{"id":31969,"date":"2023-01-08T09:10:51","date_gmt":"2023-01-08T09:10:51","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/08\/1913-o-ano-em-que-hitler-trotsky-tito-freud-e-stalin-viveram-na-mesma-cidade\/"},"modified":"2023-01-08T09:10:51","modified_gmt":"2023-01-08T09:10:51","slug":"1913-o-ano-em-que-hitler-trotsky-tito-freud-e-stalin-viveram-na-mesma-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/08\/1913-o-ano-em-que-hitler-trotsky-tito-freud-e-stalin-viveram-na-mesma-cidade\/","title":{"rendered":"1913: o ano em que Hitler, Trotsky, Tito, Freud e Stalin viveram na mesma cidade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/KzMbxi7UQAlj0PBa464_vojDeKI=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/b\/F\/LxBTRTTES1rl4gnTSdLA\/128178811-gettyimages-89777762-1.jpg\"><br \/>   H\u00e1 110 anos, alguns dos personagens mais marcantes do s\u00e9culo 20 coabitaram uma capital europeia. Viena, 1913.<br \/>\nGetty Images\/ Via BBC<br \/>\nEm janeiro de 1913, um homem cujo passaporte trazia o nome de Stavros Papadopoulos desembarcou do trem de Crac\u00f3via na esta\u00e7\u00e3o Terminal Norte de Viena.<br \/>\nDe pele escura, ele usava um grande bigode de campon\u00eas e carregava uma mala de madeira muito b\u00e1sica.<br \/>\n&#8220;Ele estava sentado \u00e0 mesa &#8211; escreveu a pessoa com quem iria se encontrar, anos depois &#8211; quando a porta se abriu com um estrondo e um homem desconhecido entrou.&#8221;<br \/>\n&#8220;Ele era baixo&#8230; esguio&#8230; sua pele marrom-acinzentada coberta de marcas de var\u00edola&#8230; N\u00e3o vi nada em seus olhos que se parecesse com simpatia.&#8221;<br \/>\nO autor dessas linhas era um intelectual russo dissidente, diretor de um jornal radical chamado Pravda (Verdade). Seu nome era Leon Trotsky.<br \/>\nO homem que ele descreveu n\u00e3o se chamava Papadopoulos.<br \/>\nEle nasceu Iosif Vissarionovich Dzhugashvili, conhecido por seus amigos como Koba, e agora \u00e9 lembrado como Joseph Stalin.<br \/>\nTrostky \u00e0 esquerda e Stalin \u00e0 direita<br \/>\nGetty Images\/Via BBC<br \/>\nTrotsky e Stalin eram apenas dois de uma s\u00e9rie de homens que viviam no centro de Viena em 1913 cujas vidas estavam destinadas a moldar grande parte do s\u00e9culo 20.<br \/>\nH\u00e1 110 anos, Adolf Hitler, Joseph Tito e Sigmund Freud tamb\u00e9m estiveram na cidade.<br \/>\nMais personagens<br \/>\nEra um grupo heterog\u00eaneo.<br \/>\nOs dois revolucion\u00e1rios, Stalin e Trotsky, estavam fugindo. Outros tinham motiva\u00e7\u00f5es diferentes.<br \/>\nNessa altura, Sigmund Freud j\u00e1 estava bem estabelecido.<br \/>\nO psicanalista, exaltado por seus seguidores como aquele que desvendou os segredos da mente, era um homem famoso e respeitado que se tornara m\u00e9dico em 1881 e estabelecera sua cl\u00ednica em Viena em 1886, na rua Berggasse.<br \/>\nEm 1913 publicou o livro &#8220;Totem e tabu: Alguns Pontos de Concord\u00e2ncia entre a Vida Ps\u00edquica dos Selvagens e a dos Neur\u00f3ticos&#8221;.<br \/>\nO jovem Josip Broz, por sua vez, que mais tarde alcan\u00e7aria a fama como o l\u00edder da Iugosl\u00e1via, marechal Tito, trabalhava na f\u00e1brica de autom\u00f3veis Daimler em Wiener Neustadt, cidade ao sul de Viena, e procurava emprego, dinheiro e divers\u00e3o.<br \/>\nHitler e Freud.<br \/>\nGetty Images\/Via BBC<br \/>\nDepois, havia outro jovem, um homem de 24 anos do noroeste da \u00c1ustria, cujo sonho de estudar pintura na Academia de Belas Artes de Viena havia sido frustrado duas vezes depois de ser reprovado no vestibular e que agora estava hospedado em uma pousada na Meldermannstrasse, perto do Dan\u00fabio.<br \/>\nEra um certo Adolf Hitler.<br \/>\nCom um amigo, ele ganhou dinheiro desenhando cart\u00f5es-postais dos famosos pontos tur\u00edsticos de Viena e depois vendendo-os aos turistas.