{"id":25474,"date":"2022-12-11T13:11:22","date_gmt":"2022-12-11T13:11:22","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/11\/haiti-a-brutalidade-das-gangues-que-estupram-e-sequestram-no-pais-mais-pobre-das-americas\/"},"modified":"2022-12-11T13:11:22","modified_gmt":"2022-12-11T13:11:22","slug":"haiti-a-brutalidade-das-gangues-que-estupram-e-sequestram-no-pais-mais-pobre-das-americas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/11\/haiti-a-brutalidade-das-gangues-que-estupram-e-sequestram-no-pais-mais-pobre-das-americas\/","title":{"rendered":"Haiti: a brutalidade das gangues que estupram e sequestram no pa\u00eds mais pobre das Am\u00e9ricas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/lD6fV_o2gv4XG3S0GS_Z4hX4jbY=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/X\/T\/iZg1uKQCmVK5A12eJd2Q\/download.png\"><br \/>   Na capital Porto Pr\u00edncipe, fac\u00e7\u00f5es praticam sequestros e estupros, aterrorizando a popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds mais pobre das Am\u00e9ricas. Woman cries as people are displaced by gang violence, Port-au-Prince, 19 November, 2022<br \/>\nREUTERS\/BBC<br \/>\nNa capital do Haiti, Porto Pr\u00edncipe, se voc\u00ea n\u00e3o souber onde pisa, pode estar em s\u00e9rio risco. Gangues rivais est\u00e3o destruindo a cidade, sequestrando, estuprando e matando \u00e0 vontade. Os criminosos demarcam seu territ\u00f3rio com sangue. Atravesse uma zona controlada por uma gangue para outra e talvez voc\u00ea n\u00e3o consiga voltar com vida.<br \/>\nQuem mora aqui carrega um mapa mental, dividindo essa cidade fervilhante em zonas verdes, amarelas e vermelhas. Verde significa livre de gangues, amarelo pode ser seguro hoje e mortal amanh\u00e3, e vermelho \u00e9 uma \u00e1rea proibida. A \u00e1rea verde est\u00e1 diminuindo \u00e0 medida que fac\u00e7\u00f5es fortemente armadas aumentam seu controle sobre a capital haitiana.<br \/>\nGrupos armados controlam \u2014 e aterrorizam \u2014 pelo menos 60% da capital e seus arredores, segundo grupos de direitos humanos. Eles cercam a cidade, controlando as estradas de entrada e sa\u00edda. E a ONU diz que essas gangues mataram quase mil pessoas aqui entre janeiro e junho deste ano.<br \/>\nA cidade de Porto Pr\u00edncipe est\u00e1 aninhada entre colinas verdes e as \u00e1guas azuis do Caribe. \u00c9 tomada pelo calor e neglig\u00eancia. O lixo chega at\u00e9 os joelhos em alguns lugares \u2014 um s\u00edmbolo p\u00fatrido de um pa\u00eds em decomposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 chefe de estado (o \u00faltimo foi morto no cargo), nenhum parlamento em funcionamento (gangues controlam a \u00e1rea ao redor) e o primeiro-ministro apoiado pelos Estados Unidos, Ariel Henry, n\u00e3o foi eleito e \u00e9 profundamente impopular.<br \/>\nNa pr\u00e1tica, o estado n\u00e3o exerce qualquer poder, pois as crises se sucedem. Quase metade da popula\u00e7\u00e3o \u2014 4,7 milh\u00f5es de haitianos \u2014 enfrenta fome aguda. Na capital, cerca de 20 mil pessoas enfrentam condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0 fome, segundo a ONU. \u00c9 a primeira vez que isso acontece nas Am\u00e9ricas. A c\u00f3lera voltou a assombrar o pa\u00eds. Mas a maior praga s\u00e3o as gangues armadas.