{"id":35211,"date":"2023-01-21T10:10:48","date_gmt":"2023-01-21T10:10:48","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/21\/lei-que-obriga-ensino-de-historia-afro-brasileira-completa-20-anos-mas-esta-longe-de-ser-realidade-nas-escolas-dizem-especialistas\/"},"modified":"2023-01-21T10:10:48","modified_gmt":"2023-01-21T10:10:48","slug":"lei-que-obriga-ensino-de-historia-afro-brasileira-completa-20-anos-mas-esta-longe-de-ser-realidade-nas-escolas-dizem-especialistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/21\/lei-que-obriga-ensino-de-historia-afro-brasileira-completa-20-anos-mas-esta-longe-de-ser-realidade-nas-escolas-dizem-especialistas\/","title":{"rendered":"Lei que obriga ensino de hist\u00f3ria afro-brasileira completa 20 anos, mas est\u00e1 longe de ser realidade nas escolas, dizem especialistas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/vYlaFZpmow6La6fc3ENFv6IsNiU=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/h\/y\/aUKQUOT7WzqybY75JObQ\/20220602-164443.jpg\"><br \/>   Importante para combater o racismo e reconhecer a contribui\u00e7\u00e3o do povo negro na constru\u00e7\u00e3o da nossa sociedade, tema \u00e9 tratado em sala de aula com &#8216;superficialidade e estere\u00f3tipos&#8217;. A professora de hist\u00f3ria Lav\u00ednia Rocha e seus alunos<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\nA lei que obriga o ensino de hist\u00f3ria e cultura afro-brasileira e africana nas escolas de todo o Brasil completou 20 anos neste m\u00eas de janeiro. Apesar do per\u00edodo em vigor, ainda est\u00e1 longe de ser realidade e enfrenta uma s\u00e9rie de desafios para ser posta em pr\u00e1tica, segundo especialistas na \u00e1rea.<br \/>\nEducadores e historiadores ouvidos pelo g1 destacam a import\u00e2ncia do tema ser debatido em sala de aula como forma de combater o racismo, valorizar a diversidade e reconhecer a contribui\u00e7\u00e3o e o papel fundamentais do povo negro na constru\u00e7\u00e3o da nossa sociedade.<br \/>\nEles ressaltam, por\u00e9m, que, em geral, o assunto \u00e9 tratado nas escolas &#8211; quando \u00e9 tratado &#8211; com superficialidade, estere\u00f3tipos e materiais desatualizados. Tamb\u00e9m relatam falta de apoio na forma\u00e7\u00e3o dos professores.<br \/>\n1. O que diz a lei?<br \/>\nA lei 10.639 tem o objetivo de resgatar &#8220;a contribui\u00e7\u00e3o do povo negro nas \u00e1reas social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica pertinentes \u00e0 Hist\u00f3ria do Brasil&#8221;. Ela especifica os temas que devem ser abordados obrigatoriamente em sala de aula, incluindo:<br \/>\nHist\u00f3ria da \u00c1frica e dos africanos;<br \/>\nA luta dos negros no Brasil;<br \/>\nA cultura negra brasileira; e<br \/>\nO negro na forma\u00e7\u00e3o da sociedade nacional.<br \/>\nEssess conte\u00fados devem ser dados no \u00e2mbito de todo o curr\u00edculo escolar, em especial nas \u00e1reas de Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica e de Literatura e Hist\u00f3ria Brasileiras.<br \/>\nA lei modificou a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educa\u00e7\u00e3o Nacional, que define os conte\u00fados obrigat\u00f3rios que devem ser desenvolvidos pelas escolas &#8211; tanto da rede p\u00fablica quanto privada. A LDB tamb\u00e9m traz orienta\u00e7\u00f5es como a de que o ensino considerar o pluralismo de ideias, respeito \u00e0 liberdade e garantia de padr\u00e3o de qualidade.<br \/>\n2. Por que \u00e9 importante o ensino de hist\u00f3ria afro-brasileira nas escolas?<br \/>\nN\u00e3o existe hist\u00f3ria do Brasil sem a hist\u00f3ria afro-brasileira.<br \/>\nPara especialistas, n\u00e3o d\u00e1 para falar do Brasil sem considerar a influ\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o negra.