{"id":25797,"date":"2022-12-12T20:10:27","date_gmt":"2022-12-12T20:10:27","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/12\/o-cranio-com-perfuracao-quadrada-que-confirmou-que-os-incas-realizavam-cirurgias-complexas\/"},"modified":"2022-12-12T20:10:27","modified_gmt":"2022-12-12T20:10:27","slug":"o-cranio-com-perfuracao-quadrada-que-confirmou-que-os-incas-realizavam-cirurgias-complexas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/12\/o-cranio-com-perfuracao-quadrada-que-confirmou-que-os-incas-realizavam-cirurgias-complexas\/","title":{"rendered":"O cr\u00e2nio com perfura\u00e7\u00e3o quadrada que confirmou que os incas realizavam cirurgias complexas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/XXNDLKuGUgMIaHXs9yxsU3sRG5g=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/c\/n\/ujtuUoQtGrjbDbg6y8MQ\/foto-2-o-cranio-em-ilustracao-no-livro-de-squier-peca-data-entre-1400-e-1530-d.c..jpg\"><br \/>   A descoberta da pe\u00e7a que mudou a forma como os antrop\u00f3logos enxergavam civiliza\u00e7\u00f5es antigas aconteceu quase por acaso \u2014 e tem rela\u00e7\u00e3o com a Guerra Civil americana. O cr\u00e2nio em ilustra\u00e7\u00e3o no livro de Squier \u2014 pe\u00e7a data entre 1400 e 1530 d.C.<br \/>\nWellcome Collection\/Via BBC<br \/>\nEm 1864, o americano Ephraim George Squier viveu uma experi\u00eancia ins\u00f3lita.<br \/>\nEle segurou nas m\u00e3os a primeira evid\u00eancia inquestion\u00e1vel de algo que os cientistas h\u00e1 muito tempo julgavam imposs\u00edvel: a neurocirurgia antiga.<br \/>\nCompartilhe no WhatsApp<br \/>\nCompartilhe no Telegram<br \/>\nA descoberta foi um acidente \u2014 e se deveu, em certa medida, ao coc\u00f4 de p\u00e1ssaros.<br \/>\nCom a eclos\u00e3o da Guerra Civil dos Estados Unidos em 1861, garantir fertilizantes para o cultivo de alimentos se tornou uma necessidade estrat\u00e9gica para o ent\u00e3o presidente Abraham Lincoln.<br \/>\n E o melhor fertilizante do mundo na \u00e9poca era encontrado nas montanhas de algumas ilhas da Am\u00e9rica do Sul, que durante s\u00e9culos haviam acumulado guano, um substrato que tem origem nas fezes de animais e \u00e9 rico em nitrog\u00eanio e f\u00f3sforo.<br \/>\nFoi por causa do guano que, em 1864, Lincoln enviou uma delega\u00e7\u00e3o ao Peru, da qual Squier fazia parte.<br \/>\nA dama &#8216;do Grande Canal&#8217;<br \/>\nGarantido o suprimento de fertilizante, o diplomata disse \u00e0 mulher que voltasse sozinha para Nova York. Apaixonado por arqueologia, ele decidiu ficar no pa\u00eds para se dedicar a pesquisas.<br \/>\nDepois de um ano viajando, percorrendo desde o litoral at\u00e9 as florestas, e escalando os picos dos Andes, ele chegou a Cusco, uma &#8220;altiva, por\u00e9m isolada cidade de montanha&#8221;.<br \/>\nEra um lugar ao qual se demorava mais para chegar e com quatro vezes mais &#8220;inc\u00f4modos e fadiga&#8221;, a partir da capital peruana, do que se viajasse de Lima at\u00e9 Nova York, ele escreveu no livro Peru: Explora\u00e7\u00e3o e Incidentes de Viagem na Terra dos Incas.