{"id":32439,"date":"2023-01-10T13:10:16","date_gmt":"2023-01-10T13:10:16","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/10\/o-misterio-das-lutas-de-espadas-medievais-que-intriga-historiadores\/"},"modified":"2023-01-10T13:10:16","modified_gmt":"2023-01-10T13:10:16","slug":"o-misterio-das-lutas-de-espadas-medievais-que-intriga-historiadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/10\/o-misterio-das-lutas-de-espadas-medievais-que-intriga-historiadores\/","title":{"rendered":"O mist\u00e9rio das lutas de espadas medievais que intriga historiadores"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/ZtB3W2mxbi2QENfZjhv9Uri1ia0=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/0\/e\/ql0vIwTT6ihqlD3j92NQ\/thumbnail-image001-9-.jpg\"><br \/>   Ningu\u00e9m sabe como realmente lutavam os cavaleiros medievais. Ilustra\u00e7\u00e3o de cavaleiros lutando da s\u00e9rie de livros de luta &#8216;Gladiat\u00f3ria&#8217;<br \/>\nALAMY\/via BBC<br \/>\nUm dia, em meados do s\u00e9culo 12, um monge igual aos demais sentou-se na Abadia de Santo Edmundo, em Suffolk, no Reino Unido, e come\u00e7ou a escrever.<br \/>\nAssim ele registrou a vida escandalosa de um homem que ele havia conhecido alguns anos antes &#8211; esperando que a hist\u00f3ria n\u00e3o fosse inadequada demais.<br \/>\nMas o interesse do monge an\u00f4nimo havia come\u00e7ado em outra abadia brit\u00e2nica que ele havia visitado, em Reading. Dentro das r\u00fasticas paredes de pedra da imponente constru\u00e7\u00e3o, nas sombras de uma sala quase sem nenhuma ilumina\u00e7\u00e3o, ele encontrou os irm\u00e3os residentes.<br \/>\n Entre eles, um se destacava como algu\u00e9m incomum &#8211; um monge que, embora vestido com o mesmo manto com capuz dos demais, havia levado uma vida muito diferente antes de ingressar na abadia. E, em voz baixa, ele explicou que havia se tornado monge por acidente.<br \/>\nEm 1157, Henrique de Essex havia sido um nobre de nascimento (n\u00e3o por seus feitos), rico e poderoso. Ele era um cavaleiro famoso pelas suas habilidades com a espada e contava com a confian\u00e7a do rei Henrique 2\u00b0 da Inglaterra.<br \/>\nMas ele n\u00e3o era muito bondoso. Essex roubava dinheiro, trazia vergonha para as mulheres e havia torturado um homem inocente.<br \/>\nAt\u00e9 que ocorreu um incidente inusitado em uma batalha no Pa\u00eds de Gales, que amea\u00e7ou sua posi\u00e7\u00e3o. Essex anunciou erroneamente que o rei havia morrido, quase causando a desist\u00eancia e fuga do ex\u00e9rcito.<br \/>\nSeis anos depois, em Reading, um dos seus pr\u00f3prios parentes declarou publicamente que aquele havia sido um ato de trai\u00e7\u00e3o e o desafiou para um duelo. Seria um julgamento por combate, algo comum na \u00e9poca.<br \/>\nCom a multid\u00e3o assistindo nas margens lamacentas do rio T\u00e2misa, o parente acusador, que tamb\u00e9m era cavaleiro, atacou com &#8220;golpes duros e frequentes&#8221;.<br \/>\nInicialmente, Essex defendeu-se com habilidade. Mas, depois de uma s\u00e9rie de vis\u00f5es das pessoas que ele havia mal tratado, come\u00e7ou se encher de vergonha e medo.<br \/>\nEle voou cegamente contra o seu oponente, abandonando tudo o que, um dia, havia aprendido sobre lutas com espadas. E, em meio a muitos ru\u00eddos das l\u00e2minas atingindo as armaduras dos oponentes, ele caiu. O rei ordenou que os monges locais carregassem o corpo de Essex e o enterrassem.<br \/>\nMas, milagrosamente, Essex sobreviveu e passou o resto da vida em penit\u00eancia entre os monges. E, muitos anos depois do incidente, ele conheceu aquele monge cronista.<br \/>\nSua hist\u00f3ria foi imortalizada como uma f\u00e1bula moral, mas existe um outro ponto de vista: Essex havia abandonado seu conhecimento de luta de espadas e perdeu tudo.<br \/>\nDecididamente, algumas imagens dos manuais de luta podem ser aterradoras<br \/>\nALAMY\/via BBC<br \/>\nOs cavaleiros eram as maiores celebridades da era medieval. Os mais h\u00e1beis eram recompensados com castelos, terras e influ\u00eancia na corte.<br \/>\nEles eram generosamente festejados como her\u00f3is rom\u00e2nticos do seu tempo, retratados em lendas, poemas e pinturas, que registravam seus confrontos de espadas e gestos cavalheirescos.<br \/>\n\u00c9 claro que tornar-se cavaleiro exigia mais do que apenas uma armadura brilhante e um nobre cavalo. Era preciso ter t\u00e9cnica.