo do Estado do Amazonas e com a Embaixada da China no pa\u00eds para confirmar ou descartar o tal epis\u00f3dio de 1992, mas n\u00e3o foram enviadas respostas at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<br \/>\nOs especialistas em piscicultura consideram que \u00e9 muito mais prov\u00e1vel que essa introdu\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies amaz\u00f4nicas em outros pa\u00edses tenha acontecido aos poucos e por meio de v\u00e1rias fontes diferentes.<br \/>\nFrancisco Medeiros, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), lembra de um conv\u00eanio firmado nos anos 1980 entre Brasil e China.<br \/>\n&#8220;Houve uma troca, em que nosso pa\u00eds recebeu carpas e tecnologias para a produ\u00e7\u00e3o desses peixes e, em troca, ofereceu materiais sobre algumas esp\u00e9cies nativas&#8221;, diz. &#8220;E cada parte aproveitou as informa\u00e7\u00f5es do jeito que quis.&#8221;<br \/>\nHoje em dia, a China produz mais pirapitinga que o Brasil<br \/>\nGetty Images<br \/>\nUm artigo publicado em 2018 destaca que o tambaqui e esp\u00e9cies h\u00edbridas j\u00e1 foram observadas em diversos pa\u00edses onde eles n\u00e3o s\u00e3o nativos, como Estados Unidos, China, Indon\u00e9sia, Myanmar, Vietn\u00e3, Tail\u00e2ndia e Singapura.<br \/>\nAinda segundo os autores, essa introdu\u00e7\u00e3o aconteceu de forma acidental ou deliberada, com o objetivo de iniciar cria\u00e7\u00f5es desses peixes em outros lugares.<br \/>\nOutra poss\u00edvel fonte do espalhamento \u00e9 o aquarismo, a pr\u00e1tica de manter esp\u00e9cies aqu\u00e1ticas em tanques para decora\u00e7\u00e3o e aprecia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUm estudo de 2011 feito na Universidade de Zagreb, na Cro\u00e1cia, tentou desvendar como duas pirapitingas foram parar em rios da Europa Central.<br \/>\nA principal hip\u00f3tese levantada \u00e9 a de que aquaristas jogaram por algum motivo esses seres em reservat\u00f3rios de \u00e1gua locais, que reuniam as condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para que eles pudessem sobreviver e se reproduzir.<br \/>\nQue fique claro: essa troca de esp\u00e9cies entre pa\u00edses era bem menos regulada h\u00e1 tr\u00eas ou quatro d\u00e9cadas. S\u00f3 mais recentemente que surgiram leis r\u00edgidas que impedem ou dificultam a sa\u00edda e a entrada de vegetais, animais, fungos e outros seres vivos entre fronteiras.<br \/>\n&#8220;\u00c9 s\u00f3 lembrar que a soja, um dos principais produtos de exporta\u00e7\u00e3o do Brasil nas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u00e9 origin\u00e1ria da China&#8221;, ilustra Medeiros.<br \/>\n&#8220;Ou seja, falamos de um processo legal. A diferen\u00e7a, no caso dos peixes, \u00e9 que a China resolveu transform\u00e1-los num produto comercial e ganhar dinheiro com isso.&#8221;<br \/>\nO bi\u00f3logo que tentou revelar segredos da ind\u00fastria pesqueira e desapareceu no oceano<br \/>\nComo aumento da temperatura pode matar peixes e causar fome na Amaz\u00f4nia<br \/>\nMais beleza nos aqu\u00e1rios<br \/>\nAl\u00e9m das esp\u00e9cies criadas para consumo (como o tambaqui e a pirapitinga), tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o o que aconteceu com os peixes ornamentais amaz\u00f4nicos.<br \/>\n&#8220;O acar\u00e1-disco, nativo da Amaz\u00f4nia, \u00e9 vendido no exterior com novas colora\u00e7\u00f5es e caracter\u00edsticas que n\u00e3o existem no pr\u00f3prio Brasil&#8221;, aponta Giovanni Vitti Moro, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura.