{"id":28778,"date":"2022-12-25T16:10:13","date_gmt":"2022-12-25T16:10:13","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/25\/a-visao-de-charles-darwin-sobre-os-escravizados-no-brasil-serao-no-fim-das-contas-os-governantes\/"},"modified":"2022-12-25T16:10:13","modified_gmt":"2022-12-25T16:10:13","slug":"a-visao-de-charles-darwin-sobre-os-escravizados-no-brasil-serao-no-fim-das-contas-os-governantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/25\/a-visao-de-charles-darwin-sobre-os-escravizados-no-brasil-serao-no-fim-das-contas-os-governantes\/","title":{"rendered":"A vis\u00e3o de Charles Darwin sobre os escravizados no Brasil: &#8216;Ser\u00e3o, no fim das contas, os governantes&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/HwJItbMqdW7x2X9324gk5Djj4bE=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/2\/w\/S3BumqSJuBMS53ypHB8g\/darwin-1.jpg\"><br \/>   Naturalista brit\u00e2nico foi um abolicionista convicto, mas tinha vis\u00f5es pol\u00eamicas sobre ra\u00e7a \u2014 um lado &#8216;inc\u00f4modo&#8217; do pensamento do cientista que vem sendo mais discutido entre especialistas nos \u00faltimos anos. Teoria da evolu\u00e7\u00e3o pela sele\u00e7\u00e3o natural mudou a maneira como pensamos sobre o mundo natural<br \/>\nCAMBRIDGE UNIVERSITY LIBRARY via BBC<br \/>\n&#8220;Eu n\u00e3o posso deixar de pensar que eles (africanos escravizados) ser\u00e3o, no fim das contas, os governantes&#8221;. A frase foi escrita no Rio de Janeiro pelo naturalista brit\u00e2nico Charles Darwin (1809-1882) em seu di\u00e1rio no dia 3 de julho de 1832.<br \/>\nOs cadernos de Charles Darwin que reapareceram misteriosamente 22 anos ap\u00f3s sumi\u00e7o<br \/>\nO que diz o in\u00e9dito manuscrito assinado por Darwin que acaba de ser leiloado por valor recorde<br \/>\nViagem de Darwin pelo Rio de Janeiro ajudou a dar origem \u00e0 teoria da evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nN\u00e3o se concretizou e n\u00e3o virou teoria, mas serve para revelar vis\u00f5es pouco conhecidas do autor de A Origem das Esp\u00e9cies.<br \/>\nO brit\u00e2nico que revolucionou a biologia com sua teoria da evolu\u00e7\u00e3o pela sele\u00e7\u00e3o natural era um abolicionista convicto.<br \/>\nEra sua &#8220;causa sagrada&#8221;, como define James Moore, historiador da ci\u00eancia que mergulhou na vis\u00e3o de Darwin sobre ra\u00e7a e sobre o escravismo e \u00e9 autor, com o colega Adrian Desmond, de Darwin&#8217;s Sacred Cause: Race, Slavery and the Quest for Human Origins (&#8220;A Causa Sagrada de Darwin: Ra\u00e7a, Escravid\u00e3o e a Busca pela Origem Humana&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o literal).<br \/>\nAs anota\u00e7\u00f5es do naturalista sobre a viagem ao Brasil \u2014 onde ficou por quatro meses durante seu p\u00e9riplo de cinco anos \u00e0 bordo do navio Beagle \u2014 est\u00e3o recheadas de descri\u00e7\u00f5es horrorizadas sobre a escravid\u00e3o.<br \/>\nEm uma delas, ele menciona o caso de uma senhora que morava em uma casa em frente ao local em que estava hospedado no Rio de Janeiro e que guardava parafusos para torturar suas escravas dom\u00e9sticas, quebrando-lhes os dedos. Em outro, que ele define como algo que o marcou &#8220;mais que qualquer hist\u00f3ria de crueldade&#8221;, o epis\u00f3dio come\u00e7a quando Darwin tenta se comunicar com um homem escravizado que o acompanhava em um barco.<br \/>\nEnquanto o cientista gesticulava de forma efusiva para tentar se fazer entender, acaba aproximando a m\u00e3o do rosto do homem, que, assustado, baixa os bra\u00e7os: ele pensava que o naturalista queria bater em seu rosto, e abriu a guarda para que ele pudesse faz\u00ea-lo.