{"id":29946,"date":"2022-12-31T07:13:38","date_gmt":"2022-12-31T07:13:38","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/31\/livro-de-jo-como-texto-biblico-escrito-ha-25-mil-anos-combate-ideia-de-teologia-da-prosperidade\/"},"modified":"2022-12-31T07:13:38","modified_gmt":"2022-12-31T07:13:38","slug":"livro-de-jo-como-texto-biblico-escrito-ha-25-mil-anos-combate-ideia-de-teologia-da-prosperidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/31\/livro-de-jo-como-texto-biblico-escrito-ha-25-mil-anos-combate-ideia-de-teologia-da-prosperidade\/","title":{"rendered":"Livro de J\u00f3: como texto b\u00edblico escrito h\u00e1 2,5 mil anos combate ideia de teologia da prosperidade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/RRUYcJhxh4CuE98ZrptlQ34hmm8=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/f\/R\/3cOZWNT2OTpr1aycbgNA\/a.jpg\"><br \/>   Entre os especialistas, \u00e9 consenso que se trata de um conte\u00fado m\u00edtico, uma f\u00e1bula que pretende deixar uma mensagem J\u00f3, pelo pintor franc\u00eas Leon Bonnat<br \/>\nDOM\u00cdNIO P\u00daBLICO<br \/>\nA hist\u00f3ria de J\u00f3, um homem justo, fiel e paciente, est\u00e1 presente na tradi\u00e7\u00e3o oral de povos do Oriente M\u00e9dio desde cerca de 4 mil anos atr\u00e1s. Em algum momento entre o s\u00e9culo 6 e 5 antes de Cristo, contudo, esta hist\u00f3ria foi redigida em hebraico, na vers\u00e3o que est\u00e1 presente at\u00e9 hoje no Antigo Testamento da B\u00edblia.<br \/>\nEntre os especialistas, \u00e9 consenso que se trata de um conte\u00fado m\u00edtico, uma f\u00e1bula que pretende deixar uma mensagem. E, curiosamente, essa mensagem b\u00edblica \u00e9 justamente o oposto do que defende a teologia da prosperidade, ideia encampada por muitas igrejas evang\u00e9licas neopentecostais hoje.<br \/>\nPorque J\u00f3 foi da riqueza \u00e0 pobreza e permaneceu fiel a Deus. A narrativa, portanto, ilustra o problema da teodiceia \u2014 emprestando o conceito do fil\u00f3sofo alem\u00e3o Gottfried Leibniz (1646-1716): justifica a justi\u00e7a de Deus em um contexto de humanidade que padece o sofrimento.<br \/>\n&#8220;J\u00f3 n\u00e3o pode ser considerado um personagem hist\u00f3rico e, sim, uma personifica\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica&#8221;, comenta o te\u00f3logo, cientista da religi\u00e3o e historiador Luiz Alexandre Solano Rossi, professor da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Paran\u00e1 (PUC-PR), do Centro Universit\u00e1rio Internacional (UNINTER) e autor de, entre outros livros, A Origem do Sofrimento do Pobre: Teologia e Antiteologia no Livro de J\u00f3.<br \/>\nRossi lembra que a experi\u00eancia de J\u00f3 serve &#8220;como uma refer\u00eancia para mostrar como um tipo de teologia pode ser relacionada facilmente a esta pr\u00e1tica da recompensa&#8221;.<br \/>\n&#8220;Essa teologia \u00e9 costumeiramente denominada de teologia da retribui\u00e7\u00e3o. Para a teologia da retribui\u00e7\u00e3o, Deus concede a riqueza para alguns e a pobreza para todos os outros&#8221;, explica ele.