<br \/>\nEssas novas linhagens da esp\u00e9cie foram desenvolvidas a partir de cruzamentos ou pela sele\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas desejadas por meio da manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e s\u00e3o apreciados por aquaristas do mundo inteiro.<br \/>\n&#8220;Hoje em dia, n\u00f3s temos que importar essas matrizes diferentes do acar\u00e1 de China, \u00cdndia e Tail\u00e2ndia&#8221;, complementa Moro.<br \/>\nO bi\u00f3logo Adalberto Luis Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia, aponta que o Brasil tamb\u00e9m est\u00e1 ficando para tr\u00e1s nesse mercado do aquarismo.<br \/>\nIsso porque os produtores locais ainda dependem do extrativismo, que se baseia em coletar esses peixes diretamente na natureza, em vez de cri\u00e1-los e reproduzi-los em tanques.<br \/>\n&#8220;N\u00f3s precisamos desenvolver tecnologias para a produ\u00e7\u00e3o desses animais em cativeiro. A China j\u00e1 faz isso, e o mercado de aquarismo sinalizou que, entre 2025 e 2030, vai reduzir aos poucos a importa\u00e7\u00e3o de peixes ornamentais oriundos do extrativismo&#8221;, conta o pesquisador e professor.<br \/>\n&#8220;Isso porque, de cada dez peixes que s\u00e3o coletados do ambiente natural para exporta\u00e7\u00e3o, nove morrem no caminho.&#8221;<br \/>\nNativo da Amaz\u00f4nia, o acar\u00e1-disco ganhou varia\u00e7\u00f5es na \u00c1sia<br \/>\nGetty Images<br \/>\nO que dizem os n\u00fameros<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que a China \u00e9 de longe a l\u00edder global no mercado de pescados. Segundo os registros da FAO, o pa\u00eds asi\u00e1tico produziu 83,9 milh\u00f5es de toneladas m\u00e9tricas de peixe com captura e aquicultura s\u00f3 em 2020.<br \/>\nPara se ter uma ideia, o segundo lugar \u00e9 da Indon\u00e9sia, com 21,8 milh\u00f5es, um valor quase quatro vezes menor. Na sequ\u00eancia, aparecem \u00cdndia (14 milh\u00f5es), Vietn\u00e3 (8 milh\u00f5es) e Peru (5,8 milh\u00f5es).<br \/>\nDentro desse cen\u00e1rio, os peixes amaz\u00f4nicos ainda representam uma fatia muito pequena, quase insignificante, do mercado piscicultor chin\u00eas.<br \/>\n&#8220;Por l\u00e1, a pirapitinga atende a alguns nichos espec\u00edficos. Ela \u00e9 vendida pequena, grande, inteira, em fil\u00e9\u2026 Conforme o tamanho, o pre\u00e7o muda&#8221;, descreve Moro.<br \/>\nMedeiros acrescenta que &#8220;a China v\u00ea a pirapitinga como um produto de combate, vendido para p\u00fablicos com baixo poder aquisitivo de \u00c1frica e \u00cdndia&#8221;. &#8220;O pre\u00e7o \u00e9 menor, mas eles ganham no volume&#8221;, diz.<br \/>\nE o Brasil?<br \/>\nApesar de possuir uma costa litor\u00e2nea extensa e a maior quantidade de recursos h\u00eddricos do planeta, o pa\u00eds est\u00e1 bem longe da lideran\u00e7a do mercado de pescados.<br \/>\nA FAO calcula que o Brasil produziu 1,3 milh\u00f5es de toneladas de peixes para consumo em 2020. Isso faz com que o pa\u00eds ocupe a 21\u00aa posi\u00e7\u00e3o no ranking mundial, atr\u00e1s de na\u00e7\u00f5es com menos territ\u00f3rio, como Equador, Marrocos, Jap\u00e3o e Peru.<br \/>\nTamb\u00e9m \u00e9 curioso pensar que o peixe mais consumido pelos brasileiros \u00e9 &#8220;estrangeiro&#8221;: a til\u00e1pia, origin\u00e1ria do Rio Nilo, no continente africano, reina absoluto nas cozinhas do pa\u00eds.