<br \/>\nEra comum que os guerreiros ambiciosos treinassem por at\u00e9 10 anos, muitas vezes desde a inf\u00e2ncia, praticando a agilidade com os p\u00e9s, ensaiando como repelir ataques e aprendendo as mais terr\u00edveis formas de matar seus oponentes o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<br \/>\nA luta com espadas n\u00e3o era quest\u00e3o de cortar ou espetar aleatoriamente os advers\u00e1rios. Era uma arte marcial sofisticada, que poderia competir com o sum\u00f4 ou kung fu.<br \/>\nMas, s\u00e9culos depois, as informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para entender seus segredos foram perdidas. Apesar de anos de estudo, as t\u00e9cnicas envolvidas atualmente s\u00e3o um mist\u00e9rio. E, na verdade, as lutas de espadas retratadas no cinema, no teatro ou na TV, com ataques e defesas elaboradas, foram, em grande parte, inventadas.<br \/>\n&#8220;\u00c0s vezes, isso estraga o prazer de assistir \u00e0 TV&#8221;, segundo Jamie MacIver, instrutor de luta de espadas e ex-presidente do Clube de Esgrima Hist\u00f3rica de Londres, &#8220;porque voc\u00ea olha e pensa, &#8216;oh, meu Deus, espere, o que voc\u00eas est\u00e3o fazendo?'&#8221;<br \/>\nComo isso aconteceu? Ser\u00e1 que, algum dia, chegaremos a descobrir como realmente era?<br \/>\nHer\u00f3is e a\u00e7ougueiros<br \/>\nOs maiores especialistas em lutas de espadas medievais eram os &#8220;mestres do combate&#8221; &#8211; atletas de elite que treinavam seus disc\u00edpulos nas artes sutis do combate corpo a corpo. Os treinadores mais renomados eram quase t\u00e3o famosos quando os pr\u00f3prios cavaleiros treinados por eles.<br \/>\nMuitas das t\u00e9cnicas que eles usaram eram antigas, de centenas de anos antes, transmitidas em tradi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Pouco se sabe sobre esses raros talentos, mas as poucas informa\u00e7\u00f5es que chegaram at\u00e9 n\u00f3s s\u00e3o cheias de intrigas.<br \/>\nUm exemplo \u00e9 o mestre da esgrima alem\u00e3o Hans Talhoffer, com seus cabelos ondulados, enormes costeletas, inclina\u00e7\u00e3o para roupas apertadas e um passado particularmente atribulado. Em 1434, Talhoffer foi acusado de assassinar um homem e admitiu t\u00ea-lo raptado na cidade de Salzburg, na \u00c1ustria.<br \/>\nOs mestres do combate trabalhavam com uma assustadora variedade de armas mortais.<br \/>\nA maior parte do treinamento era dedicada \u00e0 esgrima com espadas longas, ou espada e broquel (um estilo de combate que envolvia empunhar uma espada em uma das m\u00e3os e um pequeno escudo na outra). Mas os mestres tamb\u00e9m ensinavam como brandir punhais, alabardas, escudos e at\u00e9 como lutar com as m\u00e3os ou apenas com um saco de pedras.<br \/>\nAcredita-se que alguns mestres do combate fossem organizados em irmandades, como a Fraternidade de Liechtenauer &#8211; uma sociedade que congregava cerca de 18 homens que treinavam com a orienta\u00e7\u00e3o do sombrio mestre Johannes Liechtenauer, no s\u00e9culo 15.<br \/>\nOs detalhes sobre aquela figura quase lend\u00e1ria permanecem obscuros, mas acredita-se que ele levasse uma vida n\u00f4made, atravessando fronteiras para treinar alguns poucos protegidos selecionados e aprender novos segredos da esgrima.<br \/>\nOutros mestres do combate moravam mais perto de casa, contratados por duques, arcebispos e diversos outros nobres para treinamento pr\u00f3prio e dos seus guardas. Alguns chegavam a formar suas pr\u00f3prias &#8220;escolas de luta&#8221;, onde reuniam alunos com menos recursos para sess\u00f5es semanais de aprendizado.<br \/>\nNeil Grant, curador do museu Royal Armouries, no Reino Unido, explica que um desses professores formou um programa de ensino na Universidade de Bolonha, no norte da It\u00e1lia. Os registros existentes mostram que o custo para frequentar esse programa era aproximadamente equivalente ao de uma academia de gin\u00e1stica moderna.<br \/>\nL\u00e1, o professor ensinava aspirantes a guerreiros e cavaleiros, al\u00e9m de cidad\u00e3os comuns, preparando-os para a guerra ou ensinando a sobreviver a torneios ou duelos judiciais.<br \/>\nN\u00e3o era brincadeira. Na Idade M\u00e9dia, a principal motiva\u00e7\u00e3o dos aprendizes de lutadores era a perspectiva de n\u00e3o morrer como recompensa dos seus esfor\u00e7os. Mas tamb\u00e9m era poss\u00edvel ganhar honras sociais. Os melhores lutadores conseguiam transcender as hierarquias da \u00e9poca, lan\u00e7ando-se at\u00e9 as classes governantes.<br \/>\nEra essencial, no m\u00ednimo, que a esgrima fosse sofisticada para n\u00e3o desperdi\u00e7ar dinheiro.<br \/>\n&#8220;At\u00e9 mesmo a fabrica\u00e7\u00e3o de uma espada pequena exigia uma incr\u00edvel quantidade de a\u00e7o&#8221;, afirma Richard Scott Nokes, professor de literatura medieval da Universidade Troy, no Alabama (Estados Unidos). Ele explica que aquec\u00ea-la o suficiente tamb\u00e9m consumia centenas de quilos de carv\u00e3o.