<br \/>\n&#8220;Nunca vou esquecer meu sentimento de surpresa, repugn\u00e2ncia e vergonha por ver um homem grande e forte com medo de se defender do que ele pensava ser um tapa em seu rosto. Aquele homem fora treinado para se habituar a um n\u00edvel de degrada\u00e7\u00e3o maior do que o da escraviza\u00e7\u00e3o de qualquer animal indefeso.&#8221;<br \/>\nIlustra\u00e7\u00e3o de Paul Harro-Harring de 1840: diversos artistas estrangeiros retrataram horrores da escravid\u00e3o brasileira no s\u00e9culo 19<br \/>\nBRASILIANA FOTOGR\u00c1FICA via BBC<br \/>\nParte do ide\u00e1rio do cientista vinha de casa. Os Darwin eram uma fam\u00edlia abastada repleta de intelectuais liberais. Seu av\u00f4, Erasmus Darwin, foi um dos fundadores da Lunar Society, grupo de pensadores que se reunia em noites de lua cheia uma vez por m\u00eas na cidade inglesa de Birmingham.<br \/>\n&#8220;Era uma fam\u00edlia de amantes de artes e, do ponto de vista moral, adepta do que os autores chamariam depois de humanitarismo. Praticavam a compaix\u00e3o e n\u00e3o gostavam de crueldades, de forma que nunca bateriam em algu\u00e9m que trabalhasse para eles &#8211; da\u00ed o choque de Darwin quando se depara com a escravid\u00e3o no Brasil&#8221;, diz Maria Elice de Brzezinski Prestes, professora do departamento de Gen\u00e9tica e Biologia Evolutiva do Instituto de Bioci\u00eancias (IB) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<br \/>\nAo deixar o Brasil, Darwin escreveu: &#8220;Nunca hei de voltar a um pa\u00eds com escravid\u00e3o&#8221;. A frase, que ficaria c\u00e9lebre mais tarde, est\u00e1 no livro A Viagem do Beagle, publicado em 1839 \u2014 nos trechos finais de um calhama\u00e7o com mais de 500 p\u00e1ginas.<br \/>\nAs linhas que abrem essa reportagem, no entanto, est\u00e3o entre as muitas que ele escreveu em seu di\u00e1rio, mas decidiu deixar de fora dos livros. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, essas p\u00e1ginas, hoje acess\u00edveis a pesquisadores e ao p\u00fablico em geral, v\u00eam sendo melhor exploradas.<br \/>\nNo dia 3 de julho de 1832, quando Darwin diz acreditar que os escravizados um dia v\u00e3o governar o Brasil, ele escreve:<br \/>\n&#8220;O estado da enorme popula\u00e7\u00e3o de escravos deve despertar interesse de qualquer um que entra no Brasil. Ao caminhar pelas ruas, \u00e9 curioso observar a variedade de &#8216;tribos&#8217; que podem ser identificadas pelos diferentes ornamentos marcados na pele e pelas v\u00e1rias express\u00f5es. Os escravos s\u00e3o obrigados a se comunicar entre si em portugu\u00eas e, por consequ\u00eancia disso, n\u00e3o s\u00e3o unidos. Eu n\u00e3o posso deixar de pensar que eles ser\u00e3o, no fim das contas, os governantes. Presumo isso por serem numerosos, por seu excelente porte atl\u00e9tico (especialmente em contraste com os brasileiros), observando que est\u00e3o em um clima agrad\u00e1vel e por ver claramente que sua capacidade intelectual foi muito subestimada. Eles s\u00e3o a m\u00e3o de obra eficiente em todo o com\u00e9rcio necess\u00e1rio. Se os negros libertos crescerem em n\u00famero (como deve acontecer), o tempo de liberta\u00e7\u00e3o total n\u00e3o estaria muito distante.&#8221;<br \/>\nA provoca\u00e7\u00e3o sobre o porte f\u00edsico n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico coment\u00e1rio que Darwin direciona ao grupo que ele classifica como &#8220;brasileiros&#8221; nas anota\u00e7\u00f5es de 3 de julho:<br \/>\n&#8220;Os brasileiros, at\u00e9 onde consigo avaliar, possuem uma fatia pequena das qualidades que d\u00e3o dignidade \u00e0 humanidade. Ignorantes, covardes, indolentes ao extremo; hospitaleiros e am\u00e1veis \u00e0 medida que isso n\u00e3o lhes d\u00ea trabalho; temperamentais e vingativos, mas n\u00e3o brig\u00f5es. Satisfeitos consigo mesmos e com seus costumes, respondem a todas as observa\u00e7\u00f5es com a pergunta: &#8216;Por que n\u00e3o podemos fazer como nossos av\u00f3s antes de n\u00f3s fizeram?