{"id":27110,"date":"2022-12-18T10:09:59","date_gmt":"2022-12-18T10:09:59","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/18\/os-jovens-que-querem-se-unir-ao-estado-islamico-para-fugir-da-pobreza\/"},"modified":"2022-12-18T10:09:59","modified_gmt":"2022-12-18T10:09:59","slug":"os-jovens-que-querem-se-unir-ao-estado-islamico-para-fugir-da-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/18\/os-jovens-que-querem-se-unir-ao-estado-islamico-para-fugir-da-pobreza\/","title":{"rendered":"Os jovens que querem se unir ao Estado Isl\u00e2mico para fugir da pobreza"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/nNSWqiTkVLoGCHcwVsTJDDzFeCw=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/R\/7\/8O5H74QfOi4nCSDfjWIQ\/bbc-ei.png\"><br \/>   Estima-se que, em 2021, cerca de cem jovens libaneses tenham entrado no Estado Isl\u00e2mico. Ahmed conta que tentou entrar para a organiza\u00e7\u00e3o terrorista Estado Isl\u00e2mico para conseguir uma vida mais confort\u00e1vel.<br \/>\nBBC<br \/>\nAhmed \u00e9 adolescente, mas passa os dias trabalhando, em vez de estudar.<br \/>\nEle mora na cidade de Tr\u00edpoli, no norte do L\u00edbano, um dos lugares mais pobres do Mediterr\u00e2neo. Apesar das horas dedicadas ao trabalho, Ahmed sobrevive com poucos d\u00f3lares por semana. Ele precisa ajudar sua m\u00e3e doente, mas seu trabalho manual e cansativo mal fornece o suficiente para a alimenta\u00e7\u00e3o dos dois.<br \/>\n Essa sensa\u00e7\u00e3o de desespero o levou a procurar uma sa\u00edda.<br \/>\nEm um cyber caf\u00e9 de Tr\u00edpoli, Ahmed come\u00e7ou a conversar com um homem que se identificou como recrutador do grupo Estado Isl\u00e2mico (EI) \u2014 os militantes isl\u00e2micos sunitas radicais que chegaram a controlar grandes partes do territ\u00f3rio da S\u00edria e do Iraque e cometeram atrocidades e ataques terroristas em toda a regi\u00e3o e em outras partes do mundo.<br \/>\n&#8220;Eu estava estudando a Sharia [as leis isl\u00e2micas] e, todos os dias, eles nos ensinavam sobre o jihad [a guerra santa]&#8221;, afirma Ahmed. &#8220;Eles nos contaram sobre o Iraque e sobre o grupo Estado Isl\u00e2mico. N\u00f3s ador\u00e1vamos o EI porque ele era famoso. Recebi o contato de um homem na pris\u00e3o e ele me disse &#8216;vou mandar voc\u00ea para l\u00e1&#8217;.&#8221;<br \/>\n&#8216;Eu quis entrar no EI e ser um mujahid [combatente] porque n\u00e3o conseguia lidar com a crise por aqui&#8217;, conta Ahmed.<br \/>\nBBC<br \/>\nDiscreto e de fala calma, \u00e9 dif\u00edcil imaginar Ahmed como um combatente. N\u00f3s conversamos sobre os crimes terr\u00edveis cometidos pelo grupo e o pressionei para explicar por que ele queria ser parte de algo como aquilo.<br \/>\n&#8220;Eu quis entrar no EI e ser um mujahid [combatente] porque n\u00e3o conseguia lidar com a crise por aqui&#8221;, responde ele lentamente. &#8220;Assim, eu ficaria perto do meu Deus e viveria com conforto, sem ficar sempre preocupado com o custo de vida.&#8221;<br \/>\nAhmed estava decidido. Ele disse ao recrutador que queria se inscrever, deixar o L\u00edbano e viajar para lutar pelo grupo no Iraque e na S\u00edria. Mas, em quest\u00e3o de horas, ele foi capturado pela pol\u00edcia e preso.<br \/>\nAutoridades de intelig\u00eancia do ex\u00e9rcito liban\u00eas o interrogaram por cinco dias antes de libert\u00e1-lo. Isso fez com que Ahmed lamentasse sua escolha, mas seus v\u00e1rios problemas continuam sem solu\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Isso me d\u00e1 vontade de me matar&#8221;, afirma ele. &#8220;Devo dinheiro que peguei emprestado para comprar m\u00f3veis para o meu quarto, mas n\u00e3o consigo pagar de volta. N\u00e3o sabemos o que ir\u00e1 acontecer no futuro.