<br \/>\n&#8220;O imenso custo significava que n\u00e3o era apenas ter uma arma e dizer, &#8216;bem, vou sair agora e espet\u00e1-los na ponta [da espada]'&#8221;, ele conta. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o iria querer danific\u00e1-la.&#8221;<br \/>\nEm uma luta dram\u00e1tica entre um homem e uma mulher, Talhoffer mostra a mulher sendo lan\u00e7ada em um buraco de cabe\u00e7a para baixo<br \/>\nALAMY\/via BBC<br \/>\nAlguns mestres do combate consideravam suas t\u00e9cnicas um segredo absoluto, mas ainda se discute exatamente o verdadeiro grau desse segredo. Um cavaleiro italiano particularmente famoso do s\u00e9culo 14, Fiore de&#8217;I Liberi, decidiu manter suas t\u00e9cnicas em segredo para que seus alunos pudessem ter uma vantagem &#8211; ou qualquer pessoa poderia aprender a lutar contra eles.<br \/>\nMas Grant indica que pode ter sido mais quest\u00e3o de marketing do que de integridade. &#8220;Se voc\u00ea tiver tr\u00eas mestres do combate e um deles disser &#8216;vou ensinar a voc\u00ea aquilo que todos conhecem&#8217; e os outros dois disserem &#8216;n\u00e3o, eu conhe\u00e7o artes m\u00edsticas que ningu\u00e9m mais poderia combater&#8217;, qual deles voc\u00ea ir\u00e1 seguir?&#8221;, questiona ele.<br \/>\nFelizmente, v\u00e1rios cavaleiros pensaram na dire\u00e7\u00e3o oposta e escreveram suas t\u00e9cnicas em &#8220;livros de luta&#8221;. S\u00e3o manuscritos ornamentadamente decorados que incluem descri\u00e7\u00f5es de diversas t\u00e9cnicas, frequentemente acompanhadas por ilustra\u00e7\u00f5es &#8211; \u00e0s vezes, de pessoas reais da era medieval &#8211; para demonstr\u00e1-las na pr\u00e1tica.<br \/>\nEsses livros teriam sido encomendados pelos empregadores mais ricos dos instrutores e alguns teriam v\u00e1rios autores, trabalhando em conjunto por anos at\u00e9 complet\u00e1-los.<br \/>\nMas, apesar de toda a sua beleza, as obras desenhadas \u00e0 m\u00e3o tamb\u00e9m podem ser decididamente sanguin\u00e1rias.<br \/>\nO manual de Talhoffer, de 1467, mostra sequ\u00eancias claras de movimentos parecidos com dan\u00e7as que terminam abruptamente com espadas atrav\u00e9s das \u00f3rbitas, violentos empalamentos e instru\u00e7\u00f5es pontuais sobre como vencer o oponente at\u00e9 a morte. Algumas t\u00e9cnicas espec\u00edficas chegam a ter nomes &#8211; t\u00edtulos assustadores como &#8220;talhar com f\u00faria&#8221;, &#8220;amassador&#8221;, &#8220;enforcamento duplo&#8221;, &#8220;bater no cr\u00e2nio&#8221; e &#8220;quatro aberturas&#8221;.<br \/>\nMesmo depois de incont\u00e1veis gera\u00e7\u00f5es de propriet\u00e1rios e, em alguns casos, s\u00e9culos de rabiscos, queimas, roubos e per\u00edodos misteriosos de desaparecimento dos registros hist\u00f3ricos, uma quantidade surpreendente desses livros sobrevive at\u00e9 hoje. Eles incluem pelo menos 80 c\u00f3digos, somente das regi\u00f5es de fala alem\u00e3.<br \/>\nMovimentos imposs\u00edveis e falta de indica\u00e7\u00f5es<br \/>\nMas existe um problema. Muitas das t\u00e9cnicas dos manuais de combate, conhecidos em alem\u00e3o como fechtb\u00fccher, s\u00e3o complicadas, vagas e incompreens\u00edveis. Apesar da grande quantidade de livros remanescentes, eles surpreendentemente oferecem poucas informa\u00e7\u00f5es sobre o que o mestre do combate est\u00e1 tentando transmitir.<br \/>\n&#8220;A dificuldade de pegar essas imagens entalhadas em xilogravura, est\u00e1ticas, sem movimento, e determinar a a\u00e7\u00e3o din\u00e2mica de combate \u00e9 famosa&#8221;, afirma Scott Nokes. &#8220;\u00c9 um tema de debate, pesquisa e experimenta\u00e7\u00e3o h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es.&#8221;<br \/>\nA Europa medieval era fascinada pelo governante mu\u00e7ulmano Saladino. Mesmo tendo lutado contra eles, os europeus o consideravam o cavaleiro perfeito &#8211; um modelo de conduta<br \/>\nALAMY\/via BBC<br \/>\nEm algumas ocasi\u00f5es, esses manuais parecem ilustrar contor\u00e7\u00f5es do corpo que s\u00e3o fisicamente imposs\u00edveis. Em outras, ilustra\u00e7\u00f5es que tentam mostrar movimentos em tr\u00eas dimens\u00f5es, \u00e0s vezes, exibem os combatentes com maior quantidade de bra\u00e7os e pernas, acrescentados por erro.<br \/>\nAinda outros manuais incluem instru\u00e7\u00f5es decepcionantemente imprecisas. \u00c0s vezes, eles ilustram a\u00e7\u00f5es que n\u00e3o parecem funcionar ou baseadas em movimentos enigm\u00e1ticos perdidos h\u00e1 muito tempo.<br \/>\nCuriosamente, o texto \u00e9 frequentemente escrito em forma de poesia, em vez de prosa. E alguns autores chegaram a dificultar propositadamente a interpreta\u00e7\u00e3o das suas obras.