{"id":24159,"date":"2022-12-06T18:14:50","date_gmt":"2022-12-06T18:14:50","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/06\/a-historia-de-jina-mahsa-amini-o-rosto-dos-protestos-no-ira\/"},"modified":"2022-12-06T18:14:50","modified_gmt":"2022-12-06T18:14:50","slug":"a-historia-de-jina-mahsa-amini-o-rosto-dos-protestos-no-ira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/06\/a-historia-de-jina-mahsa-amini-o-rosto-dos-protestos-no-ira\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria de Jina Mahsa Amini, o rosto dos protestos no Ir\u00e3"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/YQAavVQ_pduB0936LG5OgHZdf0s=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/3\/y\/90g67lTKKpaTMiPNxcyg\/2022-09-18t145332z-2118874424-rc2qjw9wsr6v-rtrmadp-3-iran-women.jpg\"><br \/>   Jovem morreu ap\u00f3s ser detida pela pol\u00edcia da moralidade, o que deflagrou a maior onda de protestos no Ir\u00e3 em d\u00e9cadas. Com ajuda de familiares, a DW e a revista &#8220;Der Spiegel&#8221; reuniram detalhes sobre sua vida. Mahsa Amini em imagem sem data<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Via Reuters<br \/>\n&#8220;N\u00e3o t\u00ednhamos ideia de que chegaria o dia em que nossa m\u00e3e adormeceria \u00e0s l\u00e1grimas em sua cama, que nosso pai se sentaria no canto da sala escondendo o choro de n\u00f3s, e que eu n\u00e3o seria capaz de abrir o porta-luvas do meu carro por n\u00e3o querer ver seu len\u00e7o de cabe\u00e7a deixado l\u00e1&#8230; Meu \u00fanico desejo seria abra\u00e7\u00e1-la mais uma vez&#8221;, escreveu Ashkan Amini, irm\u00e3o de Jina Mahsa Amini, em 11 de outubro no Instagram.<br \/>\n\u00c9 uma ter\u00e7a-feira do final de outubro \u2013 39 dias ap\u00f3s sua morte \u2013 quando Diako Aili, seu primo, senta-se no sof\u00e1 de sua casa, em uma vila perto da cidade norueguesa de Bergen, e abre o \u00e1lbum de fotos para a reportagem. Ele aponta para uma das foto e diz: &#8220;Aqui. Esta \u00e9 ela. Jina.&#8221;<br \/>\nUma menina de cal\u00e7as floridas, com cabelos negros de fios grossos e brilhantes. Ele mostra uma segunda foto. Ela est\u00e1 agachada e descal\u00e7a no tapete da sala da casa de seus pais em Saghes, tem c\u00edlios longos e delicados e usa uma camiseta branca onde est\u00e1 escrito Flower com pedrinhas brilhantes. Ela olha por cima do ombro, diretamente para a c\u00e2mera.<br \/>\nIdentidade curda<br \/>\n&#8220;Mahsa, ningu\u00e9m jamais a chamou assim&#8221;, diz Diako Aili. Nem a fam\u00edlia, nem os amigos, nem ela mesma. Ela precisava ter um nome persa somente para o passaporte, pois nomes curdos muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o aceitos. Mas ela vivia em Saghes, uma cidade curda no oeste do Ir\u00e3, com 140 mil habitantes, n\u00e3o muito longe da fronteira com o Iraque.<br \/>\nEla falava curdo com a a fam\u00edlia, e todos a chamavam pelo seu verdadeiro nome: Jina. Que adorava cantar, dan\u00e7ar e viajar. Que foi presa pela pol\u00edcia da moralidade iraniana no dia 13 de setembro e levada a uma delegacia, onde desmaiou pouco tempo depois. Ela ficou em coma por dois dias e meio, com ferimentos na cabe\u00e7a e respirando por um tubo, antes de morrer.<br \/>\nSeus parentes no Ir\u00e3 consideram dif\u00edcil falar com jornalistas. Telefones s\u00e3o monitorados, e h\u00e1 relatos de que sua fam\u00edlia recebeu as primeiras amea\u00e7as logo ap\u00f3s a morte de Jina. Por isso, precebeu-se um grande senso de cautela nas entrevistas que a DW e a revista alem\u00e3 Der Spiegel fizeram.<br \/>\nSonhos e planos<br \/>\nEm meados de novembro, um cadeado prateado fecha a porta de uma loja em Saghes. Enquanto a vida segue normal nas outras butiques, com comerciantes vendendo bolsas, j\u00f3ias e telefones celulares, as luzes est\u00e3o apagadas na loja de Jina.<br \/>\nEla queria que o pai, Amjad Amini, um funcion\u00e1rio p\u00fablico da \u00e1rea de seguros aposentado, abrisse a loja para ela, conta ele ao telefone. Ela aguardava sua vaga na universidade e procurava um trabalho para preencher esse tempo de espera. Alguns meses antes de sua morte, em meados do ano, o pai realizou o sonho da filha. E ela batizou a loja de Best Boutique.<br \/>\nO pai ou o irm\u00e3o a levariam para a loja pela manh\u00e3 e a buscariam \u00e0 noite, dizem seus parentes na Noruega. Aos 22 anos, Jina vivia com os pais, em uma bela casa de dois andares em Shahrak Daneshgah, um bairro de classe m\u00e9dia de Saghes. Ela j\u00e1 tinha carteira de motorista h\u00e1 algum tempo e gostava de dirigir, mas, como mulher jovem e solteira, dirigir sozinha para o trabalho provavelmente n\u00e3o era uma op\u00e7\u00e3o para ela.