<br \/>\nA hora do rush pela manh\u00e3 \u2014 entre 6h e 9h \u2014 \u00e9 o hor\u00e1rio de pico dos sequestros. Muitos s\u00e3o arrancados das ruas a caminho do trabalho. Outros s\u00e3o afetados na hora do rush da noite \u2014 das 15h \u00e0s 18h.<br \/>\nCerca de 50 funcion\u00e1rios do nosso hotel no centro moram aqui porque \u00e9 muito perigoso para eles irem para casa. Poucos saem ap\u00f3s escurecer. O gerente diz que nunca sai do edif\u00edcio.<br \/>\nO sequestro \u00e9 uma ind\u00fastria em crescimento. Foram 1.107 casos notificados entre janeiro e outubro deste ano, segundo a ONU. Para algumas gangues, \u00e9 uma grande fonte de renda. Os resgates podem variar de US$ 200 (R$ 1.050) a US$ 1 milh\u00e3o (R$ 5,3 milh\u00f5es). A maioria das v\u00edtimas volta viva \u2014 se o resgate for pago \u2014 mas n\u00e3o sem sofrimento.<br \/>\n&#8220;Os homens s\u00e3o espancados e queimados com materiais como pl\u00e1stico derretido&#8221;, diz Gedeon Jean, do Centro de An\u00e1lise e Pesquisa em Direitos Humanos do Haiti. &#8220;Mulheres e meninas est\u00e3o sujeitas a estupros coletivos. Essa situa\u00e7\u00e3o estimula os parentes a encontrar dinheiro para pagar o resgate. \u00c0s vezes, os sequestradores ligam para os parentes para poderem ouvir o estupro sendo realizado pelo telefone&#8221;.<br \/>\nPoliciais fortemente armados s\u00e3o presen\u00e7a constante nas ruas do Haiti<br \/>\nBBC<br \/>\nManh\u00e3 em Delmas<br \/>\nAndamos de carro blindado. Normalmente reservado \u00e0s linhas de frente em zonas de guerra como a Ucr\u00e2nia, em Porto Pr\u00edncipe tamanha seguran\u00e7a \u00e9 vital para afastar os sequestradores. \u00c9 uma prote\u00e7\u00e3o que muitos aqui n\u00e3o podem pagar.<br \/>\nO Haiti \u00e9 o pa\u00eds mais pobre do hemisf\u00e9rio ocidental, propenso a desastres naturais e pol\u00edticos.<br \/>\nAo nos deslocarmos para uma entrevista em uma manh\u00e3 no fim de novembro, nos deparamos com uma cena de crime no sub\u00farbio de classe m\u00e9dia de Delmas 83. Cartuchos de bala espalhados pela cal\u00e7ada, brilhando \u00e0 luz do sol, e um homem jaz morto em um beco, com o rosto no ch\u00e3o em uma po\u00e7a de sangue.<br \/>\nCaminhonete cravejada de balas<br \/>\nBBC<br \/>\nAo lado dele, uma caminhonete 4&#215;4 cinza batida contra um muro, um de seus lados cravado de buracos de bala. Uma AK-47 encontra-se no ch\u00e3o. Policiais fortemente armados cercam a picape, alguns com rostos cobertos e armas em punho. Espectadores se aglomeram em volta. Ningu\u00e9m faz perguntas, mesmo que as tenha. Quando voc\u00ea vive na sombra das gangues, vale a pena ficar calado.<br \/>\nA pol\u00edcia nos disse que se envolveu em um tiroteio com um grupo de sequestradores, que sa\u00edram cedo na esperan\u00e7a de capturar a pr\u00f3xima v\u00edtima. O bando fugiu a p\u00e9, um deles deixando um rastro de sangue. O suposto sequestrador foi perseguido at\u00e9 o beco, onde foi morto.<br \/>\n&#8220;Houve um tiroteio entre um policial e os bandidos. Um deles morreu&#8221;, conta um policial veterano de 27 anos que n\u00e3o quis ser identificado.<br \/>\nEle diz que a situa\u00e7\u00e3o na capital nunca esteve pior. Perguntei se as gangues eram impar\u00e1veis. &#8220;N\u00f3s as paramos. Hoje&#8221;, responde.<br \/>\nDo outro lado da cidade, naquela mesma manh\u00e3, Fran\u00e7ois Sinclair, um empres\u00e1rio de 42 anos, ouviu uma rajada de tiros quando estava no tr\u00e2nsito. Presenciou homens armados assaltando os dois carros \u00e0 sua frente, ent\u00e3o pediu ao motorista que desse meia-volta. Mas ao tentarem fugir, foram avistados.