&#8221;<br \/>\nNas travessas de Tr\u00edpoli, a esperan\u00e7a est\u00e1 em falta \u2014 da mesma forma que eletricidade, \u00e1gua, combust\u00edvel, rem\u00e9dios e empregos.<br \/>\nEstima-se que, no ano passado, cerca de 100 jovens libaneses tenham entrado para o EI. N\u00e3o \u00e9 apenas quest\u00e3o de aderir \u00e0 ideologia extremista representada pelo grupo. Eles est\u00e3o tentando escapar da pobreza opressiva de um pa\u00eds em crise.<br \/>\nPara muitos, a seita religiosa ou antecedentes familiares impedem que se abram oportunidades para eles. Essa luta pela sobreviv\u00eancia fez com que alguns jovens tomassem medidas desesperadas.<br \/>\nNabil Sari \u00e9 um juiz conhecido em Tr\u00edpoli. Ele j\u00e1 enfrentou esses casos antes.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o h\u00e1 oportunidades de emprego, escola, nem oportunidades de estudo&#8221;, afirma ele. &#8220;E alguns dos que entraram para o EI por esse motivo se arrependeram e tentaram entrar em contato com suas fam\u00edlias para voltar \u2014 mas n\u00e3o conseguem.&#8221;<br \/>\nO grupo Estado Isl\u00e2mico est\u00e1 longe de ser a for\u00e7a que foi um dia no Oriente M\u00e9dio. Ele chegou a controlar um territ\u00f3rio que foi declarado um califado (um Estado Isl\u00e2mico) na S\u00edria e no Iraque. A maior parte do grupo foi derrotada em uma batalha sangrenta na cidade s\u00edria de Baghouz, em 2019.<br \/>\nMas o pequeno grupo restante que n\u00e3o foi morto, nem preso, continua a atacar alvos nas regi\u00f5es que antes controlava. E, no in\u00edcio deste ano, os relatos desses ataques come\u00e7aram a conter detalhes sobre membros libaneses.<br \/>\n O advogado Mohammad Sablouh representa diversas fam\u00edlias de membros libaneses do EI. Juntos, n\u00f3s nos dirigimos a Wadi Khaled, no norte do L\u00edbano, onde moravam muitos dos homens desaparecidos. \u00c9 uma regi\u00e3o hostil, mergulhada na pobreza. As crian\u00e7as brincam o dia todo em becos poeirentos, com brinquedos improvisados. A crise significa que muitas delas n\u00e3o t\u00eam oportunidade de ir \u00e0 escola.<br \/>\n&#8220;Aqui \u00e9 separado do Estado&#8221;, explica Mohammed. &#8220;Veja estas \u00e1reas pobres. Ningu\u00e9m se importa com elas. O pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 cumprindo sua obriga\u00e7\u00e3o com seus cidad\u00e3os. E essa classe pobre ser\u00e1 usada e recrutada para o EI.&#8221;<br \/>\nBakr Saif desapareceu um ano atr\u00e1s. Ele estava a semanas de se casar. Antes, havia sido preso e passado algum tempo na pris\u00e3o, mas estava construindo um futuro com sua noiva. Ele n\u00e3o contou \u00e0 sua m\u00e3e Umm Saif que planejava deixar a regi\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Ele nos disse que iria ver sua noiva e voltaria ao meio-dia&#8221;, ela conta, com os olhos cheios de l\u00e1grimas. &#8220;Ele foi e nunca mais voltou.&#8221;<br \/>\n&#8220;Soubemos das not\u00edcias nas redes sociais&#8221;, prossegue seu pai, Mahdi Saif. &#8220;Estava em todos os nossos celulares. Simplesmente n\u00e3o acredit\u00e1vamos. E ent\u00e3o todos come\u00e7aram a gritar e chorar.&#8221;<br \/>\nUmm faz uma pausa e enxuga as l\u00e1grimas.<br \/>\n&#8220;Ele tinha uma vida feliz, estava se preparando para o casamento e estava feliz&#8221;, ela conta. &#8220;Ele havia sa\u00eddo da pris\u00e3o. Era um rapaz muito bom. Respeitoso. Educado. Tudo o que eu disser, voc\u00ea pode dizer &#8216;ela \u00e9 sua m\u00e3e&#8217;, mas esta \u00e9 a verdade.