{"id":27061,"date":"2022-12-18T00:12:55","date_gmt":"2022-12-18T00:12:55","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/18\/me-arrependo-de-ser-mae-nao-da-minha-filha-as-mulheres-com-sentimentos-negativos-sobre-a-maternidade\/"},"modified":"2022-12-18T00:12:55","modified_gmt":"2022-12-18T00:12:55","slug":"me-arrependo-de-ser-mae-nao-da-minha-filha-as-mulheres-com-sentimentos-negativos-sobre-a-maternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/18\/me-arrependo-de-ser-mae-nao-da-minha-filha-as-mulheres-com-sentimentos-negativos-sobre-a-maternidade\/","title":{"rendered":"&#8216;Me arrependo de ser m\u00e3e, n\u00e3o da minha filha&#8217;: as mulheres com sentimentos negativos sobre a maternidade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/Nt2Uv4EJhskxO-DXcNgjmfEqVp8=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/Q\/C\/TsyA1rRBu8B83bUdfRkA\/1.png\"><br \/>   Ser m\u00e3e \u00e9 desafiador e causa sentimentos conflitantes em muitas mulheres \u2014 mas por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil expressar isso? &#8216;Me arrependo de ser m\u00e3e, n\u00e3o da minha filha&#8217;: as mulheres com sentimentos negativos sobre a maternidade<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\nAntes mesmo de ter seu primeiro filho, Libby Ward sabia que tipo de m\u00e3e ela queria ser: consciente, paciente e amorosa.<br \/>\nMas sua expectativa ia al\u00e9m disso, especialmente quando observava as m\u00e3es no seu c\u00edrculo social. Ela queria imit\u00e1-las tamb\u00e9m de outras formas, com refei\u00e7\u00f5es caseiras, uma casa impec\u00e1vel e uma rotina de sono para o beb\u00ea.<br \/>\nQuando teve sua filha em 2014, Ward sentiu que seria capaz de ser a m\u00e3e que pretendia, pelo menos em grande parte.<br \/>\nDois anos depois, seu filho nasceu. Ela teve problemas com a amamenta\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o dormia mais de duas horas seguidas \u2014 e parecia sentir dores.<br \/>\n &#8220;Senti que n\u00e3o conseguia oferecer alimento, sono ou conforto suficiente&#8221;, relembra Ward, que mora em Ont\u00e1rio, no Canad\u00e1.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o conseguia manter os padr\u00f5es que havia definido para mim mesma. E tudo simplesmente pareceu desabar.&#8221;<br \/>\nMais do que qualquer outra emo\u00e7\u00e3o, ela sentiu raiva. O ressentimento se voltou para o seu parceiro, para os filhos e at\u00e9 para completos estranhos \u2014 qualquer pessoa que parecesse ter mais facilidade do que ela. E ela ficou envergonhada por essa rea\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Eu era m\u00e3e de dois filhos h\u00e1 cerca de cinco meses quando finalmente me olhei no espelho e n\u00e3o consegui me reconhecer fisicamente, emocionalmente, mentalmente&#8221;, afirma Ward.<br \/>\n&#8220;Eu dizia: &#8216;Esta n\u00e3o sou eu. Isso n\u00e3o \u00e9 quem eu sou. N\u00e3o \u00e9 quem eu quero ser. N\u00e3o \u00e9 quem eu esperava ser&#8217;.&#8221;<br \/>\nEla estava passando por uma condi\u00e7\u00e3o vivenciada por muitas m\u00e3es, mas comentada por poucas: a ambival\u00eancia materna.<br \/>\nDefinida como sentir emo\u00e7\u00f5es complexas sobre a maternidade, muitas vezes contradit\u00f3rias, a ambival\u00eancia materna n\u00e3o significa falta de amor pela crian\u00e7a.