<br \/>\n&#8220;Do nada, fui baleado dentro do meu pr\u00f3prio carro e havia sangue por toda parte&#8221;, ele nos conta, sentado em uma cadeira de rodas em um hospital gerido pela ONG M\u00e9dicos Sem Fronteiras (MSF).<br \/>\n&#8220;Poderia ter levado um tiro na cabe\u00e7a&#8221;, diz ele, &#8220;e havia outras pessoas no carro tamb\u00e9m&#8221;. H\u00e1 um curativo em seu bra\u00e7o, justamente onde foi atingido por um disparo.<br \/>\nPergunto se ele j\u00e1 pensou em sair do pa\u00eds para fugir da viol\u00eancia. &#8220;Dez mil vezes&#8221;, ele responde. &#8220;N\u00e3o consegui nem ligar para minha m\u00e3e para contar o que aconteceu [comigo] porque ela \u00e9 idosa. Do jeito que as coisas est\u00e3o aqui, \u00e9 melhor ir embora se puder.&#8221;<br \/>\nEssa \u00e9 uma frase que ouvimos a todo o momento, mas para a maioria dos haitianos, n\u00e3o h\u00e1 para onde ir.<br \/>\nAs enfermarias do hospital de MSF est\u00e3o cheias de v\u00edtimas de tiros, muitas delas atingidas por balas perdidas. Claudette, que perdeu parte da perna esquerda, me diz que nunca poder\u00e1 se casar agora que est\u00e1 incapacitada. Deitada por perto est\u00e1 Lelianne, de 15 anos, que est\u00e1 fazendo palavras-cruzadas para passar o tempo. Ela foi baleada no est\u00f4mago.<br \/>\n&#8220;Minha m\u00e3e e eu sa\u00edmos para comer alguma coisa&#8221;, diz ela. &#8220;Enquanto est\u00e1vamos fazendo o pedido, senti algo. Foi quando ca\u00ed e gritei de agonia. N\u00e3o esperava sobreviver. Costumo ouvir tiros mais longe da minha casa. Naquele dia eles chegaram mais perto.&#8221;<br \/>\nMesmo o \u00faltimo presidente em exerc\u00edcio do Haiti n\u00e3o estava seguro em sua pr\u00f3pria casa. Jovenel Mo\u00efse foi morto por pistoleiros em julho de 2021. A pol\u00edcia culpou mercen\u00e1rios colombianos, dos quais cerca de 20 foram presos. Mas, mais de um ano depois, ningu\u00e9m foi julgado aqui por puxar o gatilho ou ordenar o assassinato. Ativistas de direitos humanos dizem que quatro ju\u00edzes entraram e sa\u00edram do caso. Est\u00e1 agora nas m\u00e3os de um quinto.<br \/>\nA morte do presidente criou um v\u00e1cuo de poder que as gangues t\u00eam competido para preencher \u2014 com a ajuda de comparsas.<br \/>\nEspecialistas dizem que os grupos armados t\u00eam liga\u00e7\u00f5es com figuras pol\u00edticas corruptas \u2014 no poder e na oposi\u00e7\u00e3o. Eles abastecem as gangues com armas, finan\u00e7as ou prote\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Em troca, as gangues fazem seu trabalho sujo, gerando medo, apoio ou instabilidade, conforme necess\u00e1rio.<br \/>\nEmpres\u00e1rios ricos tamb\u00e9m t\u00eam liga\u00e7\u00f5es com as gangues.<br \/>\n&#8220;Sempre houve rela\u00e7\u00f5es entre pol\u00edticos e algumas gangues, localizadas principalmente em bairros pobres com grande n\u00famero de eleitores. Mas desde a elei\u00e7\u00e3o em 2011 essas rela\u00e7\u00f5es se institucionalizaram&#8221;, diz James Boyard, especialista em seguran\u00e7a e professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Estadual do Haiti. &#8220;Elas [as gangues] s\u00e3o contratadas para criar viol\u00eancia pol\u00edtica&#8221;.<br \/>\nAtivistas de direitos humanos dizem que existem cerca de 200 grupos armados em todo o pa\u00eds, mais da metade deles atuando na capital.