<br \/>\nEm sua majestosa evoca\u00e7\u00e3o da cidade na \u00e9poca, &#8220;Thunder at Twilight&#8221;, o autor austr\u00edaco Frederic Morton imaginou Hitler doutrinando seus colegas de quarto &#8220;sobre moralidade, pureza racial, a miss\u00e3o alem\u00e3 e trai\u00e7\u00e3o eslava, judeus, jesu\u00edtas e ma\u00e7ons&#8221;.<br \/>\n&#8220;Seu cabelo jogado para tr\u00e1s, suas m\u00e3os sujas de tinta rasgaram o ar, sua voz subiu para um tom oper\u00edstico.&#8221;<br \/>\n&#8220;Ent\u00e3o, t\u00e3o repentinamente quanto havia come\u00e7ado, ele parava. Recolhia suas coisas com um ru\u00eddo imperioso e caminhava em dire\u00e7\u00e3o ao seu cub\u00edculo.&#8221;<br \/>\nCoincidentemente, o prefeito de Viena naqueles anos, Karl Lueger, \u00e9 considerado o pai do anti-semitismo pol\u00edtico moderno.<br \/>\nAs l\u00ednguas<br \/>\nA cidade em 1913 era a capital do Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro, que consistia em 15 na\u00e7\u00f5es e mais de 50 milh\u00f5es de habitantes.<br \/>\n&#8220;Viena era um caldeir\u00e3o cultural que atra\u00eda pessoas ambiciosas de todo o Imp\u00e9rio&#8221;, disse o escritor e editor Dardis McNamee \u00e0 BBC.<br \/>\n&#8220;Menos da metade dos dois milh\u00f5es de residentes da cidade eram nativos e cerca de um quarto viera da Bo\u00eamia (atual Rep\u00fablica Tcheca ocidental) e da Mor\u00e1via (atual Rep\u00fablica Tcheca oriental), ent\u00e3o o tcheco era falado ao lado do alem\u00e3o em muitos lugares.&#8221;<br \/>\n&#8220;Concerto no Musikverunde em Viena&#8221;, 1913.<br \/>\nGetty Images\/ Via BBC<br \/>\nOs s\u00faditos do imp\u00e9rio falavam uma d\u00fazia de idiomas, explica ele.<br \/>\n&#8220;Os oficiais do ex\u00e9rcito austro-h\u00fangaro deveriam ser capazes de emitir ordens em 11 idiomas al\u00e9m do alem\u00e3o, cada um dos quais com uma tradu\u00e7\u00e3o oficial do Hino Nacional.&#8221;<br \/>\nE essa mistura \u00fanica criou seu pr\u00f3prio fen\u00f4meno cultural: o caf\u00e9 vienense.<br \/>\nOs caf\u00e9s<br \/>\nA lenda tem sua g\u00eanese nos sacos de caf\u00e9 deixados para tr\u00e1s pelo ex\u00e9rcito otomano ap\u00f3s o fracassado cerco turco de 1683.<br \/>\n&#8220;A cultura do caf\u00e9 e a no\u00e7\u00e3o de debate e discuss\u00e3o nos caf\u00e9s s\u00e3o uma parte muito importante da vida vienense agora e naquela \u00e9poca&#8221;, disse \u00e0 BBC Charles Emmerson, autor de &#8220;1913: Em Busca do Mundo Antes da Grande Guerra&#8221;.<br \/>\n&#8220;A comunidade intelectual vienense era realmente pequena e todos se conheciam e isso proporcionava trocas al\u00e9m das fronteiras culturais.&#8221;<br \/>\nEssa atmosfera, acrescentou, favorecia dissidentes pol\u00edticos e fugitivos.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o havia um estado central tremendamente poderoso. Se voc\u00ea quisesse encontrar um lugar para se esconder na Europa onde pudesse conhecer muitas outras pessoas interessantes, Viena era um bom lugar para isso.&#8221;<br \/>\nO ponto de encontro favorito de Freud, o Caf\u00e9 Landtmann, ainda fica no Ring, o famoso bulevar que circunda a hist\u00f3rica Innere Stadt da cidade.<br \/>\nMas ele tamb\u00e9m frequentava o Caf\u00e9 Central, a poucos minutos a p\u00e9, onde os bolos, os jornais, o xadrez e, sobretudo, a conversa eram as paix\u00f5es dos clientes.<br \/>\nEntre eles, Trotsky, L\u00eanin e Hitler.<br \/>\nUma anedota famosa relata que o Conde Berchtold &#8211; na \u00e9poca ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da \u00c1ustria-Hungria -, em meio a uma acalorada disputa com um pol\u00edtico local que argumentava que uma guerra provocaria uma revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia, respondeu com desd\u00e9m:<br \/>\n&#8220;E quem vai liderar tal revolu\u00e7\u00e3o? Talvez o Sr. Bronstein [Trotsky] do Caf\u00e9 Central?&#8221;<br \/>\n&#8220;Parte do que tornava os caf\u00e9s t\u00e3o importantes era que &#8216;todos&#8217; iam&#8221;, disse MacNamee.<br \/>\n&#8220;Ent\u00e3o houve fertiliza\u00e7\u00e3o cruzada entre disciplinas e interesses.