<br \/>\n&#8220;A partir dessa premissa, os ricos s\u00e3o ricos e continuar\u00e3o ricos porque eles s\u00e3o justos, enquanto que os pobres s\u00e3o pobres e possivelmente continuar\u00e3o sendo pobres porque eles n\u00e3o confiam na justi\u00e7a de Deus, ou, ainda pior, porque eles s\u00e3o pecadores&#8221;, prossegue o te\u00f3logo.<br \/>\n Para Rossi, J\u00f3, &#8220;por meio de seus discursos&#8221;, busca &#8220;dar uma resposta \u00e0s quest\u00f5es fundamentais presentes no texto b\u00edblico considerando este tipo de teologia&#8221;.<br \/>\n&#8220;A experi\u00eancia de J\u00f3 proclama desde o seu in\u00edcio que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o alguma entre pecado e sofrimento e entre virtude e recompensa&#8221;, sintetiza.<br \/>\nPara o historiador, fil\u00f3sofo e te\u00f3logo Gerson Leite de Moraes, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a leitura de J\u00f3 &#8220;\u00e9 algo complexa&#8221; que ressoa sociol\u00f3gica e religiosamente at\u00e9 os dias atuais.<br \/>\n&#8220;Temos uma corrente muito presente no movimento pentecostal que a \u00e9 a teologia da prosperidade, a ideia do &#8216;seja fiel a Deus e seja rico'&#8221;, comenta ele. &#8220;\u00c9 como se fosse autom\u00e1tico: se voc\u00ea for fiel a Deus, ele \u00e9 obrigado a aben\u00e7o\u00e1-lo&#8221;, diz o te\u00f3logo.<br \/>\n&#8220;O Livro de J\u00f3 vai por uma dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria: J\u00f3 foi fiel a Deus a vida toda, Deus o aben\u00e7oava. Mas quando Deus foi desafiado por Satan\u00e1s, ele tirou tudo de J\u00f3&#8221;, resume Moraes.<br \/>\n&#8220;Talvez essa seja a grande li\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria: voc\u00ea continuar fiel a Deus mesmo passando por dificuldades. Porque ter f\u00e9 enquanto tudo vai bem \u00e9 lindo e maravilhoso. Mostrar f\u00e9 e fidelidade a Deus, mostrar que ainda continua crendo na justi\u00e7a e na soberania de Deus mesmo em meio a dificuldades, talvez essa seja a quest\u00e3o&#8221;, acrescenta.<br \/>\nA hist\u00f3ria de J\u00f3<br \/>\nSegundo o relato, J\u00f3 teria sido um homem que vivia na terra de Uz, um local nunca identificado ao certo. Ele seria casado com uma mulher \u00e1rabe \u2014 cujo nome n\u00e3o \u00e9 mencionado. Era um homem rico, dono de 7 mil ovelhas, 3 mil camelos, 500 juntas de bois, 500 jumentas.<br \/>\nEle teria sido pai de sete filhos e tr\u00eas filhas. E senhor de muitos servos. No texto b\u00edblico, \u00e9 dito que &#8220;este homem era maior do que todos os do oriente&#8221;. E um &#8220;homem \u00edntegro, reto e temente a Deus&#8221;, que &#8220;desviava-se do mal&#8221;.<br \/>\nLiterariamente, o entendimento mais comum \u00e9 de que o livro seja a hist\u00f3ria tradicional original com um grande enxerto po\u00e9tico.<br \/>\n&#8220;As diferen\u00e7as de vocabul\u00e1rio, de estilo, de tradi\u00e7\u00e3o cultural e at\u00e9 mesmo de ideias religiosas, de teologias distintas, mostram que essa obra, na verdade, foi composta por muito tempo&#8221;, aponta Moraes.