<br \/>\nSe um membro de gangue for preso, um telefonema de seus apoiadores pode libert\u00e1-lo sem demora \u2014 e com suas armas. Ativistas de direitos humanos dizem que h\u00e1 muitos crimes, mas nenhuma puni\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o h\u00e1 Justi\u00e7a&#8221;, diz Marie Rosy Auguste Ducena, da Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos do Haiti (RNDDH).<br \/>\n&#8220;Os ju\u00edzes n\u00e3o querem trabalhar nesses casos. Eles s\u00e3o pagos pelas gangues. E alguns policiais s\u00e3o como um sistema de apoio para as gangues, dando-lhes carros blindados e g\u00e1s lacrimog\u00eaneo.&#8221;<br \/>\nOutros policiais s\u00e3o membros de gangues, diz o ativista de direitos humanos Gedeon Jean. &#8220;Sabemos que h\u00e1 pelo menos dois policiais em exerc\u00edcio ou ex-policiais em cada quadrilha. Sabemos que carros com placas de pol\u00edcia s\u00e3o usados para sequestros. Se a pol\u00edcia, como institui\u00e7\u00e3o, est\u00e1 envolvida, n\u00e3o sabemos.&#8221;<br \/>\nAlguns policiais atuais e antigos t\u00eam sua pr\u00f3pria gangue, chamada Baz Pilatos. Ativistas de direitos humanos dizem que ela controla parte da rua principal no centro de Porto Pr\u00edncipe.<br \/>\nO conluio da pol\u00edcia n\u00e3o \u00e9 um mist\u00e9rio. Os policiais ganham cerca de US$ 300 (R$ 1,6 mil) por m\u00eas, e alguns vivem em bairros controlados por gangues. Para eles, pode ser uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia, n\u00e3o de escolha.<br \/>\n&#8216;Concurso de brutalidade&#8217;<br \/>\nO que est\u00e1 acontecendo aqui \u2014 a cerca de duas horas de voo de Miami (EUA) \u2014 vai muito al\u00e9m da mera viol\u00eancia. \u00c9 como se as gangues de Porto Pr\u00edncipe estivessem envolvidas em um concurso de brutalidade, e qualquer pessoa nesta cidade de cerca de 1 milh\u00e3o de habitantes possa se tornar a pr\u00f3xima v\u00edtima.<br \/>\nUm homem magro na casa dos 30 anos \u2014 que n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o com gangues \u2014 vem nos contar o que ele e sua esposa sofreram alguns meses atr\u00e1s. Seu bairro \u00e9 controlado por uma fac\u00e7\u00f5es, e rivais come\u00e7aram uma matan\u00e7a. Para sua seguran\u00e7a, n\u00e3o vamos mencionar a \u00e1rea ou o grupo armado envolvido.<br \/>\nQuando ele come\u00e7a a falar, continua por 13 minutos sem parar \u2014 como se n\u00e3o pudesse conter suas palavras ou sua ang\u00fastia.<br \/>\n&#8220;Disse a mim mesmo que os tiros estavam muito perto de n\u00f3s e que dever\u00edamos tentar sair&#8221;, diz ele. &#8220;Mas eles j\u00e1 estavam invadindo a vizinhan\u00e7a. Voltei para dentro de casa com minha esposa. Estava com tanto medo que tremia. N\u00e3o sabia o que fazer. Eles matam principalmente homens jovens. Minha esposa me escondeu debaixo da cama e me cobriu com uma pilha de roupas. Meu sobrinho estava escondido no guarda-roupa.&#8221;<br \/>\nLogo os homens entraram na casa, batendo na esposa e exigindo informa\u00e7\u00f5es sobre os membros da gangue local. Quando o sobrinho tentou fugir, atiraram nele e o mataram. O marido permaneceu escondido e angustiado sem que nada pudesse fazer.<br \/>\n&#8220;Queria fugir. Queria gritar. O que mais me d\u00f3i \u00e9 que quando estava debaixo da cama, n\u00e3o podia ver, mas podia ouvir aqueles homens estuprando minha esposa. Eles a estavam estuprando, e estava debaixo da cama, e n\u00e3o conseguia dizer nada.