<br \/>\nNa verdade, as m\u00e3es que se identificam como ambivalentes costumam ter claro que fariam tudo pelos filhos \u2014 tanto que, para muitas, a preocupa\u00e7\u00e3o, o estresse e o medo que elas sentem pelas crian\u00e7as s\u00e3o alguns dos motivos por que elas acham que ser m\u00e3e \u00e9 um desafio t\u00e3o grande.<br \/>\nMas elas podem tamb\u00e9m sentir raiva, ressentimento, apatia, t\u00e9dio, ansiedade, culpa, tristeza e at\u00e9 \u00f3dio \u2014 emo\u00e7\u00f5es que a maioria das pessoas n\u00e3o costuma associar \u00e0 maternidade, que dir\u00e1 com ser uma &#8220;boa&#8221; m\u00e3e.<br \/>\nEssa mistura de emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 surpreendente. Ser m\u00e3e, afinal, \u00e9 uma tarefa emocional, trabalhosa e que exige tempo. Ela traz uma mudan\u00e7a fundamental na identidade da pessoa, al\u00e9m de altera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas que, muitas vezes, s\u00e3o dif\u00edceis.<br \/>\nAs m\u00e3es provavelmente tiveram sentimentos conflitantes desde o in\u00edcio da humanidade. Ainda assim, alguns fatores tornam a ambival\u00eancia materna atual um pouco diferente e, muito provavelmente, mais dif\u00edcil de se enfrentar.<br \/>\nEm primeiro lugar, existem os padr\u00f5es, muitas vezes irreais, sobre o que significa ser uma &#8220;boa&#8221; m\u00e3e (e tamb\u00e9m um &#8220;bom&#8221; filho), que s\u00e3o acentuados pela sobrecarga de informa\u00e7\u00f5es e compara\u00e7\u00f5es oferecida pela ind\u00fastria de aconselhamento aos pais, pela internet e pelas redes sociais.<br \/>\nE, em segundo lugar, existe a vergonha e a estigmatiza\u00e7\u00e3o sentidas por muitas m\u00e3es simplesmente por tocar no assunto, em uma cultura que valoriza posturas como &#8220;aproveite cada momento!&#8221; em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade.<br \/>\nAs m\u00e3es podem at\u00e9 conseguir dizer que criar filhos \u00e9 dif\u00edcil, mas \u00e9 um tabu muito maior afirmar que elas n\u00e3o necessariamente apreciam o seu papel.<br \/>\nMesmo que n\u00e3o desabafem, muitas m\u00e3es sentem emo\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias sobre a cria\u00e7\u00e3o dos filhos<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\nO paradoxo da maternidade<br \/>\n&#8220;A ambival\u00eancia materna \u00e9 quest\u00e3o de abra\u00e7ar o &#8216;e'&#8221;, diz Sophie Brock, soci\u00f3loga que estuda maternidade, de Sydney, na Austr\u00e1lia. Ela apresenta o podcast The Good Enough Mother (&#8220;A m\u00e3e suficientemente boa&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre).<br \/>\n&#8220;Temos tantos paradoxos como m\u00e3es, e a ambival\u00eancia est\u00e1 dizendo &#8216;na verdade, eu sinto ambos'&#8221;, afirma Brock.<br \/>\nPensar que &#8220;eu quero passar cada minuto com minha filha, e n\u00e3o consigo passar mais um minuto com ela&#8221;. &#8220;Sou muito agradecida por meu filho existir, e n\u00e3o consigo suportar o que se tornou a minha vida.&#8221;<br \/>\n&#8220;Quero ser a melhor m\u00e3e poss\u00edvel, e tenho muita raiva por ver como minha identidade mudou.&#8221; Ou at\u00e9 mesmo &#8220;amo intensamente meu filho e, neste momento, tamb\u00e9m o odeio.&#8221;<br \/>\nA ambival\u00eancia pode ser confundida com condi\u00e7\u00f5es como ansiedade ou depress\u00e3o p\u00f3s-parto, ou conviver junto com elas. E, se n\u00e3o for expressa, pode aumentar o risco de piorar a sa\u00fade mental. Por isso, \u00e9 sempre importante buscar assist\u00eancia profissional em caso de d\u00favida.