&#8221;<br \/>\n&#8220;Na verdade, os limites que mais tarde se tornaram t\u00e3o r\u00edgidos no pensamento ocidental eram muito fluidos.&#8221;<br \/>\nAl\u00e9m disso, ele enfatizou, &#8220;a onda de energia da intelectualidade judaica e da nova classe industrial tornou poss\u00edvel para Franz Joseph conceder-lhes plenos direitos de cidadania em 1867 e pleno acesso a escolas e universidades&#8221;.<br \/>\nN\u00e3o esquecendo artistas como Gustav Klimt, que em 1913 pintou um dos seus \u00faltimos quadros, &#8220;A Jovem&#8221; ou &#8220;A Virgem&#8221;, e causou grande pol\u00eamica com uma s\u00e9rie de desenhos er\u00f3ticos exibidos na Exposi\u00e7\u00e3o Internacional de Gravura e Desenho de Viena.<br \/>\nNesse mesmo ano, seu disc\u00edpulo, o pintor e gravador austr\u00edaco Egon Schiele, deu ao mundo v\u00e1rias de suas pinturas mais populares, como &#8220;Amizade&#8221; e &#8220;Mulher de Meias Pretas&#8221;, e escreveu ao colecionador Franz Hauer:<br \/>\n&#8220;S\u00f3 pintar n\u00e3o me basta; sei que se pode usar as cores para estabelecer qualidades. Quando se v\u00ea uma \u00e1rvore outonal no ver\u00e3o, \u00e9 uma experi\u00eancia intensa que envolve todo o cora\u00e7\u00e3o e o ser; gostaria de pintar essa melancolia.&#8221;<br \/>\nE, embora ainda fosse uma sociedade amplamente dominada por homens, v\u00e1rias mulheres tamb\u00e9m causaram grande impacto, principalmente a compositora, autora e editora Alma Mahler.<br \/>\nEm 1913, ela iniciou sua rela\u00e7\u00e3o tumultuada e apaixonada com o artista, poeta e dramaturgo austr\u00edaco Oskar Kokoschka, que inspiraria ambos a criarem grandes obras de arte.<br \/>\nMas enquanto a cidade era, e ainda \u00e9, sin\u00f4nimo de m\u00fasica, dan\u00e7a luxuosa e valsas, seu lado sombrio era especialmente sombrio.<br \/>\nUm grande n\u00famero de cidad\u00e3os vivia em favelas e, em 1913, quase 1.500 vienenses se mataram.<br \/>\nNingu\u00e9m sabe se Hitler conheceu Trotsky ou se Tito conheceu Stalin.<br \/>\nMas a situa\u00e7\u00e3o inspirou obras como a pe\u00e7a de r\u00e1dio de 2007 &#8220;Dr. Freud vai v\u00ea-lo, Sr. Hitler&#8221;, de Laurence Marks e Maurice Gran, na qual eles imaginam tais encontros.<br \/>\nA grande guerra<br \/>\nPresidindo a tudo, no labir\u00edntico Pal\u00e1cio Hofburg da cidade, estava o imperador Francisco Jos\u00e9 1\u00ba, 83 anos, que reinava desde 1848, o grande ano das revolu\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO arquiduque Franz Ferdinand, seu sucessor designado, residia no vizinho Pal\u00e1cio Belvedere, aguardando ansiosamente o trono.<br \/>\nSeu desejo de se casar com a condessa Sophie Chotek, dama de companhia da arquiduquesa, causou muita pol\u00eamica.<br \/>\nComo herdeiro do imp\u00e9rio, ele foi convidado a se casar com uma fam\u00edlia real europ\u00e9ia, mas, profundamente apaixonado, recusou, casando-se com Sophie em 1900, ap\u00f3s concordar que seus filhos n\u00e3o seriam capazes de governar.<br \/>\nO arquiduque viu a fraqueza do imp\u00e9rio de seu pai e tentou combat\u00ea-la fortalecendo o ex\u00e9rcito e a marinha.<br \/>\nEm 1913 tornou-se inspetor-geral do ex\u00e9rcito, ao mesmo tempo em que um grupo na S\u00e9rvia, a M\u00e3o Negra, come\u00e7ou a tra\u00e7ar um plano contra ele.<br \/>\nSeu assassinato em 28 de junho de 1914 desencadearia a Primeira Guerra Mundial.<br \/>\nA conflagra\u00e7\u00e3o destruiu grande parte da vida intelectual de Viena.<br \/>\nO imp\u00e9rio implodiu em 1918, impulsionando Hitler, Stalin, Trotsky e Tito para carreiras que marcariam a hist\u00f3ria mundial para sempre.<br \/>\n&#8211; Essa reportagem foi originalmente publicada em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-64200657<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 110 anos, alguns dos personagens mais marcantes do s\u00e9culo 20 coabitaram uma capital europeia. 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