{"id":34407,"date":"2023-01-18T12:10:57","date_gmt":"2023-01-18T12:10:57","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/18\/sem-crescimento-robusto-brasil-pode-se-tornar-dificil-de-governar-diz-goldman-sachs\/"},"modified":"2023-01-18T12:10:57","modified_gmt":"2023-01-18T12:10:57","slug":"sem-crescimento-robusto-brasil-pode-se-tornar-dificil-de-governar-diz-goldman-sachs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/18\/sem-crescimento-robusto-brasil-pode-se-tornar-dificil-de-governar-diz-goldman-sachs\/","title":{"rendered":"&#8216;Sem crescimento robusto, Brasil pode se tornar dif\u00edcil de governar&#8217;, diz Goldman Sachs"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/BIhfapxiIfiEjbSdNbkFktc6z9Q=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/D\/n\/kmfzPmTiiZNB6UyeF6zg\/thumbnail-image001.jpg\"><br \/>   Alberto Ramos, diretor de pesquisa econ\u00f4mica para Am\u00e9rica Latina do segundo maior banco de investimentos do mundo, v\u00ea boa vontade de investidores com Lula. Mas avalia que pa\u00eds tem pouco tempo para mudar quadro econ\u00f4mico e social, sob risco de perder governabilidade. Alberto Ramos, diretor de pesquisa econ\u00f4mica para Am\u00e9rica Latina do segundo maior banco de investimentos do mundo, v\u00ea boa vontade de investidores com Lula. Mas avalia que pa\u00eds tem pouco tempo para mudar quadro econ\u00f4mico e social, sob risco de perder governabilidade<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Twitter<br \/>\nSe o Brasil perder mais uma d\u00e9cada em termos de crescimento econ\u00f4mico, pode acabar perdendo meio s\u00e9culo. O alerta \u00e9 de Alberto Ramos, diretor de pesquisa econ\u00f4mica para Am\u00e9rica Latina do Goldman Sachs, segundo maior banco de investimentos do mundo.<br \/>\n&#8220;O que me preocupa \u00e9 que, se a gente n\u00e3o encontrar um caminho de crescimento mais robusto e socialmente inclusivo, fique muito dif\u00edcil de governar esse pa\u00eds. Que a governabilidade acabe se deteriorando muito, pela desestrutura\u00e7\u00e3o do sistema institucional e pela press\u00e3o social&#8221;, afirma o economista, em entrevista \u00e0 BBC News Brasil.<br \/>\nRamos \u2014 que considera a d\u00e9cada de 2010 perdida para o pa\u00eds, assim como a de 1980 \u2014 n\u00e3o mudou sua percep\u00e7\u00e3o sobre o Brasil e o futuro do terceiro mandato de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) com os acontecimentos de 8 de janeiro em Bras\u00edlia, quando radicais bolsonaristas depredaram pr\u00e9dios p\u00fablicos dos tr\u00eas poderes da Rep\u00fablica.<br \/>\n &#8220;A expectativa \u00e9 de que isso tenha sido um epis\u00f3dio isolado&#8221;, diz o analista. &#8220;N\u00e3o est\u00e1 no meu cen\u00e1rio a possibilidade de uma ruptura institucional. Me parece que as institui\u00e7\u00f5es no Brasil s\u00e3o suficientemente robustas para proteger o regime democr\u00e1tico.&#8221;<br \/>\nNascido em Portugal, Ramos atua no Goldman Sachs desde 2003, tendo passado pelos cargos de vice-presidente e diretor administrativo. Especializado em finan\u00e7as e com PhD em economia pela Universidade de Chicago \u2014 considerada ber\u00e7o do liberalismo econ\u00f4mico \u2014, foi antes economista s\u00eanior do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), trabalhando com Argentina, Brasil e Turquia. Atualmente, ele lidera sua equipe de analistas a partir de Nova York.<br \/>\nO economista v\u00ea boa vontade de investidores estrangeiros com o novo governo, mas alerta que, com a reabertura da China e uma Europa que administrou bem a crise do g\u00e1s decorrente da guerra da Ucr\u00e2nia, o pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 sozinho na disputa pelos fluxos de capitais internacionais.