<br \/>\nO anu\u00e1rio de 2022 da Peixe BR aponta que a til\u00e1pia j\u00e1 representa 63,5% da produ\u00e7\u00e3o brasileira (486,2 mil toneladas), e a tend\u00eancia \u00e9 que esse n\u00famero suba para 80% at\u00e9 o final da d\u00e9cada.<br \/>\nNa sequ\u00eancia, aparecem os peixes nativos do pa\u00eds, que representam hoje 31,2% do total (262,3 mil toneladas). E o principal representante do grupo \u00e9 justamente o tambaqui.<br \/>\nO grande problema, apontam os pesquisadores, \u00e9 que esse consumo dos peixes nativos est\u00e1 concentrado principalmente nas regi\u00f5es Norte e Centro-Oeste, e as carnes de tambaqui, matrinx\u00e3, pirarucu e companhia s\u00e3o muito menos frequentes nos lares no Nordeste, Sudeste e Sul, onde a densidade populacional \u00e9 maior.<br \/>\nPara Moro, h\u00e1 pelo menos tr\u00eas entraves para a populariza\u00e7\u00e3o desses pescados.<br \/>\n&#8220;Vamos pegar a til\u00e1pia como exemplo. Ela tem uma prote\u00edna de alta qualidade, um pre\u00e7o competitivo e \u00e9 f\u00e1cil de preparar&#8221;, diz.<br \/>\n&#8220;O tambaqui e outros peixes amaz\u00f4nicos s\u00e3o vendidos inteiros e t\u00eam espinhas entre os m\u00fasculos, o que dificulta o preparo e o consumo.&#8221;<br \/>\nNativa do Rio Nilo, a til\u00e1pia \u00e9 o peixe mais consumido do Brasil<br \/>\nGetty Images<br \/>\nO desafio est\u00e1, ent\u00e3o, em desenvolver linhagens com menos espinhas e mais carne, capazes de crescer rapidamente e que tenham um tamanho padr\u00e3o.<br \/>\nEsse \u00e9 mais ou menos o caminho que levou a til\u00e1pia e o salm\u00e3o ao sucesso de vendas em mercados e peixarias: nos \u00faltimos 40 anos, foram feitos v\u00e1rios estudos com o objetivo de desenvolver um produto que reunisse uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas desej\u00e1veis, como maciez, gosto, facilidade de preparo\u2026<br \/>\nE o mesmo processo j\u00e1 come\u00e7ou a ser feito com o pr\u00f3prio tambaqui mais recentemente. Al\u00e9m dos trabalhos realizados na China e no resto da \u00c1sia, os pesquisadores brasileiros tamb\u00e9m pensam em como desenvolver esse setor por aqui.<br \/>\n&#8220;Nos \u00faltimos cinco ou seis anos, temos trabalhado na Embrapa formas de garantir a rastreabilidade dos tambaquis, para garantirmos que aquele produto n\u00e3o foi retirado da natureza de forma indevida&#8221;, destaca Moro.<br \/>\n&#8220;Isso \u00e9 algo que certamente far\u00e1 a diferen\u00e7a, especialmente na hora de exportar o pescado para mercados cada vez mais preocupados com o manejo sustent\u00e1vel dos recursos.&#8221;<br \/>\nCientistas brasileiros tamb\u00e9m descobriram linhagens do tambaqui que possuem pouca ou nenhuma espinha entre os m\u00fasculos, o que futuramente pode render cortes maiores e mais f\u00e1ceis de preparar ou consumir.<br \/>\nUm potencial enorme<br \/>\nEntre os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que peixes como o tambaqui podem turbinar o mercado nacional e at\u00e9 as exporta\u00e7\u00f5es.<br \/>\n&#8220;Trata-se de uma carne de excelente qualidade, muito apreciada pelo p\u00fablico, com a qual \u00e9 poss\u00edvel fazer diferentes cortes e pratos, como o lombo, a costelinha, a moqueca, as iscas fritas ou os fil\u00e9s assados&#8221;, diz Antonio Leonardo, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do Pescado Continental, do Instituto de Pesca de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nOutro ponto positivo do tambaqui est\u00e1 na facilidade de produ\u00e7\u00e3o. Afinal, trata-se de uma esp\u00e9cie resistente e que cresce com velocidade \u2014 na natureza, ele pode chegar a at\u00e9 30 ou 40 quilos.