{"id":26987,"date":"2022-12-17T17:12:11","date_gmt":"2022-12-17T17:12:11","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/17\/qual-a-origem-da-rivalidade-entre-brasil-e-argentina-e-o-que-esta-mudando-nessa-rixa\/"},"modified":"2022-12-17T17:12:11","modified_gmt":"2022-12-17T17:12:11","slug":"qual-a-origem-da-rivalidade-entre-brasil-e-argentina-e-o-que-esta-mudando-nessa-rixa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/17\/qual-a-origem-da-rivalidade-entre-brasil-e-argentina-e-o-que-esta-mudando-nessa-rixa\/","title":{"rendered":"Qual a origem da rivalidade entre Brasil e Argentina \u2014 e o que est\u00e1 mudando nessa rixa"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/05DIcLijK07WlRFAzN0OeKWZ7VA=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/w\/9\/GM98Z6SaOwEXL8qPJ5Gg\/bbc-argentina.png\"><br \/>   Alguns brasileiros aderiram \u00e0 torcida pela sele\u00e7\u00e3o argentina, o que causou estranhamento. Afinal, a rivalidade entre os pa\u00edses vizinhos \u00e9 antiga e est\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 no futebol, mas tamb\u00e9m na pol\u00edtica regional. Ruas e muros do morro do Dend\u00ea, no Rio de Janeiro (RJ), foram pintados em homenagem \u00e0 sele\u00e7\u00e3o argentina durante a Copa do Mundo de 2022.<br \/>\nAndr\u00e9 Coelho\/ EPA-EFE\/ Shutterstock via BBC<br \/>\nAssim que a sele\u00e7\u00e3o argentina eliminou a Holanda na Copa do Mundo do Catar, em 9 de dezembro, alguns torcedores do Brasil enviaram mensagens para amigos brasileiros e argentinos que moram em Buenos Aires comemorando o resultado.<br \/>\n&#8220;Que jogo, que torcida linda. Parab\u00e9ns, hermanos&#8221;, disse um deles.<br \/>\nNa ter\u00e7a-feira (13\/12), quando a Argentina venceu a Cro\u00e1cia por tr\u00eas a zero, novas mensagens, em tom de admira\u00e7\u00e3o, voltaram a se repetir. E algumas delas inclu\u00edram at\u00e9 trechos de tango.<br \/>\n&#8220;Arte e luta em doses iguais&#8221;, escreveu um deles, elogiando a atua\u00e7\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o capitaneada por Lionel Messi e anexando um tango de Astor Piazzolla \u00e0 mensagem.<br \/>\nCom a sa\u00edda do Brasil da Copa, alguns brasileiros famosos e an\u00f4nimos aderiram \u00e0 torcida pela sele\u00e7\u00e3o argentina \u2014 inclusive o narrador Galv\u00e3o Bueno, da Rede Globo, conhecido por j\u00e1 ter dito que &#8220;ganhar \u00e9 bom, mas ganhar da Argentina \u00e9 melhor ainda&#8221;.<br \/>\nAt\u00e9 o correspondente do jornal brit\u00e2nico The Guardian na Am\u00e9rica Latina, Tom Phillips, se surpreendeu com o apoio de brasileiros \u00e0 sele\u00e7\u00e3o do pa\u00eds vizinho. &#8220;O que est\u00e1 acontecendo?&#8221;, brincou ele no Twitter.<br \/>\nInitial plugin text<br \/>\nSer\u00e1 que algo est\u00e1 mudando na rivalidade hist\u00f3rica entre Brasil e Argentina, alimentada por disputas em Copa do Mundo e d\u00e9cadas de compara\u00e7\u00e3o entre o desempenho de Maradona e Pel\u00e9?<br \/>\nPara entender isso, a BBC News Brasil ouviu analistas especializados em hist\u00f3ria, em antropologia e em futebol, que observaram que esse sentimento atual reflete v\u00e1rios motivos.<br \/>\nA admira\u00e7\u00e3o por Messi, que coleciona sete Bolas de Ouro de melhor jogador do mundo e costuma ser elogiado por sua &#8220;simplicidade&#8221; e &#8220;zero arrog\u00e2ncia&#8221;, a &#8220;garra dos jogadores e da torcida argentina&#8221; e a percep\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es de brasileiros, que se identificam como latino-americanos s\u00e3o elementos que contribuem para apaziguar a rivalidade hist\u00f3rica.