<br \/>\nNesse cen\u00e1rio, o governo Lula tem como principal desafio este ano equacionar a quest\u00e3o fiscal, avalia Ramos. Mas precisa evitar a tenta\u00e7\u00e3o de medidas intervencionistas e populistas que n\u00e3o deram bons resultados no passado.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o \u00e9 uma lei da natureza que a Am\u00e9rica Latina n\u00e3o cres\u00e7a e que as condi\u00e7\u00f5es de vida n\u00e3o melhorem. \u00c9 um reflexo de escolhas equivocadas dos \u00faltimos anos&#8221;, diz Ramos. &#8220;\u00c9 de fato inaceit\u00e1vel o crescimento ser t\u00e3o med\u00edocre, \u00e9 preciso mudar isso, porque as condi\u00e7\u00f5es de vida t\u00eam que melhorar. A Am\u00e9rica Latina est\u00e1 perdendo o trem do desenvolvimento.&#8221;<br \/>\nConfira abaixo os principais trechos da entrevista.<br \/>\nRamos atua no Goldman Sachs desde 2003, tendo passado pelo cargos de vice-presidente e diretor administrativo. Especializado em finan\u00e7as e com PhD em economia pela Universidade de Chicago, foi antes economista s\u00eanior do FMI<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Zoom<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; Como o senhor viu o epis\u00f3dio da depreda\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9dios p\u00fablicos em Bras\u00edlia e como isso repercutiu entre os investidores internacionais?<br \/>\nAlberto Ramos &#8211; \u00c9 um sinal da polariza\u00e7\u00e3o profunda do ponto de vista pol\u00edtico e social que o Brasil tem vivido nos \u00faltimos anos. Foi uma campanha muito dividida e parece que essa polariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se resolveu com a elei\u00e7\u00e3o. Sempre que tem esse ru\u00eddo institucional, pol\u00edtico e social, \u00e9 algo que deixa o investidor um pouco mais defensivo.<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; Mas esses ataques mudaram de alguma forma o cen\u00e1rio que estava dado para o novo governo Lula? Isso pode afetar a governabilidade, na perspectiva do senhor?<br \/>\nRamos &#8211; No meu cen\u00e1rio n\u00e3o mudou nada, porque a expectativa \u00e9 de que isso tenha sido um epis\u00f3dio isolado. Por mais triste que tenha sido, a expectativa \u00e9 de que n\u00e3o se repita, pelo menos \u00e0 escala do que aconteceu.<br \/>\nAcredito que a polariza\u00e7\u00e3o vai continuar, que o presidente Lula vai continuar a enfrentar uma oposi\u00e7\u00e3o relativamente combativa e aguerrida. Estamos bem longe do consenso de um presidente que tem uma popularidade extremamente alta. Ent\u00e3o isso pode certamente limitar a governabilidade, mas isso j\u00e1 estava no nosso cen\u00e1rio de base, n\u00e3o alteramos nada com os eventos de 8 de janeiro.<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; A possibilidade de uma ruptura institucional est\u00e1 no seu radar e no radar dos investidores, ou a resposta do governo foi suficiente para afastar esse tipo de temor?<br \/>\nRamos &#8211; N\u00e3o falo por outros investidores, mas n\u00e3o est\u00e1 no meu cen\u00e1rio a possibilidade de uma ruptura institucional. Me parece que as institui\u00e7\u00f5es no Brasil s\u00e3o suficientemente robustas para proteger o regime democr\u00e1tico. H\u00e1 uma imprensa livre e vibrante, e as institui\u00e7\u00f5es t\u00eam performado o papel constitucional que se espera delas. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 um cen\u00e1rio de ruptura institucional.<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; Qual \u00e9 a perspectiva do senhor para o crescimento do PIB brasileiro esse ano?