<br \/>\nEphraim George Squier (1821-1888) foi jornalista, diplomata e arque\u00f3logo<br \/>\nGetty Images\/Via BBC<br \/>\nDepois de descrever detalhadamente os magn\u00edficos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos que encontrou na regi\u00e3o, assim como a cidade, sua hist\u00f3ria, popula\u00e7\u00e3o e aspecto moderno, ele se deteve em um lugar:<br \/>\n&#8220;Vou me referir especialmente \u00e0 resid\u00eancia da senhora Zentino, senhora que residia na Pra\u00e7a de S\u00e3o Francisco, cuja aten\u00e7\u00e3o aos estrangeiros era proverbial, e que estabeleceu uma honrosa reputa\u00e7\u00e3o como colecionadora do melhor e mais valioso museu de antiguidades no Peru.&#8221;<br \/>\n&#8220;Esta casa seria chamada de &#8216;pal\u00e1cio&#8217; at\u00e9 em Veneza, se n\u00e3o fosse por sua arquitetura, certamente por sua extens\u00e3o. Na amplitude de seus c\u00f4modos e em seus ricos e variados conte\u00fados e decora\u00e7\u00e3o, louvavelmente poderia ser comparada com algumas das mais belas do Grande Canal.&#8221;<br \/>\nMuseu de curiosidades<br \/>\nA &#8220;se\u00f1ora Zentino&#8221; era Mar\u00eda Ana Centeno de Romainville (1816\/1817-1874), uma mulher enriquecida pela &#8220;leitura frequente&#8221; e que come\u00e7ou a colecionar desde jovem, com uma &#8220;paix\u00e3o que beirava a loucura&#8221;, segundo conta a pioneira educadora peruana Elvira Garc\u00eda y Garc\u00eda em seu livro A Mulher Peruana Atrav\u00e9s dos S\u00e9culos (1925).<br \/>\nEsse fasc\u00ednio a levou a reunir um tesouro com pe\u00e7as de diferentes lugares, a ponto de ter um verdadeiro &#8220;museu hist\u00f3rico-arqueol\u00f3gico, por meio do qual era poss\u00edvel conhecer toda a hist\u00f3ria do Peru em suas diferentes \u00e9pocas&#8221;.<br \/>\nAl\u00e9m de antiguidades pr\u00e9-colombianas feitas de pedra, cer\u00e2mica e metais preciosos, havia desde um mosaico romano e objetos japoneses at\u00e9 p\u00e1ssaros empalhados e obras misteriosas. Afinal, seu objetivo n\u00e3o era &#8220;criar um museu arqueol\u00f3gico \u2014 mas, sim, um de curiosidades&#8221;, escreveu Garc\u00eda y Garc\u00eda.<br \/>\nO &#8220;pal\u00e1cio&#8221; da senhora Zentino era um ponto de encontro parecido com os sal\u00f5es que existiam na Europa do Iluminismo. Era onde a elite cusquenha e convidados estrangeiros proeminentes se reuniam para falar sobre ci\u00eancia, arte e literatura.<br \/>\nUm deles foi Squier, e foi numa dessas ocasi\u00f5es que colocou as m\u00e3os naquela joia inusitada que mudaria a hist\u00f3ria da cirurgia.<br \/>\n&#8220;De certa forma, a rel\u00edquia mais importante na cole\u00e7\u00e3o da sra. Zentino \u00e9 o osso frontal de uma caveira, do cemit\u00e9rio inca no Vale de Yucay&#8221;, escreveu o americano.<br \/>\nO cr\u00e2nio<br \/>\nO que chamou sua aten\u00e7\u00e3o na pe\u00e7a foi um buraco quadrado de 15x17mm. N\u00e3o era natural, pensou: a natureza n\u00e3o costuma trabalhar em \u00e2ngulos retos.<br \/>\nEle tamb\u00e9m achou ter visto sinais de crescimento de novos ossos, indicando que a pessoa n\u00e3o apenas estava viva durante a perfura\u00e7\u00e3o, como havia sobrevivido.<br \/>\nUm pensamento surpreendente lhe ocorreu: ser\u00e1 que poderia ser o resultado de uma cirurgia, uma abertura feita no cr\u00e2nio para fins curativos?<br \/>\nEle concluiu que n\u00e3o havia d\u00favida de que estava lidando com &#8220;um caso claro de trepana\u00e7\u00e3o&#8221;, uma t\u00e9cnica antiga de perfura\u00e7\u00e3o craniana.