<br \/>\nMas, geralmente, a ambival\u00eancia materna \u00e9 normal e saud\u00e1vel, segundo os pesquisadores e psic\u00f3logos.<br \/>\n&#8220;Quase toda [m\u00e3e] com quem falei sente-se suficientemente segura para afirmar que sua verdadeira experi\u00eancia tem sentimentos mistos sobre o seu papel&#8221;, afirma a terapeuta Kate Borsato, de British Columbia, no Canad\u00e1, que estuda a sa\u00fade mental das m\u00e3es.<br \/>\n&#8220;E isso faz sentido para mim&#8221;, diz ela.<br \/>\n&#8220;A vida delas mudou muito. Sua sensa\u00e7\u00e3o de autoconfian\u00e7a, a forma como elas passam o tempo, o que elas pensam \u2014 tudo \u00e9 diferente.&#8221;<br \/>\nUma m\u00e3e que conhece essa situa\u00e7\u00e3o por experi\u00eancia pr\u00f3pria \u00e9 Jessica Rose Schrody, comediante e criadora de conte\u00fado digital de Los Angeles, nos Estados Unidos.<br \/>\nQuando engravidou com pouco mais de 20 anos, ela questionou se deveria dar prosseguimento \u00e0 gesta\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Mas, de forma geral, eu dizia: &#8216;Ah, eu vou conseguir, vou dar um jeito&#8217;. Agora, com 31 anos, eu penso: &#8216;Uau! Isso complicou muito a minha vida, de todas as formas poss\u00edveis&#8217;. E nenhuma dessas formas eu conseguia compreender ou realmente processar, com 21 anos.&#8221;<br \/>\nA luta para ser &#8216;boa&#8217;<br \/>\nSer m\u00e3e sempre foi dif\u00edcil. Mas as press\u00f5es espec\u00edficas da atualidade podem dificultar ainda mais.<br \/>\nDiferentemente da primeira metade do s\u00e9culo 20, por exemplo, agora se espera que as m\u00e3es deem &#8220;tudo&#8221; pelos seus filhos em termos de tempo, trabalho e recursos emocionais, mentais e financeiros \u2014 e ainda tenham alto desempenho no trabalho e nos relacionamentos.<br \/>\nEm 1996, esta constru\u00e7\u00e3o cultural da maternidade recebeu um r\u00f3tulo que acabou ficando at\u00e9 hoje: &#8220;maternidade intensiva&#8221;.<br \/>\n E, para piorar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o, as mulheres enfrentam dificuldades para atingir esse ideal em uma \u00e9poca em que a assist\u00eancia para os pais, em grande parte, n\u00e3o acompanhou as exig\u00eancias da vida moderna. Mesmo alguns dos pa\u00edses mais ricos do mundo oferecem menos de quatro meses de licen\u00e7a-maternidade.<br \/>\nE, em fam\u00edlias no Reino Unido em que os dois pais trabalham, mais de 50% da renda m\u00e9dia da mulher em tempo integral v\u00e3o para a creche.<br \/>\n&#8220;Todas as m\u00e3es j\u00e1 conhecem isso: somos sobrecarregadas,  trabalhamos demais, carregamos a maior parte do trabalho emocional, a maior parte da esfera dom\u00e9stica e as press\u00f5es do trabalho profissional&#8221;, afirma Brock.<br \/>\n&#8220;E as pessoas esperam que coloquemos uma m\u00e1scara que diga: &#8216;Consegui fazer tudo. Sou a m\u00e3e perfeita. N\u00e3o tenho dificuldades.'&#8221;<br \/>\nAlecia Carey tem 35 anos, \u00e9 m\u00e3e de dois filhos e trabalha em filantropia pol\u00edtica em Boston, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. Para ela, a ambival\u00eancia materna surgiu quando ainda estava gr\u00e1vida \u2014 algo que n\u00e3o \u00e9 incomum.