<br \/>\nRamos &#8211; A expectativa \u00e9 de um crescimento modesto, por volta de 1%, que tem a ver um pouco com a diminui\u00e7\u00e3o do impulso relativo \u00e0 reabertura da economia [ap\u00f3s a pandemia], que estimulou bastante a atividade em 2021 e 2022.<br \/>\nTem tamb\u00e9m a ver com a pr\u00f3pria restritividade da pol\u00edtica monet\u00e1ria [isto \u00e9, a taxa b\u00e1sica de juros elevada, com a Selic atualmente a 13,75% ao ano], as condi\u00e7\u00f5es financeiras bastante restritivas, que infelizmente \u00e9 o que \u00e9 necess\u00e1rio para trazer a infla\u00e7\u00e3o de volta para a meta e reancorar as expectativas de infla\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTamb\u00e9m um mercado de trabalho que est\u00e1 relativamente apertado, com uma taxa de desemprego j\u00e1 pr\u00f3xima do n\u00edvel neutro [quando o desemprego n\u00e3o \u00e9 zero, mas est\u00e1 no ponto considerado de equil\u00edbrio, sem acelerar a infla\u00e7\u00e3o], que \u00e9 o reflexo do crescimento relativamente vigoroso de 2022.<br \/>\nPor fim, h\u00e1 tamb\u00e9m uma demanda externa mais limitada. Ent\u00e3o teremos em 2023 uma desacelera\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica que reflete o efeito combinado de todos esses fatores.<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; E quais s\u00e3o os principais desafios que o senhor v\u00ea para a economia brasileira este ano?<br \/>\nRamos &#8211; Para esse ano, o primeiro desafio \u00e9 equacionar a quest\u00e3o fiscal. Principalmente, qual ser\u00e1 a \u00e2ncora fiscal de m\u00e9dio e longo prazo. Essa \u00e9 a grande quest\u00e3o.<br \/>\nO teto de gastos, que teve um papel fundamental em ancorar [as expectativas dos investidores com rela\u00e7\u00e3o] a parte fiscal e a din\u00e2mica da d\u00edvida vai ser substitu\u00eddo, e n\u00e3o h\u00e1 ainda indica\u00e7\u00e3o do que ser\u00e1 esse substituto. Ent\u00e3o esse \u00e9 um ponto importante, manter as expectativas e o ancoramento do fiscal no m\u00e9dio e longo prazo.<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; O senhor mencionou o crescimento vigoroso do ano passado que resultou nessa melhora do mercado de trabalho. O senhor come\u00e7ou 2022 prevendo uma alta de 0,8% para o PIB brasileiro e tinha gente prevendo at\u00e9 recess\u00e3o. Mas o PIB de 2022 deve ter crescido pr\u00f3ximo de 3%, segundo as expectativas mais recentes do boletim Focus. Por que os economistas erraram tanto as previs\u00f5es no ano passado?<br \/>\nRamos &#8211; Acho que todo mundo subestimou o impacto da reabertura da economia.<br \/>\nDepois teve o pr\u00f3prio efeito da guerra na Europa, entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia, que levou a um aumento significativo do pre\u00e7o de commodities, o que alavancou a melhora dos termos de troca do Brasil [rela\u00e7\u00e3o entre os pre\u00e7os de exporta\u00e7\u00e3o e os de importa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds], alavancando tamb\u00e9m o crescimento.<br \/>\nO crescimento global tamb\u00e9m foi bem maior do que se esperava.<br \/>\nE o quarto fator foi o impulso fiscal [as medidas de est\u00edmulo \u00e0 economia feitas pelo governo Bolsonaro, como o Aux\u00edlio Brasil de R$ 600, entre outras], que foi bem maior do que se projetava no in\u00edcio do ano, embora parte disso tenha sido mitigada por uma pol\u00edtica monet\u00e1ria mais restritiva e uma infla\u00e7\u00e3o mais alta. Ent\u00e3o, no final, acho que essa foi a grande surpresa.<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; A economia pode surpreender de novo esse ano?