{"id":24974,"date":"2022-12-09T10:12:42","date_gmt":"2022-12-09T10:12:42","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/09\/nao-sei-como-vou-comer-o-atraso-das-bolsas-que-deixa-pesquisadores-sem-dinheiro\/"},"modified":"2022-12-09T10:12:42","modified_gmt":"2022-12-09T10:12:42","slug":"nao-sei-como-vou-comer-o-atraso-das-bolsas-que-deixa-pesquisadores-sem-dinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/09\/nao-sei-como-vou-comer-o-atraso-das-bolsas-que-deixa-pesquisadores-sem-dinheiro\/","title":{"rendered":"&#8216;N\u00e3o sei como vou comer&#8217;: o atraso das bolsas que deixa pesquisadores sem dinheiro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/-fdsiApW_yKHUWqW6P8zvupixqE=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/N\/2\/P7AIlHThyb7KBXlV3tXg\/bbc-mec.jpg\"><br \/>   O atraso no pagamento das bolsas acontece em meio a um corte de R$ 1,7 bilh\u00e3o no or\u00e7amento do MEC para acomodar teto de gastos. Luane Tom\u00e9 de Paula de Campos \u00e9 pesquisadora e mestranda na UnB e est\u00e1 sem dinheiro para comprar comida e pagar o aluguel desde que a Capes atrasou sua bolsa.<br \/>\nArquivo pessoal via BBC<br \/>\n&#8220;Na minha despensa, tenho um pacote de macarr\u00e3o, milho de pipoca, a\u00e7\u00facar e caf\u00e9. Eu estava esperando a bolsa ser paga para comprar comida. Agora, n\u00e3o sei como vou comer nos pr\u00f3ximos dias&#8221;.<br \/>\nO relato acima \u00e9 da mestranda e pesquisadora em biologia molecular Luane Tom\u00e9 de Paula Campos, 25, da Universidade de Bras\u00edlia (UnB). Sua bolsa de R$ 1,5 mil deveria ter sido paga no in\u00edcio do m\u00eas, mas devido a cortes no or\u00e7amento do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), ela se tornou uma das mais de 200 mil bolsistas que est\u00e3o com seus pagamentos atrasados.<br \/>\nA bolsa de Luane \u00e9 paga pela Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes), um \u00f3rg\u00e3o vinculado ao MEC. Na ter\u00e7a-feira (6\/12), a Capes divulgou uma nota informando que n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de pagar os bolsistas porque a equipe econ\u00f4mica do governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) zerou os recursos dispon\u00edveis para desembolsos da pasta neste m\u00eas.<br \/>\nO atraso no pagamento das bolsas acontece em meio a um corte de R$ 1,7 bilh\u00e3o no or\u00e7amento do MEC feito pelo governo. O argumento para os bloqueios era a necessidade de adequar as despesas ao teto de gastos.<br \/>\nNesta semana, o governo liberou R$ 300 milh\u00f5es para a pasta, mas entidades que atuam na causa da educa\u00e7\u00e3o estimam que o MEC precisaria de pelo menos R$ 1,1 bilh\u00e3o s\u00f3 para o pagamento de despesas em aberto de universidades federais. Ap\u00f3s protestos de estudantes, o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Victor Godoy, anunciou nesta quinta-feira (8\/12) que o governo havia liberado mais R$ 460 milh\u00f5es para o MEC e prometeu que o pagamento das bolsas da Capes seria feito na semana que vem.<br \/>\nO atraso no pagamento das bolsas, por\u00e9m, pegou milhares de pesquisadores em todo o Brasil e no exterior de surpresa. Como, em geral, os bolsistas n\u00e3o podem ter outras fontes de renda fixa, muitos se viram em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade<br \/>\n&#8220;Eu sou a primeira mulher da minha fam\u00edlia a entrar em uma universidade federal. Desde a gradua\u00e7\u00e3o, sempre precisei de aux\u00edlio financeiro e me engajei em projetos para conseguir algum dinheiro. Eu moro sozinha e a bolsa \u00e9 minha \u00fanica fonte de renda. Tem dois dias que eu n\u00e3o consigo dormir direito&#8221;, conta Luane, que mora em um pequeno apartamento alugado em Planaltina, uma cidade-sat\u00e9lite no entorno de Bras\u00edlia.<br \/>\nA pesquisadora atua em um projeto que tenta descobrir novos processos qu\u00edmicos para o beneficiamento do jeans.