&#8217; A pr\u00f3pria apar\u00eancia reflete a baixa eleva\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter. Tipos baixos que logo ficam corpulentos; a face possui pouca express\u00e3o, aparenta estar afundada entre os ombros. Os monges diferem para pior nesse \u00faltimo aspecto; \u00e9 preciso pouca fisionomia para ver claramente estampados perseveran\u00e7a ardilosa, vol\u00fapia e orgulho.&#8221;<br \/>\nAnota\u00e7\u00f5es de Darwin do dia 3 de julho de 1832: coment\u00e1rios sobre brasileiros feito no di\u00e1rio n\u00e3o entrou nos livros<br \/>\nDOMINIO P\u00daBLICO<br \/>\nJuntos, os par\u00e1grafos ilustram a complexidade do pensamento de Darwin \u2014 e um lado &#8220;inc\u00f4modo&#8221; de suas ideias, algo que durante bastante tempo os historiadores evitavam discutir, diz Prestes.<br \/>\n&#8220;O que Darwin falou sobre ra\u00e7a ficava, assim, meio esquecido [nas discuss\u00f5es sobre seu trabalho]. Foi uma postura historiogr\u00e1fica por muito tempo, praticamente at\u00e9 o s\u00e9culo 21&#8221;, afirma ela, emendando que essa faceta do naturalista vem sendo mais debatida nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas.<br \/>\nAs complexidades de Darwin<br \/>\nDe um lado, Darwin era um antiescravista, abolicionista. Dedicou parte da carreira para mostrar que as diferentes ra\u00e7as tinham a mesma origem, um ancestral comum \u2014 algumas das teorias da \u00e9poca chegavam a dizer, por exemplo, que brancos e negros eram de esp\u00e9cies diferentes, o que muitas vezes foi usado para legitimar a escravid\u00e3o.<br \/>\nIsso n\u00e3o significava, por\u00e9m, que julgasse que todas as civiliza\u00e7\u00f5es eram iguais. Para ele \u2014 e para as teorias antropol\u00f3gicas dominantes da \u00e9poca \u2014, os diferentes povos se encontravam em diferentes est\u00e1gios de civiliza\u00e7\u00e3o, uns mais avan\u00e7ados que outros.<br \/>\nCom o tempo, a pr\u00f3pria ci\u00eancia mostraria que essas ideias, que depois seriam usadas por outros autores como base para teorias pseudocient\u00edficas racistas como a eugenia, n\u00e3o se sustentavam com evid\u00eancias.<br \/>\n&#8220;Hoje ele [Darwin] nunca teria permiss\u00e3o para ensinar em uma institui\u00e7\u00e3o de ensino do Reino Unido ou dos EUA, em qualquer n\u00edvel. \u00c9 carregado de estere\u00f3tipos e preconceitos \u2014 assim como quase tudo que foi escrito [naquela \u00e9poca] sobre os mesmos assuntos&#8221;, pontuou Moore em um coment\u00e1rio enviado por e-mail \u00e0 reportagem da BBC News Brasil.<br \/>\n&#8220;Ele era anticat\u00f3lico; viu os brasileiros da col\u00f4nia corrompidos pela Igreja e por sua cultura pol\u00edtica colonial, principalmente o suborno. Ao mesmo tempo e no mesmo local, viu os ind\u00edgenas e os admir\u00e1veis \u200b\u200bafricanos escravizados como corrompidos por seus senhores. Camadas e mais camadas de preconceito, embora n\u00e3o sem alguma verdade&#8221;, completa o historiador brit\u00e2nico.<br \/>\nEnquanto ideias abolicionistas ganham f\u00f4lego nos anos 1830, racismo toma verniz pseudocient\u00edfico<br \/>\nGETTY IMAGES via BBC<br \/>\nUm homem de seu tempo<br \/>\nA professora Maria Elice Prestes ressalta que, para entender o pensamento de Darwin, \u00e9 preciso consider\u00e1-lo como sujeito de sua \u00e9poca \u2014 um homem brit\u00e2nico do s\u00e9culo 19, que viveu em pleno per\u00edodo de expans\u00e3o do imperialismo brit\u00e2nico.<br \/>\nNos s\u00e9culos 17 e 18, as col\u00f4nias inglesas mundo afora tinham escravos, mas pouco se falava sobre o papel da Inglaterra dentro da engrenagem escravista.<br \/>\nAs ideias do quanto o pa\u00eds lucrou com o complexo escravista atl\u00e2ntico, do quanto esse sistema foi fundamental para o salto ingl\u00eas na virada do s\u00e9culo 18 para o 19 e das press\u00f5es que o pr\u00f3prio capitalismo industrial coloca para o fim da escravid\u00e3o come\u00e7am a ser divulgadas, segundo a historiadora, com Capitalismo e Escravid\u00e3o, de Eric Williams, um livro de 1944.