<br \/>\nRamos &#8211; Pode. Nossa vis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia americana e global \u00e9 um pouco mais construtiva do que a m\u00e9dia do mercado. Achamos que n\u00e3o vai ter recess\u00e3o nos EUA e temos proje\u00e7\u00f5es para crescimento da China, global e pre\u00e7os de commodities acima da m\u00e9dia.<br \/>\nEnt\u00e3o pode surpreender, a depender do grau de est\u00edmulo fiscal em 2023. N\u00e3o descarto a possibilidade de ter um crescimento mais forte, como n\u00e3o descarto a possibilidade de um crescimento mais fraco. Nossa estimativa de um crescimento [do PIB brasileiro em 2023] de 1,2% tem risco para ambos os lados.<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; Como o senhor viu o pacote de medidas anunciadas na semana passada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para reduzir o d\u00e9ficit p\u00fablico, mirando um d\u00e9ficit entre 0,5% e 1% do PIB esse ano?<br \/>\nRamos &#8211; Foi um passo importante. Mostra que o governo est\u00e1 preocupado com a dimens\u00e3o do d\u00e9ficit como saiu com a aprova\u00e7\u00e3o do Or\u00e7amento, que era um d\u00e9ficit de quase R$ 230 bilh\u00f5es ou 2,3% do PIB. E que est\u00e1 comprometido em reduzir esse d\u00e9ficit.<br \/>\nO pacote em si n\u00e3o impressionou tanto. \u00c9 um pacote com um vi\u00e9s muito grande para medidas de aumento da receita, medidas tribut\u00e1rias. E medidas que s\u00e3o transit\u00f3rias, h\u00e1 poucas medidas permanentes, algumas delas de efeito duvidoso.<br \/>\nGostaria de ver um pacote mais centrado na racionaliza\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o do gasto. Num pa\u00eds que gasta mais de R$ 2 trilh\u00f5es, certamente h\u00e1 gastos improdutivos, redundantes, mal alocados.<br \/>\nSeria importante que o pacote tivesse um vi\u00e9s mais focalizado no gasto do que na receita, porque teria uma implica\u00e7\u00e3o melhor para a infla\u00e7\u00e3o, com um componente permanente e acoplado \u00e0 nova \u00e2ncora fiscal, que \u00e9 a discuss\u00e3o que vem pela frente.<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; Haddad tem prometido apresentar ainda esse semestre o novo arcabou\u00e7o fiscal para o pa\u00eds, que deve substituir o teto de gastos. Qual \u00e9 a expectativa dos investidores internacionais com rela\u00e7\u00e3o a essas novas regras?<br \/>\nRamos &#8211; H\u00e1 uma expectativa grande. \u00c9 muito, muito importante ter uma \u00e2ncora fiscal, particularmente alguma coisa que limite uma expans\u00e3o desenfreada do gasto, dado que o n\u00edvel de endividamento p\u00fablico \u00e9 bastante elevado, e dado o hist\u00f3rico do PT nos \u00faltimos anos.<br \/>\nMesmo nos anos Lula, no in\u00edcio de mandato, houve uma expans\u00e3o do gasto muito elevada, mas nessa altura o pre\u00e7o de commodities ajudou muito, a receita tamb\u00e9m aumentava. Quando a receita parou de crescer, isso levou a d\u00e9ficit crescente.<br \/>\nEu pessoalmente n\u00e3o acho que a regra do teto de gasto tenha sido assim t\u00e3o ruim, acho que ela teve um papel muito importante de ancoramento de expectativa e tamb\u00e9m de limitar o gasto. E vai ter que ser por a\u00ed, pode ser uma regra com mais flexibilidade, que tenha um elemento contrac\u00edclico, que permita que n\u00e3o tenha que reduzir muito o d\u00e9ficit quando a economia est\u00e1 contraindo e a receita cai.<br \/>\nInfelizmente, acho que n\u00e3o h\u00e1 muitas alternativas a alguma regra que limite o gasto, s\u00f3 atrav\u00e9s disso \u00e9 que voc\u00ea consegue ancorar as expectativas de m\u00e9dio e longo prazo. Vamos ver, \u00e9 uma discuss\u00e3o que vem pela frente e o Congresso tamb\u00e9m ter\u00e1 papel importante nesse debate.