<br \/>\n&#8220;Quando fiquei gr\u00e1vida, senti que havia sido rebaixada de ser humano para mulher&#8221;, conta.<br \/>\n&#8220;Tudo o que os meus colegas de trabalho me diziam era que eu estava gr\u00e1vida. Era a \u00fanica coisa a meu respeito. Tornou-se toda a minha personalidade. Eu odiava aquilo.&#8221;<br \/>\nEla conta que foi muito dif\u00edcil se ajustar \u00e0 mudan\u00e7a para a maternidade, depois de passar grande parte da vida desenvolvendo sua carreira, seu c\u00edrculo social e seus interesses e aspira\u00e7\u00f5es pessoais \u2014 algo que as gera\u00e7\u00f5es passadas, que costumavam ter filhos mais cedo, podem n\u00e3o ter vivenciado da mesma forma.<br \/>\nLizzie Laing, de Cornwall, no Reino Unido, tem 27 anos. Ela afirma que tamb\u00e9m se sentiu despreparada para as transforma\u00e7\u00f5es que vieram com a maternidade \u2014 e que ver outras m\u00e3es tendo aparentemente mais facilidade fez com que ela se sentisse pior.<br \/>\n&#8220;Voc\u00ea est\u00e1 de luto pela facilidade da sua vida antiga e pelo seu relacionamento com o seu parceiro&#8221;, diz ela.<br \/>\n&#8220;E voc\u00ea v\u00ea outras pessoas que est\u00e3o simplesmente se dando bem. Eu me sentia em outro planeta em rela\u00e7\u00e3o a todos os demais \u2014 com muita dificuldade.&#8221;<br \/>\n&#8220;Eu tinha amigas que tiveram beb\u00eas mais ou menos na mesma \u00e9poca&#8221;, afirma.<br \/>\n&#8220;Mas eu conseguia ver nos olhos delas que elas estavam realmente sendo gentis quando diziam &#8216;sim, eu sei o que voc\u00ea quer dizer&#8217;, enquanto eu claramente estava em uma situa\u00e7\u00e3o diferente delas.&#8221;<br \/>\nCarey tamb\u00e9m se sentia sozinha na sua experi\u00eancia.<br \/>\n&#8220;Senti como se tivesse sido simplesmente retirada do nosso c\u00edrculo social porque fiquei gr\u00e1vida&#8221;, afirma.<br \/>\n&#8220;Era muito isolador. E ficou muito mais isolador porque, na internet e nos c\u00edrculos dessas m\u00e3es, todas pareciam adorar, aproveitar e tirar o m\u00e1ximo daquilo. Eu achava tudo desconfort\u00e1vel e isolador, e fui corro\u00edda pela ansiedade o tempo\u00a0todo.&#8221;<br \/>\nMas os desafios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade n\u00e3o se resumem \u00e0 forma como as m\u00e3es devem se comportar. Outra dificuldade s\u00e3o as expectativas sobre como as crian\u00e7as &#8220;devem&#8221; agir \u2014 algo que, muitas vezes, \u00e9 observado como refletindo a pr\u00f3pria capacidade da m\u00e3e na cria\u00e7\u00e3o dos filhos.<br \/>\nAs m\u00e3es s\u00e3o inundadas por imagens idealizadas da maternidade que podem perpetuar padr\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o realistas<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\n&#8220;A maternidade era tudo o que sempre quis na minha vida&#8221;, afirma Emily Whalley, de Derbyshire, no Reino Unido. Ela tem 32 anos, teve seu primeiro filho em 2015, e o segundo, em 2019.<br \/>\n&#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil admitir que, na verdade, n\u00e3o aproveito tanto quanto gostaria.&#8221;<br \/>\nGrande parte disso se deve ao fato de que seus filhos t\u00eam s\u00e9rios problemas de sa\u00fade. Ela conta que ficou bastante obcecada pelo sono do filho, e acabou descobrindo que ele tinha dificuldade para dormir, em grande parte, por uma raz\u00e3o m\u00e9dica: ele tinha l\u00edngua presa e n\u00e3o havia sido diagnosticado.