{"id":30684,"date":"2023-01-03T13:09:58","date_gmt":"2023-01-03T13:09:58","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/03\/como-policia-nos-eua-aposta-em-assistentes-sociais-contra-violencia\/"},"modified":"2023-01-03T13:09:58","modified_gmt":"2023-01-03T13:09:58","slug":"como-policia-nos-eua-aposta-em-assistentes-sociais-contra-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2023\/01\/03\/como-policia-nos-eua-aposta-em-assistentes-sociais-contra-violencia\/","title":{"rendered":"Como pol\u00edcia nos EUA aposta em assistentes sociais contra viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/6zT6TIHfTaHWimIHL1uvnKqZcOM=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/Q\/w\/DOqcMqSbWQl2EV2FYcqA\/bbc-eua.jpg\"><br \/>   Policiais e profissionais de sa\u00fade trabalham juntos em um n\u00famero cada vez maior de cidades americanas. Em Nova York, 50 mil pessoas dormem em abrigos e outras 35 mil vivem nas ruas, diz criador de iniciativas que reorientam para servi\u00e7os de assist\u00eancia m\u00e9dica e social as chamadas de emerg\u00eancia que chegam \u00e0s delegacias de pol\u00edcia.<br \/>\nEduardo Mu\u00f1oz\/ Reuters via BBC<br \/>\nNos Estados Unidos, policiais e profissionais de sa\u00fade trabalham juntos em um n\u00famero cada vez maior de cidades.<br \/>\nUm homem aparentemente idoso, apoiado em uma bengala, gritava por socorro na esquina da avenida Amsterdam com a rua 104, em Manhattan. Ele parecia congelado, incapaz de se mover.<br \/>\nEm poucos segundos chegou o socorro e, acompanhando a cena, observei que os param\u00e9dicos que saltaram da ambul\u00e2ncia reconheceram o morador com dist\u00farbios mentais que volta e meia \u00e9 recolhido e levado ao hospital para, semanas depois, repetir a rotina.<br \/>\n Foi a primeira vez, mas n\u00e3o a \u00faltima, em que ouvi os gritos daquele vizinho no ver\u00e3o de 2020. O que acontece com ele \u00e9 comum em grande parte das cidades dos Estados Unidos. E \u00e9 para lidar com esses problemas de sa\u00fade mental e com o desespero por falta de moradia que cresce cada vez mais a presen\u00e7a de assistentes sociais e psic\u00f3logos dentro dos departamentos de pol\u00edcia.<br \/>\nEquipes m\u00f3veis formadas por um profissional de sa\u00fade mental e um enfermeiro hoje percorrem cidades em mais de 34 Estados americanos reduzindo a press\u00e3o sobre os policiais que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, foram obrigados a assumir a responsabilidade pelo atendimento de chamados para os quais n\u00e3o s\u00e3o treinados.<br \/>\n&#8220;J\u00e1 pedimos aos policiais para fazer muitas coisas. Cuidar dos sem-teto, dos drogados, \u00e9 tudo com eles&#8221;, diz o professor Jeffrey Coots, advogado e l\u00edder do programa &#8220;Da Puni\u00e7\u00e3o \u00e0 Sa\u00fade P\u00fablica&#8221;, da Universidade John Jay de Justi\u00e7a Criminal, em Nova York.<br \/>\nEle trabalha em iniciativas que reorientam para servi\u00e7os de assist\u00eancia m\u00e9dica e social as chamadas de emerg\u00eancia que chegam \u00e0s delegacias de pol\u00edcia. Ele tamb\u00e9m treina promotores p\u00fablicos para que possam identificar os casos de detidos que precisam de cuidados e n\u00e3o de cadeia.<br \/>\nNova York est\u00e1 apenas engatinhando nessa \u00e1rea. Tem um projeto piloto que come\u00e7ou no Harlem, em julho, chamado &#8220;B-Heard&#8221;. Em portugu\u00eas seria &#8220;Ser Ouvido&#8221;. Ele reorienta as chamadas que chegam ao n\u00famero de emerg\u00eancia, o 911, que todo mundo no pa\u00eds aprende a discar, desde crian\u00e7a, em caso de problema.<br \/>\nOs funcion\u00e1rios que atendem essas chamadas precisam decidir, rapidamente, se enviam policiais ou bombeiros para o local.<br \/>\nAgora, nesse projeto piloto, eles podem acionar equipes m\u00f3veis de assist\u00eancia que sempre incluem algu\u00e9m que se envolveu com drogas ou viveu em situa\u00e7\u00e3o de rua e, por isso mesmo, \u00e9 capaz de entender e dialogar mais facilmente com a pessoa que est\u00e1 sendo atendida.