<br \/>\nO professor Jo\u00e3o Manuel Casquinha, do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que faz pesquisas sobre futebol, atendeu \u00e0 reportagem da BBC News Brasil quando acabava de sair de uma reuni\u00e3o com outros dois professores.<br \/>\nOs tr\u00eas acad\u00eamicos est\u00e3o torcendo pela Sele\u00e7\u00e3o Argentina, que neste domingo (18\/12) disputar\u00e1 a final do mundial contra a Fran\u00e7a.<br \/>\n&#8220;Vou dar uma percep\u00e7\u00e3o bem de torcedor. Os jogadores argentinos sempre nos encantaram pela sua dedica\u00e7\u00e3o, pelo seu amor pela p\u00e1tria. Aquela coisa de jogar pela bandeira e de terminar os jogos e ir para o meio da torcida. Muita garra, muita vibra\u00e7\u00e3o. E, al\u00e9m de toda garra argentina, eles t\u00eam o melhor jogador do mundo e a gente acaba ficando com uma certa invejinha no Brasil&#8221;, disse Casquinha.<br \/>\nCoordenador do Grupo de Estudos de Hist\u00f3ria do Esporte e das Pr\u00e1ticas L\u00fadicas (Stadium), o professor entende que at\u00e9 o videogame tem contribu\u00eddo para as novas torcidas brasileiras por Messi.<br \/>\n&#8220;Vemos os mais jovens que curtem o Messi, que o viram jogar no Barcelona, o veem jogar no Paris Saint Gemain e passaram quatro anos (at\u00e9 a Copa) jogando com &#8216;Messi&#8217; no videogame. E eles acabam tendo tanta identidade com Messi como t\u00eam com o Neymar. Eu diria que, em alguns casos, eles t\u00eam at\u00e9 mais identidade com o Messi do que com a maioria dos jogadores brasileiros, que nem sempre conhecem porque jogam em equipes europeias menores e praticamente n\u00e3o atuam no territ\u00f3rio brasileiro&#8221;, disse Casquinha.<br \/>\nAlgo est\u00e1 mudando na rivalidade hist\u00f3rica entre Brasil e Argentina? Na foto, rua pintada com as cores do pa\u00eds vizinho no Dend\u00ea.<br \/>\nAndr\u00e9 Coelho\/ EPA-EFE Shutterstock  via BBC<br \/>\n&#8220;A gente tem uma nova gera\u00e7\u00e3o de torcedores que torce para o Arsenal, para Manchester City, para o Paris Saint Germain, para o Barcelona&#8230; \u00c9 um fen\u00f4meno que vemos acontecendo nos pa\u00edses sul-americanos. Tem a ver com a globaliza\u00e7\u00e3o. E esses clubes t\u00eam trabalhado uma inser\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina&#8221;, afirmou.<br \/>\nEssa mesma gera\u00e7\u00e3o se identifica, em muitos casos, mais como latino-americana, ao contr\u00e1rio do que pensavam seus pais e seus av\u00f3s no passado. Esse sentimento tamb\u00e9m explica a torcida de muitos brasileiros, na vis\u00e3o do professor Casquinha \u2014 ele pr\u00f3prio diz querer &#8220;uma vit\u00f3ria dos sul-americanos&#8221; neste domingo.<br \/>\nO t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o argentina, Lionel Scaloni, tamb\u00e9m tentou cultivar isso.<br \/>\nScaloni \u00e9 amigo de v\u00e1rios jogadores brasileiros, se declara &#8220;f\u00e3&#8221; do Brasil e disse que seria &#8220;estimulante&#8221; ter o apoio da torcida brasileira e das outras na\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica do Sul na final \u2014 desde 2006, os europeus s\u00e3o os \u00fanicos a erguer a ta\u00e7a da Copa do Mundo.<br \/>\nMas, para deixar a rixa de lado, \u00e9 preciso entender suas origens.<br \/>\nA origem da rivalidade Brasil x Argentina<br \/>\n\u00c9 na pol\u00edtica, e n\u00e3o no futebol, que alguns historiadores situam esse princ\u00edpio.<br \/>\nO historiador Boris Fausto, coautor de Brasil e Argentina: Um Ensaio de Hist\u00f3ria Comparada (1850-2002), diz que a rixa come\u00e7ou no s\u00e9culo 19, quando os dois pa\u00edses passaram a disputar a lideran\u00e7a regional na Am\u00e9rica do Sul.