<br \/>\nLiechtenauer registrou suas instru\u00e7\u00f5es em versos obscuros que permanecem quase incompreens\u00edveis hoje em dia. Um especialista chegou a cham\u00e1-los de &#8220;indecifr\u00e1vel&#8221;.<br \/>\nSegundo um mestre do combate contempor\u00e2neo treinado por ele, o grande mestre escreveu o livro em &#8220;palavras secretas&#8221;, para que fosse inintelig\u00edvel por qualquer pessoa que n\u00e3o desse valor suficiente \u00e0 sua arte.<br \/>\nMesmo quando for poss\u00edvel decifrar o que o manual de luta est\u00e1 descrevendo ou demonstrando, alguns especialistas suspeitam que fiquem sempre faltando informa\u00e7\u00f5es contextuais b\u00e1sicas.<br \/>\nUm exemplo \u00e9 Philippo di Vadi, outro mestre da esgrima italiano. Ele escreveu seu livro de luta no s\u00e9culo 15, basicamente em forma de texto &#8211; novamente, escrito em poesia, incluindo passagens escolhidas puramente por motivo de rima.<br \/>\nUma an\u00e1lise indica que, para conseguir qualquer informa\u00e7\u00e3o significativa, os tradutores precisam atravessar met\u00e1foras obscuras que sa\u00edram de uso h\u00e1 muito tempo. Por exemplo: &#8220;se voc\u00ea tiver sal no c\u00e9rebro [se voc\u00ea tiver o dom], precisa considerar aqui a melhor forma de subir estas escadas [a melhor forma de ter sucesso].&#8221;<br \/>\nMesmo as instru\u00e7\u00f5es genuinamente informativas, muitas vezes, deixam de incluir detalhes importantes.<br \/>\n&#8220;Na maior parte das vezes, n\u00e3o \u00e9 tanto quest\u00e3o de n\u00e3o conseguir entender o que est\u00e1 escrito, mas sim que existem quatro ou cinco possibilidades do que possa ser. E, \u00e0s vezes, elas n\u00e3o fazem sentido&#8221;, explica MacIver.<br \/>\nPara MacIver, um dos movimentos mais dif\u00edceis de entender \u00e9 o movimento dos p\u00e9s de di Vadi &#8211; onde voc\u00ea pisa enquanto &#8220;corta&#8221;, um tipo de ataque feito com um movimento de corte da espada.<br \/>\n&#8220;Em todo o texto, ele fala, &#8216;oh, eu consegui um novo movimento dos p\u00e9s, \u00e9 melhor que o movimento antigo'&#8221;, afirma MacIver. &#8220;Por isso, ele realmente enfatiza o quanto \u00e9 importante para ele. E ele ent\u00e3o escreve sobre isso &#8211; e \u00e9 simplesmente incompreens\u00edvel.&#8221;<br \/>\nAl\u00e9m da longa espada, Talhoffer ensina os leitores a lutar com armas mais especializadas, como os &#8216;Stechschilde&#8217; &#8211; escudos de duelo<br \/>\nALAMY\/via BBC<br \/>\nE existem as imagens. Na \u00e9poca, ainda n\u00e3o era comum desenhar ou pintar em tr\u00eas dimens\u00f5es. Quando essa forma nascente de arte estava sendo aprimorada, as tentativas de transmitir profundidade nas ilustra\u00e7\u00f5es, muitas vezes, podiam ser confusas. \u00c9 o caso das imagens dos livros de luta.<br \/>\n&#8220;\u00c0s vezes, voc\u00ea realmente n\u00e3o consegue descobrir qual dos dois lutadores envolvidos deve estar ganhando&#8221;, afirma MacIver. &#8220;Existe uma [ilustra\u00e7\u00e3o] espec\u00edfica&#8230; os dois lutadores t\u00eam uma espada contra o pesco\u00e7o.&#8221;<br \/>\nPara descobrir a fundo o que os cavaleiros realmente estavam fazendo, tudo isso precisa ser desvendado. Mas, mesmo que isso aconte\u00e7a, existem in\u00fameras outras inc\u00f3gnitas, como a frequ\u00eancia exata em que as t\u00e9cnicas mais espec\u00edficas eram realmente utilizadas.<br \/>\n&#8220;Alguns [livros de luta] trazem coisas t\u00e3o estranhas que voc\u00ea v\u00ea que &#8216;isso n\u00e3o pode ser usado com frequ\u00eancia'&#8221;, explica Grant.<br \/>\nEle d\u00e1 como exemplo a sequ\u00eancia de livros de luta conhecida como S\u00e9rie Gladiat\u00f3ria, que cont\u00e9m indica\u00e7\u00f5es surpreendentes. &#8220;Um dos movimentos incluem desenroscar o pomo da espada [o acabamento esf\u00e9rico do punho] e atir\u00e1-lo em algu\u00e9m&#8221;, segundo ele.<br \/>\nComo essas t\u00e9cnicas extravagantes s\u00e3o mencionadas em apenas um livro, fica dif\u00edcil afirmar se elas realmente eram de uso comum, tendo sido simplesmente desprezadas pela maioria dos autores, ou se s\u00e3o t\u00e3o raras que quase nunca eram praticadas.<br \/>\nMais monges&#8230; e mulheres<br \/>\nEscondida nas \u00faltimas p\u00e1ginas do livro de Talhoffer, depois das numerosas imagens de homens medievais engalfinhando-se com espadas, porretes e alabardas, existe uma vis\u00e3o surpreendente: um homem em p\u00e9, dentro de um buraco at\u00e9 a cintura, parecendo um tanto ansioso, enquanto uma mulher em uma armadura folgada balan\u00e7a calmamente uma esp\u00e9cie de porrete improvisado no ar acima dele.