<br \/>\n&#8220;A senhora Zentino gentilmente me cedeu a pe\u00e7a para pesquisa. Ela foi analisada pelos melhores cirurgi\u00f5es dos Estados Unidos e da Europa, sendo considerada por todos como a evid\u00eancia mais not\u00e1vel do conhecimento de cirurgia por parte de povos nativos j\u00e1 descoberta neste continente. A trepana\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos processos cir\u00fargicos mais dif\u00edceis&#8221;, descreveu Squier em seu livro.<br \/>\nMas n\u00e3o foi t\u00e3o simples.<br \/>\nO relato do americano, publicado em 1877, omitiu um epis\u00f3dio que ocorreu logo ap\u00f3s seu retorno, em uma reuni\u00e3o da Academia de Medicina de Nova York. Ao ver o cr\u00e2nio, os presentes se recusaram a acreditar que algu\u00e9m havia sobrevivido a um procedimento de trepana\u00e7\u00e3o conduzido por um ind\u00edgena peruano.<br \/>\nA ideia de que os antigos incas pudessem realizar uma cirurgia t\u00e3o delicada sem anestesia ou ferramentas de metal parecia simplesmente absurda.<br \/>\nA taxa de sobreviv\u00eancia de trepana\u00e7\u00f5es realizadas pelos cirurgi\u00f5es mais habilidosos nos melhores hospitais da \u00e9poca na regi\u00e3o raramente chegava a 10%.<br \/>\nO que eles n\u00e3o levaram em conta \u00e9 que o percentual era semelhante ao observado em outros tipos de procedimento. A teoria microbiana, que revolucionou o tratamento e diagn\u00f3stico de doen\u00e7as, ainda n\u00e3o vigorava nessa \u00e9poca, e muitos pacientes acabavam morrendo de infec\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSquier n\u00e3o se deu por vencido. Decidiu levar o cr\u00e2nio para a Fran\u00e7a, para que fosse examinado pela maior autoridade europeia em cr\u00e2nio humano, Paul Broca, professor de patologia externa e cirurgia cl\u00ednica na Universidade de Paris e fundador da primeira sociedade antropol\u00f3gica.<br \/>\nBroca ficou mundialmente famoso em 1861, ao descobrir o primeiro ponto de linguagem conhecido no c\u00e9rebro humano, agora chamado de \u00e1rea de Broca, o primeiro caso de localiza\u00e7\u00e3o cerebral de uma fun\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica.<br \/>\nAo examinar o buraco quadrado, o cientista concluiu que ele havia sido feito de forma deliberada. Depois de analis\u00e1-lo ao microsc\u00f3pio, encontrou evid\u00eancias de crescimento \u00f3sseo ao redor da perfura\u00e7\u00e3o \u2014 o que indicava que o paciente havia sobrevivido \u00e0 opera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMesmo diante do prest\u00edgio de Broca, a Sociedade Antropol\u00f3gica de Paris se mostrou c\u00e9tica \u00e0s suas conclus\u00f5es.<br \/>\nMas alguns anos depois, sua interpreta\u00e7\u00e3o seria finalmente confirmada, com a descoberta na regi\u00e3o central da Fran\u00e7a de cr\u00e2nios com orif\u00edcios arredondados, cicatrizes nas bordas e discos \u00f3sseos do mesmo tamanho (talvez usados \u200b\u200bcomo amuletos) pertencentes ao Neol\u00edtico \u2014 o que confirmava que, j\u00e1 naquele per\u00edodo, se praticava a trepana\u00e7\u00e3o com sucesso.<br \/>\nOs cientistas n\u00e3o tiveram escolha a n\u00e3o ser considerar a possibilidade de que haviam subestimado civiliza\u00e7\u00f5es mais antigas a esse respeito at\u00e9 ent\u00e3o.<br \/>\nO cr\u00e2nio inca estimulou uma mudan\u00e7a de postura nos antrop\u00f3logos, que come\u00e7aram a vasculhar suas pr\u00f3prias cole\u00e7\u00f5es e examinar buracos que haviam sido interpretados no passado como resultado de ferimentos de guerra, acidentes ou ataques de animais. E encontraram mais cr\u00e2nios trepanados, alguns dos quais datados de 8.000 a.C.