<br \/>\nPara Fausto, essa rivalidade pol\u00edtica acabou sendo assimilada pela sociedade. E, com isso, se descolou de fatos hist\u00f3ricos e invadiu outros setores, como o futebol.<br \/>\nO cientista pol\u00edtico argentino Rosendo Fraga tamb\u00e9m acha que Brasil e Argentina herdaram a rivalidade que existiu entre os ex-colonizadores, Portugal e Espanha, no processo de ocupa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul. E nisso, a disputa pela regi\u00e3o chamada Cisplatina, nos arredores do rio da Prata, tem papel importante.<br \/>\nEssa disputa chegou ao \u00e1pice na Guerra da Cisplatina (1825-28), que op\u00f4s o Brasil, j\u00e1 independente de Portugal, e as chamadas Prov\u00edncias Unidas do Rio da Prata, que mais tarde viriam a formar a Argentina.<br \/>\nO Brasil sofreu duras derrotas em tr\u00eas batalhas da guerra e acabou desistindo de ser dona do territ\u00f3rio. Os argentinos tamb\u00e9m n\u00e3o ficaram com a Cisplatina, que acabou virando outro pa\u00eds: o Uruguai.<br \/>\nMas a desconfian\u00e7a bilateral continuou, apesar da falta de hostilidades ou conflitos dali em diante. Inclusive Brasil, Argentina e Uruguai foram aliados na Guerra do Paraguai (1864-1870).<br \/>\nO cientista pol\u00edtico argentino Vicente Palermo, autor de La Alegria y la Pasi\u00f3n &#8211; Relatos Brasile\u00f1os y Argentinos en Perspectiva Comparada (&#8220;A Alegria e a Paix\u00e3o &#8211; Relatos Brasileiros e Argentinos em Perspectiva Comparada&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre) acha que, historicamente, era comum que argentinos exibissem um ar de superioridade perante os brasileiros. Isso por causa do per\u00edodo hist\u00f3rico em que a Argentina foi um dos pa\u00edses mais ricos do mundo em PIB per capita, com uma classe m\u00e9dia mais pujante.<br \/>\nMas ele acha que isso mudou principalmente depois da ditadura militar instalada no pa\u00eds entre 1976 e 1983, quando os argentinos se viram diante de problemas semelhantes ou at\u00e9 mais graves que os brasileiros, como a sucess\u00e3o de crises econ\u00f4micas.<br \/>\nHoje, Vicente Palermo acha que os argentinos mudaram completamente a vis\u00e3o sobre o Brasil e enxergam o pa\u00eds como um ator global de peso.<br \/>\nMas os clich\u00eas se mantiveram, em particular no futebol e, mais ainda, em Copas do Mundo \u2014 com um saldo de ta\u00e7as obviamente favor\u00e1vel ao Brasil.<br \/>\nEfeito Messi<br \/>\nMas, agora, para o pesquisador Jo\u00e3o Manuel Casquinha, o comportamento de Messi contribui para que a torcida brasileira se envolva mais com a sele\u00e7\u00e3o argentina.<br \/>\n&#8220;Uma coisa que o Messi n\u00e3o faz \u00e9 ficar ostentando, indo pra balada. Enquanto isso, nossos jogadores fazem churrasco, comem carne com ouro&#8230; Ent\u00e3o, o torcedor brasileiro v\u00ea que essa galera [os jogadores brasileiros] est\u00e1 cada vez mais distante dele&#8221;, opina Casquinha.<br \/>\nJos\u00e9 Paulo Florenzano, professor de antropologia da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP) e ex-membro do conselho consultivo do Centro de Refer\u00eancia do Futebol Brasileiro (CRFB), entende que, apesar de hist\u00f3rica, a rivalidade entre o Brasil e a Argentina n\u00e3o se manifesta sempre da mesma maneira: tem altos e baixos, a depender do contexto.<br \/>\n&#8220;Dependendo da conjuntura esportiva, voc\u00ea tem um acirramento desse sentimento de antagonismo e de rivalidade. Em determinadas conjunturas, como agora em 2022, voc\u00ea tem a possibilidade de uma identifica\u00e7\u00e3o transversal que atravessa as fronteiras do Estado-Na\u00e7\u00e3o&#8221;, avalia.