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o \u00e9 uma obra produzida em um \u00fanico momento hist\u00f3rico. \u00c9 uma colcha de retalhos. E isso j\u00e1 traz evid\u00eancia de que o texto foi ressignificado ao longo do tempo, pois n\u00e3o \u00e9 produto de um \u00fanico tempo&#8221;, acrescenta.<br \/>\n&#8220;A hist\u00f3ria de J\u00f3 \u00e9 de um drama universal. Uma hist\u00f3ria conhecida no Oriente M\u00e9dio por volta de 2 mil anos antes de Cristo, muito provavelmente contada nos mais variados lugares, uma hist\u00f3ria que encampava problemas universais como o problema do mal, do sofrimento, da dor, do relacionamento do homem com Deus, da riqueza e da pobreza&#8221;, enumera o professor.<br \/>\n Moraes explica que, provavelmente por volta dos s\u00e9culos 11 ou 10 antes de Cristo, essa hist\u00f3ria foi incorporada pelos hebreus e passou a ser recontada pelos israelitas, ainda de maneira oral.<br \/>\n&#8220;O cerne da hist\u00f3ria est\u00e1 nos cap\u00edtulos 1, 2 e 42 do que a gente tem hoje como Livro de J\u00f3&#8221;, diz.<br \/>\nOu seja: essa hist\u00f3ria mais fundamental, digamos assim, \u00e9 o que est\u00e1 nos dois primeiros e no \u00faltimo cap\u00edtulo do relato b\u00edblico depois canonizado. &#8220;Esta vers\u00e3o bastante resumida \u00e9 o n\u00facleo do que a gente tem hoje&#8221;, acrescenta.<br \/>\nForam mais de 500 anos, dali em diante, para que o texto se tornasse escrito da maneira como o conhecemos.<br \/>\n&#8220;O que pode ser considerado hist\u00f3rico \u00e9, sim, o per\u00edodo em que o livro provavelmente foi escrito. E, nesse sentido, estamos ao redor do p\u00f3s-ex\u00edlio, isto \u00e9, 450 a.C., per\u00edodo no qual o poderos\u00edssimo Imp\u00e9rio Persa dominava o mundo conhecido da \u00e9poca e, inclusive, a regi\u00e3o onde se encontrava o povo da B\u00edblia&#8221;, contextualiza Rossi.<br \/>\nFoi um per\u00edodo de intensa dificuldade para o povo hebreu, que se viu obrigado a buscar o ex\u00edlio diante da domina\u00e7\u00e3o babil\u00f4nica.<br \/>\n&#8220;Trata-se de um per\u00edodo de maior miserabiliza\u00e7\u00e3o do povo de Deus&#8221;, salienta o especialista. &#8220;Assim, o livro de J\u00f3 \u00e9 um produto que reflete justamente essa \u00e9poca de crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica, social e religiosa que alcan\u00e7a os camponeses da Yehud, nome da prov\u00edncia do imp\u00e9rio persa.&#8221;<br \/>\nMoraes lembra que foi um per\u00edodo em que &#8220;muitos judeus tinham perdido praticamente tudo&#8221;.<br \/>\n&#8220;A perspectiva deles fazia com que se levantassem quest\u00f5es, pois muitos estavam perdendo sua cren\u00e7a em Deus, a cren\u00e7a no Deus que faz uma justi\u00e7a plena e que executa plenamente sua verdade e sua justi\u00e7a&#8221;, afirma.<br \/>\nA hist\u00f3ria de J\u00f3, nesse momento, vem como uma luva. &#8220;Eles se servem dessa narrativa como uma esp\u00e9cie de reflex\u00e3o sapiencial sobre a pr\u00f3pria exist\u00eancia&#8221;, explica Moraes. &#8220;Muito provavelmente \u00e9 nesse momento que algum poeta exilado amplia o texto, inserindo na composi\u00e7\u00e3o o que hoje s\u00e3o os cap\u00edtulos de 3 a 41&#8221;, conclui.