<br \/>\nA teoria \u00e9 fruto da tese de doutorado de Williams, que nasceu no que ent\u00e3o era a col\u00f4nia brit\u00e2nica de Trinidad e Tobago, no Caribe. Apesar de o trabalho ter sido desenvolvido na Universidade de Oxford, o historiador s\u00f3 conseguiu public\u00e1-lo como livro nos EUA, para onde se mudou por conta das dificuldades que vinha enfrentando para divulgar sua tese.<br \/>\nDe volta ao s\u00e9culo 19: o antiescravismo de Darwin era algo relativamente comum entre os brit\u00e2nicos.<br \/>\nA Inglaterra foi um dos primeiros pa\u00edses a interromper o tr\u00e1fico de pessoas escravizadas (em 1807, com o Slave Trade Act) e a emancipar os escravizados (em 1833, com o Slavery Abolition Act), medidas vistas por muitos brit\u00e2nicos como &#8220;uma evid\u00eancia de como a civiliza\u00e7\u00e3o inglesa era mais avan\u00e7ada que as demais&#8221;, ressalta a historiadora da biologia.<br \/>\n&#8220;Tudo isso foi propagandeado como sendo a marca da superioridade da civiliza\u00e7\u00e3o inglesa e como algo dentro da ordem natural do progresso. Assim como a civiliza\u00e7\u00e3o inglesa j\u00e1 teve escravos e n\u00e3o tem mais, muitas na\u00e7\u00f5es ainda tinham. Isso virou um grande orgulho ingl\u00eas&#8221;, acrescenta.<br \/>\n&#8220;Voc\u00ea consegue ver isso nas obras de autores do s\u00e9culo 19, como eles s\u00e3o absolutamente orgulhosos desse antiescravismo.&#8221;<br \/>\nE Darwin foi um homem de seu tempo, diz ela, que &#8220;acredita piamente que a Inglaterra estava deslumbrando o mundo com seu apogeu civilizat\u00f3rio&#8221;.<br \/>\nO bi\u00f3logo N\u00e9lio Bizzo, professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da USP e especialista na obra de Darwin, lembra que, para al\u00e9m da propaganda antiescravista, a Inglaterra tomava nessa \u00e9poca a\u00e7\u00f5es concretas de repress\u00e3o ao tr\u00e1fico de pessoas escravizadas.<br \/>\nA partir de 1810, o Brasil firmaria compromisso com o pa\u00eds de acabar com seu tr\u00e1fico negreiro em diversas ocasi\u00f5es. Eram as &#8220;leis para ingl\u00eas ver&#8221;, as medidas que acabavam com o tr\u00e1fico no papel, mas nunca eram cumpridas na pr\u00e1tica \u2014 e acabaram dando origem ao ditado popular.<br \/>\nForam v\u00e1rios os navios negreiros com destino ao Brasil interceptados e apreendidos pela Marinha brit\u00e2nica at\u00e9 que o tr\u00e1fico fosse de fato abolido em 1850.<br \/>\n&#8220;Para entender o que Charles Darwin fala dos brasileiros quando est\u00e1 no Rio de Janeiro \u00e9 preciso entender o contexto, o momento em que ele se encontra. O maior com\u00e9rcio de escravizados do planeta era feito justamente ali&#8221;, diz ele. O Cais do Valongo, no Rio, foi o maior porto receptor de pessoas escravizadas do mundo.<br \/>\nAbolicionismo, mas n\u00e3o antirracismo<br \/>\nMas se aquele era um per\u00edodo em que as ideias abolicionistas ganhavam f\u00f4lego, tamb\u00e9m era uma \u00e9poca em que o racismo tomava um verniz cient\u00edfico e que o imp\u00e9rio brit\u00e2nico come\u00e7a a colonizar o continente africano.<br \/>\n&#8220;Os anos 30 de Darwin, que \u00e9 quando ele est\u00e1 escrevendo [o di\u00e1rio], s\u00e3o recheados de complexidades&#8221;, destaca a historiadora Lorelai Kury, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz\/Fiocruz e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).<br \/>\n\u00c9 quando se popularizam, por exemplo, os estudos da fisiognomonia, que tentava extrair conclus\u00f5es sobre o car\u00e1ter do indiv\u00edduo a partir de seus tra\u00e7os f\u00edsicos, e da frenologia, que usava a medida do cr\u00e2nio como indicativo da capacidade intelectual. Ambos foram usados pelo racismo cient\u00edfico do per\u00edodo, hoje colocado por terra.