<br \/>\nNa verdade, ela est\u00e1 empunhando uma rocha que pesa cerca de 1,8-2,3 kg (o peso aproximado de um tijolo padr\u00e3o moderno) e estava embrulhada no seu v\u00e9u. Ele est\u00e1 armado com um porrete com comprimento equivalente.<br \/>\nEsta cena estranha intriga os historiadores h\u00e1 d\u00e9cadas. Acredita-se que seja um &#8220;duelo judicial&#8221;, o mesmo m\u00e9todo usado para julgar Henrique de Essex por trai\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNa era medieval, esta era uma forma perfeitamente legal de resolver disputas, confiando no julgamento de Deus. Segundo a l\u00f3gica da \u00e9poca, deve haver uma parte culpada e, naturalmente, o poder celestial garantiria que essa parte perdesse a luta.<br \/>\nJoana d&#8217;Arc tinha diversas espadas, mas, na verdade, nunca as usou para matar algu\u00e9m<br \/>\nALAMY\/via BBC<br \/>\nEra comum treinar para essas lutas, da mesma forma que para qualquer outro combate, e as imagens parecem ser instrutivas.<br \/>\nS\u00e3o nove imagens ao todo, cada uma ilustrando um movimento diferente. Como costuma ocorrer, n\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil acompanh\u00e1-las, mas, em algumas, o homem tem sucesso e mata a mulher &#8211; em um cen\u00e1rio particularmente dram\u00e1tico, ela \u00e9 puxada para o buraco de ponta-cabe\u00e7a. J\u00e1 em outras, a mulher sai vitoriosa.<br \/>\nTem se especulado muito que essa batalha espec\u00edfica seria uma tentativa de resolver uma disputa conjugal, possivelmente at\u00e9 o &#8220;div\u00f3rcio por combate&#8221; &#8211; e a configura\u00e7\u00e3o incomum pode ter sido idealizada para eliminar parte das vantagens do homem. Mas, como ocorre com muitas t\u00e9cnicas bizarras nos livros de luta, trata-se de um completo mist\u00e9rio.<br \/>\n &#8220;\u00c9 muito, muito estranho &#8211; por favor, n\u00e3o me pe\u00e7a para explicar!&#8221;, afirma Grant.<br \/>\nE esta n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica men\u00e7\u00e3o inexplicada de mulheres nos livros de luta. O manual de combate europeu mais antigo j\u00e1 encontrado \u00e9 um livro com cerca de 750 anos de idade, conhecido como MS I.33 &#8211; a p\u00e1gina de t\u00edtulo com seu nome real e autor est\u00e1 faltando.<br \/>\nO curioso volume cont\u00e9m instru\u00e7\u00f5es de sequ\u00eancias com a espada e broquel e envolve um grupo de personagens que confunde os historiadores at\u00e9 hoje.<br \/>\nN\u00e3o se sabe ao certo se a mulher que luta no livro MS I.33 \u00e9 a famosa abadessa Santa Valburga ou outra pessoa com o mesmo nome<br \/>\nALAMY\/via BBC<br \/>\nPara come\u00e7ar, cerca de metade das cenas ilustra um padre &#8211; completo, com a &#8220;coroa&#8221; de calv\u00edcie ou corte de cabelo caracter\u00edstico e manto &#8211; duelando com um aprendiz. Por si s\u00f3, esta j\u00e1 \u00e9 uma imagem totalmente n\u00e3o ortodoxa.<br \/>\nEla significa que a esgrima era um passatempo comum nos monast\u00e9rios? Seria poss\u00edvel que nobres em desgra\u00e7a como Essex pudessem ter continuado a aprimorar suas t\u00e9cnicas depois de se tornarem monges? Ou a inclus\u00e3o das figuras religiosas, de alguma forma, \u00e9 simb\u00f3lica?<br \/>\nDe fato, o primeiro lugar que se tem registro de ter abrigado o livro foi um monast\u00e9rio. Mas, at\u00e9 hoje, ningu\u00e9m tem as respostas.<br \/>\nAs outras imagens s\u00e3o t\u00e3o estranhas quanto esta. Elas ilustram uma mulher chamada Walpurgia (Valburga, em portugu\u00eas) duelando com um padre. Ela usa cabelo solto em tran\u00e7as at\u00e9 a cintura ou ostenta o corte de cabelo tradicional das mulheres daquela \u00e9poca.<br \/>\nMulheres lutando na Idade M\u00e9dia n\u00e3o seriam algo totalmente sem precedentes. Na Europa, Joana d&#8217;Arc, camponesa do norte da Fran\u00e7a, ficou famosa ao vestir a armadura para participar da Guerra dos Cem Anos. J\u00e1 a rainha inglesa Margarida de Anjou liderou seu pr\u00f3prio ex\u00e9rcito em batalha no s\u00e9culo 15.<br \/>\nMas n\u00e3o se acredita que as mulheres costumassem lutar com frequ\u00eancia, de forma que a inclus\u00e3o casual de Walpurgia no livro \u00e9 uma surpresa. &#8220;As pessoas j\u00e1 criaram todo tipo de teorias, mas simplesmente n\u00e3o sabemos&#8221;, afirma Grant.<br \/>\nPor que as lutas com espadas desapareceram?<br \/>\nOs cavaleiros atingiram seu auge na era medieval, mas a luta com espadas permaneceu sendo uma parte importante da cultura europeia por s\u00e9culos. Ela foi mais popular durante a dinastia Tudor, no s\u00e9culo 16.