<br \/>\n&#8216;Acredito que a polariza\u00e7\u00e3o vai continuar, que o presidente Lula vai continuar a enfrentar uma oposi\u00e7\u00e3o relativamente combativa e aguerrida&#8217;, diz Ramos<br \/>\nReuters<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; Qual \u00e9 a perspectiva que o senhor v\u00ea para o avan\u00e7o das reformas estruturais nesse governo, particularmente a reforma tribut\u00e1ria?<br \/>\nRamos &#8211; Acredito que n\u00e3o vai haver grandes reformas estruturais, tirando a reforma tribut\u00e1ria, que j\u00e1 est\u00e1 bastante avan\u00e7ada a discuss\u00e3o no Congresso.<br \/>\nH\u00e1 uma proposta que j\u00e1 amadureceu bastante na C\u00e2mara, uma proposta que tamb\u00e9m j\u00e1 amadureceu bastante no Senado e o [secret\u00e1rio especial para a reforma tribut\u00e1ria do Minist\u00e9rio da Fazenda] Bernard Appy \u00e9 uma autoridade do ponto de vista fiscal e tribut\u00e1rio. Ent\u00e3o acho que alguma coisa vai sair, agora depende de como for configurada essa reforma.<br \/>\nA ideia do governo, pelo menos durante a campanha, \u00e9 que seria uma reforma neutra do ponto de vista de arrecada\u00e7\u00e3o. Eu tenho minhas d\u00favidas.<br \/>\nH\u00e1 dois componentes: o dos impostos indiretos e o do imposto de renda de pessoas f\u00edsicas e jur\u00eddicas. Talvez a\u00ed [no imposto de renda] \u00e9 que vai ter um sistema mais progressivo, que aumente a arrecada\u00e7\u00e3o. Vamos ver como \u00e9 que fica. \u00c9 um tema complexo, que claramente tem ganhadores e perdedores, que p\u00f5e em lados contr\u00e1rios ind\u00fastria versus servi\u00e7os, Estados pobres contra Estados ricos. Sempre foi um tema muito espinhoso e dif\u00edcil.<br \/>\nMas eu acho que, dentro do tema de grandes reformas estruturais, provavelmente ficamos por a\u00ed. N\u00e3o estou muito otimista com outras reformas, como a administrativa, que possivelmente seriam necess\u00e1rias para alavancar o crescimento.<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; Num relat\u00f3rio de 2019, o senhor declarou a d\u00e9cada de 2010 como &#8220;perdida&#8221; para o Brasil, assim como a de 1980. S\u00e3o duas d\u00e9cadas perdidas para a economia brasileira em 40 anos. E o senhor alertava para o risco de a gente perder tamb\u00e9m a d\u00e9cada atual. O senhor avalia que esse risco persiste ou algo mudou na sua vis\u00e3o desde ent\u00e3o?<br \/>\nRamos &#8211; Olha, n\u00e3o mudou muito. Acho que esse risco segue latente. Tivemos a pandemia, que levou a uma contra\u00e7\u00e3o violenta da atividade. Seguiu-se uma recupera\u00e7\u00e3o em &#8220;V&#8221; bastante r\u00e1pida, mas a din\u00e2mica do crescimento, o crescimento potencial do Brasil, continua relativamente baixo. Da\u00ed a import\u00e2ncia das reformas estruturais, que tornem a economia mais competitiva, mais flex\u00edvel. Que aumentem o investimento p\u00fablico e privado.<br \/>\nH\u00e1 um Estado gigante, obeso e ineficiente no Brasil, se n\u00e3o for poss\u00edvel reduzir o tamanho do Estado, pelo menos que o Estado gaste melhor. Seria muito importante focar na qualidade do gasto, para que o efeito multiplicador do gasto que temos hoje seja maior, tenha maior impacto econ\u00f4mico e social do que tem sido o caso nos \u00faltimos anos.<br \/>\nAlgumas declara\u00e7\u00f5es da ministra [do Planejamento] Simone Tebet v\u00e3o um pouco nessa dire\u00e7\u00e3o e seria muito importante aprofundar essa agenda.