<br \/>\nMaria Camila Acero Castillo \u00e9 colombiana e recebe uma bolsa de R$ 2,2 mil cujo valor est\u00e1 atrasado.<br \/>\nArquivo pessoal via BBC<br \/>\nOutra bolsista da Capes afetada pelo atraso \u00e9 a colombiana Maria Camila Acero Castillo, de 27 anos. Ela faz doutorado em biologia molecular, tamb\u00e9m na UnB. Por m\u00eas, ela recebe R$ 2,2 mil. Para dividir as despesas, ela se juntou a outras duas estudantes estrangeiras para alugar um apartamento em \u00c1guas Claras, uma regi\u00e3o administrativa de Bras\u00edlia.<br \/>\nEla conta que come\u00e7ou a semana aguardando o pagamento da bolsa para pagar sua parte no aluguel e nas demais contas da casa, mas o dinheiro simplesmente n\u00e3o chegou.<br \/>\n&#8220;A gente est\u00e1 com o aluguel, luz e outras contas atrasadas. N\u00f3s falamos com a dona do im\u00f3vel. Ela entendeu, mas \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito inst\u00e1vel. Estou no Brasil h\u00e1 tr\u00eas anos e esse \u00e9 o pior momento que vivi desde que cheguei&#8221;, lamenta Maria.<br \/>\nA cientista pesquisa um novo modelo de tratamento para a epilepsia em pacientes que apresentam resist\u00eancia biol\u00f3gica aos medicamentos j\u00e1 existentes.<br \/>\nSem comida e sem rem\u00e9dios<br \/>\nOs cortes or\u00e7ament\u00e1rios na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o afetaram apenas os estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Alunos da gradua\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade tamb\u00e9m est\u00e3o sofrendo com a suspens\u00e3o do pagamento de aux\u00edlios e benef\u00edcios considerados vitais para a manuten\u00e7\u00e3o deles dentro das universidades. Em alguns casos, esses benef\u00edcios garantem a pr\u00f3pria seguran\u00e7a alimentar de alguns estudantes.<br \/>\n\u00c9 o caso da estudante Esther Sales, aluna do curso de Biologia, na UnB. Mulher e negra, ela vive com a m\u00e3e em uma casa em S\u00e3o Sebasti\u00e3o, uma cidade-sat\u00e9lite na periferia de Bras\u00edlia.<br \/>\nCortes no or\u00e7amento do MEC suspenderam o pagamento de um aux\u00edlio que Esther Sales. &#8220;Fui a primeira mulher da fam\u00edlia a chegar \u00e0 universidade. N\u00e3o quero ser a \u00faltima&#8221;, disse.<br \/>\nArquivo pessoal via BBC<br \/>\nEla recebe R$ 465 por m\u00eas de um programa da UnB para auxiliar alunos em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade a permanecerem no Ensino Superior. Esther diz que sua m\u00e3e n\u00e3o pode trabalhar por problemas de sa\u00fade e que o dinheiro que recebe ajuda a complementar a renda da fam\u00edlia.<br \/>\nNeste m\u00eas, por\u00e9m, a universidade anunciou que n\u00e3o poderia manter o pagamento por conta dos cortes or\u00e7ament\u00e1rios impostos pelo governo federal.<br \/>\nEm uma nota oficial publicada na segunda-feira (5), a UnB disse que o \u00faltimo corte de R$ 17 milh\u00f5es no or\u00e7amento do \u00f3rg\u00e3o feito pelo governo federal impede o pagamento de aux\u00edlios, contratos e pode comprometer at\u00e9 mesmo o funcionamento do restaurante universit\u00e1rio. A UnB classificou a situa\u00e7\u00e3o como &#8220;insustent\u00e1vel&#8221;.<br \/>\nNo laborat\u00f3rio onde estuda, Esther diz estar desesperada.<br \/>\n&#8220;Sem esse dinheiro, eu n\u00e3o consigo comprar comida e nem meus rem\u00e9dios. Preciso tomar medicamentos controlados pois tenho TDAH (Transtorno do D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o e Hiperatividade). Sem esses rem\u00e9dios, eu n\u00e3o rendo nas aulas. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de desespero&#8221;, conta.<br \/>\nEsther diz que desde que seu benef\u00edcio foi cortado, ela reduziu a quantidade de alimentos que ingere todos os dias.<br \/>\n&#8220;Agora, eu s\u00f3 me alimento quando vou no restaurante universit\u00e1rio. Tomo caf\u00e9, almo\u00e7o e janto l\u00e1. N\u00e3o tenho mais condi\u00e7\u00f5es de tomar um lanche no meio das refei\u00e7\u00f5es. Meu maior medo \u00e9 fecharem o restaurante&#8221;, afirma.