&#8221;<br \/>\nDepois disso, sua casa foi incendiada e ele e sua esposa fugiram em dire\u00e7\u00f5es opostas. Eles ainda vivem separados, com amigos e parentes, mas esperam que possam voltar a morar com o filho pequeno.<br \/>\nO que aconteceu &#8220;\u00e9 uma cicatriz que atinge o corpo e a alma&#8221;, descreve o homem. Sua esposa agora est\u00e1 gr\u00e1vida, e eles n\u00e3o sabem se ele \u00e9 o pai ou se \u00e9 um dos agressores. De qualquer forma, nos diz que vai aceitar a crian\u00e7a e dar-lhe o seu nome.<br \/>\n&#8220;O que eu suportei n\u00e3o foi nada&#8221;, diz ele. &#8220;H\u00e1 uma senhora que teve apenas um filho. Eles cortaram a garganta dele na frente dela. O menino n\u00e3o tinha nenhuma liga\u00e7\u00e3o com gangues.&#8221;<br \/>\nMarido e mulher foram roubados de quase tudo, incluindo o amor pelo pa\u00eds. &#8220;O Haiti foi apagado de nossos cora\u00e7\u00f5es&#8221;, diz ele. &#8220;Qualquer chance que tivermos, iremos embora.&#8221;<br \/>\nAp\u00f3s dizer isso, ele desmorona, seu peito arfando enquanto chora.<br \/>\nOs testemunhos que reuni aqui est\u00e3o entre os piores que j\u00e1 ouvi em mais de 30 anos como correspondente estrangeira, fazendo reportagens de mais de 80 pa\u00edses. E parece que isso \u00e9 apenas uma pequena amostra da trag\u00e9dia que assola esse pa\u00eds.<br \/>\nPara as gangues de Porto Pr\u00edncipe, n\u00e3o h\u00e1 limites.<br \/>\nEm poucos dias, conheci tr\u00eas v\u00edtimas de estupro coletivo \u2014 a mais nova tinha apenas 16 anos. Ela e uma parente foram estupradas pelos mesmos agressores, que depois amea\u00e7aram queim\u00e1-las vivas dentro de casa. A outra mulher estava gr\u00e1vida de seis meses na \u00e9poca em que foi atacada. Enquanto era abusada, seu marido foi executado. Meses depois, ela segue buscando o corpo dele.<br \/>\nCada vez mais, o estupro \u00e9 usado como arma pelas gangues. Eles t\u00eam como alvo mulheres e meninas que vivem em \u00e1reas controladas por seus rivais. Durante uma guerra territorial em julho no bairro mais pobre do Haiti, o Cit\u00e9 Soleil, ativistas dizem que mais de 300 pessoas foram assassinadas \u2014 a maioria dos corpos foi carbonizada \u2014 e pelo menos 50 mulheres e meninas estupradas por gangues.<br \/>\nA ONG Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos do Haiti (RNDDH), que documentou os estupros em Cit\u00e9 Soleil, diz que muitas sobreviventes &#8220;se arrependem de estarem vivas&#8221;. Vinte delas foram estupradas na frente de seus filhos. Seis viram seus c\u00f4njuges serem mortos antes de serem estupradas por v\u00e1rios homens.<br \/>\nA maior parte de Cit\u00e9 Soleil \u00e9 controlada pela mais poderosa fac\u00e7\u00e3o de Porto Pr\u00edncipe \u2014 a G-9 e seus aliados. Fontes locais dizem que a gangue tinha la\u00e7os estreitos com o presidente assassinado e seu partido no poder. Sua especialidade \u00e9 a extors\u00e3o.<br \/>\nO G-9 bloqueou o principal terminal de combust\u00edveis da cidade em setembro, paralisando o pa\u00eds por quase dois meses e desencadeando uma crise humanit\u00e1ria.