<br \/>\nSe a situa\u00e7\u00e3o mudar, se tornar violenta, a equipe se afasta e chama refor\u00e7o policial.<br \/>\nEm Bloomington, Indiana, o sistema \u00e9 diferente. Em 2019 a cidade, de 80 mil habitantes, contratou a primeira assistente social, Melissa Stone. Ela agora tem duas outras colegas e conta que elas nunca saem sozinhas.<br \/>\nO primeiro atendimento \u00e9 sempre feito junto com a pol\u00edcia. Nas visitas seguintes, para dar continuidade ao atendimento, elas n\u00e3o precisam dos policiais.<br \/>\nElas se encarregam de encaminhar a pessoa para um tratamento, um abrigo, uma resid\u00eancia permanente. O objetivo \u00e9 resolver o problema para a pessoa n\u00e3o precisar chamar o servi\u00e7o de socorro novamente.<br \/>\nRonnie Roberts foi chefe de pol\u00edcia de Olympia, em Seattle. Mas antes passou por um aprendizado de quase 24 anos em Eugene, no Oregon. A cidade \u00e9 pioneira no pa\u00eds com um programa que j\u00e1 funciona h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas substituindo policiamento por assist\u00eancia, sempre que poss\u00edvel.<br \/>\n&#8220;Eu estava l\u00e1 quando come\u00e7ou&#8221;, conta o chefe de pol\u00edcia aposentado, &#8220;e n\u00f3s ach\u00e1vamos que aqueles cabeludos tomariam nossos r\u00e1dios, nosso emprego, nossas chamadas&#8221;.<br \/>\nMas aos poucos os policiais foram entendendo que o programa, chamado Cahoots, trazia vantagens para todo mundo.<br \/>\nUma pesquisa do Instituto Vera para a Justi\u00e7a e do jornal The New York Times mostrou, em 2019, que apenas 2% das chamadas de emerg\u00eancia para a pol\u00edcia estavam relacionadas a crimes violentos. A grande maioria dos pedidos de ajuda tem origem no consumo de drogas e \u00e1lcool, na intersec\u00e7\u00e3o de moradores em situa\u00e7\u00e3o de rua com sa\u00fade mental. S\u00e3o problemas sociais que acabam na delegacia.<br \/>\nPor isso a cidade de Eugene topou a proposta de uma cl\u00ednica m\u00e9dica e criou a parceria que depois de 30 anos continua crescendo, como conta o atual chefe de pol\u00edcia da cidade, Chris Skinner.<br \/>\nDepois que policiais de Minneapolis mataram George Floyd, em 2020, na rua, diante de testemunhas, os protestos no pa\u00eds explodiram. Muitos pediam a redu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento das pol\u00edcias e mais investimento em assist\u00eancia social, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm Eugene, diz Chris Skinner, o departamento de pol\u00edcia investe cerca de US $1 milh\u00e3o (R$ 5,3 milh\u00f5es) por ano na parceria com a cl\u00ednica respons\u00e1vel pelo Cahoots.<br \/>\n&#8220;Sem essa parceria, n\u00e3o dar\u00edamos conta porque temos muitas pessoas em crise, nas ruas. Mais de 1% da popula\u00e7\u00e3o da cidade vive em situa\u00e7\u00e3o de rua. S\u00e3o mais de 17 mil pessoas. Mas o programa \u00e9 bem sucedido e toda semana falamos sobre ele com outras cidades dos Estados Unidos e do Canad\u00e1&#8221;, conta Skinner.<br \/>\nRonnie Roberts saiu de Eugene para replicar o modelo de parceria em Olympia, no Estado de Washington. Ele assumiu a lideran\u00e7a do departamento de pol\u00edcia em 2010. Implantou um programa semelhante ao de Eugene e aprimorou o projeto aos poucos.<br \/>\n&#8220;No come\u00e7o, era sempre a pol\u00edcia que atendia as chamadas para depois aparecer a equipe de assist\u00eancia. Mas invertemos essa l\u00f3gica&#8221;, conta.<br \/>\nO time come\u00e7ou pequeno, com 10 pessoas, e investiu no treinamento da equipe que faz o primeiro contato com os problemas: o pessoal que atende as chamadas. Eles precisam entender rapidamente do que se trata para saber quem vai responder ao pedido de socorro.