<br \/>\nA forma antiga ent\u00e3o da hist\u00f3ria, em prosa, se converte em um pr\u00f3logo e um ep\u00edlogo e ganha uma s\u00e9rie de di\u00e1logos e mon\u00f3logos em verso. Tornou-se um livro \u00e9pico, uma obra-prima da literatura ancestral.<br \/>\nHavia um prop\u00f3sito. &#8220;Isso servia para que aquelas pessoas que estavam sofrendo, tinham perdido absolutamente tudo, tinham se empobrecido radicalmente, estavam enfermas f\u00edsica e espiritualmente, que elas pudessem refletir e ter esperan\u00e7a de que seriam novamente restitu\u00eddas, teriam uma restitui\u00e7\u00e3o da parte de Deus, assim como J\u00f3 teve&#8221;, comenta Moraes.<br \/>\nNa narrativa, J\u00f3, o homem aben\u00e7oado com riqueza, prole e servos, torna-se epicentro de um desafio feito no c\u00e9u pelo Satan\u00e1s a Deus. Deus come\u00e7a perguntando ao seu oponente a opini\u00e3o deste sobre a piedade de J\u00f3. Sat\u00e3 rebate que J\u00f3 s\u00f3 seria um bom homem porque Deus o havia aben\u00e7oado com tudo do bom e do melhor \u2014 bastava que lhe retirasse tudo e J\u00f3 seria um homem que daria as costas a Deus, apostava o dem\u00f4nio.<br \/>\nFazem ent\u00e3o um acordo e Deus permite que Satan\u00e1s encarrega-se de desgra\u00e7ar a vida do homem, traindo-lhe a riqueza a matando seus filhos e seus escravos. J\u00f3 tamb\u00e9m \u00e9 privado da boa sa\u00fade e perde o apoio at\u00e9 mesmo da esposa.<br \/>\nJ\u00f3 permanece firme na f\u00e9 em Deus, sem blasfemar nenhuma vez. Diante de tudo isso, Deus decidiu recompens\u00e1-lo restituindo-lhe as posses em dobro, dando-lhe outros sete filhos e tr\u00eas filhas e fazendo-o com que vivesse, com sa\u00fade, mais 140 anos, vendo sua fam\u00edlia chegar at\u00e9 a quarta gera\u00e7\u00e3o. &#8220;Ent\u00e3o morreu J\u00f3, velho e farto de dias&#8221;, finaliza o texto.<br \/>\nPaci\u00eancia de J\u00f3<br \/>\n&#8220;J\u00f3 se dirige a Deus e descreve a condi\u00e7\u00e3o humana por meio de seu exemplo. Por causa disso, n\u00e3o dever\u00edamos ver J\u00f3 como um indiv\u00edduo ou uma pessoa isolada, n\u00e3o dever\u00edamos olh\u00e1-lo como uma exce\u00e7\u00e3o&#8221;, argumenta Rossi. &#8220;Ao contr\u00e1rio, ele \u00e9 o porta-voz de uma hist\u00f3ria e de uma sociedade que est\u00e3o repletas de contradi\u00e7\u00f5es. Seu clamor n\u00e3o \u00e9 um grito de uma s\u00f3 pessoa, mas o primeiro clamor de uma s\u00e9rie, incluindo nossos pr\u00f3prios clamores, que, ao longo da hist\u00f3ria, t\u00eam se juntado como um modo de expressar que a dor, mesmo que intensa, pode ser vencida com a solidariedade.&#8221;<br \/>\n&#8220;O clamor sofredor e dolorido de J\u00f3 \u00e9 uma clara advert\u00eancia para que voltemos nossos olhos para a experi\u00eancia dele se quisermos verdadeiramente encontrar a Deus, como tamb\u00e9m um discurso teol\u00f3gico que seja relevante para os nossos dias&#8221;, prossegue Rossi.