<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; O que o pa\u00eds precisa fazer ent\u00e3o para sair desse ciclo de baixo crescimento e da fome sempre \u00e0 espreita?<br \/>\nRamos &#8211; O problema j\u00e1 foi extensamente debatido, n\u00e3o precisa criar nenhuma comiss\u00e3o para analisar por que o Brasil cresce pouco. \u00c9 um pa\u00eds que gasta muito e investe pouco, tem uma produtividade muito baixa, o n\u00edvel de investimento em capital f\u00edsico e capital humano \u00e9 relativamente limitado. \u00c9 um pa\u00eds pouco integrado na economia global, tem um sistema tribut\u00e1rio muito oneroso, o d\u00e9ficit de infraestrutura \u00e9 significativo. Ent\u00e3o a agenda \u00e9 conhecida, agora \u00e9 come\u00e7ar a trabalhar nela. N\u00e3o precisa descobrir a pedra filosofal [subst\u00e2ncia lend\u00e1ria que transformaria qualquer metal em ouro].<br \/>\nBBC New Brasil &#8211; Durante o governo Bolsonaro, vimos os investidores muito reticentes com o pa\u00eds, com alguns grandes fundos de investimento inclusive interrompendo aportes em t\u00edtulos p\u00fablicos brasileiros por conta da destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Parecia ter uma certa ansiedade pela volta \u00e0 normalidade. O senhor acredita que est\u00e3o dadas as condi\u00e7\u00f5es para os investidores estrangeiros voltarem?<br \/>\nRamos &#8211; Acho que sim, h\u00e1 uma boa vontade muito grande com rela\u00e7\u00e3o ao governo Lula e acho que a\u00ed pode ser at\u00e9 onde se observe a maior diferencia\u00e7\u00e3o entre os governos Bolsonaro e Lula, nessa agenda ambiental, o impacto que isso tem fora do pa\u00eds e nos investidores. Pode e vai certamente alavancar os fundos que s\u00e3o mais sens\u00edveis a esses sistemas e alguns fundos espec\u00edficos, como o Fundo Amaz\u00f4nia e outros que foram interrompidos durante o governo Bolsonaro. Ent\u00e3o vejo isso claramente como uma via, e at\u00e9 uma via mais r\u00e1pida, de atra\u00e7\u00e3o de capital no curto prazo.<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; E para os demais investidores, depende dessa agenda toda que o senhor falou, ou essa boa vontade \u00e9 generalizada?<br \/>\nRamos &#8211; N\u00e3o, acredito que n\u00e3o h\u00e1 uma boa vontade generalizada. At\u00e9 porque o Brasil n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica oportunidade de investimento no mundo. H\u00e1 a reabertura da economia da China, com a sa\u00edda da [pol\u00edtica de] &#8220;covid zero&#8221;. A Europa parece que vai conseguir evitar uma recess\u00e3o, porque manejou a restri\u00e7\u00e3o do g\u00e1s de maneira eficiente. Ent\u00e3o o Brasil tem competidores nesse fluxo de capital global, talvez mais do que se imaginava h\u00e1 tr\u00eas meses.<br \/>\nE, al\u00e9m de toda a quest\u00e3o da sustentabilidade fiscal, h\u00e1 a pol\u00edtica micro [referente ao ambiente de neg\u00f3cios]. Isso me preocupa um pouco mais nesse come\u00e7o um pouco atribulado do novo governo. O marco regulat\u00f3rio de setores importantes da economia, o manejo das empresas p\u00fablicas e dos bancos p\u00fablicos, a tend\u00eancia de interferir em certas vari\u00e1veis da economia, por exemplo, a pol\u00edtica de pre\u00e7os da Petrobras, &#8220;campe\u00f5es nacionais&#8221;, cr\u00e9dito subsidiado.<br \/>\nUma agenda que tem sido caracter\u00edstica dos governos do PT e que n\u00e3o teve resultado muito favor\u00e1vel l\u00e1 atr\u00e1s, me parece estar voltando com for\u00e7a. Ent\u00e3o eu acho que n\u00e3o vai ter nenhuma explos\u00e3o fiscal, que o governo entende de alguma maneira a import\u00e2ncia de conter a parte fiscal, mas vejo com alguma preocupa\u00e7\u00e3o essa agenda micro.