<br \/>\nHoje sabe-se que era uma pr\u00e1tica difundida e que diferentes culturas ao redor do mundo usavam uma variedade de ferramentas para cortar cr\u00e2nios: pedras afiadas, ossos de animais, ferros em brasa e at\u00e9 dentes de tubar\u00e3o.<br \/>\nNo caso do Peru, os cemit\u00e9rios geralmente cont\u00eam um &#8220;tumi&#8221; \u2014 uma faca cerimonial de metal curva \u2014, que parece apropriado para realizar o procedimento.<br \/>\nEstudos indicam ainda que esses cirurgi\u00f5es da Antiguidade conseguiam inclusive prevenir infec\u00e7\u00f5es. Uma pesquisa feita em 66 cr\u00e2nios antigos trepanados mostrou que apenas tr\u00eas tinham sinais de infec\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO resultado \u00e9 semelhante ao de um relat\u00f3rio produzido em Londres na d\u00e9cada de 1870. Enquanto 75% dos pacientes neurocir\u00fargicos na cidade inglesa morriam, na Nova Guin\u00e9, onde os cirurgi\u00f5es ainda perfuravam cr\u00e2nios com m\u00e9todos tradicionais, a taxa de mortalidade era de 30%.<br \/>\nO que n\u00e3o se sabe ao certo \u00e9 por que culturas antigas praticavam a trepana\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o havia nada escrito sobre o procedimento.<br \/>\nBroca sempre argumentou que eles trepanavam os cr\u00e2nios para liberar o que acreditavam ser esp\u00edritos malignos que estavam presos dentro do c\u00e9rebro. Ele afirmava que essa associa\u00e7\u00e3o era comum, especialmente em casos envolvendo ataques epil\u00e9ticos ou alucina\u00e7\u00f5es.<br \/>\nFoi algo que de fato aconteceu na Europa, mas n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de que tenha ocorrido tamb\u00e9m em um passado mais distante.<br \/>\nSquier e outros arque\u00f3logos sempre questionaram as teorias que remetem ao sobrenatural.<br \/>\nEles argumentavam que os antigos neurocirurgi\u00f5es estavam fazendo exatamente o que pareciam estar fazendo: tratando ferimentos na cabe\u00e7a, principalmente de quedas e  resultantes de combates.<br \/>\nA pesquisa moderna aponta mais nessa dire\u00e7\u00e3o, sobretudo no caso dos incas.<br \/>\nCr\u00e2nios com perfura\u00e7\u00f5es foram encontrados mais em homens do que em mulheres, o que \u00e9 interpretado como resultado do fato de que havia mais guerreiros do sexo masculino do que feminino.<br \/>\nEsses orif\u00edcios geralmente ficam no lado esquerdo do cr\u00e2nio, onde um oponente destro atacaria com sua arma.<br \/>\nAs trepana\u00e7\u00f5es teriam sido uma forma de limpar as feridas e evitar que o sangue se acumulasse.<br \/>\nA supersti\u00e7\u00e3o pode ter desempenhado um papel nas primeiras trepana\u00e7\u00f5es. Mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que aqueles antigos neurocirurgi\u00f5es usassem o procedimento para salvar a vida das pessoas, como seus colegas ainda fazem hoje.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-63849364<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A descoberta da pe\u00e7a que mudou a forma como os antrop\u00f3logos enxergavam civiliza\u00e7\u00f5es antigas aconteceu quase por acaso \u2014 e tem rela\u00e7\u00e3o com a Guerra Civil americana. O cr\u00e2nio em ilustra\u00e7\u00e3o no livro de Squier \u2014 pe\u00e7a data entre 1400 e 1530 d.C. 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