<br \/>\nOs escritos de Darwin sobre os brasileiros tomam emprestado elementos das ideias naturalistas que circulavam na \u00e9poca e que correlacionavam caracter\u00edsticas f\u00edsicas dos indiv\u00edduos com tra\u00e7os morais e intelectuais.<br \/>\n&#8220;Darwin acredita que a escravid\u00e3o deteriora as rela\u00e7\u00f5es e a moralidade, que contamina a sociedade de alto a baixo \u2014 e que \u00e9 algo que eventualmente come\u00e7aria a se refletir fisicamente nas popula\u00e7\u00f5es&#8221;, diz Kury. &#8220;Naquela \u00e9poca, era um lugar comum, principalmente da parte dos europeus n\u00e3o ib\u00e9ricos, considerar espanh\u00f3is e portugueses particularmente cru\u00e9is e, por conta disso, inferiores aos demais europeus.&#8221;<br \/>\nA professora acredita que a men\u00e7\u00e3o aos &#8220;brasileiros&#8221; no trecho do dia 3 de julho se refere aos portugueses e seus descendentes. \u00c9 uma descri\u00e7\u00e3o, diz ela, que embute uma s\u00e9rie de preconceitos, entre eles em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 altura \u2014 fisicamente, os brit\u00e2nicos tendiam a ser mais altos do que os ib\u00e9ricos.<br \/>\nPara o professor N\u00e9lio Bizzo, esse choque que Darwin tem ao se deparar com a escravid\u00e3o no Brasil ajuda a explicar em parte o que ele escreve sobre os africanos escravizados.<br \/>\n&#8220;Ele come\u00e7ou a torcer pelos africanos no Brasil. E havia tantos que ele pode ter pensado que alguma coisa como aquilo que tinha ocorrido no Haiti iria acontecer no Brasil tamb\u00e9m&#8221;, diz o bi\u00f3logo. O fim da escravid\u00e3o e a independ\u00eancia do Haiti ocorrem com protagonismo dos pr\u00f3prios escravizados, e o pa\u00eds se torna, em 1804, a primeira rep\u00fablica governada por pessoas de ascend\u00eancia africana.<br \/>\nBizzo ressalta que a &#8220;exegese&#8221; (a interpreta\u00e7\u00e3o) daquilo que \u00e9 escrito de forma particular pelos cientistas e pensadores, como anota\u00e7\u00f5es e correspond\u00eancias, deve ser feita de forma diferente do que foi concebido para ser tornado p\u00fablico.<br \/>\nNesse sentido, diz o professor, as principais evid\u00eancias a respeito das posi\u00e7\u00f5es de Darwin sobre o racismo e sobre o fim da escravid\u00e3o v\u00eam dos elogios que ele fez a um texto bastante problem\u00e1tico escrito pelo cientista ingl\u00eas Thomas Huxley, um abolicionista, publicado em 1865 (o ensaio se chama Emancipation &#8211; Black and White).<br \/>\nAo comentar sobre a guerra civil americana, que acabara de terminar, Huxley defende a superioridade de brancos em rela\u00e7\u00e3o a negros, e o faz usando uma linguagem profundamente preconceituosa.<br \/>\n&#8220;Mesmo aqueles que eram contr\u00e1rios \u00e0 escravid\u00e3o, n\u00e3o se pode dizer que eles fossem automaticamente antirracistas ou que n\u00e3o fossem racistas&#8221;, pontua Bizzo.<br \/>\n&#8220;Infelizmente, \u00e9 uma quest\u00e3o complicada mesmo, e por isso que eu acho que n\u00e3o se pode ter uma admira\u00e7\u00e3o cega por quem quer que seja no mundo da ci\u00eancia.&#8221;<br \/>\nNa teoria da evolu\u00e7\u00e3o pela sele\u00e7\u00e3o natural de Darwin, que revolucionou a ci\u00eancia, todos os homens surgem a partir de um ancestral \u00fanico<br \/>\nGETTY IMAGES via BBC<br \/>\nO darwinismo social (que de darwinista n\u00e3o tem nada)<br \/>\nA teoria da sele\u00e7\u00e3o natural que Darwin escreveu para explicar a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies \u2014 e n\u00e3o as diferen\u00e7as entre os seres humanos \u2014, acabou sendo apropriada por outros cientistas que a usaram como mat\u00e9ria-prima para teorias racistas. Entre elas est\u00e3o o darwinismo social, que prega que apenas os mais fortes est\u00e3o aptos a sobreviver, e a eugenia, a ideia de que \u00e9 poss\u00edvel &#8220;melhorar&#8221; geneticamente uma popula\u00e7\u00e3o, que se tornou central para o nazismo.