<br \/>\nAparentando tristeza com a situa\u00e7\u00e3o, Esther disse que vai tentar resistir at\u00e9 onde conseguir.<br \/>\n&#8220;Eu fui a primeira mulher da minha fam\u00edlia a chegar no ensino superior, mas n\u00e3o quero ser a \u00faltima&#8221;, disse.<br \/>\n&#8220;Anestesiado&#8221; e longe de casa<br \/>\nOs cortes nas bolsas n\u00e3o afetaram apenas estudantes que vivem no Brasil. Segundo a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-Graduados (ANPG), h\u00e1 relatos de pelo menos 100 estudantes brasileiros fazendo parte dos seus estudos fora do pa\u00eds e que tiveram suas bolsas suspensas.<br \/>\nO doutorando Anderson Keity Ueno, que estuda biologia qu\u00edmica na Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), est\u00e1 em Reims, na Fran\u00e7a, onde atua como pesquisadora e recebe uma bolsa da Capes no valor de 1,3 mil euros.<br \/>\nLonge de casa, da fam\u00edlia e com a bolsa atrasada, Anderson diz se sentir &#8220;anestesiado&#8221; e que j\u00e1 come\u00e7ou a pensar em alternativas para sobreviver ao atraso.<br \/>\n&#8220;Eu estou anestesiado porque me custa acreditar que essa situa\u00e7\u00e3o aconteceu [&#8230;] Se at\u00e9 o final da semana que vem n\u00e3o cair (o dinheiro na conta) cogito em pedir algum tipo de empr\u00e9stimo ou conversar com a gerente da resid\u00eancia sobre o uso do cau\u00e7\u00e3o.&#8221;, diz.<br \/>\nQuebra de contrato e vulnerabilidade<br \/>\nPara o presidente da ANPG, Vin\u00edcius Soares, o atraso nas bolsas da Capes \u00e9 uma &#8220;quebra de contrato&#8221;.<br \/>\n&#8220;O n\u00e3o pagamento \u00e9 uma quebra de contrato com esses estudantes. Para muitas fam\u00edlias, as bolsas s\u00e3o as \u00fanicas fontes de renda da fam\u00edlia. Esse atraso coloca milhares de fam\u00edlias inteiras em todo o Brasil e fora em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade&#8221;, afirma Soares.<br \/>\nNos \u00faltimos dias, a Capes se manifestou sobre os cortes por meio de uma nota.<br \/>\nSegundo ela, o atraso \u00e9 decorrente de um decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro da economia Paulo Guedes que impediu o pagamento das bolsas.<br \/>\n&#8220;A Capes foi surpreendida com a edi\u00e7\u00e3o do Decreto n\u00b0 11.269, de 30 de novembro de 2022, que zerou por completo a autoriza\u00e7\u00e3o para desembolsos financeiros durante o m\u00eas de dezembro [&#8230;]  o que a impedir\u00e1 de honrar os compromissos por ela assumidos, desde a manuten\u00e7\u00e3o administrativa da entidade at\u00e9 o pagamento das mais de 200 mil bolsas&#8221;, diz um trecho da nota.<br \/>\nTamb\u00e9m por meio de nota, a UnB se manifestou sobre os cortes em seu or\u00e7amento no in\u00edcio desta semana.<br \/>\n&#8220;A situa\u00e7\u00e3o financeira da UnB e das demais universidades federais j\u00e1 era dram\u00e1tica desde o in\u00edcio de 2022, piorou com o corte de 7,2% feito pelo governo federal no m\u00eas de junho (R$ 18 milh\u00f5es s\u00f3 na UnB) e, agora, torna-se insustent\u00e1vel&#8221;, disse o \u00f3rg\u00e3o.<br \/>\nA BBC News Brasil enviou questionamentos ao MEC que, at\u00e9 o momento, n\u00e3o enviou respostas.<br \/>\nProcurada, a UnB informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que as bolsas de assist\u00eancia estudantil como a recebida por Esther Sales foram pagas nesta quinta-feira. Ainda de acordo com a nota, os servi\u00e7os que foram prejudicados pelos cortes or\u00e7ament\u00e1rios foram o pagamento de bolsas, de servi\u00e7os terceirizados, \u00e1gua, luz e contratos do restaurante universit\u00e1rio.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-63912014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O atraso no pagamento das bolsas acontece em meio a um corte de R$ 1,7 bilh\u00e3o no or\u00e7amento do MEC para acomodar teto de gastos. 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