<br \/>\n&#8220;Al\u00e9m disso, o tambaqui se alimenta principalmente de frutos. Isso significa que, para se desenvolver, ele n\u00e3o depende de farinhas de peixe usadas em outras cria\u00e7\u00f5es&#8221;, afirma o zootecnista Alexandre Hilsdorf, pesquisador do N\u00facleo Integrado de Biotecnologia da Universidade de Mogi das Cruzes, em S\u00e3o Paulo.<br \/>\n&#8220;Essas farinhas est\u00e3o se tornando um problema de sustentabilidade, pois as empresas precisam capturar peixes para processar e transformar em ra\u00e7\u00e3o para os outros peixes.&#8221;<br \/>\n&#8220;Reunindo todas essas caracter\u00edsticas, para mim n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que peixes como o tambaqui podem se transformar em uma commodity no futuro&#8221;, opina Hilsdorf, que publicou um artigo no ano passado sobre a produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel desse pescado.<br \/>\nCarne do tambaqui \u00e9 muito apreciada e pode ser consumida de v\u00e1rias maneiras<br \/>\nGetty Images<br \/>\nA economia da floresta em p\u00e9<br \/>\nMas aumentar a produ\u00e7\u00e3o de pescados nativos n\u00e3o pode representar uma amea\u00e7a \u00e0 biodiversidade?<br \/>\n&#8220;A piscicultura depende do meio ambiente. Sem o equil\u00edbrio dos recursos naturais, nosso neg\u00f3cio fracassa&#8221;, responde Leonardo.<br \/>\nPara Val, \u00e9 poss\u00edvel incentivar esse mercado sem destruir a natureza: &#8220;O segredo est\u00e1 no manejo das esp\u00e9cies&#8221;.<br \/>\nO bi\u00f3logo, inclusive, acredita que h\u00e1 potencial em desenvolver a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas do tambaqui, como tamb\u00e9m do pirarucu, do jaraqui, do matrinx\u00e3 e de outras variedades populares entre os moradores da Amaz\u00f4nia.<br \/>\n &#8220;Sabemos que o matrinx\u00e3, por exemplo, pode ser produzido em pequenos igarap\u00e9s espalhados pela Amaz\u00f4nia. Um canal de 20 metros de extens\u00e3o, dois metros de largura e um metro de profundidade \u00e9 capaz de gerar at\u00e9 uma tonelada desse peixe por ano&#8221;, calcula o bi\u00f3logo.<br \/>\n&#8220;Agora, imagine que esse pequeno igarap\u00e9 seja gerido por uma fam\u00edlia de quatro pessoas, que vai consumir 400 quilos de pescado por ano. Os 600 quilos que sobram poderiam ser vendidos para cooperativas, que fariam o processamento e a venda em larga escala&#8221;, complementa.<br \/>\nSegundo o especialista, &#8220;o produto mais importante da bioeconomia, ou a economia da floresta em p\u00e9, \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o&#8221;.<br \/>\n&#8220;Ao saber como os peixes vivem, comem e se reproduzem, temos o dom\u00ednio do conhecimento para fazer o manejo adequado, sem preju\u00edzo \u00e0 biodiversidade&#8221;, conclui.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-64178820<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esp\u00e9cies como a pirapitinga s\u00e3o cultivadas no pa\u00eds asi\u00e1tico numa escala superior ao observado no pa\u00eds de origem delas. Peixes ornamentais t\u00edpicos dos rios da regi\u00e3o tamb\u00e9m ganharam varia\u00e7\u00f5es e caracter\u00edsticas que n\u00e3o s\u00e3o observadas na natureza. 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