<br \/>\nApesar de usar o nome do cientista, contudo, o darwinismo social \u00e9 uma distor\u00e7\u00e3o da teoria darwiniana, ressalta a historiadora Lorelai Kury.<br \/>\n&#8220;Darwin nunca disse que o melhor vai vencer; \u00e9 o mais adaptado \u00e0quela circunst\u00e2ncia espec\u00edfica. Mudando as circunst\u00e2ncias, o mais adaptado vai ser outro&#8221;, explica a professora.<br \/>\n&#8220;Para Darwin, \u00e9 o acaso, e n\u00e3o algo pr\u00e9-definido, que leva \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o. No darwinismo social, [a adapta\u00e7\u00e3o] \u00e9 uma justificativa das hierarquias sociais, mas Darwin n\u00e3o justifica nada \u2014 a natureza n\u00e3o age moralmente. S\u00e3o leis naturais, ela n\u00e3o tem um objetivo moral&#8221;, conclui.<br \/>\nA professora Maria Elice Prestes avalia que, ainda que Darwin acreditasse que existissem grupos \u00e9tnicos mais ou menos civilizados do que outros \u2014 o que ele deixa bem claro no livro A Descend\u00eancia do Homem, de 1871 \u2014, essas ideias n\u00e3o se traduzem em viol\u00eancia e exclus\u00e3o.<br \/>\nEm conson\u00e2ncia com o princ\u00edpio do humanitarismo que norteava suas cren\u00e7as, diz a professora, n\u00e3o h\u00e1 justificativa dentro do pensamento do cientista para se agir de forma negativa ou cruel contra os povos que ele considera &#8220;menos civilizados&#8221;. Darwin acreditava na possibilidade de que as civiliza\u00e7\u00f5es que ele considerava &#8220;inferiores&#8221; progredissem, especialmente se tivessem contato com as consideradas &#8220;mais civilizadas&#8221;.<br \/>\nNa teoria da evolu\u00e7\u00e3o pela sele\u00e7\u00e3o natural de Darwin, que revolucionou a ci\u00eancia, todos os homens surgem a partir de um ancestral \u00fanico.<br \/>\n\u00c0 medida que esse &#8220;primeiro humano&#8221; se reproduz e suas descend\u00eancias se multiplicam, as popula\u00e7\u00f5es humanas v\u00e3o se espalhando geograficamente &#8211; \u00e9 quando a sele\u00e7\u00e3o natural atua e acaba favorecendo a dissemina\u00e7\u00e3o dos grupos \u00e9tnicos (ou &#8220;ra\u00e7as&#8221;, como se costuma falar de forma coloquial) que melhor se adaptam a cada ambiente.<br \/>\n&#8220;Darwin insiste que, ainda que as ra\u00e7as sejam diferentes, n\u00e3o h\u00e1 esp\u00e9cies diferentes. E do ponto de vista biol\u00f3gico, moral e religioso o significado disso \u00e9 enorme, porque, se somos irm\u00e3os, eu n\u00e3o posso escravizar, n\u00e3o posso perseguir, n\u00e3o posso fazer genoc\u00eddio&#8221;, diz Prestes.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-61686803<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naturalista brit\u00e2nico foi um abolicionista convicto, mas tinha vis\u00f5es pol\u00eamicas sobre ra\u00e7a \u2014 um lado &#8216;inc\u00f4modo&#8217; do pensamento do cientista que vem sendo mais discutido entre especialistas nos \u00faltimos anos. Teoria da evolu\u00e7\u00e3o pela sele\u00e7\u00e3o natural mudou a maneira como pensamos sobre o mundo natural CAMBRIDGE UNIVERSITY LIBRARY via BBC &#8220;Eu n\u00e3o posso deixar de<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":28779,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":{"0":"post-28778","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28778","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28778"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28778\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28779"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28778"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28778"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28778"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}