<br \/>\nBBC News Brasil &#8211; Por fim, o senhor analisa toda a Am\u00e9rica Latina. Como avalia a posi\u00e7\u00e3o do Brasil hoje em rela\u00e7\u00e3o aos demais pa\u00edses da regi\u00e3o?<br \/>\nRamos &#8211; A Am\u00e9rica Latina est\u00e1 com um problema de crescimento parecido com o Brasil. Crescimento baixo, fric\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ativismo social. Ent\u00e3o parece um fen\u00f4meno um pouco mais abrangente do que s\u00f3 a realidade do Brasil.<br \/>\nH\u00e1 problemas institucionais, pol\u00edticos e algum receio de investidores no Chile, na Col\u00f4mbia, na Argentina h\u00e1 30 anos, no Peru com o impeachment do presidente [Pedro Castillo, que perdeu o cargo em dezembro]. Ent\u00e3o, dentro desse contexto, \u00e9 um problema mais sist\u00eamico da Am\u00e9rica Latina, o do baixo crescimento, crises institucionais, press\u00e3o social.<br \/>\nE olha, h\u00e1 que ter um pouco de simpatia por isso [o descontentamento popular], porque o progresso socioecon\u00f4mico da Am\u00e9rica Latina na \u00faltima d\u00e9cada tem sido extraordinariamente baixo. As condi\u00e7\u00f5es de vida n\u00e3o melhoraram, ent\u00e3o o votante m\u00e9dio est\u00e1 insatisfeito. E ele vai, grita e com raz\u00e3o. Quer dizer, n\u00e3o \u00e9 uma lei da natureza que a Am\u00e9rica Latina n\u00e3o cres\u00e7a e que as condi\u00e7\u00f5es de vida n\u00e3o melhorem. \u00c9 um reflexo de escolhas equivocadas dos \u00faltimos anos, ent\u00e3o \u00e9 importante que essa ansiedade, que esse sinal chegue \u00e0 classe pol\u00edtica.<br \/>\nO Congresso, o governo, o Judici\u00e1rio, todo mundo tem a sua cota de responsabilidade na integridade institucional e no pr\u00f3prio crescimento. \u00c9 de fato inaceit\u00e1vel o crescimento ser t\u00e3o med\u00edocre nos \u00faltimos anos, \u00e9 preciso mudar isso, porque as condi\u00e7\u00f5es de vida t\u00eam que melhorar. A Am\u00e9rica Latina em geral est\u00e1 perdendo o trem do desenvolvimento.<br \/>\nO que me preocupa \u00e9 que, se [o Brasil] voltar a perder mais uma d\u00e9cada, acaba perdendo meio s\u00e9culo. E que, se a gente n\u00e3o encontrar um caminho de crescimento mais robusto e socialmente inclusivo, fique muito dif\u00edcil de governar esse pa\u00eds. Que a governabilidade acabe se deteriorando muito, pela desestrutura\u00e7\u00e3o do sistema institucional e pela pr\u00f3pria press\u00e3o social. Ent\u00e3o temos que encontrar uma resposta a esse anseio do votante m\u00e9dio, que \u00e9 extremamente leg\u00edtimo. Se n\u00e3o dermos uma resposta cabal, que mude esse quadro econ\u00f4mico e social, te garanto que a coisa pode piorar, essa \u00e9 a parte que me preocupa.<br \/>\nAgora, \u00e9 sempre poss\u00edvel tornar uma situa\u00e7\u00e3o ruim pior. E me preocupa \u00e0s vezes que alguns atalhos populistas, que parecem dar uma resposta de curto prazo, mas n\u00e3o uma resposta estrutural de m\u00e9dio e longo prazo, possam potencialmente agravar um problema que \u00e9 real.<br \/>\nVamos ver, mas acho que o rel\u00f3gio est\u00e1 contando, o tempo est\u00e1 avan\u00e7ada. A gente n\u00e3o tem muitos anos para dar uma resposta um pouco mais abrangente sobre isso.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-64312369<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alberto Ramos, diretor de pesquisa econ\u00f4mica para Am\u00e9rica Latina do segundo maior banco de investimentos do mundo, v\u00ea boa vontade de investidores com Lula. Mas avalia que pa\u00eds tem pouco tempo para mudar quadro econ\u00f4mico e social, sob risco de perder governabilidade. 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