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o consegui ter uma boa experi\u00eancia em ser m\u00e3e&#8221;, afirma ela.<br \/>\n&#8220;Cuidar de um beb\u00ea tem sido fonte de estresse e preocupa\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nAs ideias equivocadas de Laing sobre o comportamento dos beb\u00eas tamb\u00e9m &#8220;roubaram sua alegria&#8221;, diz ela.<br \/>\nA tradi\u00e7\u00e3o familiar e as informa\u00e7\u00f5es divulgadas na imprensa a convenceram de que o rec\u00e9m-nascido dormiria a maior parte do dia, dando a ela tempo de cumprir as tarefas dom\u00e9sticas ou trabalhar, e que os beb\u00eas adormecem sozinhos.<br \/>\nA realidade foi um choque para ela. A beb\u00ea de Laing chegava a ficar acordada por seis horas seguidas. Ela s\u00f3 dormia com ru\u00eddo de fundo, em um sling (tecido para carregar a crian\u00e7a), com Laing se balan\u00e7ando sobre uma bola.<br \/>\n&#8220;Basicamente, n\u00f3s n\u00e3o tivemos o &#8216;beb\u00ea padr\u00e3o'&#8221;, ela conta.<br \/>\n&#8220;Mas aprendi que aquela era a norma e, quando vi que n\u00e3o o meu caso, fiquei ressentida.&#8221;<br \/>\nEla sentiu como se estivesse fracassando como m\u00e3e.<br \/>\n&#8216;Estou perdendo alguma coisa?&#8217;<br \/>\n\u00c9 comum sentir vergonha e culpa por n\u00e3o se satisfazer com a maternidade.<br \/>\nIsso acontece especialmente quando todas as intera\u00e7\u00f5es, das redes sociais \u00e0s conversas familiares, pintam um quadro da maternidade como sendo algo feliz e recompensador \u2014 e quando poucas m\u00e3es se abrem para falar como pode ser dif\u00edcil na realidade.<br \/>\nA estigmatiza\u00e7\u00e3o em torno de admitir isso n\u00e3o \u00e9 fruto da imagina\u00e7\u00e3o. Quando a criadora de conte\u00fado digital Schrody afirmou que lamentava ter sido m\u00e3e em um podcast recente, 90% das rea\u00e7\u00f5es foram de outras mulheres que se sentiam da mesma forma. Mas ela tamb\u00e9m recebeu sua parcela de cr\u00edticas.<br \/>\nEla se recorda particularmente de um v\u00eddeo de algu\u00e9m dizendo como deve ter sido horr\u00edvel para sua filha. Mais de 30 mil pessoas &#8220;curtiram&#8221; o v\u00eddeo, segundo Schrody. Isso a preocupou.<br \/>\nTalvez ela n\u00e3o devesse ter se aberto sobre seus sentimentos. Como a maioria das outras m\u00e3es, apesar de ter deixado clara sua posi\u00e7\u00e3o no podcast \u2014 &#8220;n\u00e3o me arrependo da minha filha, me arrependo da fun\u00e7\u00e3o&#8221; \u2014, sua maior preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 se ir\u00e1 ferir os sentimentos dela.<br \/>\n\u00c9 claro que n\u00e3o s\u00e3o apenas as mulheres que compartilham seus sentimentos em p\u00fablico que sentem culpa e vergonha. Muitas acabam passando por tudo isso em sil\u00eancio.<br \/>\n&#8220;Eu esperava que as primeiras semanas e meses depois de ser m\u00e3e seriam a melhor \u00e9poca da minha vida&#8221;, afirma Kayleigh Thomas, 30 anos, de Warwickshire, no Reino Unido.<br \/>\n&#8220;Depois me senti mal porque n\u00e3o estava sendo o que tinha visto online ou lido a respeito.&#8221;<br \/>\nAt\u00e9 as m\u00e3es que tentaram se libertar deliberadamente das expectativas da maternidade intensiva, como Carey em Boston, nos Estados Unidos, ainda se sentem internamente culpadas.