<br \/>\n&#8220;A hist\u00f3ria revelada a partir da experi\u00eancia de J\u00f3 \u00e9 presumivelmente endere\u00e7ada \u00e0s pessoas propriet\u00e1rias de terras e de rebanhos, mas que haviam perdido suas posses. A perda das posses foi ocasionada tanto por raz\u00f5es internas quanto externas. \u00c9 importante observar que as raz\u00f5es internas e externas s\u00e3o instrumentos eficazes de desumaniza\u00e7\u00e3o. Podemos at\u00e9 mesmo afirmar que elas foram os instrumentos mais penetrantes na pele do povo. \u00c9 diante desse cen\u00e1rio alienante que nasce a teologia oficial dos amigos de J\u00f3. Ela nasce do desejo de ensinar os camponeses, por meio da catequese, a ter paci\u00eancia, a paci\u00eancia de J\u00f3, para aceitar tudo e, principalmente, permanecerem calados.&#8221;<br \/>\nJ\u00f3 e sua esposa, em imagem do pintor franc\u00eas Georges de La Tour<br \/>\nDOM\u00cdNIO P\u00daBLICO<br \/>\nO te\u00f3logo lembra que o cen\u00e1rio apresentado na narrativa &#8220;\u00e9 profundamente acinzentado&#8221;.<br \/>\n&#8220;As pessoas pararam de plantar somente para sua subsist\u00eancia e passaram a plantar para o com\u00e9rcio internacional. Os camponeses judeus estavam, portanto, diante de uma dupla tributa\u00e7\u00e3o: um tributo cobrado pelo Imp\u00e9rio Persa e um segundo tributo cobrado pelo Templo de Jerusal\u00e9m&#8221;, contextualiza.<br \/>\n&#8220;J\u00f3 fala em nome daqueles que s\u00e3o v\u00edtimas da sociedade, ou seja, daqueles que s\u00e3o sofredores, e, portanto, n\u00e3o s\u00e3o vagabundos e pregui\u00e7osos como muitos pensam precipitadamente&#8221;, explica.<br \/>\n&#8220;Ao contr\u00e1rio, s\u00e3o pobres porque trabalham, s\u00e3o pessoas que trabalham e se esfor\u00e7am para garantir a sua subsist\u00eancia. Trabalham em meio \u00e0 abund\u00e2ncia de seus patr\u00f5es, mas, mesmo assim, sofrem porque n\u00e3o t\u00eam o que comer, o que vestir e nem onde morar. Na \u00e9poca em que o livro de J\u00f3 foi escrito, a pobreza e a mis\u00e9ria eram fruto de dupla tributa\u00e7\u00e3o interna e externa.&#8221;<br \/>\nRossi enfatiza que muitos eram &#8220;as v\u00edtimas da injusti\u00e7a&#8221;. &#8220;H\u00e1, no livro de J\u00f3, como em todo o Antigo Testamento, uma consci\u00eancia social que muitos leitores modernos n\u00e3o t\u00eam, ou seja, Deus \u00e9 o salvador dos pobres, porque os ricos e poderosos n\u00e3o necessitam de salva\u00e7\u00e3o, pois j\u00e1 possuem tudo o que precisam para viver&#8221;, pontua.<br \/>\n&#8220;Deus deseja deixar muito claro que, em um sentido especial, ele \u00e9 o protetor destas pessoas fracas&#8221;, prossegue o te\u00f3logo.<br \/>\n&#8220;Na verdade, enquanto s\u00e3o expulsos das ruas, os pobres, simultaneamente, tamb\u00e9m s\u00e3o banidos da comunidade reconhecidamente humana. E, a partir do momento em que s\u00e3o enviados a viver na periferia da vida, passam a ser retratados como desleixados, pecaminosos e destitu\u00eddos de padr\u00f5es morais. E, dessa forma, legitima-se a exclus\u00e3o e a necessidade de se manter afastados todos aqueles que, de alguma maneira, poderiam contaminar a pureza do ambiente&#8221;, conclui.<br \/>\nLi\u00e7\u00f5es<br \/>\nPara o historiador, fil\u00f3sofo e te\u00f3logo Moraes, &#8220;J\u00f3 \u00e9 instigante&#8221; justamente porque &#8220;h\u00e1 m\u00faltiplas li\u00e7\u00f5es&#8221; que podem ser depreendidas da hist\u00f3ria.