<br \/>\nAntes disso, as escolas de luta eram comuns nas cidades alem\u00e3s, mas proibidas na Inglaterra, onde eram consideradas uma amea\u00e7a \u00e0 lei e \u00e0 ordem. At\u00e9 que, em dado momento, as leis come\u00e7aram a se afrouxar.<br \/>\n&#8220;Na verdade, voc\u00ea come\u00e7a a ter o crescimento dos duelos entre civis. Na maior parte da Idade M\u00e9dia, as pessoas n\u00e3o andavam com espadas durante o dia mais do que as pessoas modernas andam com fuzis de assalto nos ombros&#8221;, segundo Grant.<br \/>\nMas, no s\u00e9culo 16, as espadas se tornaram perfeitamente aceit\u00e1veis e at\u00e9 entraram na moda. &#8220;Come\u00e7amos a ter duelos sobre quest\u00f5es de honra cada vez mais banais&#8221;, afirma ele.<br \/>\nNaquela \u00e9poca, muitas das t\u00e9cnicas antigas de luta com espadas j\u00e1 estavam sendo abandonadas e a pr\u00e1tica come\u00e7ava a evoluir rumo \u00e0 esgrima moderna. Um historiador da \u00e9poca era particularmente cr\u00edtico do decl\u00ednio das t\u00e9cnicas antigas, incluindo a prefer\u00eancia pelos espadins em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0s espadas curtas tradicionais &#8211; embora &#8220;ele tamb\u00e9m fosse o tipo de pessoa que [se estivesse vivo hoje] estaria reclamando das coisas no YouTube&#8221;, indica Grant.<br \/>\nO golpe final veio com a inven\u00e7\u00e3o da pistola. No s\u00e9culo 18, essas novas armas acabaram substituindo as espadas como m\u00e9todo preferido de duelo. Afinal, enquanto voc\u00ea precisava aprender a lutar com uma espada, qualquer pessoa conseguia simplesmente puxar um gatilho.<br \/>\nCasacos acolchoados e espadas cegas<br \/>\nSurpreendentemente, as pessoas que tentam responder essas quest\u00f5es, muitas vezes, n\u00e3o s\u00e3o historiadores, mas artistas marciais modernos.<br \/>\nAo longo dos \u00faltimos 20 anos, vem crescendo constantemente o interesse pelas Artes Marciais Hist\u00f3ricas Europeias (HEMA, na sigla em ingl\u00eas). Existe atualmente uma comunidade florescente de entusiastas amadores, que passam grande parte do seu tempo livre mergulhados nos livros de luta e, muitas vezes, traduzindo os manuais de idiomas europeus antigos, como o alto-alem\u00e3o m\u00e9dio.<br \/>\nEssas primeiras convers\u00f5es ainda precisam ser interpretadas. Por isso, para poderem avan\u00e7ar, os artistas marciais as discutem e apresentam poss\u00edveis movimentos correspondentes.<br \/>\n\u00c9 aqui que tudo fica s\u00e9rio. &#8220;Realmente, a \u00fanica forma de conseguir algum tipo de resposta \u00e9 experimentar esses movimentos com os amigos&#8221;, explica MacIver.<br \/>\nOs entusiastas modernos e os mestres da luta medievais t\u00eam objetivos diferentes. Os primeiros lutam para evitar les\u00f5es a todo custo, enquanto os \u00faltimos queriam ensinar como matar um advers\u00e1rio o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<br \/>\nPor isso, nada acontece hoje em dia sem equipamento completo de prote\u00e7\u00e3o, desde grossos casacos com enchimento de espuma em volta dos \u00f3rg\u00e3os vitais, luvas e cal\u00e7as de prote\u00e7\u00e3o, at\u00e9 m\u00e1scaras de esgrima resistentes.<br \/>\nO movimento \u00e9 ent\u00e3o realizado em baix\u00edssima velocidade, para descobrir sua mec\u00e2nica. Em vez de espadas reais, eles usam armas cegas com peso similar.<br \/>\n&#8220;E s\u00e3o mais flex\u00edveis&#8221;, segundo MacIver. &#8220;Por isso, se voc\u00ea atingir uma pessoa, elas simplesmente n\u00e3o a perfuram.&#8221;<br \/>\nEm algum momento, depois de v\u00e1rias tentativas com diferentes m\u00e9todos, os artistas marciais conseguem definir o movimento que mais se aproxima das imagens e ilustra\u00e7\u00f5es. E, finalmente, ele \u00e9 realizado em velocidade normal, normalmente como parte de uma sequ\u00eancia que inclui outras t\u00e9cnicas antigas.<br \/>\nSe eles tiverem sucesso, a recompensa \u00e9 quase uma forma de viagem no tempo &#8211; uma intera\u00e7\u00e3o com mestres do combate que morreram centenas de anos atr\u00e1s, experimentando a\u00e7\u00f5es f\u00edsicas que estavam esquecidas h\u00e1 muito tempo. Talvez o mesmo movimento de espada que derrubou Henrique de Essex, quem sabe?<br \/>\n&#8220;\u00c9 uma grande satisfa\u00e7\u00e3o quando voc\u00ea est\u00e1 finalmente em um torneio [de HEMA] e faz algo que pode ser encontrado em um livro que foi escrito 500 anos atr\u00e1s&#8221;, afirma MacIver.