<br \/>\nCautela e medo<br \/>\nMulheres curdas s\u00edrias protestam contra a morte da curda iraniana Mahsa Amini, detida pela pol\u00edcia da moralidade de Teer\u00e3<br \/>\nAP<br \/>\nAliya Aili, tia de Jina, viajou para Saghes em meados do ano. Ela conta que Jina havia dito v\u00e1rias vezes a ela que deveria se cobrir, e como o len\u00e7o deveria ficar sobre a cabe\u00e7a. &#8220;Eles s\u00e3o muito r\u00edgidos&#8221;, Jina teria dito. Sentia-se que havia medo da pol\u00edcia e dos guardi\u00f5es da moralidade.<br \/>\nAliya est\u00e1 perto de completar 50 anos de idade. Ela deixou o Ir\u00e3 no in\u00edcio dos anos 90, quando tinha apenas 18 anos. Seus filhos nasceram na Noruega. Ser\u00e1 que se a sua irm\u00e3, a m\u00e3e de Jina, tivesse ido com eles naquela \u00e9poca, Jina ainda estaria viva hoje?<br \/>\nO primo Diako e sua m\u00e3e dizem que \u00e0s vezes se sentiam culpados. Por conta de todas as liberdades que t\u00eam e consideram como garantidas. &#8220;Minha irm\u00e3 mais nova tem a mesma idade que Jina&#8221;, diz Diako. As duas nasceram com algumas semanas de diferen\u00e7a, uma em uma democracia ocidental, a outra em uma ditadura isl\u00e2mica. Ele diz: &#8220;Minha irm\u00e3 pode dizer o que quiser, vestir o que quiser, ser quem ela quiser.&#8221;<br \/>\nPara Jina, as regras eram diferentes: cabelo e pesco\u00e7o cobertos por um v\u00e9u, formas do corpo feminino escondidas por um manto, nenhuma pele \u00e0 mostra dos pulsos aos tornozelos.<br \/>\nUma garota saud\u00e1vel e tranquila<br \/>\nJina nasceu em 21 de setembro de 1999. E n\u00e3o houve um dia em que ela e o av\u00f4 n\u00e3o tenham se visto ou ao menos se falado, diz ele, Rahman Aili, que mora em Saghes. A DW conversou com o av\u00f4 de Jina por telefone.<br \/>\nQuando Jina ainda era crian\u00e7a, ele deu a ela um apelido: Schne. Que significa algo como vento suave. Ele a chamava assim mesmo quando ela j\u00e1 era adulta. Ela era uma garota tranquila, diz.<br \/>\nQuando ela estava na escola prim\u00e1ria, os m\u00e9dicos descobriram um tumor benigno no seu c\u00e9rebro, tratado com sucesso com uma cirurgia. Desde ent\u00e3o, diz seu av\u00f4, ela nunca mais teve um problema de sa\u00fade. Ele d\u00e1 \u00eanfase a isso, provavelmente tamb\u00e9m porque os m\u00e9dicos forenses iranianos mais tarde afirmaram que n\u00e3o foi a viol\u00eancia policial, mas essa cirurgia antiga que teria causado a morte de sua neta. Seus parentes afirmam que ela era saud\u00e1vel.<br \/>\nO dia da morte<br \/>\nA \u00faltima viagem de Jina deveria ser sobre o futuro da jovem. A fam\u00edlia viajou junta para a cidade de Urmia, no noroeste do Ir\u00e3, para matricul\u00e1-la na universidade. Ela havia sido aceita para estudar Biologia.<br \/>\nNa tarde de 13 de setembro, quando foi presa, os jovens tinham ido passear pela cidade: Jina, seu irm\u00e3o Ashkan e duas primas, conta o tio da jovem pelo telefone. Entre 18h e 18h30, eles desceram do trem na esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 Haghani. L\u00e1, Jina e suas primas foram detidas pela Gasht-e Erschad, a pol\u00edcia de moralidade, supostamente por usar um &#8220;traje n\u00e3o isl\u00e2mico&#8221;. Somente Jina foi levada por eles.<br \/>\nUma das duas primas contou mais tarde \u00e0 tia na Noruega o que havia acontecido: Jina tentou resistir \u00e0 pris\u00e3o, mas os oficiais da pol\u00edcia de moralidade a for\u00e7aram a entrar no ve\u00edculo. A prima disse que eles seguiram o ve\u00edculo at\u00e9 a delegacia. E que, cerca de duas horas ap\u00f3s a pris\u00e3o de Jina, algumas jovens sa\u00edram da delegacia gritando: &#8220;Eles a mataram!&#8221;<br \/>\nDepois disso, a ambul\u00e2ncia chegou e levou Jina ao Hospital Kasra. Seu av\u00f4 diz: &#8220;Estou convencido de que usaram viol\u00eancia contra ela.&#8221;<br \/>\nEm conversa com a DW, o pai de Jina disse esperar que os respons\u00e1veis recebam uma puni\u00e7\u00e3o justa.<br \/>\n&#8220;Hoje foi Mahsa e amanh\u00e3 ser\u00e1 outra pessoa&#8221;, afirmou seu tio.<br \/>\nA tia de Jina na Noruega diz que Jina lhe contou v\u00e1rias vezes que queria deixar o Ir\u00e3 ap\u00f3s a universidade. \u00c9 o sonho de muitos jovens iranianos. O sonho de Jina, no entanto, foi enterrado com ela. No seu epit\u00e1fio est\u00e1 escrito: &#8220;Querida Jina, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 morta. Seu nome ser\u00e1 um s\u00edmbolo.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jovem morreu ap\u00f3s ser detida pela pol\u00edcia da moralidade, o que deflagrou a maior onda de protestos no Ir\u00e3 em d\u00e9cadas. Com ajuda de familiares, a DW e a revista &#8220;Der Spiegel&#8221; reuniram detalhes sobre sua vida. 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