<br \/>\nCarey conta que n\u00e3o se permite sentir as &#8220;culpas \u00f3bvias da maternidade&#8221;, em rela\u00e7\u00e3o a coisas como sair para jantar com o marido ou tirar f\u00e9rias sem as crian\u00e7as. Mas, quando ela foi fazer recentemente uma viagem internacional com o marido, uma amiga enviou uma mensagem perguntando: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o sente falta da sua filha?&#8221;<br \/>\n&#8220;Minha sensa\u00e7\u00e3o era que n\u00e3o&#8221;, ela conta.<br \/>\n&#8220;Depois pensei: &#8216;Sou uma pessoa ruim? Sou uma assassina em s\u00e9rie? Ser\u00e1 que perdi alguma coisa? Esperam que eu queira jogar pela janela tudo a meu respeito e simplesmente adotar essa nova personalidade e novos interesses?'&#8221;<br \/>\n&#8220;N\u00e3o me sinto capaz de fazer isso e me ressinto quando as pessoas me pedem que fa\u00e7a&#8221;, afirma.<br \/>\n&#8220;E meu marido n\u00e3o est\u00e1 sendo questionado.&#8221;<br \/>\n\u00c9 comum que as m\u00e3es se critiquem pela sua ambival\u00eancia, o que &#8220;apenas aumenta a dor em uma situa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil&#8221;, diz Borsato.<br \/>\n&#8220;J\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil esconder todas essas emo\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea n\u00e3o precisa acrescentar mais cr\u00edtica, mais julgamento, mais sentimentos negativos.&#8221;<br \/>\nE a desvantagem das mulheres que silenciam, segundo ela, \u00e9 que, se uma m\u00e3e se abrir sobre seus sentimentos, provavelmente ela se sentir\u00e1 menos sozinha e menos autocr\u00edtica \u2014 sensa\u00e7\u00f5es que podem levar a situa\u00e7\u00f5es mais profundas, como a depress\u00e3o.<br \/>\nO problema, de acordo com ela, n\u00e3o \u00e9 a ambival\u00eancia materna em si. \u00c9 o significado que ela tem.<br \/>\n&#8220;Se uma pessoa concluir que existe algo de errado com ela, ou que o fato de ser ambivalente deve significar que ela n\u00e3o foi feita para ser m\u00e3e, ou que fizeram uma m\u00e1 escolha, ou que seu filho merece uma m\u00e3e que n\u00e3o tenha essa ambival\u00eancia \u2014 isso pode se tornar algo perigoso&#8221;, explica.<br \/>\nExistem mulheres que sentem que perderam sua identidade ao se tornarem m\u00e3es<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\n&#8216;Experi\u00eancias comuns&#8217;<br \/>\nEmbora siga existindo muita vergonha em torno da ideia da ambival\u00eancia materna, essa conversa est\u00e1 mudando lentamente.<br \/>\nAlgumas mulheres dedicaram suas carreiras a ajudar outras a terem uma experi\u00eancia mais prazerosa da maternidade \u2014 sabendo que n\u00e3o ficar alegre todo o tempo tamb\u00e9m \u00e9 aceit\u00e1vel.<br \/>\nDepois de enfrentar dificuldades com seu papel como m\u00e3e, Borsato, por exemplo, encontrou motiva\u00e7\u00e3o ao ajudar outras m\u00e3es a priorizar sua sa\u00fade mental. J\u00e1 Whalley abriu um neg\u00f3cio tentando ajudar os pais a entender mais sobre o sono dos beb\u00eas e descartar eventuais problemas de sa\u00fade.<br \/>\n&#8220;\u00c9 por isso que fa\u00e7o esse trabalho, apenas para tentar tornar a vida das outras pessoas mais feliz do que a minha&#8221;, afirma Whalley.<br \/>\nOutras pessoas se comprometeram a eliminar o estigma de falar sobre o assunto.<br \/>\nSchrody ficou abalada com os coment\u00e1rios negativos que recebeu. Mas continuou falando sobre sua experi\u00eancia, na expectativa de poder mostrar \u00e0s outras m\u00e3es que n\u00e3o h\u00e1 problema em ter sentimentos contradit\u00f3rios sobre a maternidade.