<br \/>\n&#8220;A quest\u00e3o da dor, do sofrimento, do por qu\u00ea as pessoas sofrem ou acabam sendo levadas \u00e0s vezes a uma situa\u00e7\u00e3o de exaust\u00e3o&#8221;, comenta. &#8220;O desafio de Satan\u00e1s a Deus, metaf\u00edsico, transcendental, faz com que J\u00f3 tenha sua vida completamente alterada.&#8221;<br \/>\nEssa aposta entre as entidades acaba funcionando como uma resposta que rebate a ideia &#8220;dessa teologia retributiva&#8221;. &#8220;Ou seja, do &#8216;seja bom porque automaticamente voc\u00ea ser\u00e1 cercado de bondade'&#8221;, ilustra Moraes.<br \/>\n&#8220;J\u00f3 mostra que \u00e9 poss\u00edvel manter a f\u00e9 em Deus, a cren\u00e7a em Deus e na sua justi\u00e7a mesmo em meio \u00e0s dificuldades&#8221;, acrescenta ele.<br \/>\nUma outra camada de interpreta\u00e7\u00e3o trazida pelo te\u00f3logo diz respeito ao fato de que, a partir do relato de J\u00f3, &#8220;os dramas humanos \u00e0s vezes s\u00e3o desenhados pelos deuses sem que haja nenhuma possibilidade de altera\u00e7\u00e3o disso por parte dos homens, sendo eles bons ou maus, porque supostamente as coisas est\u00e3o sendo decididas num outro plano&#8221;.<br \/>\n&#8220;Isso \u00e9 complexo demais&#8221;, acredita. &#8220;N\u00e3o \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o simples, \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o que faz com que as pessoas fiquem remoendo, afinal quer dizer que a riqueza e a pobreza n\u00e3o dependem do esfor\u00e7o humano: os deuses podem mudar suas vontades e suas inten\u00e7\u00f5es conformem seus interesses espec\u00edficos.&#8221;<br \/>\nA narrativa mostra que &#8220;n\u00e3o h\u00e1 a possibilidade de termos dom\u00ednio pleno da exist\u00eancia&#8221;. &#8220;E isso nos leva a uma reflex\u00e3o de que tanto a bondade quanto a maldade n\u00e3o dependem necessariamente de nossos atos, das coisas que fazemos, porque \u00e0s vezes as decis\u00f5es est\u00e3o nas m\u00e3os das divindades&#8221;, acrescenta. &#8220;\u00c9 como se f\u00f4ssemos impotentes diante de for\u00e7as que n\u00f3s desconhecemos.&#8221;<br \/>\nMoraes v\u00ea em J\u00f3 &#8220;o grande s\u00edmbolo de ter f\u00e9&#8221;. &#8220;Porque ter f\u00e9 quando tudo vai bem \u00e9 muito f\u00e1cil. Ter f\u00e9 quando as coisas est\u00e3o completamente fora de controle, essa talvez seja a f\u00e9 verdadeira&#8221;, analisa.<br \/>\nPara ele, a grande li\u00e7\u00e3o do livro \u00e9 fazer pensar &#8220;na nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus&#8221;, seja em tempos f\u00e1ceis, seja em tempos dif\u00edceis.<br \/>\nEste texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-63990039<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os especialistas, \u00e9 consenso que se trata de um conte\u00fado m\u00edtico, uma f\u00e1bula que pretende deixar uma mensagem J\u00f3, pelo pintor franc\u00eas Leon Bonnat DOM\u00cdNIO P\u00daBLICO A hist\u00f3ria de J\u00f3, um homem justo, fiel e paciente, est\u00e1 presente na tradi\u00e7\u00e3o oral de povos do Oriente M\u00e9dio desde cerca de 4 mil anos atr\u00e1s. 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