<br \/>\nCom mais de 30 anos de experi\u00eancia, Ronnie Skinner aponta os dois maiores obst\u00e1culos que esses programas enfrentam: manter os profissionais, j\u00e1 que o trabalho \u00e9 muito dif\u00edcil, e contar com os servi\u00e7os necess\u00e1rios oferecer \u00e0s pessoas atendidas pelas equipes.<br \/>\nA primeira provid\u00eancia para estabilizar pessoas com problemas de sa\u00fade mental \u00e9 a moradia. Garantir um teto \u00e9 essencial. Se a prefeitura n\u00e3o tem como oferecer resid\u00eancia subsidiada ou abrigo seguro, o atendimento \u00e9 um paliativo e n\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs cidades tamb\u00e9m precisam de centros de desintoxica\u00e7\u00e3o, reabilita\u00e7\u00e3o e um n\u00famero maior de cl\u00ednicas especializadas.<br \/>\nEm Nova York, Jeffrey Coots se depara com as mesmas dificuldades. Mas v\u00ea sa\u00edda. Ou melhoras lentas. A moradia \u00e9 o grande entrave.<br \/>\n&#8220;Temos 50 mil pessoas nos abrigos e outras 35 mil que se recusam a ir para esses lugares, porque t\u00eam medo, e vivem nas ruas. Outras 200 mil pessoas moram em resid\u00eancias p\u00fablicas, subsidiadas pelo governo&#8221;, diz.<br \/>\nMas agora, desde que o Congresso aprovou a reforma da sa\u00fade, mais conhecida como Obamacare, em 2008, aos poucos, essa popula\u00e7\u00e3o passou a ter acesso a tratamentos que antes nem sonhavam em usufruir.<br \/>\nMas \u00e9 preciso encontrar, cadastrar e orientar essas pessoas. \u00c9 o que ele tem feito, no Brooklyn, em campanhas que se instalam nas comunidades por cinco ou seis dias a cada quatro ou cinco meses.<br \/>\nSem a presen\u00e7a da pol\u00edcia, eles ouvem os moradores, descobrem quais s\u00e3o os problemas mais urgentes, cuidam da documenta\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o tem, encaminham para os servi\u00e7os dispon\u00edveis e checam, na visita seguinte, se o atendimento est\u00e1 andando.<br \/>\nJeffrey Coots se diz otimista apesar da burocracia e do ritmo geralmente lento da m\u00e1quina governamental. Ele se lan\u00e7ou nesse trabalho h\u00e1 9 anos e, se antes tinha uma meia d\u00fazia de pessoas envolvidas no projeto, hoje conta com mais de 200 em diferentes \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o da prefeitura, da academia e de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais.<br \/>\nEle tamb\u00e9m enfrenta o desafio de contratar e manter os profissionais de sa\u00fade e de assist\u00eancia social \u2014 porque  o trabalho \u00e9 pesado e a demanda por esses servi\u00e7os s\u00f3 aumentou por causa da pandemia de covid.<br \/>\n&#8220;Durante 50 ou 60 anos, n\u00e3o encaramos esses problemas. A concentra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nos centros urbanos s\u00f3 aumentou. Mas hoje, essa estrat\u00e9gia de intervir e dar assist\u00eancia antes que a pessoa seja detida ou fichada j\u00e1 foi replicada em mais de 40 cidades e participamos de confer\u00eancias nacionais para discutir o assunto.&#8221;<br \/>\nPor isso, ele n\u00e3o desanima e adianta que esse ano de 2023 vai ser melhor, com mudan\u00e7as na distribui\u00e7\u00e3o de verbas do sistema federal de sa\u00fade para Nova York dar mais \u00eanfase a trabalhos como o dele.<br \/>\n\u00c9 um passo importante: o Medicaid \u00e9 o programa do governo americano que d\u00e1 assist\u00eancia m\u00e9dica aos mais pobres.<br \/>\nSe ele reconhece a validade da associa\u00e7\u00e3o entre profissionais de sa\u00fade e as pol\u00edcias municipais no atendimento dessa popula\u00e7\u00e3o, eles ter\u00e3o mais dinheiro para tornar mais amplas e eficientes iniciativas como a B-Heard, de Nova York, a Cahoots, de Eugene, o trabalho j\u00e1 consolidado em Olympia e os mais de 40 projetos em andamento em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-64128263<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Policiais e profissionais de sa\u00fade trabalham juntos em um n\u00famero cada vez maior de cidades americanas. 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