<br \/>\nPara o especialista, essa identifica\u00e7\u00e3o al\u00e9m fronteiras \u00e9 responsabilidade de Messi. &#8220;A sele\u00e7\u00e3o argentina do Messi consegue transcender os limites nacionais da Argentina. Existe a identifica\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios pa\u00edses com a figura do Messi e o futebol que ele representa e joga&#8221;, pontua.<br \/>\nCamisas do Brasil e da Argentina.<br \/>\nReuters via BBC<br \/>\nA pol\u00edtica tamb\u00e9m tem um peso no debate. Neymar conquistou cr\u00edticos de um lado e admiradores do outro ao declarar apoio a Jair Bolsonaro (PL) na campanha presidencial de 202.<br \/>\n&#8220;Neymar tamb\u00e9m tem admiradores no mundo inteiro pelo futebol exuberante que joga. Mas acredito eu que hoje seja muito mais f\u00e1cil para um brasileiro torcer para a Argentina do Messi do que o inverso, um argentino se identificar com o Brasil do Neymar&#8221;, opina Florenzano.<br \/>\nO antrop\u00f3logo acha que o estilo de Messi \u00e9 mais agregador a torcedores n\u00e3o argentinos do que o de Diego Maradona \u2014 que, embora fascinante, era visto como rebelde e, por vezes, controverso.<br \/>\nNum document\u00e1rio recente da Netflix, lan\u00e7ado pouco antes da Copa do Mundo, Messi fez uma esp\u00e9cie de discurso de motiva\u00e7\u00e3o para os jogadores da Sele\u00e7\u00e3o Argentina, falando sobre a import\u00e2ncia da oportunidade de vencer no Maracan\u00e3 a final da Copa Am\u00e9rica contra o Brasil, em 2021.<br \/>\nEle n\u00e3o citou a rivalidade e buscou colocar o foco no pr\u00f3prio time. &#8220;J\u00e1 sabemos quem \u00e9 a Argentina e quem \u00e9 o Brasil. N\u00e3o quero falar sobre isso. Formamos um time lindo. Vamos levantar essa copa, vamos lev\u00e1-la para a Argentina para desfrutar com nossas fam\u00edlias, com nossos amigos, com as pessoas que sempre apoiaram a Argentina&#8221;, disse.<br \/>\nEssa foi a conquista mais importante que a sele\u00e7\u00e3o liderada por Messi conquistou para a Argentina at\u00e9 a disputa do mundial de 2022 \u2014 e um momento crucial tamb\u00e9m para mudar a percep\u00e7\u00e3o dos torcedores argentinos a respeito de Messi, at\u00e9 ent\u00e3o admirado, mas visto como algu\u00e9m que trazia mais conquistas ao times europeus do que \u00e0 Sele\u00e7\u00e3o Argentina.<br \/>\nMas qual foi o sentimento predominante na Argentina, quando o Brasil foi eliminado?<br \/>\nAlgo de &#8216;al\u00edvio&#8217; foi detectado em alguns torcedores argentinos. &#8220;O Brasil seria um competidor muito dif\u00edcil pela fortaleza de seu futebol&#8221;, explicou um dos comentaristas esportivos do canal 13, de Buenos Aires.<br \/>\nNas redes sociais, circulou imagem atribu\u00edda \u00e0 TV Cr\u00f3nica, que costuma exibir t\u00edtulos originais com letras mai\u00fasculas na sua tela, dizendo: &#8220;L\u00e1 se vai o avi\u00e3o brasileiro (com os jogadores)&#8221;.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-64008317<br \/>\nUm coment\u00e1rista disse que a elimina\u00e7\u00e3o significava &#8220;um gigante a menos para enfrentar&#8221; \u2014 talvez sem imaginar que a sele\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds contasse agora com o apoio de setores da torcida do pr\u00f3prio Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns brasileiros aderiram \u00e0 torcida pela sele\u00e7\u00e3o argentina, o que causou estranhamento. 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