<br \/>\nSeu l\u00edder \u00e9 um ex-policial chamado Jimmy Cherizier, apelidado de &#8220;Churrasco&#8221;, que d\u00e1 ocasionalmente entrevistas a jornalistas. Solicitamos uma entrevista por intermedi\u00e1rios, mas n\u00e3o tivemos resposta. Ele pode querer falar menos hoje em dia porque foi recentemente submetido a san\u00e7\u00f5es pelo Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, acusado de amea\u00e7ar a paz e a estabilidade do Haiti.<br \/>\nOs Estados Unidos e o Canad\u00e1 recentemente sancionaram dois pol\u00edticos haitianos, incluindo o atual presidente do Senado, Joseph Lambert, por supostamente colaborar com as gangues.<br \/>\nFontes dizem que as san\u00e7\u00f5es est\u00e3o gerando algum impacto, porque os pol\u00edticos que usam as gangues agora querem se esconder.<br \/>\n&#8216;Criminosos tomaram pa\u00eds como ref\u00e9m&#8217;<br \/>\nQuando Jean Simson Desanclos chegou \u00e0 rua deserta na periferia de um sub\u00farbio repleto de fac\u00e7\u00f5es, ele n\u00e3o encontrou nada de sua fam\u00edlia exceto a carro\u00e7aria queimada da Suzuki preta da fam\u00edlia. Os restos mortais carbonizados de sua esposa e duas filhas j\u00e1 haviam sido levados para o necrot\u00e9rio.<br \/>\nJosette Fils Desanclos, de 56 anos, estava levando uma de suas filhas Sarhadjie, de 24, para a universidade, e a outra, Sherwood Sondje, fazia compras para seu anivers\u00e1rio. Estava prestes a completar 29 anos. As duas meninas estudaram Direito como o pai. Eram suas &#8220;princesas&#8221;.<br \/>\n&#8220;No dia 20 de agosto, perdi tudo&#8221;, diz ele. &#8220;E n\u00e3o foi s\u00f3 minha fam\u00edlia. Ao todo, oito pessoas foram mortas naquele dia. Um massacre.&#8221;<br \/>\nDesanclos acredita que sua esposa e filhas resistiram a uma tentativa de sequestro e foram baleadas por uma famosa fac\u00e7\u00e3o chamada 400 Mawazo, que estava expandindo seu territ\u00f3rio.<br \/>\n&#8220;Minha suspeita \u00e9 que foram eles&#8221;, diz. Os assassinatos aconteceram nos arredores de uma \u00e1rea chamada Croix des Bouquet, que j\u00e1 estava sob o controle da quadrilha.<br \/>\nDesanclos, de fala mansa e roupas elegantes, \u00e9 advogado e ativista de direitos humanos. Ele agora \u00e9 um homem desolado \u2014 ansiando pelas vozes que nunca mais ouvir\u00e1.<br \/>\n&#8220;Voc\u00ea est\u00e1 sempre esperando uma liga\u00e7\u00e3o de sua filha dizendo &#8216;papai isso&#8217; ou &#8216;papai aquilo&#8217;. Perdi o amor da minha vida e as duas filhas que criamos neste pa\u00eds dif\u00edcil. \u00c9 como se voc\u00ea fosse um multimilion\u00e1rio e de repente, voc\u00ea perde tudo.&#8221;<br \/>\nApesar do risco para si mesmo, ele busca justi\u00e7a para sua esposa e filhas.<br \/>\n&#8220;A fam\u00edlia \u00e9 uma coisa sagrada. N\u00e3o lutar por justi\u00e7a seria tra\u00ed-los&#8221;, diz ele. &#8220;Minhas filhas sabem que seu pai \u00e9 um lutador, que nunca abandona ningu\u00e9m, muito menos a pr\u00f3pria fam\u00edlia. O risco \u00e9 enorme, mas o que mais posso perder agora?&#8221;<br \/>\nEle quer que o mundo entenda uma coisa sobre o Haiti de hoje \u2014 que as gangues n\u00e3o t\u00eam limites.<br \/>\n&#8220;Criminosos tomaram um pa\u00eds como ref\u00e9m&#8221;, diz ele. &#8220;Eles fazem suas pr\u00f3prias leis. Eles matam. Eles estupram. Eles destroem. Gostaria que minhas filhas fossem o \u00faltimo sacrif\u00edcio, as \u00faltimas mulheres jovens mortas.&#8221;<br \/>\nEle fala com dignidade e convic\u00e7\u00e3o, mas sabe que seu desejo pode n\u00e3o ser atendido.