<br \/>\nOs negros estiveram no Brasil na coloniza\u00e7\u00e3o, na Independ\u00eancia, na Rep\u00fablica, na ditadura e na redemocratiza\u00e7\u00e3o. E permanecem. Trabalhar estes assuntos em sala de aula sem refor\u00e7ar isso pode levar ao erro de reduzir a presen\u00e7a negra apenas a situa\u00e7\u00f5es diretamente ligadas \u00e0 escravid\u00e3o ou de extrema marginaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o h\u00e1 hist\u00f3ria e hist\u00f3ria afro-brasileira. A hist\u00f3ria \u00e9 uma s\u00f3. Cultura \u00e9 uma s\u00f3&#8221;, ressalta o professor, que leciona Teoria da Hist\u00f3ria e Historiografia.<br \/>\nSegundo ele, essa no\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade antirracista por reconhecer a import\u00e2ncia da diversidade do pa\u00eds e ajudar na integra\u00e7\u00e3o de pessoas negras em espa\u00e7os em geral negados a elas.<br \/>\nQuando \u00e9 abordado nas aulas, Mattos pondera que \u00e9 tratado com superficialidade, estere\u00f3tipos e materiais desatualizados.<br \/>\n3. Papel da escola no combate ao racismo<br \/>\nO ensino de hist\u00f3ria afro-brasileira foi um dos crit\u00e9rios avaliados pela defensora p\u00fablica Carolina Anast\u00e1cio na hora de escolher a escola do filho, Pedro Ivo, de 7 anos, que estuda em um col\u00e9gio particular do Rio de Janeiro.<br \/>\nComo mulher branca, ela se preocupa com as refer\u00eancias que ele vai levar para a vida. Por isso, considera importante que a escola ensine sobre aspectos sociais e hist\u00f3ricos para ajudar a combater o racismo.<br \/>\nPedro Ivo, filho de Carolina, com a professora Joj\u00f4.<br \/>\nArquivo pessoal<br \/>\nAl\u00e9m disso, Carolina tamb\u00e9m faz seu papel em casa. Ela e o marido, que tamb\u00e9m \u00e9 defensor p\u00fablico, estimulam o filho a observar, desde muito jovem, o ambiente ao seu redor.<br \/>\n&#8220;Se estamos em um espa\u00e7o majoritariamente branco, ele j\u00e1 consegue questionar isso. E sabemos que a escola proporciona e vai proporcionar as ferramentas para ele entender por que isso acontece, enquanto damos o apoio para ele levantar estes questionamentos&#8221;, diz.<br \/>\n\u00c9 um trabalho conjunto, em casa e na escola, que vai ajudar o Pedro a formar um pensamento cr\u00edtico no futuro.<br \/>\nPara os estudantes Rahzel Malik, de 20 anos, e Mileenna Lekysha, 17, moradores do Jardim Brasil, na Zona Norte de S\u00e3o Paulo, faltou esse apoio da escola. Oriundos de col\u00e9gio p\u00fablico, o conte\u00fado afro-brasileiro foi abordado de forma estigmatizada.<br \/>\nQuando surgiam d\u00favidas sobre quest\u00f5es relacionadas \u00e0 sua negritude e o papel dos negros na hist\u00f3ria e na sociedade brasileiras, era ao pai, Wellington de Paula (conhecido como Akilah Jelani) que recorriam.<br \/>\nBoa parte do que eles sabem hoje, souberam por mim. Na escola, aprenderam pouco sobre a hist\u00f3ria dos negros brasileiros e, quando aprenderam, foi naquela narrativa de quase como se os africanos escravizados tivessem vindo para o Brasil por vontade pr\u00f3pria, e depois tivessem sido libertos por boa vontade dos colonizadores.<br \/>\nMesmo assim, ele tentou despertar a curiosidade e trazer para os filhos a no\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de negritude e pertencimento. Akilah, que trabalha como agente de transforma\u00e7\u00e3o social em coletivos culturais, levava os filhos para a\u00e7\u00f5es que trabalhavam aspectos culturais e est\u00e9ticas afro-brasileiros.<br \/>\nAgora, Rahzel cursa ci\u00eancias da computa\u00e7\u00e3o e Mileenna est\u00e1 prestes a concluir o ensino m\u00e9dio, mas o pai acredita que a escola falhou no desenvolvimento do pensamento cr\u00edtico dos filhos.<br \/>\n&#8220;Eu queria que coisas como essa tivessem sido ensinadas na escola tamb\u00e9m, porque acredito que ajuda na compreens\u00e3o da sociedade racista. Isso ajudaria meus filhos a identificar situa\u00e7\u00f5es de racismo estrutural, at\u00e9 como forma de se defenderem, e daria a eles uma no\u00e7\u00e3o de como nosso povo ajudou nossa sociedade&#8221;, lamenta.