<br \/>\n&#8220;A ideia de que &#8216;voc\u00ea deveria ficar mais em sil\u00eancio sobre isso&#8217; \u00e9 perfeitamente alinhada a uma sociedade mis\u00f3gina&#8221;, afirma.<br \/>\nQuando Ward n\u00e3o conseguiu encontrar outras criadoras de conte\u00fado se abrindo sobre as dificuldades da maternidade, ela decidiu fazer isso. Ward come\u00e7ou a compartilhar sua experi\u00eancia no TikTok em mar\u00e7o de 2020, com o t\u00edtulo Diary of an Honest Mom (&#8220;Di\u00e1rio de uma M\u00e3e Honesta&#8221;). E, seis meses depois, lan\u00e7ou uma conta similar no Instagram.<br \/>\nMuitos dos seus v\u00eddeos mais curtidos s\u00e3o aqueles que mostram as dificuldades na cria\u00e7\u00e3o de filhos \u2014 como sua frustra\u00e7\u00e3o quando os filhos n\u00e3o comem o almo\u00e7o que ela preparou, como a maternidade a deixou menos &#8220;divertida&#8221; e como sua fam\u00edlia a deixou &#8220;dormir&#8221; no Dia das M\u00e3es (spoiler: ela n\u00e3o conseguiu dormir).<br \/>\nAtualmente, suas plataformas t\u00eam juntas cerca de 1,5 milh\u00e3o de seguidores. Ward recebe tantas mensagens de m\u00e3es que precisou contratar uma pessoa para responder.<br \/>\nAs mulheres contam que n\u00e3o percebiam que outras pessoas achavam t\u00e3o dif\u00edcil cuidar dos filhos ou que pensavam que seus sentimentos significavam que elas eram m\u00e3es ruins.<br \/>\n&#8220;Muitas m\u00e3es se sentiam muito envergonhadas e culpadas pelas dificuldades na maternidade&#8221;, diz ela.<br \/>\n&#8220;E elas se sentem muito sozinhas com isso.&#8221;<br \/>\n&#8220;Percebi que as m\u00e3es que tentei imitar e que observei no come\u00e7o nunca falavam sobre as dificuldades&#8221;, conta Ward.<br \/>\n&#8220;Elas n\u00e3o falavam sobre a falta de sono. Elas n\u00e3o falavam sobre a vergonha. Elas n\u00e3o contavam como gritavam com os filhos. Elas n\u00e3o falavam nada sobre o que eu estava enfrentando e me faziam sentir totalmente sozinha e isolada.&#8221;<br \/>\n&#8220;E s\u00f3 quando comecei a compartilhar essas coisas, percebi que essas experi\u00eancias eram comuns&#8221;, conclui Ward.<br \/>\nEste texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/vert-cap-63782952<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser m\u00e3e \u00e9 desafiador e causa sentimentos conflitantes em muitas mulheres \u2014 mas por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil expressar isso? &#8216;Me arrependo de ser m\u00e3e, n\u00e3o da minha filha&#8217;: as mulheres com sentimentos negativos sobre a maternidade GETTY IMAGES Antes mesmo de ter seu primeiro filho, Libby Ward sabia que tipo de m\u00e3e ela queria<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":27062,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":{"0":"post-27061","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27061","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27061"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27061\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/27062"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27061"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27061"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27061"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}