<br \/>\nNo Haiti, s\u00e3o as gangues que det\u00eam o poder, e n\u00e3o o Estado. O primeiro-ministro Ariel Henry n\u00e3o consegue nem chegar ao seu escrit\u00f3rio porque grupos armados controlam a \u00e1rea. Fizemos v\u00e1rios pedidos de entrevista com ele, mas todos foram negados.<br \/>\n&#8216;Pedido de socorro&#8217;<br \/>\nO governo do Haiti \u2014 ou o que sobrou dele \u2014 emitiu &#8220;um pedido de socorro&#8221; para uma for\u00e7a internacional para ajudar a restaurar a ordem.<br \/>\nFala-se nas Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a necessidade de uma for\u00e7a armada n\u00e3o pertencente \u00e0 ONU, mas ningu\u00e9m parece ter pressa em lider\u00e1-la, ou mesmo em participar.<br \/>\nInterven\u00e7\u00f5es estrangeiras t\u00eam m\u00e1 fama e um hist\u00f3rico ruim aqui. A \u00faltima miss\u00e3o da ONU \u00e9 lembrada por alega\u00e7\u00f5es de abuso sexual e por trazer c\u00f3lera para o Haiti, por meio de for\u00e7as de paz da ONU do Nepal. A epidemia matou cerca de 10 mil pessoas.<br \/>\nExistem opini\u00f5es distintas aqui sobre a ideia de soldados estrangeiros atuando no pa\u00eds. H\u00e1 apoio de alguns empres\u00e1rios \u2014 que usaram grupos armados, mas agora querem que eles sejam controlados \u2014 e daqueles presos em \u00e1reas controladas por gangues. Por outro lado, h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o de l\u00edderes da sociedade civil que dizem que o Haiti precisa agir sozinho.<br \/>\nEnquanto a comunidade internacional debate o futuro do Haiti, massacres continuam acontecendo.<br \/>\nFontes locais dizem que grupos armados est\u00e3o expandindo brutalmente seu territ\u00f3rio porque n\u00e3o houve elei\u00e7\u00f5es. Quando os pol\u00edticos v\u00eam em busca de votos \u2014 em \u00e1reas controladas por gangues \u2014 t\u00eam que subornar os pistoleiros.<br \/>\nA \u00faltima onda de viol\u00eancia ocorreu na entrada norte de Porto Pr\u00edncipe em 30 de novembro. Segundo a imprensa local, testemunhas oculares dizem ter visto homens armados \u2014 de uma gangue em ascens\u00e3o \u2014 tentando se firmar e informaram a pol\u00edcia.<br \/>\nOs pistoleiros retaliaram \u00e0 noite, matando pelo menos 11 pessoas. Alguns dos corpos foram carbonizados.<br \/>\nOs limites aqui s\u00e3o mais uma vez redesenhados em sangue. Quem mora na cidade precisa atualizar o mapa mental, pois mais uma \u00e1rea est\u00e1 passando do verde para o vermelho.<br \/>\nColaboraram com esta reportagem Wietske Burema, G\u00f6ktay Koraltan e Andr\u00e9 Paultre<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na capital Porto Pr\u00edncipe, fac\u00e7\u00f5es praticam sequestros e estupros, aterrorizando a popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds mais pobre das Am\u00e9ricas. Woman cries as people are displaced by gang violence, Port-au-Prince, 19 November, 2022 REUTERS\/BBC Na capital do Haiti, Porto Pr\u00edncipe, se voc\u00ea n\u00e3o souber onde pisa, pode estar em s\u00e9rio risco. Gangues rivais est\u00e3o destruindo a cidade,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":25475,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":{"0":"post-25474","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25474"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25474\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25475"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}