<br \/>\n5. Desafios<br \/>\nForma\u00e7\u00e3o dos professores<br \/>\nA especialista em educa\u00e7\u00e3o do Ita\u00fa Social Juliana Yade defende que o trabalho de transmitir este conhecimento aos alunos deve come\u00e7ar pela forma\u00e7\u00e3o adequada dos docentes j\u00e1 na gradua\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNingu\u00e9m pode ensinar se n\u00e3o aprender. H\u00e1 quem aprenda pela viv\u00eancia, h\u00e1 quem aprenda por conta pr\u00f3pria, mas \u00e9 necess\u00e1rio haver uma padroniza\u00e7\u00e3o nas institui\u00e7\u00f5es oficiais do ensino para formar profissionais qualificados.<br \/>\nEla tamb\u00e9m cobra mais atua\u00e7\u00e3o das secretarias de educa\u00e7\u00e3o, que devem oferecer forma\u00e7\u00e3o continuada aos professores em atividade.<br \/>\nEm algumas redes, isso j\u00e1 acontece. No Esp\u00edrito Santo, por exemplo, a Secretaria de Estado da Educa\u00e7\u00e3o deu cursos de forma\u00e7\u00f5es continuadas aos professores da rede p\u00fablica estadual. Entre os temas de forma\u00e7\u00e3o, estavam \u201cRa\u00edzes: Educa\u00e7\u00e3o das Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-raciais\u201d e \u201cEduca\u00e7\u00e3o das Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-raciais e Modalidades Ind\u00edgena e Quilombola\u201d.<br \/>\nFalta de incentivo<br \/>\nNo entanto, esse cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 un\u00e2nime. A professora Lav\u00ednia Rocha, que leciona hist\u00f3ria em duas escolas privadas em Belo Horizonte, opina que falta incentivo.<br \/>\nMuitos colegas acabam se informando e &#8216;se formando&#8217; por conta pr\u00f3pria, porque se interessam pelo tema. Mas \u00e9 dif\u00edcil se manter atualizado se n\u00e3o houver est\u00edmulo das secretarias de educa\u00e7\u00e3o. Para um professor que trabalha 40 horas por semana, que precisa preparar aulas e corrigir provas, n\u00e3o resta muito tempo livre para estudar.<br \/>\nEla lembra que aprendeu pouco sobre \u00c1frica e do contexto afro-brasileiro durante sua licenciatura e foi s\u00f3 durante o processo de descobrimento de sua identidade racial que aprofundou seus conhecimentos sobre o assunto.<br \/>\n&#8220;Me formei com defasagem no ensino. N\u00e3o estudei \u00c1frica pr\u00e9-colonial na faculdade, n\u00e3o vi nada sobre o assunto na escola. Ent\u00e3o, estou correndo atr\u00e1s, e \u00e9 gra\u00e7as ao meu interesse pelo tema que consigo ensinar com mais empenho&#8221;, diz.<br \/>\nRecentemente, um v\u00eddeo de Lav\u00ednia viralizou nas redes sociais. Na grava\u00e7\u00e3o, ela mostra o avan\u00e7o dos alunos de 5\u00ba ano ap\u00f3s aulas sobre o continente africano no per\u00edodo pr\u00e9-colonial. Ela conta que ficou feliz com a repercuss\u00e3o e os elogios recebidos, mas que a parte mais positiva da experi\u00eancia foi ver a anima\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios alunos.<br \/>\nProfessora Lav\u00ednia Rocha grava v\u00eddeo antes e depois de estudos da cultura africana<br \/>\n&#8220;Todos se empenharam para aprender, mas senti a empolga\u00e7\u00e3o principalmente nos alunos negros, que sentiam vontade de conhecer a hist\u00f3ria de seus antepassados, de entender como eles chegaram at\u00e9 aqui e estavam curiosos sobre que a exist\u00eancia deles representa&#8221;, diz a professora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Importante para combater o racismo e reconhecer a contribui\u00e7\u00e3o do povo negro na constru\u00e7\u00e3o da nossa sociedade, tema \u00e9 tratado em sala de aula com &#8216;superficialidade e estere\u00f3tipos&#8217;. 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