&#8221;<br \/>\nMenos de um m\u00eas depois, Umm Saif recebeu uma mensagem de voz. Uma voz sinistra, alterada por computador, disse a ela que seu filho havia sido morto em combate pelo EI no Iraque. Estranhamente, a voz disse que ele foi &#8220;morto&#8221; e n\u00e3o &#8220;martirizado&#8221;, que \u00e9 uma express\u00e3o muito mais parecida com a linguagem que seria usada em uma mensagem genu\u00edna do EI.<br \/>\nOs pais de Bakr n\u00e3o acreditaram na mensagem de voz, nem no que as autoridades libanesas contaram sobre o destino do seu filho. Eles acham que Bakr Saif nunca saiu do L\u00edbano e segue mantido em cust\u00f3dia em algum lugar do pa\u00eds.<br \/>\nMahdi Saif, o pai de Bakr, mostra o apartamento do seu filho. Est\u00e1 limpo e arrumado, mas vazio, e parece abandonado. Os chocolates em embalagem dourada comprados por Bakr para seu casamento ainda podem ser vistos, esperando para serem consumidos.<br \/>\nO ex\u00e9rcito iraquiano afirma que Bakr Saif saiu do L\u00edbano e viajou para entrar para o EI. Eles defendem que Saif envolveu-se em um ataque a uma base militar em Diyala, no Iraque, que matou 10 soldados.<br \/>\nEm retalia\u00e7\u00e3o, nove membros do EI foram mortos dias depois em um ataque a\u00e9reo das for\u00e7as iraquianas. Metade deles era de libaneses.<br \/>\nAs for\u00e7as iraquianas afirmam que Saif era um deles. Eles insistem que t\u00eam certeza absoluta e afirmam que testam o DNA dos corpos para confirmar a identidade dos mortos.<br \/>\nConversei com o general do ex\u00e9rcito iraquiano Yahya Rasoul Abdulla sobre os homens que est\u00e3o deixando o L\u00edbano para entrar no EI. O general tinha palavras fortes para eles.<br \/>\n&#8220;Minha mensagem para o mundo \u00e1rabe, especialmente para a juventude libanesa, \u00e9 que essa organiza\u00e7\u00e3o terrorista est\u00e1 usando voc\u00ea como lenha para o fogo&#8221;, afirmou. &#8220;Voc\u00eas podem ver e perguntar \u00e0s pessoas iraquianas que viveram sob controle do EI \u2014 eles matavam as pessoas, estupravam as mulheres, escravizavam as mulheres, destru\u00edam propriedades, destru\u00edam toda a infraestrutura e at\u00e9 destru\u00edam as tumbas do profeta. N\u00e3o sejam combust\u00edvel das guerras deles, n\u00e3o sejam usados por eles.&#8221;<br \/>\n&#8220;O ex\u00e9rcito iraquiano est\u00e1 em toda parte. Aonde quer que v\u00e1 essa organiza\u00e7\u00e3o, no deserto, nas montanhas, nos vales, n\u00f3s iremos persegui-los e mat\u00e1-los&#8221;, afirma o general.<br \/>\nDo pico no in\u00edcio deste ano, os n\u00fameros de pessoas que entram para o EI come\u00e7aram a diminuir. As hist\u00f3rias dos que sa\u00edram agora s\u00e3o conhecidas em Tr\u00edpoli e tornam a perspectiva de segui-los menos atraente.<br \/>\nMas, enquanto o L\u00edbano continua a lutar contra sua devastadora crise econ\u00f4mica e seus pol\u00edticos retardam a forma\u00e7\u00e3o do novo governo meses depois das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es no pa\u00eds, a vida n\u00e3o est\u00e1 ficando mais f\u00e1cil. E os recrutadores do EI continuam a circular, esperando atrair uma nova leva de jovens libaneses marginalizados.<br \/>\n&#8211; Este texto foi originalmente publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-63966341<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estima-se que, em 2021, cerca de cem jovens libaneses tenham entrado no Estado Isl\u00e2mico. Ahmed conta que tentou entrar para a organiza\u00e7\u00e3o terrorista Estado Isl\u00e2mico para conseguir uma vida mais confort\u00e1vel. BBC Ahmed \u00e9 adolescente, mas passa os dias trabalhando, em vez de estudar. 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