<br \/>\nOs manuais de luta com espadas frequentemente inclu\u00edam instru\u00e7\u00f5es para duelar com ou sem armadura<br \/>\nALAMY\/via BBC<br \/>\nMas o processo pode ser extremamente complicado e, muitas vezes, repleto de confus\u00f5es e enormes falhas de dedu\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;S\u00e3o muitas idas e vindas, sabe, voc\u00ea chega a becos sem sa\u00edda todo o tempo&#8221;, segundo MacIver. &#8220;Ent\u00e3o voc\u00ea pensa, &#8216;OK, acho que consegui&#8217;, tenta alguma coisa e diz, &#8216;isso n\u00e3o funciona&#8217;.&#8221;<br \/>\nNa busca para resolver o famoso movimento dos p\u00e9s de di Vadi, MacIver chegou a quatro poss\u00edveis movimentos que se enquadram, de forma geral, na poesia amb\u00edgua das suas instru\u00e7\u00f5es.<br \/>\n&#8220;E todas elas parecem funcionar bem&#8221;, ele conta, &#8220;de forma que \u00e9 quase imposs\u00edvel descobrir a qual ele se referia&#8230; Tenho um amigo que especulou que talvez ele quisesse indicar todas as quatro, mas acho que isso daria muito cr\u00e9dito a ele.&#8221;<br \/>\nEm outros casos, uma dor aguda e um grito pedindo para parar s\u00e3o a indica\u00e7\u00e3o de que eles podem estar chegando a algum lugar. Ao tentar simular um movimento de quebra de bra\u00e7o, MacIver e seu amigo descobriram que este deveria ser acrescentado \u00e0 sua lista de movimentos proibidos.<br \/>\n&#8220;Est\u00e1vamos tentando todas essas op\u00e7\u00f5es diferentes &#8211; este n\u00e3o parece certo, este n\u00e3o faz nada, este n\u00e3o \u00e9 bom&#8230;&#8221;, ele conta. Mas, quando eles finalmente encontraram uma prov\u00e1vel solu\u00e7\u00e3o, surgiu um grito s\u00fabito: &#8220;&#8230; depois da mais leve press\u00e3o, ele come\u00e7ou, &#8216;n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, pare, j\u00e1 chega&#8217;.&#8221;<br \/>\nTalhoffer n\u00e3o foi apenas um especialista em lutas &#8211; ele tinha interesses variados, que inclu\u00edam a astrologia e a matem\u00e1tica<br \/>\nALAMY\/via BBC<br \/>\n\u00c9 claro que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil dizer se uma t\u00e9cnica funcionou como pretendido. Por isso, os artistas marciais atualizam continuamente suas interpreta\u00e7\u00f5es \u00e0 medida que surgem novas evid\u00eancias.<br \/>\nAs posi\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o de di Vadi s\u00e3o um exemplo. S\u00e3o posturas defensivas a serem adotadas antes de come\u00e7ar uma sequ\u00eancia de a\u00e7\u00f5es de luta com espadas.<br \/>\nMacIver explica que esses pontos de partida s\u00e3o essenciais, pois tudo o que acontece depois envolve a movimenta\u00e7\u00e3o de um para outro.<br \/>\nPor cerca de dois anos, ele acreditou que uma dessas posturas ensinava a manter a espada no lado direito do corpo. At\u00e9 que, um dia, algo o fez perceber que era exatamente o contr\u00e1rio.<br \/>\n&#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil dizer a partir da imagem, pois a perspectiva n\u00e3o \u00e9 muito boa. Era meio que plana. E existe algum tipo de indica\u00e7\u00e3o visual, mas n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio, por exemplo, o \u00e2ngulo do cotovelo dobrado, al\u00e9m de outras partes e informa\u00e7\u00f5es&#8221;, afirma MacIver.<br \/>\nE, mesmo com rela\u00e7\u00e3o aos movimentos mais \u00f3bvios, alguns historiadores acreditam que os artistas marciais estejam tentando o imposs\u00edvel. Nesta perspectiva, tentar recriar t\u00e9cnicas de luta antigas \u00e9 um pouco como reviver m\u00fasicas perdidas h\u00e1 muito tempo. Ambos dependem de considera\u00e7\u00f5es intang\u00edveis que eram de conhecimento comum na \u00e9poca, mas foram esquecidas h\u00e1 muito tempo.<br \/>\nComo ocorre com lutas medievais, as descri\u00e7\u00f5es de m\u00fasicas da \u00e9poca s\u00e3o muito vagas e decepcionantes.<br \/>\nMuito antes de serem expressas em notas musicais, as can\u00e7\u00f5es eram escritas por meio de &#8220;descri\u00e7\u00f5es mel\u00f3dicas&#8221;. Tudo o mais de que voc\u00ea precisava para interpretar uma m\u00fasica espec\u00edfica era armazenado nos c\u00e9rebros dos m\u00fasicos e passado fielmente por meio de tradi\u00e7\u00f5es orais. Depois que ela sa\u00eda de moda, tudo deixava de ser transmitido &#8211; e, quando isso acontecia, as m\u00fasicas desapareciam.<br \/>\nNa verdade, os historiadores reconhecem cada vez mais a import\u00e2ncia do chamado &#8220;conhecimento incorporado&#8221; &#8211; em que o corpo aprende como agir por meio da pr\u00e1tica ou da observa\u00e7\u00e3o &#8211; para compreender o passado. Este tipo de mem\u00f3ria sensorial inclui coisas como andar de bicicleta, que pode ser descrito em palavras, mas n\u00e3o dominado sem que se sente fisicamente sobre o selim.<br \/>\nInfelizmente, a luta medieval com espadas apresenta in\u00fameras oportunidades para a compreens\u00e3o errada desses detalhes. N\u00e3o sabemos com que for\u00e7a os golpes atingiam o advers\u00e1rio, o momento em que eram realizados os diferentes movimentos (incluindo quanto tempo ficar em cada posi\u00e7\u00e3o, o que poderia sofrer grandes varia\u00e7\u00f5es) ou os \u00e2ngulos exatos dos movimentos de corte da l\u00e2mina da espada no ar.<br \/>\n\u00c9 como tentar ensinar algu\u00e9m a ser uma bailarina profissional comunicando-se apenas por e-mail. Quais seria a possibilidades de realizar todos os movimentos corretamente?<br \/>\nOs livros de combate de Talhoffer n\u00e3o mostravam apenas t\u00e9cnicas de luta com espadas. Eles tamb\u00e9m inclu\u00edam projetos de diversas m\u00e1quinas de guerra<br \/>\nALAMY\/via BBC<br \/>\nIsso sem falar na dr\u00e1stica diferen\u00e7a entre como voc\u00ea se comportaria em real perigo de morte, em compara\u00e7\u00e3o com uma sess\u00e3o basicamente coreografada em uma reuni\u00e3o depois do trabalho.<br \/>\nMacIver indica um fato importante ressaltado por de&#8217;I Liberi, que dizia aos seus alunos: &#8220;&#8230; para quem luta com espadas afiadas, em uma simples cobertura [tentativa de bloquear um golpe] que falha, este ato resulta na sua morte.&#8221; Lutar sem armadura era t\u00e3o perigoso que ele pr\u00f3prio s\u00f3 o fez cinco vezes em toda a vida &#8211; nunca voluntariamente.<br \/>\nDe fato, muitas conclus\u00f5es modernas sobre como lutavam os cavaleiros provavelmente n\u00e3o se mant\u00eam. Uma \u00e9 a eleg\u00e2ncia das lutas de espadas, que eram muito diferentes das exibidas na televis\u00e3o ou mesmo na literatura medieval.<br \/>\nTeoricamente, os cavaleiros eram regidos pelo c\u00f3digo da cavalaria &#8211; um conjunto de padr\u00f5es de comportamento aceit\u00e1vel no campo de batalha. Mas Grant indica que, mesmo assim, esses nobres ideais, muitas vezes, n\u00e3o eram cumpridos nem mesmo na teoria, que dir\u00e1 na pr\u00e1tica.<br \/>\n&#8220;Certamente, Fiore [de&#8217;I Liberi] sabe o que \u00e9 uma luta justa e n\u00e3o quer fazer parte dela&#8221;, afirma Grant. &#8220;O importante \u00e9 ter certeza de que voc\u00ea seja o que ir\u00e1 sair vivo no final. Se isso significar dar golpes sujos, &#8216;OK, muito bem, siga em frente&#8217;.&#8221;<br \/>\nDe fato, existem indica\u00e7\u00f5es de que o combate no mundo real teria sido escandalosamente b\u00e1rbaro. Grant destaca as indica\u00e7\u00f5es oferecidas por esqueletos medievais. Eles demonstram que as lutas raramente ocorriam com um golpe ap\u00f3s o outro, pelo menos nas guerras. Elas eram confusas, r\u00e1pidas e, muitas vezes, v\u00e1rios homens atacavam um \u00fanico advers\u00e1rio simultaneamente.<br \/>\n&#8220;O que acontece \u00e9 que voc\u00ea d\u00e1 um bom golpe na cabe\u00e7a de algu\u00e9m e eles sofrem uma s\u00e9rie de golpes&#8221;, ele conta. &#8220;&#8230; Com muita frequ\u00eancia, o que voc\u00ea v\u00ea [no cr\u00e2nio] \u00e9 que eles t\u00eam seis feridas na cabe\u00e7a e duas ou tr\u00eas delas provavelmente ser\u00e3o fatais. No momento em que voc\u00ea perde o equil\u00edbrio, o seu oponente ir\u00e1 acompanhar, ficar em cima de voc\u00ea e continuar batendo.&#8221;<br \/>\nMas, apesar das grandes diferen\u00e7as entre as reinterpreta\u00e7\u00f5es modernas e a realidade hist\u00f3rica, MacIver est\u00e1 irredut\u00edvel. Ele acredita que, independentemente dos erros que s\u00e3o inevit\u00e1veis, os antigos mestres das lutas aprovariam o que os entusiastas da HEMA est\u00e3o tentando fazer. Afinal, alguns deles registraram seus segredos exatamente porque queriam evitar que eles fossem perdidos.<br \/>\nComo explicou di Vadi 540 anos atr\u00e1s, em seu pr\u00f3prio livro de luta, as t\u00e9cnicas antigas que ele aprendeu &#8220;n\u00e3o desaparecem por neglig\u00eancia de minha parte&#8221;. E, embora ainda haja muito trabalho pela frente, podemos dizer que ele est\u00e1 a caminho de atingir seu objetivo.<br \/>\nLeia a vers\u00e3o original desta reportagem (em ingl\u00eas) no site BBC Future.A vers\u00e3o em portugu\u00eas deste artigo foi publicada originalmente em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/vert-fut-64144722<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m sabe como realmente lutavam os cavaleiros medievais. Ilustra\u00e7\u00e3o de cavaleiros lutando da s\u00e9rie de livros de luta &#8216;Gladiat\u00f3ria&#8217; ALAMY\/via BBC Um dia, em meados do s\u00e9culo 12, um monge igual aos demais sentou-se na Abadia de Santo Edmundo, em Suffolk, no Reino Unido, e come\u00e7ou a escrever. 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